(Un)Lost
1 #00. Prólogo - A última dança de titãs
Região de Kalos, 14 de Dezembro de 2023.
A cortina de poeira e areia havia tornado impossível a visão, sendo impenetrável até mesmo pelos mais intensos raios dourados do sol, que se demonstrava extremamente radiante naquela manhã de sábado — os presentes no local, no entanto, não desfrutavam de toda a paz e luz que o astro trazia. Um misto de tensão e ansiedade percorria o ar, manifestando-se através do fraco odor de sangue e suor das criaturas que agora disputavam por uma chance, uma única oportunidade, um momento.
Um título.
Conforme a nuvem de poeira se dissipava, tornava-se possível identificar duas silhuetas, uma em cada extremidade da enorme arena. Em um dos cantos, uma espécie de dragão esverdeado reerguia-se, vibrando suas asas triangulares no mesmo ritmo de seu acelerado batimento cardíaco. Forçou seus olho azuis a se reabrirem por detrás do par de óculos vermelhos translúcidos, semelhantes às orbes de um inseto, lutando contra a dor que percorria suas veias. Cortes superficiais e hematomas manchavam suas escamas verde esmeralda, mas sua situação não era exatamente pior do que aquela em que se encontrava seu oponente.
Do outro lado do campo, um robusto corvo, beirando os dois metros de altura, agitava suas longas asas de interior vinho. Suas penas, de um tom azul marinho, cobriam algumas marcas de batalha, mas mostravam-se incapazes de esconder o sangue rubro vívido que por elas escorria. As patas negras, com longas garras prateadas, estavam trêmulas, quase sem conseguir aguentar o peso do corpo da ave. A penugem alva, que formava um colar ao redor de seu pescoço, tinha suas pontas molhadas pelo líquido vermelho. Seu longo bico de coloração amarela desbotada carregava cicatrizes de combates antigos. Eram como medalhas, troféus de suas vitórias; e ele estava pronto para conquistar mais uma.
Um corvejo agudo do monstro de bolso foi o suficiente para arrancar gritos agitados da plateia, sedenta pelo fim da luta pela qual por todo o ano haviam aguardado. Um rugido firme do réptil alado, em resposta, fez com que todos levantassem, gritando os nomes dos combatentes em uma torcida bagunçada.
— Parece que essa batalha de titãs está chegando ao fim! — anunciou o comentarista em seu microfone, de forma animada. — Talvez este seja o último golpe! Quem vocês acham que irá vencer? — perguntou, fazendo com que cada telespectador gritasse o nome de um dos treinadores.
— Eu não vou facilitar só porque somos amigos, Dakota. — afirmou o rapaz de cabelos negros como a noite, alto o suficiente para que fosse ouvido, enquanto ajeitava os óculos quadrados.
— É isso que eu espero de você! — respondeu a loira do outro lado do campo, cerrando os punhos, mas esboçando um sorriso. — Nós também não vamos aliviar, certo, Flyer?
O Flygon reuniu suas últimas energias para alçar voo, rugindo ferozmente ao concordar com sua treinadora.
— Vamos logo ao que interessa, então. — o garoto abaixou o tom de voz, apenas para elevá-lo novamente ao gritar um comando. — Dark Pulse!
— Signal Beam! — revidou a jovem.
Ambos os pokémons agitaram suas asas, subindo em seu último voo do dia. Aquele que caísse, levaria para casa a derrota. E nenhum dos dois estava disposto a entregar-se à fadiga.
Antes de iniciar a preparação de seus ataques, as duas criaturas se fitaram à distância. Não era a primeira vez que se enfrentavam, haviam crescido juntos e conheciam as qualidades e defeitos um do outro. Por isso, naquele momento, não se enxergavam apenas como rivais, mas também como amigos; sentimentos opostos, mas que não deveriam ser confundidos – afinal, alguém precisava vencer. Com um rápido aceno de cabeças, ambos se distanciaram.
Estufando o peito, o gigante corvo utilizou-se de suas últimas forças para concentrar em seu bico uma energia negra, rodeada por uma aura púrpura. O Flygon fez o mesmo, logo disparando um raio multicolorido, ao mesmo tempo em que o Honchkrow desferiu seu ataque.
Uma explosão de cores ocorreu ao choque de ambos os ataques, enquanto um tentava dissipar o outro para, enfim, atingir seu alvo. Contudo, os dois pokémons não mais possuíam tanta energia, estavam feridos e tinham seus corpos cobertos por suor. Por fim, um grito de guerra foi ouvido e, em milésimos de segundo, um dos raios foi capaz de consumir o outro por inteiro. Ao atingir seu alvo, o poderoso ataque arrancou um sofrido grunhido de dor deste enquanto caía, com a velocidade de um míssil desnorteado. Ao finalmente atingir o solo arenoso do campo de batalha, uma cratera fora criada e, novamente, gritos animados da plateia podiam ser ouvidos.
— Flyer! — desesperou-se a menina de cabelos loiros ao deparar-se com seu companheiro extremamente ferido, desmaiado no centro da grandiosa arena. Sem hesitar, correu ao seu encontro, ajoelhando-se ao lado do amigo e deixando que as bordas de seu curto vestido cor de sangue fossem danificadas pela lama.
Dentro de segundos, o árbitro oficial ergueu a bandeira vermelha que carregava, indicando a derrota de Flygon. Logo após, balançou outra flâmula, de um tom verde vibrante, em direção ao outro lado do campo, onde encontrava-se o vencedor.
— Parece que o vencedor foi definido! — exclamou animadamente o apresentador, endireitando a gravata borboleta que completava seu terno. Em seguida, estendeu seus braços em direção ao moreno. — Celebrem o mais novo campeão da Liga de Kalos, Caesar Magnus King!
Imediatamente, todos os presentes levantaram-se de seus assentos, comemorando a vitória do jovem, enquanto relembravam dos momentos da incrível luta à qual haviam acabado de assistir. Confetes e serpentinas feitas de materiais reluzentes foram lançadas ao ar, refletindo a luz do sol e iluminando, de forma bela e peculiar, toda a enorme arena de Kalos. Não demorou muito para que o robusto corvo negro descesse, em um rasante, apenas para desfrutar um pouco de toda a adoração que o público agora direcionava à ele – não gostava muito de multidões, mas adorava ter seu poder reconhecido. Com um roco corvejo, arrancou mais alguns aplausos e gritos da plateia, antes de, enfim, tocar o solo, pousando em frente ao seu treinador e desestabilizando-se, perdendo sua pose devido ao cansaço. Aquele havia sido um dos mais árduos combates de toda a sua vida.
— Você fez um ótimo trabalho, Malchior. — murmurou o garoto, estendendo uma de suas mãos para acariciar o bico ferido de seu companheiro. — Não esperava menos de você. — completou, retirando de seu bolso uma esfera metálica bicolor e apertando seu botão central, irradiando um feixe de luz vermelha que sugou para dentro o Honchkrow.
Ao tornar sua atenção para a agitada arena, Caesar notou que sua amiga também já havia retornado seu Flygon derrotado. Diferente do que ocorria em outras vitórias, onde o jovem mantinha-se egocêntrico e indiferente, uma pontada de tristeza preenchia seu peito; sabia o quão duro Dakota havia dado para chegar onde estava mas, infelizmente, apenas um dos dois poderia alcançar o título.
— Até que a madame demonstrou-se um oponente à altura. Não acreditei que fosse enfrentar um em toda a minha vida. — direcionou-se o rapaz à jovem, sério, até receber desta um tapa de leve no ombro. — Ai! — reclamou, abrindo um leve sorriso.
— Você também foi muito bem. — a garota reconheceu o elogio indireto do amigo; não sabia como suportava aquele ser egoísta e narcisista, mas algo sobre ele lhe trazia conforto e segurança.
***
O garoto também não sabia como a menina o aturava. Será que seu comportamento egocêntrico fora o culpado por fazê-la fugir?
Não, ela não havia fugido. Caesar tinha total certeza; ela não desapareceria. Sua amizade podia ser inexplicável, mas era forte e duradoura. Queria que, pela primeira vez em sua vida, estivesse errado; gostaria de acreditar que Dakota estava bem, que sua falta de comunicação era habitual, porém, sabia que não era. Algo ruim havia acontecido, por mais difícil que fosse crer em tal.
Mas ele não estava disposto a desistir. Ela não desistiria dele, certo? Fariam tudo um pelo outro; afinal, eram melhores amigos. No caso, Dakota era sua única amiga. E ela o havia abandonado.
Em um surto, o rapaz de cabelos negros abriu, com violência, a enorme janela de seu quarto, libertando um grito enfurecido que estava prendendo havia semanas. Tomado pela raiva, lançou os óculos ao chão, debruçando-se em sua bancada e fitando o horizonte – desfocado, devido a sua miopia. Era como se buscasse, em vão, nas estrelas que começavam a transparecer no véu arroxeado do céu de fim de tarde, alguma pista do paradeiro de Dakota, mesmo estando ciente de que nem mesmo Arceus iria ajudá-lo. O jovem rangeu os dentes e cerrou os punhos por um último momento, antes de murmurar aos céus:
— Encontrar-te-ei, Dakota Steele. Cruzarei os seis continentes se for preciso. — arfou, permitindo que sua mente clareasse.
Apenas espere por mim.
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