Umbra
9 Outros ares
Notas iniciais
Vagava pela cidade cautelosamente, apenas observando os mortais e suas patéticas vidas, sempre a mesma coisa, a hora era a certa, pais e mães iam para suas camas, crianças silenciadas pelo medo continuavam imóveis em seus lugares e poucos seres viventes eram encontrados na rua a essa hora, o que é uma maravilha. A noite estava sombria, a lua era a única que iluminava aquele lugar, algumas luzes tentavam cumprir seus trabalhos, mas como era de se esperar estavam quebradas ou queimadas.
O ar da noite preenchia meus pulmões, era uma sensação gélida, enquanto isso Ivy comia todos os bichinhos que tentavam entrar em nosso caminho, adorava ver a maneira que aquela cobra dava o bote, tão rápida e ágil. Por longas horas fiquei observando a cidade, a lua, a cobra e as coisas do outro plano, elas estavam agitadas, provavelmente culpa do Ícelo, ele sempre bagunçava tudo no outro lado e incomodava minhas horas de descanso. A lua já tinha ido dar lugar ao sol, enquanto isso a poucos metros, em um telhado, vi Ícelo e Coh discutindo "perfeita maneira de completar a noite" pensei tentando evitar os gritos, daquela maneira iriam acordar a todos naquela cidade.
–Será que as duas damas podem parar de discutir por apenas uma noite? — Ordenei
–Lily, o que fazes aqui? — Debochou Ícelo — é uma honra recebê-la em um telhado.
–Eu estava curtindo a noite, quando ouvi as duas damas aos berros — ironizei- agora me contem, que porra é essa?
–Estava apenas explicando para Ícelo que ele não pode aterrorizar criancinhas inocentes — queixou-se Coh
–É o meu trabalho — Ícelo resmungou
Naquele momento estava realmente muito irritada então levantei os dois com uma força descomunal.
–É o seguinte, os dois se comportem e parem de brigar — exigi — caso contrário, serei obrigada dar vocês de comida para Ivy
Os dois estremeceram de medo, eu me deleitava ao vê-los daquela maneira, não só eu gostava, mas os monstros do outro lado também adoravam. Soltei os dois quando consentiram, silenciosos. Quando dei as costas apenas desviei e segurei a mão de Ícelo que tentara me socar.
–Você não aprende, né? Nunca vai conseguir me derrotar, caso tenha esquecido, prevejo todos seus movimentos antes mesmo de tentá-los, é inútil tentar — alertei torcendo seu braço de tal modo, que nunca conseguiria sair — Se quisesse te matava agora — disse torcendo ainda mais.
Coh olhava para a cena e parecia gostar, mas ao mesmo tempo demonstrava medo.
–Me solte — resmungou meu amigo chifrudo — agora!
Eu o soltei, mas não posso negar que teria ido até o fim, mas aquela "luta" estava atrasando meus propósitos, então saí rumo ao horizonte, deixando Ícelo e Coh para trás.
Segui para a floresta onde tinha certeza que o encontraria, corri pelas árvores e visitei o chalé, mas nada do sétimo "pense lilith, pense", mas era inútil, estava cansada então decidi voltar para casa. Quando cheguei me sentei a beira do lago,apenas observando toda vida que o preenchia, aqui era meio solitário as vezes, nem todo mundo gosta de lugares escuros, não é minha culpa se não preciso que a luz me guie.
–Olá -era Coh, sua voz estava fraca — desculpe o Ícelo, ele não sabe medir o perigo em que se mete
–Então que aprenda — disse apenas fitando o horizonte- você sabe meus medos, não negue que também tem medo que ele se junte a ela
–Sei que ele é um inimigo em potencial por isso precisa pegar leve com o cara, você sabe como ele veio parar aqui.
Aquilo me encheu de raiva, minha história também é trágica, mas mesmo assim não fico reclamando.
–Como ousa me pedir pra ter pena dele? -Contestei- me levantado — por acaso você sabe como eu vim parar aqui?
Coh parecia estar ponderando minhas palavras, neste momento estava de costas para ele
–Sinto muito, não era minha intenção — gaguejou se levantando para me abraçar pelas costas
A sensação era boa, de certo modo reconfortante, por um segundo me senti viva novamente.
–Todos aqui temos histórias trágicas, não é nossa culpa- resmunguei
No momento, me senti sendo transportada para minha antiga vida
"Estava escrevendo, com Ivy ao meu lado, mamãe gritara por ajuda, fui até a casa e estava cheia de soldados de PaKal, eles seguraram mamãe e me arrastaram para a pirâmide de pedra, e lá em cima me amarraram na mesa de sacrifícios, Ivy também estava sob controles deles. A cidade inteira estava assistindo, PaKal estava logo atrás de mim com entusiasmo nos olhos, a cerimônia foi rápida, apenas algumas palavras sendo ditas aos deuses, quando acabou dois soldados seguraram meu rosto enquanto o profeta arrancava meu olho esquerdo, a dor era agonizante, sentia meu corpo ficar fraco, a última coisa que vi foi Ivy se debatendo enquanto faziam o mesmo a ela, tudo estava embaçado por causa da dor. Quando acordei estava em um lugar escuro e a minha frente tinha uma moça luminosa ela se dizia Faith, ela disse que poderia fazer com que tudo se acertasse se eu fosse com ela e foi assim que me tornei a guardiã da clarividência ..."
Quando me vi na realidade novamente, estava muito nervosa e ofegante, percebi que para Coh poucos segundos tinham se passado, então ele me virou e acariciou meu rosto, ele sabia tranquilizar as pessoas, era impressionante, deu um beijo em minha testa e me deitou em um montinho de folhas
–Durma um pouco, você merece — finalizou sumindo na escuridão.
Acordei com um estrondo, era Ícelo tentando quebrar minhas fortalezas
–Me deixe entrar — ele ordenava- É importante
Levantei e corri para as barreiras me mantendo longe e com uma tropa na minha frente, caso fosse outra brincadeirinha
–O que houve? — Falei em tom autoritário
–Eu exijo uma revanche, mas não aqui, em algum lugar que a vantagem seja a mesma para ambos
–Não vou lutar com você -retruquei
–Tá com medo? — Zombou
Mordi meu lábio inferior de irritação, não posso fazer isso, e se ele estiver tramando algo? Não posso arriscar.
–Por que continua buscando a derrota?- Debochei -Ainda não lutarei com você.
Ele era insistente e eu pavio curto, então, peguei um pequeno pedaço de carvalho e o atirei no céu fazendo com que uma barreira invisível fosse criada, um lugar onde eu não teria vantagem, muito menos ele.
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