Notas iniciais
Hey o/ Aqui é a pessoa que faz a narração do Ícelo, Carol, prazer. Espero que você aproveite a história e com ela pense em coisas que nunca pensou antes :3 (além de seguir os passos dos nossos personagens lindos *-*)

O ar estava pesado e úmido, a noite escura e densa. O medo que as crianças sentiam pelo escuro pairava no ar como uma neblina roxa. Incrível. Climas assim me dão nostalgia até a ponta dos dedos. O vento balançava as folhas das árvores, criando uma melodia contínua. Olhei para cima, fitando a lua cheia que me encarava no céu, enchendo meu pulmão de ar e logo o esvaziando com um largo suspiro. Os pais fechavam as casas e botavam os filhos para dormir, enquanto eles, tomados pelo medo da escuridão que vagava lá fora, abraçavam seus ursinhos e se escondiam embaixo das cobertas. Eu posso ver tudo isso, só de cima dessa árvore. Pulei para um dos telhados, fazendo um barulho forte ao aterrissar meus Coturnos pretos na telha. O grito desesperado de uma criançinha chamando pelos pais me deu cócegas nos ouvidos. “Mamãe! Tem algo no telhado!” é o que ela dizia. É, tem mesmo.

Fui pulando de telhado em telhado, procurando a casa em que o medo menos fluía. Ao encontrar examinei o local: casa de formato retangular, mas com algumas variações, pintada de bege. Lá só moravam dois adultos e um filho de 16 anos, quase 17. Pessoas dessa idade não são assustadas tão facilmente como as crianças, que só bastava dizer que havia um monstro em baixo da cama delas que elas já suavam frio. A noite, para muitas pessoas, é o período do dia na qual as trevas vagam com mais facilidade. E elas estão certas. O medo do escuro surge pelo fato de não podermos ver o que está a nossa frente, por não enxergarmos o que está fazendo aqueles barulhos estranhos na janela. Os humanos vivem em uma eterna escuridão, deixando de tentar enxergar aquilo que eles nunca veriam, se alimentando de uma ignorância cega. Eles deixam seus princípios os prenderem a uma realidade limitada, que não permite que eles vejam o que está além do visível: o imaginário. Humanos são realmente retardados.

Parei na janela de um dos quartos, o filho dormia atirado na cama. Passei cautelosamente pela cortina, caminhando até o garoto e tornando-me uma espécie de poeira negra, entrando pelos ouvidos dele.

O lugar parecia ser uma rua, havia uma fila de carros interminável, pois o tráfego estava sendo obstruído por um ônibus que em cima havia uma banda tocando. Chutei ser a banda do garoto por me lembrar de ver um violão perto de sua cama. Do lugar onde eu estava as coisas estavam meio apagadas e incompletas, isso por um simples motivo: os sonhos são todos estruturados ao redor de um ponto fixo da mente da pessoa, na qual os pensamentos se tornam mais nítidos. De onde eu estava a paisagem se tornava um pouco mais fraca e desfragmentada, já que eu me encontrava um tanto quanto longe do núcleo do sonho.

O ambiente era animado e tomado pela música, algumas buzinas interferiam o som, mas nada que comprometesse o ritmo. Todo aquele barulho me irritava. Não era nem música, era só um monte de notas juntas. Já com dor de cabeça estalei alguns dedos da mão esquerda e toquei o capô de um Corsa parado na rua. Ele começou a tornar-se negro e logo contagiou os outros carros. Todos os motoristas, com olhares repletos por fúria e ódio, saíram dos seus carros e começaram a protestar em frente à banda. O céu tornou-se vermelho, enquanto os prédios e placas de trânsito se contorciam feito cobras. Um por um os motoristas iam se tornando monstros, todos correndo para escalar o ônibus e pegar a banda. Os integrantes tentavam fugir, mas seus pés estavam colados no teto de metal. Com um sorriso satisfeito e uma sensação de trabalho cumprido saí do sonho do garoto e voltei para a rua deserta.

Assim passei a noite, até ser interrompido pelo sol que nascia no horizonte.

–Vá pra casa, Ícelo, já foi o bastante por hoje. –ele disse.

Com uma irritação profunda virei as costas e me coloquei a caminhar. A era em que o medo mostrará a cara ainda está por vir. Os pesadelos estão sempre te encarando durante a noite.