Uma vida feliz para Arlequina?

2 Capítulo 2 – O passado não é um bom lugar


Capítulo 2 – O passado não é um bom lugar

Harley acordou assustada e sentou-se na cama, respirando ofegantemente e analisando o quarto com os olhos arregalados. Seu coração estava disparado, ela tinha ficado realmente assustada. Tateou sua barriga, vendo que não havia sangue e que usava sua camisola e não seu uniforme. Seu taco de baseball estava encostado na parede em um canto do quarto. Fora só um sonho. Respirou fundo por alguns segundos até se acalmar um pouco e fitou a janela, vendo a chuva pesada que caía. Se levantou, caminhando até ela e observando a chuva por um instante antes de fechar quase toda a cortina, deixando apenas um espaço pra entrar luz no quarto. Verificou o relógio em cima da cômoda, eram três e meia da manhã. Esfregou os braços tentando se livrar do frio e deixou o quarto para beber um pouco de água. No caminho de volta verificou as duas hienas de estimação, que dormiam serenamente em suas camas fofinhas no chão. Sorriu e voltou ao quarto, fechando a porta devagar e vendo o Coringa se mexer na cama, ainda de olhos fechados.

— Harley... – ele murmurou.

— Está acordado?

— Aonde foi?

— Fui beber água pra tentar me acalmar.

— É madrugada, o que mais te preocupa além de dormir?

Ela voltou à cama e se encolheu debaixo dos lençóis, permitindo que o Coringa a abraçasse contra o peito tatuado. Um raro momento de paz.

— Foi só um sonho ruim.

— Quer falar disso?

— Depois, vamos voltar a dormir.

Harley fechou os olhos e sentiu uma onda de calor lhe percorrer por dentro quando a mão do príncipe palhaço afagou seus cabelos. Apesar dos gritos, dos maus tratos, das brigas, ele sabia fazê-la se sentir feliz às vezes, ainda que não tivesse consciência disso, especialmente nos momentos que se seguiam às noites em que costumavam se divertir sozinhos em seu quarto, e esse era um deles. Ela queria sim falar sobre o sonho, ainda estava assustada. Mas qual seria a reação dele? E por que havia sonhado aquilo? Aquele Coringa que ela vira em seus sonhos existiria ali dentro daquele homem na sua frente? Um toque breve no celular a fez se virar para o criado mudo, era uma mensagem de Hera, “Me liga quando acordar. Nada preocupante, fique tranquila. Boa madrugada.” Deixou o aparelho de lado e voltou a se abraçar ao seu Pudinzinho. Ele detestava ser chamado assim antes, mas nos últimos tempos estava começando a aceitar, vencido pelo cansaço.

— O que era?

— Só a Pam, quer que eu ligue de manhã. Deve ter descoberto alguma mistura incrível de ervas que faz alguma coisa magnífica e quer me contar o mais rápido possível. Pudinzinho...

— Que?

— Me beija.

— Vamos dormir, Harley...

— Só quero um beijo, nada mais.

Os olhos azuis se abriram e a encararam, curiosos. Mas tornaram a se fechar quando ele se inclinou por cima dela para beijá-la.

— Vamos dormir, amor – ele disse ao se afastar.

Se abraçaram novamente e logo ele adormeceu. Sentindo-se mais confortável agora, Harley também fechou os olhos e se deixou dormir.

******

— Cadê o Coringa?

— Saiu com alguns de seus homens, por que? – Harley dizia à Pam no telefone.

— Eu tive um sonho muito ruim essa madrugada, Harley. O pior da minha vida

— Eu também! Vi a mensagem que você me mandou na mesma hora.

— Harley, o que você sonhou?

A linha ficou em silêncio por um momento.

— Era noite e chovia muito forte. Estávamos assaltando e explodindo um banco, matando vários policiais e seguranças. Estava até divertido, ainda mais quando apareceu o Batsy. Mas um deles apareceu vivo dos escombros e atirou em mim quando eu tava atirando nos outros... Então Meu Pudinzinho matou o cara quando me ouviu gritar, me colocou no colo, falava desesperado pra irmos pedir sua ajuda, mas não ia dar tempo... Meu sangue começou a se misturar com a chuva e escorrer pelo chão, doía tanto que quando acordei pensei ter sentido a dor de verdade.

— E depois?!

— Eu disse um monte de coisas cruéis pro meu Pudinzinho, apesar de ter dito o quanto o amava no final das contas, e morri nos braços dele... Ele gritou desesperado. Não queria que eu fosse embora.

— Harley...?

— Então aquele morceguinho metido começou a passar um sermão e o senhor Coringa fugiu comigo nos braços, me colocou no carro e foi pra sua casa porque você estava com nossas hienas. Você levou um tempo pra entender que eu estava morta. A última coisa que me lembro é de você me abraçando e chorando muito.

— Harley, eu não sei o que isso significa, mas sonhei quase a mesma coisa. Mas em meus sonhos ele continuava frio e pouco se importava com você. Ficava triste apenas por alguns momentos, embora dissesse que ia te vingar.

— Você e meu Pudinzinho se detestam, Pam. É normal que sonhe com ele assim.

— Eu o detesto e você o ama muito mais do que ele jamais merecerá.

— Ruiva, você acha que vai acontecer alguma coisa?

— Não fique se preocupando com isso. Foram só sonhos. Somos quase irmãs, devemos ter telepatia e não sabíamos, por isso sonhamos coisas semelhantes. Mas sem brincadeira... – ela falou séria – Tenha cuidado, Harley, por favor! Venha pra cá se esse palhaço fizer algo com você.

— Tá bom...

Após mais alguns minutos de conversa Harley desligou o telefone e ficou fitando a porta fechada do quarto.

— O que você faria se eu morresse, Pudinzinho? – Perguntou para o quarto vazio – Será que ficaria triste?

Deixando seus pensamentos de lado, arrumou a cama e foi tomar banho, vestindo seu uniforme e prendendo o cabelo ao sair. Quando o Coringa voltasse sairiam para negociar armas e alguns outros serviços com alguns contrabandistas. Aproveitou o tempo lendo enquanto ele não chegava e horas mais tarde estavam deixando o esconderijo onde haviam feito negócios.

— Achei que você ia matar eles – ela riu.

— Eu quase fiz isso mesmo. Ninguém põe os olhos na “minha” propriedade. É isso que não gosto nesse seu uniforme. Você é o monstrinho do papai e de mais ninguém.

— Sou sim – ela riu.

Os dois entraram no carro e no caminho de volta até mesmo trocaram tiros com o Batsy e saíram rindo loucamente em alta velocidade.

— O que estava sonhando de madrugada, amor? – Ele perguntou de repente quando já estavam quase em casa – Estava assustada.

— Pudinzinho... O que você faria se eu morresse?

O Coringa não respondeu, e por um instante ela pensou que ele não tivesse prestado atenção ou que somente não queria responder e pronto, depois pareceu zangado, então freou o carro com violência quando finalmente chegaram em casa e a olhou. Harley o fitou assustada com a freada brusca e o olhar frio em seus olhos. Se preparou para levar um grito, mas o olhar dele suavizou enquanto ele parecia se conter para não reagir.

— Eu morri num assalto... Não dava tempo me salvar. Hera chorou tanto... Quando acordei até parecia que a dor do tiro era de verdade.

O Coringa observou atento quando ela sem sequer perceber levou as mãos ao estômago, onde devia ter sido baleada no sonho. Harley não quis falar sobre o que dissera a ele no sonho, embora muitas vezes quisesse jogar exatamente aquelas palavras em sua cara. O Coringa a olhou por vários segundos como se estivesse perdido em pensamentos.

— O passado não é um bom lugar. Eu já disse isso a você. Não fique pensando em algo que nem aconteceu.

Ela ficou em silêncio e aquelas palavras cortaram seu coração, mais uma vez. Seu rosto devia ter se contraído numa expressão de choro, pois a expressão do Coringa mudou totalmente e ele a puxou para um abraço.

— Shhh... – ele disse acariciando seu cabelo – Você não vai morrer. Foi só um sonho, Harley – ele falou e lhe deu um beijo – Vamos entrar.

E dizendo isso, saiu do carro.

— Não me respondeu nada... – ela falou para si mesma, também saindo do carro e o seguindo.