Uma vida diferente... Sonho ou pesadelo?
21 Com regras ou contra as regras?
Pov's Nick
Eu era um monstro. Não importa aonde eu fosse todos achavam isso. Em casa, na rua, no colégio, até aqui... Onde eu imaginava que seria enfim diferente. Primeiro aquele sonho, depois a morte do Toby e agora isso. Eu perdi o controle. Eu quase matei aquela garota. Meus deuses. Se a Hana não tivesse aparecido, eu não teria voltado a mim e no fim teria matado alguém.
"É. Talvez eles estejam certos. Talvez eu seja realmente um monstro". Essas eram as palavras que rondavam minha cabeça até chegar no meu chalé e me trancar lá dentro. Me deitei na cama e tentei dormir, mas era impossível. Imagens do que tinha acontecido rondavam a minha mente.
"Onde está o seu lobo demoníaco? Ele ficou com medo de você e fugiu?" Eu ainda podia ouvir as risadas após a acusação.
"Eu lhe avisei pra destruir tudo. Mas você não me ouviu. Se as coisas continuarem como estão você acha mesmo que as pessoas são capazes de mudar? Que não vão continuar sem ligar se te machucam ou não?"
Falou a voz dentro da minha mente.
–Não! Fique quieta! -pedi tampando os ouvidos.
"Ora... Está fugindo com medo da verdade outra vez menina?"
–Não, não, não! Cale a boca! Por favor, cale a boca! -gritei. A voz se silenciou. Escutei batidas na porta do chalé.
–Está aberta. -gritei. Não me importava quem era, o fato de ter alguém ali já era o suficiente pra me distrair. Isso, era disso que eu precisava. Distração.
–Ei, como você tá? -era uma voz conhecida e ele parecia realmente preocupado.
–Estou bem, Leo. -falei sem olhar pra ele.
–Claro. E o Gabe prefere a Hana. Vamos lá, pode confiar em mim. -ele falou. Sorri fraca. Ele tinha esse poder. Consegui me fazer sorrir em qualquer momento.
–Eu estou falando sério. Eu estou bem. -disse me forçando a continuar sorrindo. Ele não disse nada, apenas se aproximou. Sentou do meu lado e me abraçou.
–Calma. Eu estou aqui. Não vou te deixar. -sussurrou no meu ouvido enquanto mexia no meu cabelo.
"Ele está mentindo. Sabe como são as pessoas elas dizem isso e depois sempre te abandonam no final"
A voz falou na minha mente me assustando. E com o susto arregalo os olhos e empurro o Leo para longe. Ele me olhou surpreso, mas logo a surpresa foi substituída por outra coisa. Magoa? Tristeza? Não sei ao certo.
–Tudo bem. Já entendi. -ele falou em um tom triste olhando para o chão. Senti meu peito apertar.
–Leo... Eu sinto muito. Eu... -eu comecei a tentar explicar as coisas, que ele tinha entendido errado mas ele me interrompeu.
–Olha não precisa explicar. Eu já entendi que você não me quer por perto. Você não confia em mim. Eu não sou o Gabe. -falou deixando uma única lágrima cair. Arregalei os olhos. Meu peito doía cada vez mais. Eu não aguentava vê-lo daquele jeito.
–Não! Não é nada disso! Você entendeu errado! -me apressei a dizer. Ele me encarou. Eu sustentei seu olhar.
–Me explica então. Por favor. -falou quase implorando. E naquele momento eu consegui entender seus olhos. Estavam cobertos de mágoa e desespero.
–Nunca teve nada entre eu e o Gabe. Éramos melhores amigos. -eu falei.
–Vocês se beijaram na frente de todos nós. Você admitiu que amava ele. Não me diga que nunca houve nada entre vocês. Eu não sou tão idiota quanto pareço. -ele falou desviando o olhar.
–Mas é a verdade. Éramos amigos e nunca passamos disso. -falei- Mas isso não quer dizer que não sentíamos nada um pelo outro. E tecnicamente foi ele que me beijou.
–Você correspondeu. Quando... Quando eu te beijei você me afastou. -ele sussurrou a última parte, mas eu consegui ouvir.
–Eu não sei porque eu fiz aquilo! Eu estava com um monte de pensamentos nostálgicos. E eu afastei ele depois. -retruquei- Eu te afastei pois estava surpresa e porque não sentia nada por você. -Ele gelou e eu também.
–Ok. Agora eu entendi. -ele falou voltando a me olhar nos olhos. Então ele virou de costas e foi em direção a porta.
–Arg! Porque eu só faço besteira?! Porque tudo o que eu faço é sempre ferir os outros?! Que tipo de monstro eu sou?! -gritei frustada pouco depois que ele saiu. Eu pensei que ele já tinha ido embora. Vi algo entrar rápido pela porta e me senti novamente envolta em seus braços.
–Nunca mais repita isso. Você não é um monstro. Você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Não importa o que os outros digam. -ele falou me apertando ainda mais contra seu peito.
–Leo... Você não entende... Eu realmente sou um monstro... As pessoas daqui não são as únicas a achar isso... -falo nervosa.
–Quem é a pessoa mais importante para você? -ele perguntou.
–Hã? Porque isso do nada? -falo confusa.
–Apenas responda. -ele pediu sério.
–A Hana. -eu falei convicta.
–Ela te acha um monstro? -ele perguntou.
–Bem acho que ela as vezes também se acha um. -eu falei.
–Nunca. -Hana falou aparecendo na porta. -Ah, desculpa atrapalhar o momento de vocês.
–Você não está atrapalhando... -eu comecei a falar mas fui interrompida.
–Hana convença ela que ela não é um monstro. -Leo falou. E eu revirei os olhos e me afastei dele.
–Estou tentando a 9 anos. -ela falou rindo.
–Ela pensa que é um monstro a tanto tempo? Porque? -pergunta Leo preocupado.
–Não interessa. -ela respondeu fria. -Desculpa. -ela falou ficando corada ao perceber a forma como havia falado.
–Eu falei que as pessoas daqui não eram as únicas que me achavam isso... -eu falei baixinho.
–Nick... Você fala como se fosse a única. Aprenda a lidar com isso. -Leo falou em tom de consolo.
–"Aprenda a lidar com isso"?! O que você sabe sobre a minha vida?! -falei irritada.
–Calma. Nick. Ele está querendo dizer que você não deveria se importar com a opinião dos outros. Só de quem é importante e se importa com você. -Hana falou me acalmando.
–E o que você faria se até sua própria família achasse isso?! -gritei antes que pudesse pensar no que falar. Quando percebi o que falei eu cobri minha boca com minha mão.
–Que? Própria família? Nick o que você quer dizer com isso? -ele perguntou. Eu me encolhi, as lembranças do sonho voltaram a minha mente.
–Leo. Deixa ela. Ela precisa de espaço. -Hana falou e o empurrou para fora do chalé. Ouvi a porta ser trancada. Senti a cama se mexer. Hana me abraçou.
–Eu to aqui. Pode ficar tranquila. Eu não vou sair daqui. -ela falou deitando minha cabeça em seu colo e fazendo carinho no meu cabelo.
–Ei, Hana? Porque todos sempre me acham um monstro? -falo com a voz baixa.
–Uma das garotas pediu desculpas depois que você saiu. -ela falou tentando me animar.
–Mas que diferença faz menos uma pessoa? -falei pra baixo. Não estava tenho um bom dia. Definitivamente.
–Uma pessoa pode mudar o mundo. -ela falou.
–Não. Não o meu mundo. -falo. Eu nunca contei pra Hana sobre aquela lembrança. Como eu disse a tinha bloqueado. Ela sabia que eu tinha problemas em casa mas não a isso.
–Nick. Vai lavar o rosto e vamos dar uma volta pelo acampamento. -ela falou sorrindo pra mim. Me levantei e fui pro banheiro. Lavei o rosto, me olhei no espelho, respirei fundo e saí do banheiro.
–Pronto. Mas porque nós vamos dar uma volta no acampamento? -perguntei. Não estava com animo pra dar uma volta no acampamento.
–Pra respirar ar puro. Vamos dar uma volta. Ajuda a refrescar a mente. -ela respondeu animada me puxando para fora do chalé.
–Ok... -concordei desanimada. Por mim eu ficaria trancada no chalé pelo resto da semana.
Andamos até a floresta, chegamos em uma clareira que eu conhecia. Não pudemos ter muito tempo de paz pois logo ouvi barulhos de passos, ou melhor dizendo, barulhos de trote. Me virei e vi Quíron vindo em nossa direção. Ótimo agora danou-se.
–Meninas! Enfim encontrei vocês! Só faltava vocês. -diz Quíron logo que se aproximou da gente.
–Só falta a gente? Pra que? -eu e Hana perguntamos confusas. Pensei que fosse levar uma bronca pela briga de mais cedo.
–Vocês todos terão uma conversa séria comigo e com o Senhor D na Casa Grande. Ou vocês acham que sair pra uma missão sem nós avisar ou se meter em brigas, senhorita Argent, não teriam consequências? -o centauro respondeu. Engoli em seco. Droga.
–Sabíamos que haveriam consequências, mas temos uma descoberta importante. -Hana falou séria.
–Não esperem que mexam comigo e eu fiquei quieta. Elas pediram aquilo. -falei nervosa.
–E eu achando que os mais problemáticos com provocações eram os filhos de Ares. -admitiu Quíron surpreso.
–Acredite, filhas de Afrodite conseguem ser muito indesejáveis. -ela comentou.
–Ah. Sim. Vamos logo ou o próprio Dioniso virá atrás de nós. -chama Quiron e nos o seguimos até a Casa Grande.
Quando entramos vimos Leo, Nico parados na frente do Senhor D. Ele parecia irritado. Muito irritado. Estamos fudidos.
–Aqui estão as mais procuradas do Olimpo! -fala Dioniso -Seus amigos e eu estávamos esperando vocês.
–Pra que exatamente? -Hana perguntou fingindo inocência. Cruzei os braços na frente do corpo.
–Primeiro: Vocês saíram em missão sem informar. Segundo: Um de seus colegas, o "líder" da missão, não voltou. Terceiro: uma de vocês ao voltar se meteu numa briga. -ele enumerou os motivos. Eu havia me encolhido um pouco. Sentia que ia levar um sermão.
–Elas não fizeram nada. Fomos nós. -Leo falou tentando nos defender.
–Não precisa mentir por nós, Leo. Também estávamos envolvidas, também temos culpa. Provavelmente eu tenha mais culpa das coisas que o resto de vocês. -afirmei. Nisso reparei que Gabe também estava presente, é claro ele tinha testemunhado tudo.
–Não. Eu tenho tanta culpa quanto ela. Mas acho que esse não é o assunto mais importante. -Hana falou séria cruzando os braços e encarando o Senhor D.
–Em falar em culpa. Por acaso algum de vocês tem haver com o eclipse fora de época mais cedo? -falou o deus em um tom brincalhão mas todos sabíamos que ele estava sério. Eu enrijeci.
–Sinto muito... -sussurrei nervosa. Mexendo minhas mãos.
–Ela não teve a intenção. -Hana falou em minha defesa.
–A culpa foi do Kenzo e de Cronos. -Nico finalmente se pronunciou.
–Sim! Kenzo tentou matar a Nick mas o Toby a protegeu e morreu no lugar dela. -diz Leo completando o amigo. A lembrança, a dor da perda e da minha alma se partindo ao meio, voltaram e eu tive que me conter para não gritar. E me abaixei encolhida no chão segurando as mãos junto ao peito.
–Cronos e Kenzo? Como? E qual a importância do lobo? -falou Senhor D. Deixei as mãos caíres aos lados do meu corpo. Minha respiração estava ficando acelerada. Estava fixando irritada com isso. Ninguém entendia. Nunca ninguém entendia!
–Só por que o senhor não tem uma ligação especial com nada, não quer dizer que os outros não tenham. O lobo é muito importante. -Hana respondeu por mim em tom irritado. -Kenzo trabalha pra Zeus queria nos matar. Durante a "missão" Cronos se apoderou do corpo dele. -ela explicou.
–Eu estava me referindo a importância do lobo em relação a quantidade de problemas que vocês apresentaram. Como o retorno de Cronos, por exemplo. -falou Dioniso no tom brincalhão de sempre.
–Foi a morte dele que me fez criar o eclipse. -disse, sem qualquer emoção na voz. Ainda no chão e de cabeça baixa.
–O senhor já pode nos dar as punições. -Nico falou sério. Acho que ninguém queria ficar ali.
–Hana... Eu quero sair daqui... Não estou me sentindo bem... -sussurrei pra ela.
–Vocês ainda não nos contaram tudo. Tem que nos dizer todos os detalhes ou não saíram daqui até o fazê-lo. -diz o deus sério.
–Deixem ela sair. Ela não está se sentindo bem. -ela pediu.
–Mas preciso falar com ela também. Ela foi quem se meteu em briga! -o diretor do acampamento respondeu. Droga. Eu precisava sair dalí.
–Eu posso falar. Eu sei tudo o que aconteceu. -Hana falou. Olhei surpresa pra ela. Sabia que estava mentindo.
–Não me importo com a punição. Pode escolher qualquer uma. -falei indiferente, me levantando e seguindo até a porta. Quando eu estava quase saindo ela se fechou sozinha. -Não! -gritei automaticamente ao ver a porta se fechar. Minha mente voltou para aquele dia, quando eu tinha 5 anos e descobri sobre os verdadeiros sentimentos daqueles que me criavam. Soquei a porta e dei um grito de frustração.
–O que está acontecendo? -Quíron perguntou surpreso.
–Nick? O que houve? Está tudo bem? -ouvi Leo perguntar preocupado. Eu não respondi nenhuma das perguntas. Continuei parada de costas pra eles e encostada na porta.
–Nick. O que houve? -Hana perguntou desesperada.
–Vocês vão mesmo me prender aqui? -perguntei simplesmente sem demonstrar qualquer emoção.
–Não fomos nós que fizemos isso. -Senhor D. falou.
–Sério? Ah fala sério! Uma porta não se fecha sozinha assim do nada sem nenhuma intervenção! -exclamei sem paciência.
–Nick, eu realmente acho que não foram eles. -Nico falou. Olhei em volta. Senhor D. e Quíron realmente pareciam confusos.
–Quem foi então?! -perguntei de mal humor. Antes que qualquer um respondesse ouvimos um raio e a casa tremeu. Olhei em volta. A única saída eram as janelas.
–Todos saiam pelas janelas. -falei e corri até ela. Assim que passei esperei os outros. Primeiro o Quíron, depois o Senhor D., Gabe, Leo,...
–ZEUS! VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE SACANAGEM COMIGO! -gritei apontando pro céu que nem uma louca. Eu estava sem paciência alguma e de completo mal humor. Ou seja péssima combinação.
–Gente. Cadê o Nico e a Hana? -Leo perguntou. Só aí percebi que eles não tinham saído.
–Não... -murmurei. A casa tinha começado a pegar fogo devido ao raio. Tentei entrar lá dentro de novo mais alguém me segurou.
–Você não vai entrar aí. -era Leo. Tentei me soltar. Tentativa inútil.
–Eles estão lá dentro. Você vai ficar parado sem fazer nada? -falei irritada. Me puxei com mas força, consegui me soltar e cair no chão.
–Você vai morrer se entrar aí. -Gabe falou. Pela primeiro vez desde que chegamos no acampamento.
–Mas a Hana...! -tentei protestar. Caí no chão me segurando pra não chorar. Eu não podia perder a Hana. Isso não podia estar acontecendo.
–Não, não, não... -comecei a murmurar mais pra mim mesma do que para os outros. Porque era sempre assim? Ou as pessoas próximas de mim me odiavam e me preferiam morta ou se feriam e morriam? Reparei que os galhos das árvores próximas começaram a se mover se esticando até mim e criando meio que uma barreira entre mim e o mundo.
–O que...? -pergunta Quiron surpreso e confuso.
Ouvimos um grito de dor vindo de dentro da casa. Me desesperei. Os galhos voltaram para os seus lugares.
–Hana! -gritei e me impulsionei de novo em direção da construção em chamas.
–Nick! Não! -os dois meninos gritaram e me seguraram novamente. Cada um segurava um braço e eu lutava pra me soltar.
–Eu não posso deixar ela... Não posso... -gritei.
–Nick fica calma! O Nico pode se tele transportar pelas sombras tenho certeza que ele não vai deixar ela se machucar! -falou Leo apreensivo.
–Como você sabe? E se ele se esquecer dela? -perguntei desesperada.
–Ele esquecer dela?! Cara está na cara que ele está apaixonado por ela! Eu que só passei pouco tempo com vocês percebi! -exclamou Gabe.
–Mas... Mas... E se ele entrada em desespero e esquecer? Isso pode acontecer. -falei tentando achar argumentos.
–Nick. Ela vai ficar bem. -Leo falou segurando meu rosto e me olhando nos olhos.
–Porque essas coisas tem sempre que acontecer comigo? -falei. Com tudo isso acontecendo restava pouco do meu autocontrole. E devido a me conhecer a mais tempo Gabe entendeu melhor o que eu quis dizer.
–Nick. Entrar em desespero não ajuda. Temos que ficar calmos e esperar.
–Gabe falou. Assenti. Olhei para o Senhor D. e Quíron.
–Vocês não se importam? -perguntei um pouco mais calma.
–Claro! Todas as coisas importantes que eu consegui que não posso ter no Olimpo estão ali! -fala Dioniso.
–Vocês nem ligam pra eles. -gritei.
–Nick não é nada disso. Claro que ligamos. Não leve tão à sério o que o senhor D fala. -falou Quiron mas duvidei das palavras dele.- Sei que você está preocupada com sua amiga mas não precisa descontar sua raiva em todos.
–E o que você sabe?! Eu não tenho mais ninguém! Só a Hana. Se eu perder ela também... -nação consegui terminar a frase. Só o pensamento já me apavorava.
De repente ouvi o outro grito, dessa vez de fora da casa e de homem. Olhei em volta. Vi Nico carregando a Hana perto da sombra de uma das árvores. Eles estavam cobertos de cinzas. Ela estava desmaiada em seus braços. Fiquei atônita.
–Hana! -corri na direção dela, e novamente outro raio caiu, cara isso já está ficando repetitivo e chato não acha não Zeus? Bem do meu lado ainda! Passou de raspão, machucando o lado direito do meu corpo.
Nico para. Caiu de joelhos, sem deixar ela cair. Vi ele sentar na grama e deixá-la em seu colo. Ele a abraçava de forma protetora e eu podia ver as lágrimas caindo de seus olhos. Corri até ele.
–Céus! Ela está bem? O que aconteceu com ela? Ela não está morrendo né? Ela não morreu né?! -o bombardeio com muitas perguntas. Estava tão preocupada e nervosa que nem sentia dor nas queimaduras do raio.
–Eu... Eu não sei. Eu não sei o que aconteceu. Ela deve ter inalado muita fumaça. Acho que não consegue respirar. Meus deuses. Ela não pode morrer. -ele respondeu tão desesperado quanto eu.
–FAZ ALGUMA COISA ENTÃO! -gritei desesperada com os olhos já cheios de lágrimas e com as unhas encravadas nas palmas da minha mão.
Antes que eu disse qualquer outra coisa ele começou a fazer respiração boca-a-boca. Uma. Duas. Três vez. Não houve resultado. Ela está morta. Abaixei a cabeça. Então ouvi um barulho. Olhei pra cima. Ela tinha acabado de puxar bastante ar e estava com os olhos arregalados.
–Hana... Graças aos deuses! Você está viva! -falei aliviada sentindo algumas lágrimas de alívio escorrerem pelo meu rosto. Vi Nico a apertar em seus braços.
–Se você me der outro susto desses eu te mato. -ele falou entre lágrimas. Finalmente relaxei.
–Você me deixou desesperada. Sua destrambelhada. -falei a puxando de Nico e a abraçando.
–Ai! -exclamei assim que abracei ela. Meu corpo estava ardendo e doendo. Ah é mesmo... O raio me atingiu de raspão... Eu não achei que tivesse realmente me machucado.
–Nick. O que aconteceu com você? -ela perguntou preocupada. Ei. Quem quase morreu foi ela.
–Um raio me atingiu de raspão. Você não está muito melhor, está toda preta. -falei ainda da cara dela.
–Mas você está com algumas partes do braço e da perna em carne viva! -ela falou preocupada.
Muitas coisas tinham acontecido no mesmo dia. Era demais pra assimilar. Minha cabeça estava girando. Quíron veio em minha direção e me deu um copo com um líquido estranho. Era néctar.
–Beba. -ele pediu, ou melhor, mandou. Bebi. Logo tudo que restou foram pequenas cicatrizes.
–Bem melhor. -falei aliviada. -E agora está bem claro para todos o quanto Zeus me quer morta. -suspirei.
–Bem. Vamos esquecer isso por cinco minutos. Nick vamos pro chalé tomar banho. Você precisa relaxar e eu preciso voltar a minha cor natural. -Hana falou me puxando pelo pulso.
–Hana? Posso te pedir uma coisa? Tem haver com você também, Nico. -falei parando a dois passos de onde estava antes.
–Claro. O que foi? -ela perguntou meio confusa. Ele assentiu.
–Você pode passar a viver no chalé de Hades a partir de hoje? -pedi.
–O que? Por que? -ela falou parecendo magoada.
–Vai ser melhor assim. Já burlamos muitas regras. — falei sem encara-la.
–Mas... Todo mundo fala que eu também sou de Afrodite. Eu não tenho um chalé certo. -ela falou.
–Você pode escolher qual você quer. Mas o chalé de Ártemis não é o seu lugar e o de mais ninguém além dela própria, de mim é de suas caçadoras. -falei séria levantando meu olhar.
–Se você não me quer mais por perto é só falar. -ela falou fria. -E eu não quero ficar em nenhum dos dois chalés. -completou.
–Acredite é melhor assim. Você sabe como sou instável. E eu prefiro não arriscar te machucar. -falei seria. Ainda mais com esses novos poderes cujo não faço ideia da extensão.
–Eu vou arranjar algum lugar pra ficar, mas eu não vou pro chalé de Hades, nem pro de Afrodite. -ela falou fria.
–Hana! Porque você está complicando tudo?! -falei indignada com o que ela disse.
–Não estou complicando. Só que eu vou resolver o que fazer. Você pensou só em você quando resolveu. -ela respondeu.
–Talvez sim. Você sempre tem mais de uma opção e sempre dificulta tudo! -falei irritada.
–Não. Você que está irritada e confusa e está descontando em mim. -ela respondeu respirando fundo tentando se acalmar.
–Não é isso! Você não entende! -disparei. Tudo estava acontecendo de uma vez só comigo. O sonho, o Toby, os poderes, o susto, a voz em minha cabeça... Eu precisava ficar sozinha, eu DEVIA ficar só. Será que ela não entendia?
Ela olhou pra mim. Virou de costas e saiu correndo sem dizer nada. Arregalei os olhos. Eu tinha feito merda.
"Você realmente é um monstro. Fazer isso com sua melhor amiga e a única quem você pode realmente confiar? Que horror!"
Eu ouvi na minha mente. Não... Abaixei a cabeça tremendo de leve.
–HANA. -gritei. Não adiantava. Ela já estava longe. Observei ela até ela sumir de meu campo de visão.
–Por que você fez isso? -Nico perguntou confuso. Eu sabia que ele não estava irritado comigo, ele só estava preocupado com ela.
–Era preciso. -falei mas sem muita convicção. Senti o olhar de todos sobre mim. Não levantei a cabeça. Não queria ver ninguém.
–Você sabe que isso magoou ela! -Nico falou.
–É apenas temporariamente! -falei olhando o chão.
–Não foi o que pareceu. -Gabe falou.
–Vá atrás dela. -Nico pediu.
–Não posso... -neguei.
–Por que? Ela é sua melhor amiga. -ele perguntou.
–Exatamente por isso. Eu preciso que ela fique longe de mim por enquanto... -falei tentando passar confiança. Mas eu sabia que isso não seria fácil, por mais que eu tenha me convencido que era realmente o melhor.
–Então eu vou. -ele falou. Segurei seu braço.
–Não. Deixe ela sozinha por enquanto. -pedi. -Ela não vai gostar nada se algum de vocês fosse até ela agora.
–Quiron! Senhor D! Vocês vão ficar aí mesmo sem dizer nada sobre isso ou pelo resto das coisas que aconteceram?! -questiona Nico impaciente.
–O que você quer que façamos? -Quíron perguntou.
–Qualquer coisa. Vocês deviam ajudar. -Nico falou irritado.
–Fale que o que ela está fazendo é errado. Que ela não devia agir assim. -falou Leo. As opiniões deles estavam me tirando do sério.
–Ah é? Sempre o "monstro" está errado não é?! -falei irritada dando ênfase a palavra "monstro".
–Nick. Se você quer ser um monstro fala. Ninguém falou isso. Todos erramos e nem por isso nos chamamos de monstros. Você é a única que se chama assim, chega de drama. Você é divertida, bonita, inteligente e independente. Chega disso. -Leo falou se abaixando e segurando meu rosto entre suas mãos, me fazendo encarar seus olhos.
–A única? Sabe o porque de eu mesma acreditar que sou isso? -falei com a voz embargada.
–Esquece. Ignore. Qualquer um que diga isso não se importa com você, então você também não deve se importar com essa pessoa. Não sei se você reparou, mas você dá moral pras pessoas erradas. Quem fala isso de você está bem e a sua melhor amiga acabou de sair correndo daqui por que você pediu distância dela. -ele falou sério.
–Tem razão, minha própria família nunca se importou realmente comigo se o que você falou é verdade. Pois foram os meus avós, que me criaram que começaram a me chamar assim. -disse. Eu já estava a beira do choro. Eu só queria poder me livrar da dor e de todas essas lembranças dolorosas.
–Então pronto. Aceite isso. Muitas pessoas no acampamento foram abandonadas ou maltratadas pelas famílias, você não está sozinha. Também não estou dizendo que está errada. Só acho que você está descontando na pessoa errada. A Hana está do seu lado. Acho que você se esqueceu disso. -ele falou calmo, me abraçando.
–Eu só estou com medo de machucar ela. E essa era a única forma que eu sei afastar as pessoas. -eu murmurei.
–Não acho que você deva afastar ela. Acho que deveria conversar com ele. -ele sussurrou em resposta.
–Mas se ela ficar perto de mim ela vai se machucar! -disse desesperada- Você viu! Ela quase morreu hoje por minha causa!
–E sei que ela faria outra vez. Ela quer estar perto de você. Nick Zeus quer matar vocês duas. Mesmo longe de você ela está em perigo. -ele falou.
–Mas ele parece ter mais ódio e obsessão por mim do que por ela... -eu falava tentando evitar chorar.
–Nick. Para de arrumar desculpa. Vai atrás dela. -ele me levantou e me indicou o estábulo.
–Não... -neguei. Sabia que estava sendo teimosa, mas não sabia se podia mais confiar em mim mesma.
–Nick. Ela precisa de você. -ele falou firme me olhando bem fundos nos olhos.
–Se eu ficar perto de qualquer um de vocês vou machuca-los. Senão acabar matando-os. Eu sei disso. Eu sinto. Eu ouço.-sussurrei- Foi por isso que te afastei no chalé...
–Nick. A Hana também está sendo caçada. Você não é a principal nisso tudo. Cronos também quer ela. Ele a quer tanto quanto Zeus te quer. -Nico falou ficando irritado.
–Leo! Cronos falou a verdade sobre eu querer destruir tudo. Eu queria fazer isso. -eu falei culpada. Com a culpa que sentia desde que o próprio Cronos falou isso há horas atrás.
–Nick. Se você se afastar dela Zeus vai se concentrar em você e Cronos nela. Cada um tem sua preferência. Não adianta vocês se separarem. Isso só atrapalha. Aquilo não foi culpa sua. -Nico falou.
–Como não?! Eu criei um eclipse com meu ódio. Eu teria matado Cronos se Hana não tivesse intervindo.
–Exato. Você precisa dela. Ela é o seu chão quando tudo foge do seu controle. E ela precisa de você. É você que lembra ela que ela não pode viver pros outros. -ele explicou.
–... -estava quieta. Tinha medo de falar qualquer coisa. Pela primeira vez na vida tinha falado demais sobre eu mesma.
–Vá atrás dela antes que seja tarde. -senhor D. falou. Arregalei os olhos e o encarei. -Você errou. Não se afasta uma amiga assim.
–Mas ela não tem chalé. Ela não pode ficar no de Hades por que é uma filha de Afrodite e não pode ficar no de Afrodite por que é uma filha de Hades. Ela quebra a regra simplesmente por ficar em um chalé. Essa é uma coisa que você não sabiam. -ele explicou.
–Isso não é justo com ela... -comentei.
–Nunca pensamos que poderia existir alguém como ela. -ele falou.
–E como eu com certeza né? -disse sarcástica revirando os olhos.
–Existe Ártemis. Existe o chalé de Ártemis. Não existe chalé de dois deuses. Essa é a coisa com uma probabilidade quase nula de existir. Ártemis poderia fazer igual Atena. Ter um filho não a faz menos pura. -Quíron falou.
–Fale isso pra Zeus! Pois ele parece pronto pra me caçar por todos os continentes. -disse.
–Já falamos, mas ele é um pai super protetor. -senhor D. respondeu. Fiz uma careta.
–E porque descontar em mim? A culpa não é minha! Eu nunca pedi pra nascer ou pra continuar viva! -exclamei. Opa. Falei demais de novo.
–Não importa. Ele quer te matar por que pensa que você é o símbolo da impureza dela. Agora... acabou a discussão. Vá atrás dela. -ele falou.
–Mas... -eu tentei falar alguma coisa.
–Pare de tentar arranjar desculpas. -Nico falou me sacudindo pelos braços.
–Desculpe... -falei abaixando a cabeça.
–Nico, eu sei que você está preocupado com a Hana, mas tenha calma. -Leo pediu.
–Eu não sei se quero ir falar com a Hana agora... Na verdade não sei se quero falar com qualquer pessoa. -falei. Logo completando com a voz baixa. Falando mais pra mim mesma do que pra eles. -Preciso me recompor primeiro. Eu sou fraca demais...
–Ok. Só não deixe ser tarde demais. Mesmo que eu duvide que a Hana não vá perdoar. -Nico falou meio pra baixo.
–Eu sei! Por isso preciso dar um tempo! Se eu for lá agora provavelmente iremos discutir! É isso que você quer? -explodi.
–Não. Mas você sabe tão bem quanto eu que qualquer outra pessoa não ia aceitar as desculpas depois de um certo tempo. Agora, você é a única que talvez saiba por que ela é assim. -ele falou sério. Virou de costas e foi em direção a fogueira.
–Eu temo que se eu for agora, no estado que estou acabe piorando tudo... -admiti suspirando.
–Ele só está um pouco irritado. Você sabe que ele gosta dela. Daqui a pouco passa. Acho que é melhor você ir pro seu chalé agora. -Gabe falou. Vi Leo sair irritado. Que droga!
–É... Acho que tem razão... -falei desanimada.
–Você sempre foi ótima em se meter em confusões, Nick. E depois sempre se isolava de tudo e todos se sentindo culpada.-Gabe falou lembrando do passado. De quando éramos crianças e estudávamos juntos.
–Tem coisas que não mudam. -falei forçando um sorriso.
–É... Acho que tem razão... -falei desanimada.
–Você sempre foi ótima em se meter em confusões, Nick. E depois sempre se isolava de tudo e todos se sentindo culpada.-Gabe falou lembrando do passado. De quando éramos crianças e estudávamos juntos.
–Tem coisas que não mudam. -falei forçando um sorriso.
Me levantei e fui andando na direção do chalé. É tudo culpa minha! Fiquei repetindo na minha mente. De repente algo me chama a atenção. Duas garotas gritando. Espera eu conheço essa voz.
–Hana. -sussurrei. Corri na direção das vozes. Cheguei na fogueira onde todos os campistas estavam.
–Não foi culpa dela. -ouvi Hana gritar.
–O que não é culpa de quem? -perguntei rapidamente. Embora suspeite seriamente que estavam falando de mim.
–Você. A culpa da casa grande estar aos pedaços é toda sua. -a garota gritou.
–Não é. Você não sabe de nada. -Hana rebateu antes que eu dissesse qualquer coisa. Senti um puxão. Olhei pra trás. Era Leo.
–Não se meta Nick. Essa briga é dela. -ele sussurrou me prendendo. Olhei pra Hana. Ela assentiu. Dessa vez ela queria resolver sozinha.
–Leo você viu o que levou a isso? -perguntei curiosa.
–Bem, primeiro a garota chamou ela de aberração e ela fingiu não ouvir. Aí a garota começou a falar que ela estava usando o Nico, que ele não gostava de verdade dela e que ela não devia criar esperanças. Ela começou a ficar irritada, mas deixou pra lá. O que fez ela perder o controle foi quando ela falou que você era um monstro e que a culpa de a casa grande estar destruída é toda sua. -ele explicou.
–Mas de certa forma o que ela disse sobre mim é verdade... É minha culpa. -falei curvando a cabeça um pouco pro lado.
–Não é o que a Hana pensa. -ele sussurrou. Olhei para a briga. Eu sabia que a Hana não ia começar. Arregalei os olhos. A garota estava indo pra cima da Hana.
–Mas o raio só caiu na Casa Grande porque Zeus quer me destruir. Isso é fato. -falei seria observando como estava a briga.
Antes que ele pudesse responder a garota deu um tapa na Hana. Ela não revidou. Por que ela não revida.
–Qual o seu problema garota? -a menina gritou pra ela. Hana nem tirou o cabelo da frente do rosto. A garota estava ficando irritada com isso.
–Revida sua retardada. -a garota continuou gritando. Senti o chão tremer. Isso não ia acabar bem.
Olhei pro Leo nervosa. Queria muito ir até lá e proteger minha amiga. Esse era meu maior impulso, mas estava me contendo. Antes que ele pudesse responder a garota deu um tapa na Hana. Ela não revidou. Por que ela não revida.
–Qual o seu problema garota? -a menina gritou pra ela. Hana nem tirou o cabelo da frente do rosto. A garota estava ficando irritada com isso.
–Revida sua retardada. -a garota continuou gritando. Senti o chão tremer. Isso não ia acabar bem.
Olhei pro Leo nervosa. Queria muito ir até lá e proteger minha amiga. Esse era meu maior impulso, mas estava me contendo.
–Reage. -a garota gritava enquanto dava tapas no rosto da Hana. Então algo a parou.
Começou um terremoto, que fez que o lugar entre a garota e a Hana rachasse forçando-a se afastar um pouco. Hana estava com os punhos fechados e tremendo de leve. Ela estava causando isso? Por raiva? Ódio? Igual quando eu criei o eclipse?
–O que você está fazendo aberração? -a garota gritou apavorada.Hana não respondeu, apenas continuou de cabeça baixa e de punhos fechados.
–Ora você é burra? Ela está parada como poderia estar fazendo alguma coisa? E acho que além de burra é idiota, pois apenas poderia ser uma aberração quem fosse capaz de tratar sua irmã de sangue de tal forma. -gritei provocativa. Contendo um sorriso nos lábios.
–Ela não é minha irmã. Ela não é como nós e nunca será. -ela gritou num misto de ódio e medo.
O chão tremeu ainda mais e eu vi sangue sair das mãos da Hana. Ela tinha cravado as unhas nas palmas das mãos.
–Claro que nunca será como vocês. Ela é melhor do que isso, obviamente. -continuei provocando.
–Nick você quer acabar com a briga ou aumentá-la? -pergunta Leo baixinho pra mim.
–Estou em grande dúvida. Assim como estou me contendo pra não fazer parte dela. -falei dando um sorriso meio diabólico. Sentia minhas mãos pinicarem de ansiedade e o pingente em forma de lua se esquentar sob minha testa.
–Nick, não. Essa briga é minha. Eu não sou tão inútil a ponto de não conseguir me defender. -Hana falou.
–Não é isso. É que seria divertido apavorar ainda mais essa garota aí. -falei, explicando.
–Você teve sua chance mais cedo. -ela respondeu fria. Olhei espantada pra ela. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me controlar. Encarei Hana. Quase gritei de susto. Uma névoa negra envolvia seus pés e subia.
–Hana... O que é isso? Você está fazendo isso? -perguntei indicando a névoa negra. Estava preocupada. Hana não gostava do escuro, o que aconteceria se a névoa negra envolvesse todo o corpo dela?
–Não. O que está acontecendo? -ele perguntou assustada. Provavelmente pensando na mesma coisa que eu.
–Hana sai daí! -gritei. Mas pra onde quer que ela andasse, a névoa negra a seguia.
Então ela parou. Fechou os olhos e respirou fundo. A névoa a cobriu por inteiro.
–Hana! -gritei desesperada. Novamente, por causa dela. Tentei ir até ela mas o garoto ao meu lado me impediu. Ele estava preocupado com aquela névoa e com medo, eu acho.
Alguns segundos se passaram e a névoa começou a se dissipar. Respirei aliviada, mas então percebi o que tinha acontecido. Alguns segundos se passaram e a névoa começou a se dissipar. Respirei aliviada, mas então percebi o que tinha acontecido. Hana havia se "transformado" por assim dizer. Ela estava irreconhecível. E todos perceberam isso. Vi as garotas de Afrodite arregalarem os olhos e fecharem os punhos de raiva.
O cabelo dela estava meio solto meio preso num coque desleixado com várias presilhas de diamante negro, deixando seu rosto a mostra. E a roupa normal dela havia sido trocada por uma espécie de toga grega linda, preta com detalhes dourados, e pra acompanhar sandálias típicas da cultura, também douradas.
–O que é isso? O que aconteceu? -ela perguntou parecendo desesperada.
–Você recebeu a benção de Afrodite, e por isso a transformação. Como você também é filha de Hades deu esse resultado. -falou Piper. Que era apenas uma das várias pessoas que tinham reunido a volta de onde estava a "briga".
Cheguei mais perto. Ela estava com uma maquiagem pesada nos olhos e seu cabelo parecia mais comprido.
Ela tentou soltar o cabelo. Tentativa inútil.
–Parem de olhar pra mim. -ela gritou.
–Hana. Fique calma. Está tudo bem. -falei tentando acalma-la.
–Não. Estão todos me encarando. Quero tirar essa roupa, desfazer esse cabelo é qualquer outra coisa que esteja estranho em mim. -ela falou se virando e indo pra chalé.
–Deuses! As vezes gostaria que ela não se odiasse tanto... -sussurrei pra mim mesma.
Olhei em volta. Todos a seguiam com o olhar. Fui atrás dela. Cheguei no chalé. Ela parada de frente para o espelho. Paralisada. Merda!
–Hana você está linda. Acredite em mim. Sabe que eu jamais menti ou mentiria pra você. -falei me aproximando dela sorrindo levemente.
–Não estou. Por que isso não sai de mim? -ela perguntou tentando tirar a maquiagem.
–Hana lembra dos livros? Sobre mitologia grega e romana? -perguntei.
–Sim. O que tem eles? -ela perguntou prestando atenção em mim.
–Lembra da transformação da Piper? Foi descrita num dos livros. -relembrei.
–Mas a Piper tinha acabado de chegar. Estamos aqui já faz um tempo. -ela falou.
–Hana sabe que o jeito normal das coisas acontecerem não rola com a gente. -brinquei.
–Mas eu quero tirar isso. -ela falou irritada.
–Você devia saber que não sai. Mesmo se você lavar o rosto. Isso por um bom tempo. -falei.
–Que merda! -ela gritou. Eu sabia que ela estava odiando aquilo. Vi ela andar até sua mochila.ela pegou um casaco muito grande.
–Sabe Hana? Você pode não conseguir tirar a maquiagem mas pode trocar de roupa. -falei tentando lembra-la disso.
–Pelo visto não. -ela falou quando o casaco sumiu e reapareceu depois dela vesti-lo.
–Isso é muito doido. -comentei.
–E desnecessário. -ela falou emburrada.
–Mas essa roupa vai ter que sair alguma hora. -falei, meio incerta.
–Quando isso vai sair? -ela falou encarando o espelho novamente. -Essa não sou eu. -completou em tom de choro.
–Nem me pergunte. Eu não tenho todas as respostas. E sim essa é você. O reflexo do espelho não mente. -falei séria.
–Eu não sou assim. Eles me mudaram. Esse vestido é muito decotado, muito aberto e essa maquiagem é exagerada. -ela explicou. -Isso pode dar certo em pessoas bonitas, mas em mim não.
–Você É uma pessoa bonita Hana! -falei revirando os olhos.
–Vou ficar no chalé até isso acabar. -ela afirmou me ignorando.
–Você vai precisar sair alguma hora. Não podemos faltar a todas as atividades. -retruquei embora eu mesma estar com vontade de se isolar por mais de uma semana por depressão.
–Não quero que me vejam assim, é indecente, estou horrível e ficam me encarando. -ela falou fazendo um biquinho fofo. Ela tem que parar com isso se pretende fazer com que acreditem que ela não é filha de Afrodite.
–Está bem, está bem. -desisti temporariamente de convence-la. -Me desculpe por hoje mais cedo. Tenho certeza que ainda está com raiva.
–Nunca fico com raiva de você. -ela falou piscando. -Desculpa não ter tido paciência.
–Eu foi muito grossa. Sinto muito. Sabe que não consigo me conter muito bem e ser sempre uma boa menina. -falei suspirando.
–Ninguém é bom o tempo todo. -ela falou. Tinha algo errado no seu tom de voz. Olhei pra ela. Ela estava olhando fixamente para o seu reflexo. Reparei melhor. Uma fina e pequena lágrima sair de seus olhos.
–Hana... -eu disse enquanto a abraçava.
–Eu... Um dia eu vou mudar. Não é? -ela perguntou triste.
–Como você acha que vai mudar? -falei calmamente.
–Eu vou me tornar uma pessoa melhor por dentro. E parecida com esse reflexo por fora. Essa não sou eu e você sabe disso. -ela falou e mais uma lágrima caiu.
–E porque você faz isso parecer ruim? As nossas vidas mudaram completamente, não seria surpresa se nós acabássemos mudando também. Você acha que não é você pois não está acostumada com essa aparência, mas não é a forma de se arrumar que define a pessoa. -falei. Nossa falei bonito. Pelo jeito estava inspirada.
–Mas eu não sou bonita. Ser bonita é de forma natural, sem precisar de maquiagem, roupas chamativas e cabelo arrumado. As garotas de Afrodite acordam lindas sem fazer nada. Eu não sou natural. Precisou de um vestido decotado, um penteado elaborado e muita maquiagem pra me deixar menos feia. -ela desabafou. Acho que ela estava pior do que eu pensava.
Olhei pro chão. Ela não podia estar piorando. Tantos remédios. Ela não podia voltar pro que era antes.
–Hana, quando foi a última vez que você comeu algo e não colocou pra fora? -perguntei. Dependendo da resposta eu saberia.
–Umas duas semanas. -ela sussurrou. Me assustei.
–Duas semanas? Isso é impossível. -falei.
–Não é. -ela rebateu.
–Hana, você não pode continuar assim. -falei preocupada. -Isso faz mal pra você e você sabe muito bem isso! -completei.
–Foda-se. Eu quero ser bonita. Pelo menos por fora. Eu já desisti de mim por dentro a muito tempo, mas ninguém precisa saber disso. Por fora eu queria mudar, mudar totalmente. Ser alguém que eu não tenha vergonha. -ela falou fria.
–Mesmo se isso te fizer doente?! -perguntei elevando a voz.
–Eu só quero conseguir me olhar no espelho como uma pessoa normal. -ela gritou.
–Como assim? -Nico perguntou entrando. Temos que lembrar de sempre trancar a porta.
–Nada! -nós duas respondemos fria e rapidamente.
–Como nada? A Hana estava gritando. -Leo falou aparecendo.
–Pelos deuses! Vocês não sabem o que se chama privacidade não? -falei irritada.
–Bem, vocês saíram correndo sem dizer nada. E outra. O que aconteceu com você? -Nico perguntou olhando pra Hana dos pés a cabeça.
–Um guarda roupa criou vida e engoliu ela e quando ela saiu ela estava assim! -respondi sarcástica- Sabe? Que nem o guarda-roupa da Bela e a Fera??
–Não que você fosse feia antes, mas uau. Aquelas garotas nunca mais vão poder te chamar de feia agora que viram seu rosto. -Nico falou com um sorriso de lado.
–Nico, tenho impressão de que você não esteja ajudando. -comentei.
–Não quero que ninguém me veja. Saiam daqui. -Hana pediu.
–Porque? -Nico perguntou. Ele não conseguia parar de olhar pra ela, da cabeça aos pés.
–Para de me olhar assim -ela falou corando e olhando pro chão.
–Não consigo. -ele falou olhando pra ela se aproximando. Ela percebeu e correu para fora do chalé.
–Hana! -chamei mas ela não parou.
Fale com o autor