Uma vida de indecisão
2 Capítulo II. Tento flertar
O primo então me olhou e parece que ele gostou do que viu. Ah, tudo bem, devo admitir, eu estava mesmo bonitinha naquele vestido tomara-que-caia e sapatos pretos altos. Eu tinha feito uma maquiagem que destacava meus olhos verdes e meu cabelo preto (geralmente cacheado nas pontas) estava totalmente liso, graças a chapinha. Eu não estava tão mal.
Ele então ergueu os braços e diante da minha expressão ainda carrancuda falou.
–-Culpado! – Abaixou os braços e estendeu uma das mãos, cumprimentando.— Júlio César, o primo mais lindo do Bernardinho.
Cumprimentei-o.
–-Guilhermina, a garota que vai matar o seu primo.
Ele sorriu e deu de ombros, dando a entender que não se importaria se eu o fizesse.
Bernardo então deu um soco na barriga do primo, por provocação e eu percebi uma ligação forte entre eles, uma grande amizade.
Ber se virou pra mim.
–-Apresentações feitas então. Gui, ta chateada comigo? Já te falei como você ta gata hoje?
Eu ri e a expressão de Bernardo aliviou-se.
–-Estou sempre uma gata, babaca.
Ele ficou sério e me olhou de um jeito estranho.
–-Sei disso.—Ele falou.
Bernardo é estranho assim, ás vezes dá a entender que esta afim de mim e depois simplesmente faz piada ou disfarça. Há 3 anos, quando ele chegou na escola, eu era apaixonada por ele. Eu e todas as outras meninas da turma, que corriam atrás dele. Ele adorava essa fama. Então, chegou outro aluno novo, alguns meses depois, e as meninas desviaram a atenção para ele. Eu não. Nesse meio tempo havia percebido que Ber, além de lindo, era legal. Nos aproximamos e eu estava REALMENTE apaixonada por ele, e ele por outra garota da turma. Tão clichê. Passou o tempo, Bernardo até esqueceu a tal garota mas nunca me viu de um jeito diferente, não como eu queria, e eu acabei esquecendo dessa paixonite, sem nunca ter lhe falado como me sentia. Conheci outros garotos e ele virou meu melhor amigo. Fim.
Dei-lhe um tapinha na testa.
–-Hey, que tal a gente ir sentar agora? – Sugeri, para mudar de assunto, ele me deixava desconfortável quando falava isso.
–-Ta, sim. JC, quer vir com a gente? – Perguntou ele, olhando para o primo.
–-Claro, estou ansioso pra sentar e ser cuspido pela Titia.
Nós três então, nos encaminhamos de volta a nossa mesa. Tia Fátima estava sentada, exatamente como antes, reclamando sozinha.
–- Que demora absurda Bernardinho! Fiquei aqui sozinha e...Julinho!—Tia Fátima sorriu, exibindo restos de comida nos dentes. Eca.--Meu sobrinho preferido, que saudades!
Eu e Bernardo nos sentamos (ele fazendo careta, quando a tia falou do “sobrinho preferido”) e Júlio César foi abraçar a tia.
–-Estava com saudades também Tia, queria poder visitar mais os parentes, mas a faculdade ocupa muito meu tempo.—Ele então puxou uma cadeira e sentou-se do lado do primo e da tia.
Deve ter 18 ou 19 anos se já faz faculdade. Fiquei curiosa, querendo saber mais, qual era a faculdade, o que ele gosta, de que signo é e principalmente se ele tem namorada. Fiz a primeira das perguntas por que achei que a última não seria a melhor das escolhas.
–-Faculdade de...?
Tia Fátima pegou um croquete e enfiou na boca. Bernardo brincava com um palito de dentes . Júlio César me olhou com aquele olhos magníficos e respondeu.
–-Música.
Me derreti toda. Amo música. Rock, pop, clássica, rap. Meu pai é músico. A música sempre esteve presente em minha vida.
Ele viu minha reação e com um sorriso orgulhoso falou.
–-Você gosta ein?—A voz dele tinha um tom de flerte ou eu estava sonhando?
“Gosto mais de você, seu lindo.” Disse uma voz louca em minha cabeça. Eu estava ficando maluca.
–-Sim, muito.—Tentei flertar também, sem muito sucesso, imagino.
Acho que Bernardo percebeu o clima estranho, largou o palito de dentes e me encarou. Ele parecia estar se divertindo com a situação. Talvez eu só estivesse imaginando que meu melhor amigo estava afim de mim, pois não havia traços de ciúmes em suas feições.
Tia Fátima arrotou e todos a encaramos.
–-OPA, escapou. —A velha senhora deu uma risadinha e então levantou o traseiro gordo da cadeira.—Já esta na hora de ir para casa, alimentar meu gatinhos, comer alguma coisinha e tirar uma soneca. Até a festa do ano que vem sobrinhos, e adeusinho pra você meu xuxuzinho!
Acho que eu era o xuxuzinho. Dei-lhe um abraço de despedida. Afinal, Tia Fátima não era uma má pessoa.
Júlio deu-lhe um abraço também. Ber permaneceu sentado e só acenou para a tia. Ela foi embora reclamando de algo. Entendi “troquei as fraldas desse moleque e ele não me dá um mísero abraço” e somente isso, o resto de suas reclamações foram abafadas enquanto ela se afastava.
Júlio César riu e depois se virou para mim.
–-Que tal uma dança Guilhermina?
Era minha vez de rir.
–-Até parece, com essa música horrível e meus sapatos altos, seria um desastre.
Erguendo-se da cadeira, Júlio César puxa minha mão, delicadamente e então acho que recusar o convite seria rude. AH, quer saber? Eu queria mesmo dançar com aquele gatinho, que garota não iria querer? Então lancei um olhar para Bernardo que me encarou e nada disse, permaneceu sentado brincando com seu palito de dentes.
Eu segui para a pista, com minha mão ainda sobre a de Júlio César.
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