Uma vez Sonserina

7 Capítulo 7: Convite para o baile


A biblioteca estava silenciosa como sempre, mas Rose ouvia seu coração com o barulho de um tambor. Na página amarelada do livro, sua caligrafia olhava de volta para ela como um bilhete esquecido num passado que não era mais só lembrança, mas pista. Realidade ou projeção? Preciso testar antes do próximo ciclo lunar.


Ela passou os dedos pelas palavras, sentindo-se como uma detetive de si mesma. O livro era parte da seção de magia avançada sobre ilusão e manipulação de percepção — e, de acordo com o registro da Madame Pince, nunca havia sido emprestado por ninguém nos últimos meses.


Mas então como era a minha letra?


Era, sem dúvida. Aquela curva no R, o jeito como o “s” final sempre parecia uma espiral preguiçosa. Era sua letra. Em um livro que não lembrava de ter lido. Em uma pesquisa que claramente era dela.


Rose fechou o livro com um estalo e se recostou na cadeira. As anotações, as pistas, tudo confirmava o que ela já sabia: aquela realidade trocada era resultado direto de um feitiço que ela mesma conjurara.


O que ela ainda não sabia — e o que a inquietava até perder o sono — era qual feitiço usara exatamente, e, principalmente… como consertar aquilo?

**

Na saída da biblioteca, ainda distraída, quase trombou em Lorcan Scamander.


— Opa! — ele riu. — Achei que ia ser atropelado por um pergaminho ambulante.


Rose sorriu, ainda levemente atordoada.


— Desculpa, tô com a cabeça longe.


— É, percebi. Você tá sempre assim, ultimamente.


E você está sempre aqui? Rose não disse em voz alta.


Lorcan era bonito, sorridente e fazia um esforço notável para estar por perto. Ela ainda não decidira se isso a deixava lisonjeada ou só confusa.


— Escuta, Rose... — ele começou, coçando a nuca — eu sei que ainda falta um tempo, mas queria saber se... você já tem par pro baile?


Rose piscou, surpresa. Havia considerado evitar o evento completamente, e agora estava sendo convidada por um rapaz que, aparentemente, ela já conhecia bem — embora não se lembrasse disso.


— Ainda não tenho. — respondeu, mais por impulso do que por convicção.


Lorcan sorriu.


— Ótimo. Então, quer ir comigo?


Rose hesitou. O sim veio automático, quase protocolar. Talvez porque fosse mais fácil dizer sim do que lidar com a curiosidade constante das pessoas ou com as perguntas incômodas de Zoe.


— Claro. Vai ser legal.


Ela não esperava que Scorpius estivesse na escada, descendo da torre da biblioteca com um livro nos braços. E tampouco esperava que seus olhos se estreitassem levemente ao ouvir o fim da conversa.


— Rose — cumprimentou, com um aceno breve.


— Scorpius — respondeu ela, tentando parecer natural. — Tudo bem?


Ele assentiu, mas seus olhos estavam em Lucas. Lucas, por sua vez, acenou com entusiasmo.


— E aí. Tudo certo?


Scorpius só respondeu com um grunhido de voz baixa, e logo voltou os olhos para Rose.


— Tava te procurando. Achei que ia querer ajuda com o resumo de Aritmancia.


— Ah, sim! — Rose engasgou, surpresa com o convite espontâneo. — Pode ser.


— Legal. Quando terminar com o Scamander aí — disse com um sorrisinho de canto, não exatamente amigável — me encontra na Sala de Estudos.


Scorpius desapareceu escada abaixo com um passo mais acelerado do que o necessário.

**

Mais tarde, quando ela enfim se sentou ao lado de Scorpius na Sala de Estudos, ele estava com as pernas esticadas sobre o banco, um rolo de pergaminho aberto e dois tinteiros desalinhados à frente.


— Você sempre monta trincheiras quando estuda? — ela brincou, tentando aliviar o clima.


— Só quando preciso me proteger de perguntas imbecis — resmungou ele, mas com um meio sorriso logo depois.


— O que foi isso hoje? — perguntou Rose, direto ao ponto.


— Isso o quê?


— Você quase transformando Lucas em sapo com o olhar.


Scorpius bufou.


— Não viaje. Só achei curioso você aceitar o convite dele.


— Por quê?


— Porque você não parece nem um pouco animada com esse baile. Acha que não percebo?


Rose cruzou os braços, estudando-o.


— E se eu quiser ir mesmo assim?


— Então ótimo. Vai com o Scamander. Ele parece... adequado.


Ela arqueou uma sobrancelha.


— Você está com ciúmes?


— Claro que não. — respondeu rápido demais.


Rose sorriu, satisfeita. Sentiu-se vitoriosa, sem saber bem por quê.


— Só estou preocupado com sua segurança — acrescentou ele. — Ouvi dizer que ele dança como um trasgo bêbado.


Ela riu alto, a tensão se desfazendo por um instante.


— Já você, dançaria como o quê? Um elfo elegante?


— Eu sou a personificação da elegância — respondeu ele, com falsa modéstia.


Eles riram juntos, e por um momento, o mundo pareceu fácil. Rose observou Scorpius de soslaio, tentando entender por que certas palavras dele lhe causavam mais impacto do que deveriam. Por que aqueles momentos sutis de cumplicidade deixavam seu peito apertado. Por que Zoe, por mais gentil que fosse, não parecia mais suficiente para mantê-lo distraído.

**

No fim da tarde, enquanto lia distraidamente no dormitório, Zoe entrou visivelmente abalada. Jogou-se na cama com um suspiro dramático e enterrou o rosto no travesseiro.


— Eu desisto. Ele definitivamente está estranho comigo.


Rose largou o livro imediatamente.


— Scorpius?


Zoe assentiu com a cabeça enterrada no travesseiro.


— Ele sempre foi distraído, mas agora… parece que tá me evitando. Tipo hoje. Disse que ia estudar e desapareceu.


Rose engoliu seco.


— Talvez ele esteja só... nervoso com o baile?


Zoe bufou.


— Nervoso, nada. Ele é ótimo em se esconder atrás dos livros quando quer fugir de mim.


Ela então se sentou e encarou Rose.


— Sabe, eu achava que você seria a primeira a perceber se ele estivesse estranho. Vocês dois sempre foram tão próximos...


Rose sentiu o peso daquelas palavras. Sentiu também a culpa, aquela velha conhecida que morava atrás do sorriso.


— Talvez seja só coisa da sua cabeça, Zoe.


Zoe suspirou e recostou de novo.


— Espero que sim. Mas se ele tiver outra garota em mente… eu mato.


Ela sorriu ao final da frase, como quem brinca. Mas Rose não conseguiu rir.

**

Na manhã seguinte, os alunos se preparavam para o feriado prolongado. Muitos voltariam para casa por três dias. Era uma tradição permitir que alunos do sexto e sétimo ano tivessem esse breve descanso, desde que suas famílias pudessem recebê-los.


Na nova realidade, Rose aparentemente voltaria pra casa também.


A notícia a pegou de surpresa. McGonagall a chamara discretamente e informara que Hermione Weasley havia confirmado a visita da filha.


Rose não sabia se sentia alívio ou ansiedade. Em teoria, era sua mãe. Mas qual versão dela?


Zoe apareceu em seu quarto com uma lista de roupas que ela tinha que levar para o feriado, incluindo uma suéter prata com o símbolo da Sonserina bordado em fio fino.


— A sua mãe adora te ver usando as cores da sua casa — disse a loira, animada. — Ela sempre foi meio obcecada com representação institucional, não é?


Rose não respondeu. Porque, na verdade, sua mãe costumava franzir o nariz para a ideia de distinções entre casas.