Uma vez Sonserina

3 Capítulo 3: Tudo parece igual, mas não é


Notas iniciais
Agora começa um pouco da aproximação entre Rose e Scorpius. Estou tentando ser sutil nessa aproximação, porque quero que seja bem construído e muito fofo.

A primeira coisa que Rose percebeu ao entrar na biblioteca foi que a Seção Restrita estava trancada.

Não que fosse surpresa, claro. O espanto veio quando Madame Pince a cumprimentou com um sorriso caloroso — e isso, por si só, já era digno de alerta máximo. A bibliotecária odiava tagarelas, e Rose, por mais estudiosa que fosse, tinha fama de ser uma usuária excessivamente expressiva dos espaços públicos de leitura.

— Senhorita Weasley, o livro do Elias Greengrass foi devolvido? — perguntou a mulher, gentil até demais.

Rose piscou.

— Foi... foi sim, claro.

Ela não fazia ideia de quem era Elias Greengrass, mas sorriu e assentiu como se estivesse jurando pelos ossos de Morgana.

Enquanto fingia folhear um livro aleatório, olhava discretamente ao redor. A biblioteca não parecia ter mudado. Mas ela sentia que algo estava errado ali. Como se o lugar tivesse se reorganizado ao redor de uma versão dela que ela não conhecia. Os livros que costumava consultar não estavam no mesmo corredor. Os exemplares riscados com anotações à tinta vermelha — sua marca registrada — agora tinham rabiscos em verde-esmeralda, uma caligrafia levemente inclinada que ela não reconhecia como sua, mas que era claramente sua.

Era como se uma Rose paralela tivesse vivido ali por anos — e ela fosse apenas uma visitante.

Ela precisava de alguém de fora. Alguém confiável. Alguém que não fosse parte daquele mundo esquisito.

Ela precisava de Hugo.

**

O Salão Principal estava quase vazio, salvo por um grupinho da Grifinória espalhado num canto, jogando cartas explosivas. Hugo estava com eles, rindo alto, os cabelos ruivos desgrenhados como sempre.

— Hugo — ela chamou, parando ao lado dele com um sorriso discreto.

Ele olhou para cima.

— Olha só quem resolveu visitar os civis. — disse dramaticamente, o que arrancou algumas risadas dos colegas.

Ela revirou os olhos, mas riu também.

— Vim ver como estão as coisas por aqui. Sabe, matar saudade.

— Nostálgica? — ele se esticou, pegando um bolinho da bandeja. — Ou só cansou da umidade da masmorra?

— Um pouco dos dois. — Ela se sentou ao lado dele. — Você lembra do nosso primeiro ano? Quando aquela planta carnívora quase devorou sua mochila?

— Claro. Você ficou tão desesperada que tentou enfeitiçar a planta com um feitiço de escudo.

— Funcionou!

— Funcionou em mim, Rose. Fiquei dois dias com o rosto formigando.

Ela sorriu. Certo, esse tipo de lembrança parecia… alinhado. Mas não ajudava com o essencial: quando tinha sido selecionada para a Sonserina?

— E depois disso? Você lembra como foram os primeiros dias? Tipo… a cerimônia de seleção?

Hugo a encarou com uma expressão entre confusa e divertida.

— Claro que lembro. Ninguém da nossa família esqueceu. Foi histórico.

— Foi?

— Ué, você. Sonserina. As caras de todos os tios. A vovó Molly rezando pra Merlin e todos os deuses.

Ela soltou uma risada curta, tentando esconder o desconforto.

— É. Verdade. Histórica mesmo.

— Você tá esquisita — comentou ele, com a boca cheia.

Rose não respondeu. Apenas ficou observando o castelo pela janela do salão, a luz suave da tarde dourando os telhados. Estava cada vez mais difícil conciliar as versões da história que habitavam sua cabeça.

**

Mais tarde, ela o encontrou.

Albus estava sentado nos degraus da Torre da Astronomia, sozinho, com um caderno sobre o colo. Era onde ele escrevia letras de músicas trágicas quando estava de mau humor — o que era basicamente toda quarta-feira.

Ela sentou ao lado sem dizer nada.

— Dia estranho? — ele perguntou, depois de um silêncio confortável.

— Alguma coisa assim.

— O que foi? Treino de duelos? Ensaio do coral?

— Nenhum dos dois. Só… andei pensando em algumas coisas.

Ele folheou o caderno.

— Do tipo existencial?

— Mais do tipo “quando exatamente as coisas ficaram desse jeito”.

Albus a olhou com o canto dos olhos, mas não interrompeu.

— Sabe — continuou ela —, às vezes eu fico tentando lembrar como era no começo. Tipo... o castelo, as primeiras aulas. A seleção.

Ele sorriu de lado.

— Você ficou branca como um pergaminho velho. Eu jurei que ia desmaiar quando o chapéu gritou “Sonserina”.

— E você?

— Fiquei feliz. Achei que não ia ser o único da família com bom gosto.

Ela soltou uma risadinha.

— Não pareceu tão simples na época.

— Não foi. Mas você ficou. E foi ficando mais você aqui.

Rose olhou para as estrelas começando a surgir no céu.

— Às vezes, tenho a impressão de que... perdi alguma coisa. Que não era pra ser assim. Que algo saiu do trilho.

Albus fechou o caderno.

— Isso é só o tempo passando. A gente muda e acha que perdeu algo, mas só ganhou outras versões de si mesmo. Às vezes mais interessantes. Às vezes só… diferentes.

Ela não respondeu. Mas ficou ali com ele mais um tempo. Porque, mesmo sem respostas, a presença dele ainda parecia certa.

**

Naquela noite, no salão comunal da Sonserina, Scorpius estava escorado contra a estante, lendo um livro de capa cinza fosca. Rose reconheceu de longe: era o mesmo exemplar que ela vira na noite anterior.

— Posso? — ela perguntou, indicando o espaço no sofá ao lado dele.

Ele fechou o livro com calma, como se já esperasse por ela.

— Claro.

Ficaram em silêncio por alguns instantes, escutando o crepitar da lareira. O ambiente estava estranhamente acolhedor. Ou talvez ela estivesse se acostumando. O que, francamente, era mais assustador do que qualquer feitiço desconhecido.

— Você parece... menos assustada hoje — ele disse, virando um pouco o rosto em sua direção.

— Não sei se é bom ou ruim.

— Talvez só inevitável.

Ela o observou por um segundo. A luz alaranjada do fogo refletia nos cabelos loiros e deixava sombras suaves nas feições dele. Parecia... tranquilo. Como se a confusão dela não fosse um abismo, mas um degrau.

— Você nunca me contou de verdade como começou a gostar de mim — ela disse, de repente.

Scorpius arqueou uma sobrancelha.

— Gosto de você?

— Ué. Você me chamou de “Rosie” três vezes hoje. Deixou eu andar com você o dia todo sem reclamar. Isso tudo é sua linguagem secreta de afeto, não é?

Ele riu.

— Você sempre teve teorias demais.

— Mas tô errada?

Ele desviou o olhar, levemente corado.

— Não disse isso.

Ela se encostou mais na poltrona. Scorpius a olhou por alguns segundos.

— Eu não sei o que aconteceu com você, Rosie. Mas se alguma parte sua acredita em mim, deixa eu te ajudar.

Ela sorriu de leve.

Ficaram ali por mais um tempo, dividindo o silêncio, o calor da lareira e algo invisível que começava a nascer — ou renascer — entre eles.

E pela primeira vez desde que tudo mudara, Rose não sentiu medo. Só curiosidade.

Sobre o que havia sido.

E o que poderia ser.