Uma pena
1 Capítulo 1
Uma pena, mas foi assim que aconteceu.
Samuel é simplesmente doce. Não doce do tipo grudento, enciumado ou chorão, mas doce do tipo sensível, que não finge dormir mas cede o lugar no ônibus para idosos e grávidas se sentarem mesmo que signifique ficar de pé por uma hora e meia. Ele não se incomoda de revirar a mochila de cabeça para baixo até achar um trocado para dar aos pedintes, mesmo que sejam insistentes e vários, e acredite, sempre são. Toda vez que vê um bebê Samuel sorri com a alma e diz que é a coisa mais fofa desse mundo- e é verdade toda vez. Quando conversa com alguém gosta de olhar nos olhos, e ouvir a pessoa, cedendo uma atenção genuína, digna de reis. Mesmo sendo um gênio em todas as matérias e poder dormir ou zoar depois da aula, ele sempre fica até o final e tira dúvidas dos colegas, os auxiliando mais do que qualquer professor faria. Samuel é do tipo que escreve poemas e os envia no meio da madrugada para consolar um existencialista angustiado, ouve rock no escuro e ama chocolate e leite condensado. Ele é só um rapaz de dezessete anos vivendo sua vida, mas é tão incrível quanto um exército de anjos tocando trombeta.
E ele deveria ser feliz para sempre, mas não foi o que aconteceu.
Ela era incrível, pelo menos a primeira vista. Seus cabelos morenos caíam ao longo de suas costas finalizando em cachos nas pontas, sua fala envolvia multidões de tão interessantes que eram seus discursos, seu jeito feminino e sábio eram exalados no ar. A aproximação foi inevitável: os olhos castanhos por debaixo de óculos de armação vermelha logo notaram o rapaz esforçado e amigável. Débora não era boba, mas Samuel era ingênuo.
Os dois namoraram por um bom tempo e passaram por crises e glórias. O amargor das discussões e o mel dos beijos se misturavam dia e noite em sua relação. Mas algo estava errado.
Débora olhava para o celular quando conversava com Samuel, olhava para frente quando algum pedinte estendia a mão pedindo ajuda, usava seu poder da fala de modo malicioso e cheio de ironias, reclamava da chuva, da música, da vida, e isso foi afetando o modo de Samuel pensar.
Não. Isso deveria ser crime. Samuel não estava mais sorrindo, não era mais cheio de vida e mesmo sendo um gênio não estava percebendo isso. A razão das manchas em seu coração tinha um nome, e talvez se isso fosse uma equação de segundo grau Samuel mataria a charada. Mas a cor cinza tomou conta de sua mente, coração e espírito. Samuel perdeu o brilho nos olhos e o encanto da vida.
Quem é que paga a conta agora? Dá para medir o prejuízo deste relacionamento?
Infelizmente se há pureza, não é possível protegê-la com guardas e leis.
Débora é a razão das manchas em seu coração.
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