Uma noite comum
1 Ele comprou aquela revista de cocotas
Notas iniciais
Eram três da manhã. Um jovem rapaz com nádegas traumatizadas se remexia na cama sem parar. Era Gold, o membro mais velho da residência dos Baskerville (nem todos ali eram, de fato, Baskerville, mas eram identificados pelos vizinhos como tal). O motivo das nádegas traumatizadas? Leves tendências sadomasoquistas. Mas isso não vem ao caso.
Como o leitor já deve ter deduzido, ele não conseguia dormir. Já havia tentado diversas táticas para cair no sono; beber leite quente, contar carneirinhos, secar aquelas moças da televisão que ensinam exercícios de ginástica, ler um dos livros de Diphteros (não passou do segundo parágrafo, o que, em minha humilde opinião, foi o ato de um vencedor)... mas nada adiantava.
Enquanto o pobre rapaz gemia de frustração na cama, uma nobre e sagaz barata circulava ao redor da casa, do lado de fora. O eloquente inseto quase não acreditou quando Gold abriu a janela para tomar ar, e aceitou o convite de bom grado. Chegando ao quarto, a barata se instalou em um lugar macio. Mal sabia ele que estava nas costas do pijaminha de algodão decorado com Alvin e os esquilos de Gold.
O rapaz não aguentava mais a insônia. Precisava dormir de qualquer jeito.
"Já chega", pensou ele. "Preciso dormir. Vou apelar para a violência."
Nesse momento, Gold se levantou e se olhou no espelho (com o baratão ainda nas costas, mesmo que não tenha percebido), respirando fundo. Deu um sorrisinho de aprovação e começou a socar o próprio rosto.
"TENHO. QUE. DESMAIAR. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!!!!!"
O pobre e injustiçado baratão, que só queria um local de paz para descansar, estava sendo sacolejado incessantemente pelos movimentos errantes do rapaz de inteligência questionável. Por fim, Gold desferiu um golpe objetivo.
A boa notícia: Gold dormiu. A má: ele estava com hemorragia nasal.
Enquanto isso, Diphteros ainda estava acordado, como sempre. Estava lendo um livro incrível, intitulado "Como assassinar sua família, incriminar o vizinho e ficar com a herança da tia rica" e escrito pelo renomado autor P. S. Icopata. A leitura estava excitante, mas seu corpo solicitava que ele eliminasse os remanescentes da lasanha daquela manhã.
"Maldito intestino", pensava Diphteros. "Por que ele existe? Ah, lembrei."
Andando em direção ao banheiro no final do corredor, ele ouviu uma barulheira vinda do quarto de seu irmão mais velho.
"Essa não, o garoto comprou aquela revista de cocotas. Espero que ele não exploda. Ah, pensando bem, espero que sim", pensou Diphteros, dando um sorriso de escárnio em meio à escuridão do estreito corredor.
Após longos e exaustivos 15 minutos (maledeta lasanha), ele voltou pelo mesmo caminho e se surpreendeu ao notar que no quarto de seu irmão ainda havia barulho, apesar de um pouco mais baixo.
"Garoto sem juízo. Tem tanta coisa melhor para fazer durante a madrugada, como jogar xadrez sozinho. Vou acabar com essa pouca vergonha." Assim que ele concluiu esse pensamento, o barulho parou de repente. "Ah, ele parou. Não importa, quero constrange-lo." E, assim, entrou.
A visão foi surpreendente. Havia uma poça de sangue ao lado da cabeça de seu irmão, que estava estatelado no chão. Um baratão louco zanzava pelo quarto. Além disso, Gold estava machucado em vários lugares, mas carregava uma expressão satisfeita no rosto.
"E eu achava que a noite não poderia ficar melhor", pensou Diphteros, pegando a câmera da escrivaninha e batendo duas fotos: uma para barganhar com o irmão, e a outra para por na internet.
Evitando cuidadosamente o sangue que jorrava do nariz de Gold, ele caminhou em direção a este e, avaliando o estrago, ergueu uma sobrancelha: "Que cocota, hein? Pelo menos ele ainda está vivo. Mas talvez isso não seja motivo de alívio. Enfim."
Diphteros lidava com uma faca de dois gumes: deveria deixar o irmão mais velho morrer de hemorragia e começar o plano de dominação familiar ou deveria chamar os outros para salvá-lo? Ele decidiu sentar na cama de seu irmão e pensar nos limitados bons momentos que passou com Gold. No meio do caminho, porém, seu cérebro resolveu descartar a ideia e, em vez disso, Diphteros se imaginou em uma limusine, com seu chofer de cabelo engomado chamando-o de Sr. Baskerville.
"Que pena, não tive bons momentos com o garoto. Pelo menos não que eu me lembre." (e sua consciência dizia: "ou que eu tente me lembrar".) Deu um sorriso de orelha a orelha, reservado apenas para os momentos a sós com seus planos diabólicos. Ele se levantou e começou a se aproximar cada vez mais de Gold, com as mãos bem abertas, visando o pescoço do irmão. Cada vez mais próximo, mais próximo...
"GOOOOOOOOOOOOOOLD! O QUE ACONTECEU, DIPHTEROS????" O grito de Pandora, que tinha escancarado a porta do quarto, irrompeu o ambiente.
Diphteros se aprumou, forçou uma expressão inocente e doce (não obteve muito sucesso nesse último ato), e começou:
"Bem... eu estava recolhido em meus aposentos, lendo um inspirador livro de autoajuda, quando fui arrebatado por um capricho de meu intestino. Logicamente eu não poderia adiar o encontro com o aparelho sanitário tão lustroso de nosso lar, e logo fui atender meus anseios intestinais. Ao voltar, deparei-me com um barulho um tanto quanto peculiar vindo do quarto de meu irmão de maioridade, então me senti na obrigação de averiguar a causa deste. Ao entrar aqui, encontrei-o caído no chão, com um pouco de tinta espalhada no chão, sem ideia de como isso aconteceu. Puxa, tive muita pena de meu pobre irmão. Seu pijama estava desconjuntado, e eu pretendia alinhar sua gola, pois é lá onde a ilustre nádega de Theodore, o esquilo, se encontra. E foi aí que você gritou, e estamos agora nesse diálogo tão simplório e cotidiano. É isso."
Pandora olhava distraidamente para o rosto de Diphteros. Acordando de seu transe, ela exclamou: "Se isso é tinta, por que tem tinta saindo do nariz dele?"
Antes que Diphteros pudesse distrair o fluxo de pensamentos dela mais uma vez, Arthur e Íris entraram correndo no quarto, acordados pelo grito histérico de Pandora, cada qual com um rosto mais indagador.
"O que houve? Meu Deus, Gold!" exclamou Íris, deixando de lado a calma costumeira e se ajoelhando ao lado de Gold.
"Isso não foi por causa das cocotas, foi?" Perguntou Arthur, horrorizado.
"Não desta vez." murmurou Diphteros.
Íris logo averiguou se Gold estava respirando, e aplicou nele os primeiros socorros para hemorragia nasal, erguendo a cabeça do rapaz.
"Socorro! Não estou conseguindo estancar a hemorragia!"
Diphteros, com um suspiro impaciente, empurrou Íris de leve e pressionou seus dedos contra o local preciso (ela estava colocando seus dedos ligeiramente acima). Gold logo voltou a respirar normalmente e despertar do estado de inconsciência.
"Mas Diphteros, não era tinta??" perguntou Pandora, confusa.
"Sim, era. Gold sofreu um acidente quando pequeno e engoliu 25 litros de tinta vermelha, o que substituiu parte do sangue de seu corpo." Ninguém falou mais nada.
Gold, agora desperto, olhou confuso para os outros.
"Eu morri?" perguntou ele com olhos arregalados.
"Ainda não" respondeu Diphteros, sério.
"POR QUE, pelo amor de Deus, você está nesse estado, cara??" perguntou Arthur, alarmado.
"Eu... queria dormir e não conseguia, então resolvi induzir um desmaio." retorquiu Gold, casual, como se fosse a escolha mais correta do mundo se espancar para dormir.
Diphteros soltou um longo suspiro e saiu do quarto sem mais delongas.
"Você é um caso perdido." disse Pandora, fazendo o mesmo.
"Eu já vou indo também. Posso ligar a TV, Íris?" perguntou Arthur, com um olhar pidão capaz de amolecer um membro da família Corleone.
Íris pareceu se sensibilizar, apertou as bochechas do garotinho, e disse um sonoro "NÃO". Após isso, Arthur foi para seu quarto, e de longe se ouviam barulhos dele rasgando fotos de família (provavelmente com Íris).
Ela se voltou para Gold.
"Eu também vou dormir. Não se estapeie, se esfaqueie ou cause qualquer dano físico a si mesmo. Se você fizer isso, sabe que o dono do quarto mais próximo do seu não irá ligar para a emergência e nem gritar por ajuda." ela pontuou dando um tapinha um tanto quanto forte nas costas do irmão. "Você deu sorte dessa vez."
Gold, já na cama novamente e agraciado pela tão sonhada sonolência, aconchegava-se entre dois travesseiros ortopédicos. Até que, por alguma razão instintiva, resolveu dar uma checada na gola de sua camiseta e deu um sonoro grito de horror ao perceber que uma mancha de sangue havia sujado o traseiro de Theodore, o esquilo.
Após dar o grito, Gold perdeu o sono, e foi beber leite quente.
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