Uma mesa de RPG
1 Prologo - Parte 1 : A história de Aventh
Notas iniciais
Minha lembrança mais antiga? Acredite ou não é do momento em que eu nasci... logo após sair do útero de minha mãe ela me levantou, olhou nos meus olhos, sorriu e disse:
–Você é lindo
Aproximou-me então de seu rosto e com voz fraca sussurrou em meu ouvido: Viva... E deu seu último suspiro.
Meu pai? Nao sei nada sobre ele. Minha tia, irmã da minha mãe, nunca me contou nada a respeito. Pobre mulher ela, antes de eu completar meus 8 anos adoeceu e morreu. Minha mãe foi durante algum tempo professora de magia. Fui, então, a convite do diretor da escola real de magia estudar na mesma. Anos se passaram e fui aluno exemplar, atendendo com as maiores notas em todas as disciplinas, no entanto, possuía uma afinidade em especial com as sombras e necromancia. Aos 16 anos encontrei um necronomicom que um professor havia esquecido na sala de aula, tomei-o em minhas mãos e o levei para o meu quarto. Nao entendia muito bem o que estava escrito, era uma língua estranha, mas podia entender o significado de cada página. O livro me tomou numa espécie de transe onde vi todo tipo de coisas: espíritos vagando, um fantasma negro ceifando vidas, anjos, demônios, mortos que se recusavam a abandonar esse mundo. Vi também assassinatos em massa, guerras, batalhas, espíritos vingativos, pessoas sendo violentadas e todo tipo de coisa ruim. Tudo aquilo mexeu muito com minha mente e descobri um lado meu que não conhecia: um lado impulsivo, sádico, psicótico.
Ao acordar do transe estava em um cemitério na cidade próxima, uma horda de esqueletos e zumbis se levantavam atrás de mim e percebendo que era seu mestre ordenei
–Matem todos
Com um sorriso maligno no rosto e olhos vermelhos emanando energia sombria, levitei pela pequena cidade comandando meu pequeno exército a destruir todos. Sangue jorrou no meu rosto, mulheres gritava, crianças queimavam, homens inutilmente tentavam lutar enquanto eu sentia um imenso prazer fluir pelo meu corpo. Vi então um rosto familiar, uma jovem tremendo de medo me reconheceu, era Alya, minha única amiga durante toda minha vida.
–Aventh e você- disse gaguejando com horror nos seus olhos
Nesse momento minha sanidade lutou para retornar e vi o que estava fazendo, vi o horror que tinha criado e como um bebe cai de joelhos chorando.
No outro dia acordei numa espécie de cela de forma esférica. Minutos após eu acordar um homem entrou na minha cela e me explicou o que tinha acontecido. Minha mãe, aparentemente, era uma poderosa necromante e um dia realizou o feitiço para se tornar um lich, sem saber, no entanto, que estava gravida. Vendo que não havia alteração no objeto que usou como catalizador, deduziu que o feitiço havia falhado e foi o que acreditou até sua morte. O homem vestido como um mago negro disse então que na verdade eu tinha agido como catalizador e a alma da minha mãe foi transferida para o meu corpo. Quando abri o necronomicom uma serie de reações magicas ocorreram e a porção da alma da minha mãe que ainda não tinha sido completamente diluída na minha foi corrompida, se tornando um espirito maligno.
–Sorte que eu conhecia sua mãe garoto... por pouco que não o executam
–O que?
–Você nao lembra de nada nao e?
–Nao. Me desculpe, eu estou confuso, minha cabeça dói. Tive um pesadelo horrível.
–Garoto, aquilo nao foi um pesadelo... você exterminou uma cidade inteira.
–Nao, nao e possível
Comecei a lembrar de tudo e cai no chão em pânico com meus olhos vidrados. O homem avançou, me levantou pelo pescoço e me deu um forte tapa.
–Hey, aconteceu, ponto. O concelho decidiu abafar o caso, mas justificar o sumiço de uma cidade inteira não vai ser fácil. As estrelas se alinharam pra ti criança: a única sobrevivente decidiu não falar nada e quer te ver.
–Alya!
–Sim, mas antes eu tenho que selar o que quer que esteja dentro de você. Estenda a mão.
Após algumas horas de ritual um selo de supressão de mana foi gravado na minha mão.
–Eu vou ser seu professor de hoje em diante, vou te ensinar a controlar seus poderes e a suprimir o que tem dentro de você. Jamais fale com ninguém sobre o que aconteceu, exceto eu e a garota que esta lá fora, está entendido?
–Sim...
–Certo, pode entrar.
O homem saiu da sala e Alya, com olhos baixos entrou. Não tinha coragem de olhar para ela.
–Aventh... eles me contaram o que aconteceu. Não foi sua culpa -disse a frágil garota de cabelos loiros enquanto me abraçava chorando.
–Por favor, me perdoe.
Alya e eu... digamos, fomos mais que amigos. Os pais dela estavam sempre brigando e quando um não ficava satisfeito com a discussão com o outro, resolvia descontar a raiva na coitada. Então frequentemente ela fugia de casa e se escondia no meu quarto na escola. Quando começamos a perceber um ao outro como homem e mulher... digamos que coisas aconteceram. Durante meu massacre eu acabei por matar os pais dela. Alguns anos depois ela me revelou que foi o maior favor que a fiz a minha vida inteira.
4 anos se passaram do ocorrido e eu estava levando uma vida normal. Visitando a casa da minha tia achei um artefato estranho num baú que tinha o nome da minha mãe. Achei que era um cajado, mas logo vi que tinha um botão, que quando pressionado liberava uma lamina na ponta: era uma foice. Decidi que seria uma boa arma e botei na minha mochila. Quando estava para ir embora senti algo emanando do baú e ao verificar a origem da energia vi que era um catalizador, conexões foram feitas e entendi o que era o objeto. Chamei meu professor para avalia-lo. Ao tocar no cristal o homem explodiu, carne, ossos, sangue para todo lado. Entrei em desespero e chamei o concelho. Dessa vez não acreditaram em mim e acharam que eu tinha assassinado-o, ordenaram minha execução. Guardas surgiram de todos lugares para me prender e campos anti-magia foram conjurados.
Acordei novamente na mesma cela oval e um guarda entrou dizendo que seria executado em duas horas em praça publica.
As duas horas se passaram e dois guardas vieram me levar para a praça onde três arquimagos de fogo me esperavam, no caminho notei que havia dois postes de execução, um estava vazio, me esperando, e no outro... Alya. Me amarraram com um pano na boca da mesma forma que fizeram com ela. Ela estava em pânico, chorando. Trompetes soaram e o diretor anunciou meus crimes.
–Aventhorian Arkness, pelo crime de assassinato, lhe condeno a morte. Alya Maelstorm, por ser cúmplice de assassinato, lhe condeno a morte.
Seu desespero inflou, juntamente com o meu. Os magos se aproximaram de mim primeiro, canalizaram suas chamas e lançaram sobre mim. Em alguns segundos só restou um corpo carbonizado.
Você já morreu alguma vez? Imagino que não, mas quando você morre, sua consciência, ou sua alma, fica por mais alguns minutos. Eu senti uma sensação de anestesia e as palavras de minha mãe ecoaram em minha mente "Viva". Sem perceber direito o mundo ao redor comecei a sumir, nesse momento a mordaça caiu da boca de Alya e escutei seu grito
–NÃO AVENTH, NÃO.
Vi ela e vi as bolas de fogo indo lentamente em sua direção. As palavras de minha mãe ecoaram novamente em minha cabeça, mais alto dessa vez e senti algo ressonar comigo, era o catalizador. Com a última conexão entre o selo e minha alma sumindo devido a minha carne queimada, eu pude liberar meu poder completo. Meu espirito se materializou com a foice em minhas mãos. Rapidamente dispersei o ataque que estava sendo direcionado a Alya e a soltei. Muitos guardas e magos invadiram a praça e me atacaram, mas seus ataques eram inúteis. Com minha foice cortei por legiões de soldados e magos. Mais e mais soldados surgiam, mas eu tinha meu próprio exército: cada soldado deles que caia, se levantava como meu servo. As pessoas começaram a fugir em pânico e mais uma vez, comandei um massacre.
Após algumas horas de batalha só restavam eu, Alya e meus servos, que um a um começavam a cair também. Eu, mesmo em forma etérea, estava exaurido. Escutei barulhos de cavalos e soldados reais começaram a entrar pelas portas. Não podia mais lutar, tomei Alya em meus braços e fugi. Usando o pouco de mana que me restava criei alguns servos para atrasa-los. Combinei com ela de nos encontrarmos na floresta após pegarmos tudo que precisávamos. Como fantasma eu podia passa pelas paredes, fui ao meu quarto e peguei meu corvo Quo e algumas coisas mais importantes, fui então na casa da minha tia recuperar o catalizador. Após me reunir com Alya na floresta fugimos do reino.
Quando finalmente pudemos descansar Alya, que antes de me prenderem investigou o caso, me explicou o que aconteceu. Todo o lance com o catalizador foi apenas uma coincidência. O diretor decidiu que eu era muito perigoso e decidiu me eliminar, junto com as testemunhas. Plantou um selo de autodestruição no professor sem que ele soubesse e o ativou quando se aproximou de mim.
–Bem, ele não contava que você fosse um lich
–O que?
–Eu estive estudando necromancia também. Quando sua mãe fez o feitiço, algo extraordinário aconteceu. Em vez de ligar a alma dela ao catalizador, ligou a dela a você e sua alma ao catalizador. Então você, desde que nasceu, é um lich.
–Agora tudo faz sentido, mas o que fazemos agora?
–Primeiro temos que achar um novo corpo para você.
–Realmente.
Demos a sorte de encontrar um fazendeiro que tinha perdido o filho e o estava enterrando naquele exato momento. Esperamos anoitecer Alya desenterrou o corpo para que eu o pudesse tomar. Estava em ótimas condições e era até mais bonito que meu antigo corpo.
–Acabei de perceber algo.
–O que?
–Meus poderes na verdade eram os poderes da minha mãe.
–E eles ficaram no seu antigo corpo.
–Sim. Me sinto um leigo em magia.
–Sinto muito...
–O que? Isso e ótimo, posso recomeçar.
–Entendo...
Assim que ela dormiu comecei a preparar uma mochila com suprimentos, já estava de saída quando ela me viu.
–Vai embora sem se despedir?
–Queria evitar isso.
–Você é muito egoísta hein? Vira minha vida de cabeça para baixo e vai embora sem nem dizer tchau?
–Alya...
–Estou brincando, você é como um irmão para mim. Vá, sei que você não vai conseguir ficar em paz junto de mim.
–Como você soube?
–Eu te conheço melhor que você mesmo. Agora vai embora, amanhã eu tenho que procurar algum lugar para viver e relaxe, eu vou cuidar bem do seu corvo.
–Adeus Lya.
–Adeus Aventh.
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