Uma lição de amor
14 Explicações
Notas iniciais
Fiquei alguns segundos parada na porta olhando para Alec, tentando entender o que exatamente ele esperava ao aparecer ali depois de tanto tempo. A lembrança da tarde anterior na casa dos meus pais ainda estava fresca na minha cabeça, a imagem dele ao lado da minha irmã, os dois recebendo parabéns pelo bebê enquanto minha mãe os abraçava e meu pai sorria orgulhoso. Eu ainda lembrava da sensação de sufoco que tomou conta de mim naquele momento, da vontade quase desesperada de sair dali o mais rápido possível. Por isso, quando Alec apareceu na porta do meu apartamento dizendo que precisava conversar, senti aquela velha tensão voltar com força.
Balancei a cabeça devagar.
– Alec… nós já conversamos tudo que precisávamos conversar.
Minha voz saiu firme, mesmo que por dentro eu estivesse cansada demais para reviver aquela história. Durante dois anos eu tentei entender o que tinha acontecido, tentei aceitar o fim do relacionamento e seguir com a minha vida. Para mim aquilo já tinha sido encerrado há muito tempo, mesmo que algumas lembranças ainda doíssem.
Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo, claramente nervoso.
– Não, Nessie.
Levantei uma sobrancelha.
– Não?
Ele me olhou com seriedade.
– Você não sabe toda a verdade.
A frase ficou suspensa entre nós por alguns segundos, pesada e inesperada. Eu hesitei por um instante, mas então me afastei da porta e fiz um gesto para que ele entrasse. Alec caminhou para dentro do apartamento com passos lentos enquanto eu fechava a porta atrás dele. Quando me virei novamente, mantive certa distância e cruzei os braços diante do peito, como se aquela postura me ajudasse a manter algum controle sobre a situação.
– Então fala – eu disse. – Pode começar.
Alec ficou em silêncio por alguns segundos, olhando ao redor da sala simples do meu apartamento, como se estivesse reunindo coragem para dizer o que tinha vindo dizer. Finalmente ele respirou fundo e voltou a me encarar.
– As coisas não são como você imagina.
Meu estômago apertou.
– Eu imagino exatamente o que aconteceu, Alec. Você terminou comigo quando estava em Paris e depois ficou com a minha irmã.
Ele balançou a cabeça devagar.
– Não é tão simples assim.
Senti uma irritação crescer dentro de mim.
– Então explica.
Ele passou a mão pela nuca novamente antes de falar.
– Eu sempre amei a Liza.
Meu corpo ficou imóvel por um segundo.
Continuei olhando para ele, esperando que aquela frase tivesse alguma continuação que tornasse aquilo menos absurdo.
– Sempre? – perguntei.
– Sim.
Ele desviou o olhar por um momento antes de continuar.
– Desde antes de você e eu começarmos a namorar.
Meu coração começou a bater mais rápido.
– Então por que você estava comigo?
Alec respirou fundo outra vez.
– Porque quando nós nos conhecemos… você se apaixonou por mim.
Eu franzi a testa, sem entender onde ele queria chegar.
– E sua irmã…
Ele fez uma pequena pausa.
– Ela me pediu para ficar com você.
Por alguns segundos eu apenas o encarei, tentando processar aquelas palavras.
– Espera… o quê?
Alec manteve o olhar em mim.
– Liza pediu que eu namorasse você.
Minha cabeça parecia girar devagar, como se minha mente estivesse tentando encaixar aquela informação em algo que fizesse sentido.
– Por quê?
Ele respondeu com a voz mais baixa agora.
– Porque você estava se recuperando do acidente.
A lembrança veio como um clarão.
O hospital. A recuperação longa. A sensação constante de fragilidade que eu tentava esconder de todo mundo naquela época.
– Ela disse que você já estava sofrendo demais por causa das cicatrizes e que não queria tirar de você o direito de se sentir viva novamente – Alec continuou. – Lizs não queria que você sentisse que estava sendo rejeitada.
Senti o estômago revirar.
– Então ela pediu para você… o quê? Fingir?
Alec não respondeu imediatamente.
– Alec – minha voz saiu mais dura agora. – Você está dizendo que só namorou comigo porque a minha irmã pediu?
Ele fechou os olhos por um segundo antes de responder.
– Não, não Nessie, eu gostava de você.
A palavra caiu no silêncio do apartamento como algo pesado demais para ignorar.
E, por um momento, eu simplesmente não soube o que sentir primeiro.
Eu ainda estava tentando organizar os pensamentos quando Alec voltou a falar. A expressão dele não era defensiva, nem irritada, parecia apenas cansada, como se carregar aquela história por tanto tempo também tivesse pesado para ele.
– Eu gostava de você, Nessie.
Ele falou devagar, escolhendo cada palavra.
– Gostava mesmo. Você é uma pessoa incrível.
Aquilo não trouxe conforto algum.
– Mas eu não te amava.
A frase veio limpa, direta, sem espaço para interpretação. Por um momento fiquei apenas olhando para ele, sentindo uma mistura estranha de emoções. Raiva, confusão, uma pontada de humilhação que eu não queria admitir nem para mim mesma.
– Você pode me odiar por isso – ele continuou. – Eu entendo.
Ele respirou fundo antes de completar.
– Mas não odeie a Liza.
Meu olhar endureceu.
– Ela ama você.
Alec deu um passo mais perto, mas eu não me movi.
– Ela está sofrendo com esse afastamento entre vocês duas.
Por um instante eu apenas o encarei, tentando decidir o que exatamente sentir diante daquela revelação. Curiosamente, o que surgiu primeiro não foi raiva.
Foi entendimento.
Algumas peças começaram a se encaixar dentro da minha cabeça de forma lenta, quase dolorosa. Um ano inteiro de relacionamento passou diante de mim como um filme estranho, cheio de pequenos detalhes que na época eu não tinha questionado.
As vezes que ele desviava quando a conversa ficava mais séria.
As desculpas quando eu tentava aproximar mais nossa relação.
O fato de, em um ano juntos, nunca termos levado aquilo para algo mais íntimo.
Alec sempre mudava de assunto quando o tema era sexo, sempre inventava alguma distração, algum compromisso, algum motivo para não atravessar aquela linha.
Na época eu interpretei aquilo como respeito.
Agora parecia outra coisa.
Voltei a olhar para ele.
– Isso não me faz sentir melhor.
Minha voz saiu baixa, mas firme.
Alec assentiu devagar.
– Eu sei.
Ele passou a mão pelo rosto, claramente exausto.
– Mas eu precisava que você soubesse da verdade.
O silêncio se instalou no apartamento por alguns segundos.
– Pode me odiar – ele repetiu. – Eu aceito isso.
Ele levantou os olhos novamente.
– Só não odeie a Liza.
Eu respirei fundo, tentando organizar a avalanche de pensamentos que se formava dentro da minha cabeça.
– Eu preciso de tempo.
Alec não disse nada.
– Muito tempo, provavelmente.
Passei a mão pelos cabelos.
– Eu preciso digerir isso tudo.
Ele assentiu lentamente.
– E eu preciso falar com a minha irmã.
A frase saiu quase como uma decisão.
Alec abriu a boca para responder, mas naquele momento o som da campainha ecoou pelo apartamento.
Franzi a testa imediatamente.
– Estranho…
Olhei em direção à porta.
– Eu não estou esperando ninguém.
Caminhei até a entrada enquanto Alec permanecia parado na sala. Minha mente ainda estava cheia demais para imaginar quem poderia estar ali àquela hora.
Abri a porta.
E congelei por um segundo.
Jacob estava parado na minha porta.
Narrado por Jacob
Ayla estava chorando tanto que por um instante parecia que tinha esquecido que não estava sozinha na sala. Rachel estava ali, parada ao lado do sofá, olhando para a sobrinha com a mesma preocupação que eu sentia. Eu me aproximei devagar, tentando manter a calma porque sabia que, quando uma criança chega nesse estado, a última coisa que ajuda é um adulto desesperado.
– Ei… – falei com cuidado. – Você não vai falar com a tia Rachel?
Ayla levantou o rosto molhado de lágrimas e olhou para minha irmã como se só naquele momento tivesse percebido que ela estava ali. Mas em vez de responder, o choro voltou mais forte e ela simplesmente caminhou até mim e se jogou nos meus braços.
Eu a abracei imediatamente, passando a mão nas costas dela enquanto ela chorava contra meu peito.
– Calma… calma, filha.
Esperei alguns segundos até que a respiração dela diminuísse um pouco.
– Agora me conta o que aconteceu.
Guiei Ayla até o sofá e a sentei ali com cuidado. Rachel se sentou ao lado dela, inclinando o corpo para frente com aquele olhar atento que sempre teve quando algo importante estava acontecendo.
– O que houve, pequena? – Rachel perguntou com suavidade.
Ayla esfregou os olhos com as duas mãos, tentando parar de chorar.
– A Nessie…
Meu corpo ficou um pouco mais rígido sem que eu percebesse.
– O que tem a Nessie?
A menina fungou antes de responder.
– Ela não é mais minha professora.
Franzi a testa imediatamente.
– Como assim?
Ayla olhou para o chão.
– Ela está em outra sala agora.
Aquilo me pegou de surpresa.
– Outra sala?
Ela assentiu devagar, os olhos voltando a se encher de lágrimas.
– É culpa minha.
Meu coração apertou na mesma hora.
Ajoelhei diante dela para ficar na mesma altura e segurei o rosto pequeno entre minhas mãos.
– Ei… olha pra mim.
Ayla levantou os olhos com dificuldade.
Peguei um lenço de papel da mesa e enxuguei as lágrimas dela com cuidado.
– Não é culpa sua.
– É sim – ela insistiu com a voz trêmula. – Foi por causa das brincadeiras.
Balancei a cabeça com firmeza.
– Não, Ayla.
Ela parecia confusa.
– Eu prometi pra ela que não ia fazer mais.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
– Escuta… professores mudam de turma às vezes, isso acontece.
Ela continuou me olhando como se ainda não estivesse convencida.
– Mas eu vou descobrir o que aconteceu, tudo bem?
Ayla não respondeu, mas o choro tinha diminuído.
Foi quando Rachel suspirou exageradamente ao nosso lado.
– Estou profundamente decepcionada.
Eu levantei uma sobrancelha.
– Com o quê?
Rachel cruzou os braços fingindo indignação.
– Eu chego aqui depois de meses sem ver minha sobrinha maravilhosa e nem ganho um abraço.
Ayla piscou algumas vezes, claramente surpresa.
Rachel fez um biquinho dramático.
– Isso magoa o coração de uma tia.
A menina olhou para mim, depois para Rachel… e acabou abrindo um pequeno sorriso tímido.
Então se inclinou e abraçou a tia.
Rachel retribuiu o abraço com entusiasmo.
– Ah, agora sim.
Ela bagunçou levemente o cabelo da menina.
– Muito melhor.
Eu observei as duas por um momento antes de falar:
– Rachel… você pode ficar com a Ayla um pouco?
Minha irmã me olhou imediatamente.
– Claro.
Ela sorriu para a sobrinha.
– Na verdade eu vou amar.
Rachel apontou para a bolsa grande que tinha deixado no canto da sala.
– Eu trouxe um monte de presentes.
Ayla limpou o rosto com a manga da blusa.
– Sério?
Rachel assentiu animada.
– Tem até doce do Billy.
Os olhos da menina se arregalaram um pouco.
– Do vovô Billy?
– Exatamente.
Ayla enxugou as últimas lágrimas e já parecia bem mais animada.
– Eu quero ver.
Rachel piscou para mim como se dissesse que estava tudo sob controle.
Eu me levantei, tirando o celular do bolso.
– Certo.
Caminhei alguns passos para longe enquanto desbloqueava o telefone.
– Então vamos descobrir o que está acontecendo naquela escola.
Não foi difícil conseguir o endereço de Renesmee. A secretária da escola tentou manter aquela postura profissional no começo, dizendo que não podia passar informações pessoais dos professores, mas bastaram alguns minutos de conversa e um pouco de insistência para que ela começasse a relaxar. Quando mencionei que queria falar com Renesmee porque ela havia esquecido alguns materiais em minha casa e precisava devolver a expressão dela mudou completamente, como se aquela informação tivesse resolvido qualquer dilema moral que ela pudesse ter. No fim das contas ela escreveu o endereço em um pequeno pedaço de papel e me entregou com um sorriso curioso, daqueles que deixam claro que a pessoa já começou a imaginar uma história inteira na própria cabeça.
Saí da escola ainda pensando em Ayla. A forma como ela tinha chegado em casa chorando não saía da minha mente. Minha filha não era uma criança sensível a qualquer coisa, ela costumava lidar bem com as mudanças, mas aquilo claramente tinha mexido com ela. Enquanto dirigia pelas ruas de Seattle eu tentava entender o que poderia ter acontecido para aquela troca de turma afetar tanto a menina. Parte de mim sabia que a resposta era simples demais para ignorar. Ayla tinha se apegado a Renesmee mais rápido do que eu tinha previsto.
E, para ser honesto, eu também.
O trânsito da cidade estava mais tranquilo naquela hora da noite. As luzes dos prédios refletiam no para-brisa enquanto eu seguia o endereço anotado no papel. No fundo da minha cabeça havia outra preocupação além da minha filha. Quando Ayla disse que Renesmee não era mais professora dela, alguma coisa não pareceu certa. Não parecia o tipo de decisão que simplesmente acontecia do nada no meio do semestre. Eu queria entender o que estava acontecendo.
Quando finalmente encontrei o prédio, reduzi a velocidade e parei o carro na frente da calçada. Era um prédio pequeno e simples, daqueles antigos que já viram muitas pessoas entrarem e saírem ao longo dos anos. Nada luxuoso, mas bem cuidado. Desliguei o motor e fiquei alguns segundos sentado atrás do volante olhando para a entrada, tentando organizar o que exatamente eu diria quando ela abrisse a porta.
Saí do carro e atravessei a pequena área da entrada, subindo os poucos degraus até o corredor do prédio. Enquanto caminhava em direção ao apartamento indicado no papel senti um nervosismo estranho crescendo dentro de mim, algo que eu não conseguia explicar muito bem. Eu já tinha falado com Renesmee várias vezes, mas de alguma forma aquilo parecia diferente.
Talvez fosse a preocupação com Ayla.
Ou talvez fosse outra coisa que eu ainda não estava pronto para admitir.
Pare diante da porta e toquei a campainha. O som ecoou do outro lado enquanto eu tentava manter uma expressão tranquila.
Alguns segundos depois a porta se abriu.
Renesmee apareceu diante de mim e a surpresa no rosto dela foi imediata.
– Oi, Renesmee – eu comecei a dizer.
Mas antes que eu conseguisse terminar qualquer frase, ela avançou um passo e me abraçou com força.
– Oi, amor, eu estava te esperando.
Meu cérebro simplesmente travou por um segundo inteiro.
Antes que eu tivesse tempo de reagir, Renesmee segurou minha mão e me puxou para dentro do apartamento.
Eu entrei completamente sem reação.
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