Uma lição de amor

19 Canção de ninar


Entrei no quarto devagar, fechando a porta atrás de mim com cuidado para não fazer barulho. Meu coração ainda estava acelerado, mas agora por outro motivo. A imagem de Jacob na sala não saía da minha cabeça, o jeito como ele tinha me olhado, a forma como nossas palavras tinham ficado suspensas no ar… soltei um suspiro baixo, tentando afastar aquilo por um momento.

Agora não era hora de pensar nele.

Caminhei até a cama e encontrei Ayla deitada, o rostinho ainda levemente corado pela febre, mas muito mais tranquila do que antes. Me inclinei com cuidado e beijei a testa dela, sentindo a pele ainda quente, porém já melhor.

Ela abriu os olhos devagar.

E quando me viu… sorriu.

Um sorriso verdadeiro, daqueles que iluminam tudo ao redor.

– Você voltou…

A voz dela saiu baixinha, mas cheia de alegria.

Senti meu peito aquecer.

– É claro que voltei, não vou a lugar algum.

Passei a mão com cuidado pelos cabelos dela, afastando algumas mechas da testa.

– Como você está se sentindo?

– Melhor…

Ela me olhava como se quisesse ter certeza de que eu não iria desaparecer de novo.

– Você vai ficar?

Hesitei por um segundo, mas sorri.

– Vou ficar com você essa noite.

Os olhinhos dela brilharam, mas antes que ela pudesse comemorar, levantei um dedo de leve, com um sorriso suave.

– Mas com uma condição.

Ela franziu a testa, curiosa.

– Qual?

Me inclinei um pouco mais, falando com calma. – Você precisa me prometer que nunca mais vai sair de casa assim, você correu muitos perigos essa noite.

A expressão dela mudou na mesma hora. Ficou mais séria, mais quietinha.

– Eu prometo…Disse baixinho, mexendo nos dedos, depois levantou os olhos para mim, com um certo receio – Mas… por que você não quer mais ser minha professora?

Senti um aperto no coração, sentei um pouco melhor na cama, ficando de frente para ela – Não foi porque eu quis, Ayla- Falei com cuidado, escolhendo bem as palavras – Às vezes, os adultos tomam decisões que a gente não entende muito bem… e eu tive que mudar de turma.

Ela ficou em silêncio por um momento.

– Mas eu gostei de você como minha professora…A voz dela saiu mais fraca.

Segurei a mãozinha dela com carinho – E eu amei ser sua professora- Dei um sorriso – E quer saber de uma coisa?

Ela me olhou com atenção.

– A gente ainda pode se ver todos os dias na escola.

Ela piscou, surpresa.

– Como?

– No recreio… a gente pode lanchar juntas.

O sorriso voltou devagar ao rosto dela.

– Sério?

– Sério.

Ela abriu um sorriso largo, daquele jeitinho que eu já estava começando a reconhecer.

– Então eu vou levar lanche pra você também.

Ri baixinho.

– Combinado.

Me ajeitei ao lado dela na cama e a puxei com cuidado para mais perto, envolvendo ela em um abraço leve. Comecei a fazer carinho nos cabelos dela, devagar, sentindo o corpinho dela relaxar aos poucos.

– Tenta descansar agora, tá bom?

Ela assentiu, já mais tranquila.

Fiquei ali por alguns segundos em silêncio, até começar a cantarolar bem baixinho, quase como um sussurro:

– Nana neném, que a Cuca vem pegar…

Minha voz saiu suave, acompanhando o ritmo lento da respiração dela.

– Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar…

Continuei fazendo carinho no cabelo dela, sentindo o corpo pequeno se aconchegar mais contra o meu.

– Bicho-papão foi embora, não vai mais voltar…

Aos poucos, a respiração dela ficou mais profunda.

Mais calma.


Narrado por Jacob



Fiquei parado na sala por alguns segundos depois que Renesmee desapareceu pelo corredor, ainda com aquela sensação estranha no peito, como se alguma coisa tivesse mudado sem eu perceber exatamente quando. Meus olhos foram, quase sem querer, na direção do quarto da Ayla, como se eu pudesse enxergar através da porta.

– Fecha a boca, Jake.

A voz da Rachel me puxou de volta na mesma hora.

– O quê? – virei pra ela, meio sem entender.

Ela já estava sentada no sofá, com aquele sorriso provocador que eu conhecia bem demais.

– Tá na cara.

Cruzei os braços, tentando parecer indiferente.

– O que tá na cara?

Rachel apoiou o cotovelo no encosto do sofá, me observando com calma, como se estivesse se divertindo com a situação.

– Que você está completamente afim da Renesmee.

Soltei uma risada curta, negando com a cabeça.

– Você está viajando.

– Tô nada.

Ela respondeu sem nem piscar.

– Eu te conheço, Jacob. E faz… o quê? Uns oito anos? Eu não te vejo olhar pra uma mulher daquele jeito há muito tempo.

Desviei o olhar, passando a mão pela nuca.

– Você está vendo coisa onde não tem.

Ela riu.

– Claro. Eu que estou vendo coisa.

Levantou do sofá, pegando a bolsa com calma.

– Continua se enganando então.

Suspirei, já cansado daquela conversa.

– Rachel… a Renesmee é professora da Ayla.

Falei isso como se fosse o argumento final.

Ela me olhou com uma expressão quase divertida demais.

– E daí?

Abri a boca pra responder, mas nada saiu.

Ela arqueou uma sobrancelha.

– Isso não muda o fato de que você olha pra ela como se tivesse descoberto água no deserto.

– Eu preciso de um banho.

Falei rápido, já virando o corpo pra encerrar o assunto.

Rachel riu alto.

– Continua fugindo, maninho.

Caminhou até a porta, ainda sorrindo.

– Boa sorte com isso aí.

Antes de sair, ainda lançou um último olhar pra mim.

– E tenta não demorar muito pra admitir, vai facilitar sua vida.

Balancei a cabeça, mas não respondi.

A porta se fechou e o silêncio voltou a tomar conta da casa.

Soltei um suspiro longo e, sem pensar muito, meus olhos voltaram para o corredor.

Para a porta do quarto da Ayla.

Fiquei alguns segundos parado, até que minhas pernas começaram a se mover sozinhas naquela direção. Caminhei devagar, sem fazer barulho, como se qualquer som pudesse quebrar alguma coisa importante ali.

Quando me aproximei da porta, ouvi a voz dela, cantando de forma suave e baixa.

Parei do lado de fora, sem entrar, apenas escutando. A melodia era simples, tranquila, daquelas que acalmam sem esforço. Encostei levemente o ombro na parede, fechando os olhos por um instante.

Ayla estava em silêncio.

Provavelmente já dormindo.

E Renesmee… estava ali, cuidando dela como se sempre tivesse feito parte daquela casa.

Passei a mão pelo rosto devagar, soltando o ar.

Talvez a Rachel estivesse certa., talvez isso que eu estava tentando ignorar desde o começo não fosse tão simples assim.

Abri os olhos e encarei a porta por alguns segundos.Renesmee mexia comigo, e eu não fazia ideia do que fazer com isso.


Fiquei mais alguns segundos ali, encostado na parede, ouvindo a voz baixa de Renesmee até que o silêncio tomou conta de vez.

Empurrei a porta do quarto devagar, tomando cuidado com cada movimento, e assim que entrei a voz de Renesmee cessou suavemente, como se ela já esperasse por mim.

– Ela dormiu… – disse baixinho, quase num sussurro.

Assenti, mas não respondi de imediato, fiquei ali, parado, observando a cena diante de mim.

Ayla estava profundamente adormecida, aconchegada contra Renesmee, com o rostinho tranquilo, sereno de um jeito que eu não via há dias. E Renesmee… estava ali, com uma delicadeza que me pegou desprevenido, segurando minha filha com cuidado, fazendo carinho nos cabelos dela como se aquilo fosse natural, como se sempre tivesse feito parte da vida dela.

Foi impossível não perceber.

Aquela era a primeira vez que eu via Ayla sendo acolhida daquele jeito… tão próximo de algo materno.

Eu sempre estive ali, smpre cuidei, protegi, fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas naquele momento, olhando para as duas, algo ficou claro de um jeito que eu não consegui ignorar.

Ayla precisava disso.

De um carinho diferente, de uma presença feminina que eu nunca consegui oferecer, por mais que tentasse compensar.

Engoli seco, sentindo o peso daquele pensamento.

Renesmee se moveu com cuidado, saindo do lado da Ayla devagar, garantindo que ela continuasse confortável. Quando se afastou, eu me aproximei da cama, me inclinando para beijar a testa da minha filha.

– Boa noite, pequena… Murmurei ajeitando melhor o cobertor sobre ela, cobrindo até o ombro, e estendi a mão para acender o abajur, deixando uma luz suave no quarto.

Quando me afastei, troquei um olhar rápido com Renesmee, e juntos saímos do quarto, fechando a porta com cuidado.

O corredor parecia silencioso demais depois de tudo.

Passei a mão pela nuca, ainda tentando organizar meus pensamentos – Já está tarde… – falei, olhando pra ela. – Talvez seha melhor você não voltar pra casa agora.

Ela me olhou com atenção.

– Eu prometi que ia ficar com a Ayla.

Assenti.

– Então está decidido- Fiz um gesto com a cabeça – Você dorme aqui.

Ela hesitou por um segundo – Eu posso ficar no sofá…

Balancei a cabeça na mesma hora – Nem pensar- Minha voz saiu mais firme do que eu planejei – Você dorme no meu quarto.

Ela me olhou, surpresa, mas não discutiu. Só deu um pequeno sorriso.

– Obrigada.

O silêncio voltou entre nós, mas não era vazio. Era carregado.

Nossos olhares se encontraram de novo e dessa vez… eu não consegui desviar. Meus olhos desceram, quase sem querer, até os lábios dela.

Por um segundo, só um segundo, mas foi o suficiente, senti um impulso, uma vontade, uma proximidade entre nós dois.

Respirei fundo e desviei o olhar, como se precisasse quebrar aquilo antes que fosse longe demais. – Eu… vou ajeitar o quarto pra você.

Falei rápido, já me virando antes que ela pudesse responder entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim.

Fiquei parado por um instante, olhando pro nada e passei a mão no rosto, soltando o ar com força.

– Covarde…

Murmurei pra mim mesmo.

Porque, no fundo… eu sabia exatamente o que tinha acabado de evitar.