A estrada parecia mais longa naquela madrugada. Eu dirigia no escuro, com os faróis cortando a neblina leve que se formava em alguns trechos, enquanto minha mente insistia em voltar para o mesmo ponto. Para ela. Para a última conversa. Para a forma tranquila com que disse que ia embora… e para a forma como eu aceitei.

Eu entendia.

Ou pelo menos repetia isso para mim mesmo a cada quilômetro.

Ela tinha sonhos, planos, um caminho que já vinha sendo construído muito antes de eu aparecer. Não seria justo pedir que ela abrisse mão disso. Ainda assim, entender não tornava mais fácil.

Apertei levemente o volante, soltando o ar devagar.

Talvez o problema não fosse a decisão dela.

Talvez fosse o tempo.

Cheguei a La Push quando o céu começava a clarear. Estacionei em frente à casa do meu pai e desliguei o carro, permanecendo alguns segundos ali, em silêncio, antes de sair. O cansaço pesava, mas não era só físico.

Abri a porta do carro e fui recebido pelo ar mais frio, familiar, trazendo uma sensação agridoce de retorno.

Rachel já estava na varanda.

Assim que me viu, a expressão dela mudou, primeiro em alívio… depois em confusão.

Ela desceu os degraus devagar, cruzando os braços.

– Você chegou cedo.

Disse, observando rapidamente ao redor, como se procurasse alguém.

– Onde está a Renesmee?

A pergunta veio direta.

Parei por um instante, evitando o olhar dela por um segundo antes de responder.

– Ela não pôde vir.

Falei, mantendo o tom controlado.

Rachel franziu levemente a testa.

– Não pôde… ou não quis?

Levantei o olhar para ela.

– Rachel…

Disse, em um tom que pedia para ela não insistir.

Houve um breve silêncio, e ela pareceu entender que não era o momento.

Assentiu devagar, ainda me observando com atenção.

– Tudo bem... Respondeu, mais baixa.

Passei por ela, entrando na casa sem dizer mais nada. O ambiente era o mesmo de sempre, familiar, mas naquele momento parecia estranho, como se algo estivesse fora do lugar.

E talvez estivesse mesmo.

O cheiro de café recém-passado preenchia a cozinha quando me sentei à mesa com Rachel e meu pai. O ambiente era tranquilo, como sempre foi, mas eu sabia que não passaria muito tempo até que o assunto viesse à tona. Peguei a xícara, levando aos lábios mais por hábito do que por vontade, tentando manter a expressão neutra.

Rachel me observava desde que entrei.

– Deve ter sido difícil para ela tomar essa decisão.

Disse, com cuidado, escolhendo bem as palavras.

Não respondi de imediato. Apenas encarei o café por um segundo antes de assentir levemente.

– Foi.

Meu pai, sentado à cabeceira, apoiou os braços na mesa, me olhando com aquela calma que sempre teve.

– Filho… A voz dele veio firme, mas serena – Se essa moça for a pessoa certa para você… tudo vai se ajeitar no tempo certo.

Levantei o olhar para ele. Billy não dizia aquilo como consolo vazio. Ele acreditava de verdade no que falava.

Soltei um pequeno sorriso, mais contido.

– Eu espero que o senhor esteja certo.


Antes que a conversa pudesse continuar, passos leves chamaram nossa atenção. Olhei em direção ao corredor e vi Ayla aparecer na cozinha, ainda sonolenta, os cabelos bagunçados e os olhos semicerrados.

Assim que me viu, o rosto dela se iluminou.

– Papai!

Ela correu até mim, e eu a peguei no colo no mesmo instante, sentindo o abraço apertado que ela deu no meu pescoço.

– Ei, minha pequena…

Falei baixo, abraçando ela de volta – Estava com saudade?

– Estava! Respondeu, sem hesitar, se aconchegando mais.

Aquele momento simples já fez o peso no peito diminuir um pouco. Passei a mão pelos cabelos dela, ajeitando com cuidado enquanto ela se acomodava no meu colo.

Mas então ela levantou o rosto, olhando para a mesa e o olhar dela percorreu cada lugar.

– Cadê a Nessie?

A pergunta veio inocente, mas direta, e eu não soube o que dizer.


Narrado por Renesmee


O silêncio do meu apartamento parecia maior do que o normal naquela manhã. Eu estava sentada à mesa, com o formulário do mestrado aberto diante de mim, tentando focar nas linhas, nas informações, em qualquer coisa que não fosse o que estava passando pela minha cabeça. Mas não adiantava.

Eu só conseguia pensar nele.

No jeito calmo com que aceitou.

Na forma tranquila com que disse que respeitava.

Soltei um suspiro, apertando a caneta entre os dedos.

Era isso?

Era assim que terminava?

Uma parte de mim queria acreditar que aquilo era maturidade, que ele estava sendo justo, compreensivo… mas a outra parte, mais alta, mais sincera, só conseguia sentir outra coisa.

Frustração.

Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento, mas ele voltou com mais força.

Como se fosse tão fácil me deixar ir.

Engoli em seco, sentindo o peito apertar.

– Que ridícula…

Murmurei para mim mesma.

Eu realmente tinha acreditado.

Acreditado que, dessa vez, alguém fosse lutar por mim.

Que alguém fosse insistir, questionar, tentar ficar. Mas não.

Era sempre a mesma coisa “Eu quero o melhor para você.”

Fechei os olhos por um segundo, deixando uma lágrima escapar antes que eu pudesse impedir. Passei a mão rapidamente pelo rosto, limpando, como se aquilo pudesse apagar o que eu estava sentindo.

Não ia chorar.

Não por isso, não agora.

Voltei a olhar para o papel, respirando fundo e tentando me concentrar de novo, preenchi mais algumas linhas, mesmo com a visão levemente embaçada, forçando minha mente a seguir em frente.

Era o que eu queria. Não era? Era o plano. Sempre foi.

Mas, naquele momento, tudo parecia… menos certo.

Menos sólido. Menos meu.

Quando terminei, deixei a caneta sobre a mesa e recostei na cadeira, soltando o ar devagar. Meu olhar caiu, quase sem querer, sobre o celular ao lado do formulário, a tela estava apagada mas eu sabia qual era a foto, eu, Jacob… e Ayla.

Sorri timidamente, sem perceber, sentindo o coração apertar ao mesmo tempo.

Passei o polegar sobre a tela, sem desbloquear, apenas ficando ali, olhando para o reflexo.

E, naquele momento, senti que a dúvida veio com mais força do que qualquer certeza.

Porque, no fundo…

eu não queria que fosse tão fácil assim para Jacob, me deixar partir.


Narrado por Jacob


Eu demorei alguns segundos para responder à pergunta da Ayla. Ela ainda estava no meu colo, olhando para mim com aquela expectativa que sempre teve quando queria uma resposta direta. Passei a mão pelos cabelos dela, tentando encontrar uma forma simples de explicar algo que nem eu mesmo tinha conseguido organizar direito.

– Filha, a Nessie, ela… vai precisar viajar.

Falei, com cuidado.

– É algo importante e ela precisa ir.

Ayla franziu levemente a testa, assimilando.

– Mas porque ela vai viajar? Ela vai demorar?

A pergunta veio rápida.

Respirei fundo.

– Lembra quando o papai passou dois dias fora a trabalho? Então Nessie vai passar alguns meses fora.

Ela abaixou o olhar, claramente triste, brincando com a barra da própria blusa.

– Eu queria que ela ficasse com a gente…

A voz saiu mais baixa, e aquilo apertou meu peito.

– Eu sei filha, eu também- Respondi de forma carinhosa.

– Eu também queria.

Fiz uma pausa, tentando escolher melhor as palavras.

– Mas, às vezes, os adultos precisam fazer coisas importantes… e isso não quer dizer que ela não goste de você.

Ayla levantou o rosto de novo, me olhando com atenção.

– Mas , ela nem se despediu de mim.

– Princesa, as vezes despedidas doem, por isso ela não se despediu.

Ela assentiu devagar, mas eu percebi que ainda tinha algo ali. E então veio a próxima pergunta.

– Mas...

Ela inclinou a cabeça.

– Você e a Nessie não são mais namorados?

Aquilo me pegou de surpresa.

– O quê? Soltei a palavra surpreso. – De onde você tirou isso?

Ayla deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Eu sei.

Respondeu, simples.

– Eu vi você beijar a Nessie na boca.

Meu corpo travou por um segundo.

Rachel soltou uma risada baixa ao fundo, claramente se divertindo com a situação, e eu lancei um olhar rápido para ela antes de voltar a encarar minha filha.

– E só namorados beijam na boca.

Ayla completou, convicta.

Passei a mão pelo rosto, sentindo um leve constrangimento subir.

– Ayla…

Falei, tentando manter a calma. – Esse é um assunto de adultos.

Ela estreitou os olhos, claramente não satisfeita com a resposta, mas ficou em silêncio por um instante, me observando como se estivesse decidindo se aceitava aquilo ou não.

E eu ali, tentando lidar com perguntas que, no fundo, eu mesmo ainda não sabia responder.