Uma lição de amor
7 Visita
Narrado por Renesmee
Na manhã seguinte eu já estava de pé diante do quadro quando a turma do terceiro ano terminou de se acomodar. O barulho típico de início de aula ainda preenchia a sala. Mochilas abrindo, cadernos sendo arrastados pelas mesas e algumas conversas que insistiam em continuar mesmo depois de eu levantar a mão pedindo atenção.
– Muito bem – eu disse, batendo levemente o giz no quadro. – Antes de começarmos, alguém lembra do que falamos ontem sobre as plantas?
Algumas mãos se levantaram imediatamente.
– Eu! – disse um menino na primeira fileira.
– Então vamos ver se você lembra mesmo. Daniel?
Ele se endireitou na cadeira.
– Fotossíntese!
Algumas crianças repetiram a palavra como se fosse algo engraçado de dizer.
– Muito bem – respondi sorrindo. – E o que a planta precisa para fazer isso?
Uma menina levantou a mão com pressa.
– Luz do sol!
– Certo, Sofia.
Escrevi no quadro enquanto falava.
– E mais o quê?
Um menino no fundo respondeu sem levantar a mão.
– Água!
– Exatamente.
Voltei a me virar para a turma.
– E o terceiro?
Silêncio por alguns segundos.
Algumas crianças começaram a cochichar tentando lembrar.
– Dica – falei cruzando os braços. – Está no ar.
Um garoto franzindo a testa disse:
– Oxigênio?
Balancei a cabeça.
– Quase.
Sofia levantou a mão de novo.
– Dióxido de carbono!
– Muito bem.
Enquanto escrevia no quadro, meus olhos passaram pela sala automaticamente.
Foi quando notei.
A cadeira de Ayla estava vazia.
Por um segundo fiquei olhando para aquele lugar vazio na terceira fileira. O caderno dela não estava ali, nem o lenço azul que ela costumava usar na cabeça. Era estranho como a ausência de uma criança podia mudar o clima da sala.
Mesmo sendo minha primeira semana naquela escola, a presença de Ayla já tinha marcado a turma de um jeito muito claro. Ela era o tipo de criança que fazia perguntas inesperadas, que interrompia a aula para contar alguma ideia maluca ou que fazia os colegas rirem sem esforço.
A sala parecia um pouco mais quieta sem ela.
Voltei minha atenção para a turma.
– Certo, agora vamos abrir o livro na página quarenta e cinco.
O resto da aula seguiu entre perguntas, respostas e algumas tentativas de distração típicas de crianças de sete anos. Em um momento dois meninos começaram a discutir sobre quem tinha copiado a resposta de quem, e precisei interromper para lembrar que ciência não era uma competição.
– Aqui ninguém ganha medalha por responder primeiro – falei, segurando o riso.
Algumas crianças riram.
Quando percebi, o tempo tinha passado rápido.
A campainha tocou anunciando o fim das aulas.
Instantaneamente a sala voltou a ganhar vida.
– Hora de ir!
– Eu já guardei tudo!
– Professora, posso levar o cartaz?
Levantei as mãos tentando manter alguma ordem.
– Um de cada vez! Ninguém precisa sair correndo como se o prédio estivesse pegando fogo.
Algumas crianças riram enquanto começavam a colocar os materiais nas mochilas.
– Não esqueçam da atividade de casa – lembrei.
Alguns suspiraram.
– Professora…
– Eu sei, eu sei – respondi. – Não é a parte mais divertida da vida.
Uma menina passou pela minha mesa antes de sair.
– Tchau, professora!
– Tchau, Emma.
Outro garoto levantou a mão na porta.
– Eu terminei o desenho da planta!
– Ótimo, você me mostra amanhã.
Um por um eles foram saindo da sala até que o corredor começou a encher novamente com vozes e passos apressados.
Fiquei por último.
Olhei ao redor da sala por um momento. As cadeiras desalinhadas, um lápis esquecido no chão, o quadro ainda cheio de palavras escritas.
Peguei meus papéis, apaguei o quadro e então saí.
Fechei a porta atrás de mim e comecei a caminhar pelo corredor da escola em direção à secretaria. O som distante de outras turmas ainda ecoava pelo prédio enquanto eu atravessava o corredor iluminado.
Havia algo que eu precisava resolver antes de ir embora.
Quando cheguei à secretaria, o lugar estava bem mais silencioso do que durante a manhã. A maioria das crianças já tinha ido embora e alguns professores passavam pelo corredor carregando pilhas de cadernos ou conversando sobre o dia.
A secretária estava atrás do balcão organizando alguns papéis quando me viu entrar.
Ela levantou os olhos e sorriu com simpatia.
– Professora Cullen.
– Boa tarde.
Aproximei-me do balcão tentando parecer o mais natural possível.
– Eu queria pedir um favor.
Ela apoiou os cotovelos na mesa.
– Claro.
Respirei fundo antes de falar.
– Eu preciso das fichas dos meus alunos do terceiro ano.
Ela inclinou um pouco a cabeça.
– As fichas?
Assenti.
– Sim. Eu quero começar a preencher algumas observações para as avaliações do bimestre. Como ainda estou me adaptando à turma, pensei em dar uma olhada nas informações básicas deles.
A mulher assentiu compreensiva.
– Sim eu entendo- Ela se levantou da cadeira – Espere só um momento.
Observei enquanto ela caminhava até um armário alto no canto da sala e começava a procurar entre várias pastas organizadas por turmas. O som de papéis sendo puxados e recolocados ecoava pela secretaria.
Alguns minutos depois ela voltou carregando uma pasta grande e um pouco pesada.
Colocou-a sobre a mesa diante de mim.
– Aqui estão todas as fichas do terceiro ano.
– Obrigada.
Ela sorriu.
– Vou precisar resolver uma coisa na sala da diretora. Fique à vontade.
– Claro.
Assim que ela saiu pelo corredor, o silêncio tomou conta da secretaria.
Olhei para a porta para ter certeza de que realmente estava sozinha.
Então puxei a pasta para mais perto.
Abri devagar.
Dentro havia várias fichas organizadas em ordem alfabética. Cada uma com dados básicos dos alunos, endereço, telefone dos responsáveis, histórico escolar.
Comecei a passar rapidamente os nomes com os olhos.
Caroline.
Daniel.
Emma.
Sofia.
Meu coração acelerou um pouco quando finalmente encontrei.
Ayla Black.
Puxei a ficha com cuidado e a coloquei sobre a mesa.
Ali estavam as informações da menina, escritas em letras organizadas. Nome completo, idade, contato do responsável e logo abaixo o endereço.
Peguei minha agenda rapidamente dentro da bolsa.
Folheei até uma página em branco e anotei o endereço com rapidez antes que alguém voltasse.
Minhas mãos se moviam depressa, mas minha mente ainda tentava justificar o que eu estava fazendo.
Era apenas para levar o material da aula.
Só isso.
Fechei a agenda e a guardei novamente, depois coloquei a ficha de Ayla de volta exatamente no lugar onde estava dentro da pasta. Organizei as folhas para que parecesse que ninguém tinha mexido.
Fechei a pasta grande.
Olhei novamente para a porta da secretaria.
Ainda vazia.
Então respirei fundo, peguei minha bolsa e saí dali apressada.
Narrado por Jacob
Eu estava sentado diante do computador da oficina tentando terminar um orçamento para um cliente antigo quando ouvi o som metálico de alguma coisa sendo arrastada no chão de concreto.
Levantei os olhos da tela.
Ayla estava agachada perto de uma caixa de peças pequenas que eu tinha deixado em um canto da oficina. Parafusos, porcas, algumas arruelas e duas molas velhas que provavelmente nem serviam mais para nada. Para mim aquilo era apenas sucata temporária, mas para uma criança de sete anos parecia um tesouro mecânico.
Ela pegava uma peça, girava entre os dedos, depois colocava ao lado de outra como se estivesse montando algum tipo de invenção secreta.
– Ayla – eu disse sem tirar totalmente os olhos do computador – toma cuidado com isso.
Ela nem olhou para mim.
– Tô tomando.
Balancei a cabeça devagar.
– Algumas dessas peças têm ponta. Não quero você voltando pra casa com um corte na mão.
– Não vou.
Do outro lado da oficina, Seth levantou a cabeça de dentro do capô de uma caminhonete aberta.
Ele limpou as mãos num pano velho e apoiou o braço na lateral do carro olhando para nós dois com aquele sorriso de quem já estava se divertindo com a situação.
– Então é assim que vai ser a semana toda?
Franzi a testa.
– O que quer dizer?
Ele apontou para Ayla com o queixo.
– A pequena Black trabalhando na oficina.
Ayla levantou a cabeça imediatamente.
– Eu não estou trabalhando.
Seth abriu um sorriso maior.
– Não?
– Eu estou explorando.
Eu soltei um pequeno suspiro enquanto voltava a olhar para o monitor.
– Ela está de castigo.
Seth deu alguns passos na nossa direção.
– Pois é isso que eu estava pensando.
Ele cruzou os braços.
– Como exatamente vai funcionar esse castigo?
Ayla respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.
– Vai ser divertido.
Seth soltou uma risada alta.
– Espera aí… – ele levantou uma sobrancelha – castigo não deveria ser uma coisa ruim?
Ayla pensou por um segundo.
– Depende.
– Depende do quê?
Ela levantou uma mola enferrujada.
– Se você gosta de oficina.
Seth me olhou como se aquilo fosse a coisa mais absurda do mundo.
– Cara, seu castigo está completamente falhando.
Passei a mão pelo rosto tentando não rir.
– Eu ainda estou tentando descobrir isso também.
– Jacob – Seth continuou, agora claramente se divertindo – eu acho que você acabou de ensinar sua filha a transformar punição em férias.
– Eu ouvi isso.
Ayla levantou os olhos para nós dois.
– E eu gostei.
Eu estava prestes a responder quando ouvimos uma voz feminina vinda da entrada da oficina.
– Com licença.
Os três olhamos na mesma direção.
A porta de metal estava aberta e uma figura parada na entrada parecia um pouco hesitante em atravessar o espaço cheio de carros, ferramentas e cheiro de óleo.
Por um segundo eu não registrei quem era.
Mas Ayla registrou.
A reação dela foi imediata.
– NESSIE!
A menina praticamente saltou do chão e saiu correndo pela oficina como um foguete.
– NESSIE! NESSIE!
Levantei da cadeira giratória no mesmo instante, virando o corpo na direção da porta.
E então eu a vi.
A professora da minha filha estava parada ali, segurando uma bolsa contra o corpo e olhando em volta como se estivesse entrando em território desconhecido.
Renesmee Cullen.
Os cachos ruivos estavam soltos sobre os ombros e os olhos verdes pareciam ainda mais claros sob a luz que entrava pela porta da oficina.
Por um momento fiquei parado, tentando entender por que exatamente a professora da minha filha tinha aparecido na minha oficina no meio da tarde.
Enquanto isso Ayla já estava praticamente pulando em volta dela como se tivesse encontrado uma celebridade.
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