Uma lição de amor
8 Aula em casa
Narrado por Renesmee
Estacionei o carro alguns metros depois da esquina e fiquei alguns segundos parada atrás do volante observando o lugar à minha frente. A oficina ocupava quase metade do quarteirão, com um galpão largo de metal, portas abertas e o cheiro inconfundível de óleo e motor que escapava até a calçada. Acima da entrada havia uma placa grande de metal escuro onde se lia Black Motors Garage em letras grossas.
Passei os olhos pela fachada enquanto desligava o carro.
Então era ali que Jacob Black passava boa parte do dia.
Respirei fundo antes de sair. O nervosismo não era exatamente racional, mas estava ali mesmo assim. Talvez porque eu ainda não tivesse pensado muito bem em como explicar aquela visita inesperada. Eu tinha o endereço anotado na agenda, tinha os cadernos da turma dentro da bolsa e uma desculpa razoável sobre levar o material da semana.
Mesmo assim, aparecer sem avisar na oficina de um pai de aluna não era exatamente a atitude mais profissional do mundo.
Balancei a cabeça para afastar o pensamento e caminhei até a entrada.
Assim que me aproximei da porta aberta, consegui ver parte do interior da oficina. Ferramentas penduradas na parede, uma caminhonete levantada no elevador e, um pouco mais ao fundo, Jacob sentado diante de um notebook apoiado sobre uma mesa de metal. A postura dele era inclinada para frente, concentrada na tela, como alguém acostumado a resolver problemas práticos.
Por um segundo fiquei parada ali na entrada, sem saber exatamente como começar.
Então falei.
– Boa tarde.
Minha voz ecoou levemente no espaço aberto da oficina.
Jacob levantou os olhos do computador e virou a cabeça na minha direção.
Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, uma voz pequena e extremamente animada atravessou o lugar.
– NESSIE!
Olhei para o lado a tempo de ver Ayla saltar de onde estava e sair correndo na minha direção como se tivesse acabado de encontrar uma velha amiga.
– NESSIE! NESSIE!
Mal tive tempo de reagir antes que ela se jogasse contra mim num abraço cheio de energia.
– Ei! – eu ri, tentando equilibrar a bolsa no ombro enquanto a abraçava de volta. – Olha só quem está aqui.
A menina levantou o rosto com um sorriso enorme.
– Você veio mesmo!
Passei a mão no topo da cabeça dela.
– Eu disse que viria levar as atividades da semana, lembra?
Ela assentiu várias vezes.
– Eu achei que você ia esquecer.
– Eu não esqueço fácil assim.
Foi então que ouvi passos atrás de nós.
Levantei os olhos e vi Jacob se aproximando. Ele caminhava devagar, ainda com uma expressão que misturava surpresa e curiosidade, como se ainda estivesse tentando entender por que exatamente a professora da filha tinha aparecido ali.
Endireitei um pouco a postura.
– Senhor Black…
Ayla ainda estava grudada ao meu lado.
– Desculpe aparecer assim sem avisar.
Ele cruzou os braços por um segundo, olhando de mim para a filha.
– Não...precisa se desculpar.
Respirei fundo antes de continuar– Eu passei na sua casa primeiro, mas não tinha ninguém lá.
Ayla respondeu antes dele– A gente veio pra oficina!
Jacob assentiu.
– Eu trouxe ela comigo hoje.
Enquanto falávamos, ouvi passos se aproximando do outro lado da oficina. Um rapaz alto apareceu ao lado de Jacob, limpando as mãos em um pano escuro cheio de manchas de graxa.
Ele me observou por um segundo antes de abrir um sorriso fácil.
– Opa… então essa é a famosa professora.
Ele estendeu a mão.
– Seth.
Apertei a mão dele.
– Renesmee Cullen.
Jacob fez um gesto breve com a cabeça.
– Professora da Ayla.
Seth olhou para mim de cima a baixo com uma expressão divertida e completamente sem filtro.
– Cara…
Ele virou para Jacob.
– A professora da sua filha é muito gata.
Antes que eu pudesse reagir, Jacob deu uma cotovelada forte no braço dele.
– Seth.
O tom de aviso foi imediato.
Seth fez uma careta e esfregou o braço.
– O quê? Eu só falei a verdade.
Não consegui evitar.
Acabei rindo.
A situação era tão inesperada que o riso escapou antes mesmo que eu pudesse tentar parecer séria.
A animação de Ayla parecia crescer a cada segundo que passava. Ela segurava minha mão como se tivesse medo de que eu desaparecesse de repente e olhava do meu rosto para o do pai com um sorriso enorme.
– Pai! – ela disse, quase pulando no lugar. – A Nessie veio dar aula pra mim!
Eu ri baixo com o entusiasmo dela, mas levantei a mão com cuidado.
– Calma, não é exatamente uma aula particular… – falei, tentando explicar.
Jacob levou a mão até a nuca e coçou o lugar, um gesto que parecia surgir sempre que ele estava meio sem saber o que fazer.
– Eu… não esperava que você viesse hoje – ele disse, olhando para mim com um meio sorriso. – Mas enfim.
Ele fez um gesto com a mão para dentro da oficina.
– Entra.
Caminhou na frente alguns passos e puxou uma cadeira de metal que estava encostada perto da mesa onde o notebook ainda estava aberto. O som da cadeira raspando no chão de concreto ecoou pela oficina.
– Pode sentar aqui.
– Obrigada.
Sentei enquanto ajeitava a bolsa no colo. O lugar tinha aquele cheiro constante de óleo e metal aquecido, mas ao mesmo tempo parecia organizado dentro do possível para uma oficina cheia de ferramentas e peças espalhadas.
Ayla se acomodou imediatamente ao meu lado, quase colando a cadeira dela na minha.
– Então – comecei, abrindo a bolsa e tirando alguns cadernos – eu trouxe as atividades que a turma vai fazer essa semana.
Jacob encostou no canto da mesa com os braços cruzados, observando enquanto eu espalhava os materiais.
– Minha ideia é passar aqui alguns dias para entregar o conteúdo e explicar o que for preciso. Assim ela não perde o ritmo da turma.
Antes que Jacob respondesse, Seth apareceu de novo por trás de uma caminhonete, claramente curioso com a situação.
Ele apoiou o ombro na lateral do carro e olhou para mim com aquele mesmo sorriso provocador.
– Espera aí… então você vai vir aqui todo dia?
Levantei os olhos para ele.
– Não exatamente todo dia.
– Mas várias vezes?
Ele parecia genuinamente interessado.
Jacob não deu tempo para a conversa crescer.
– Seth.
O tom foi seco o suficiente para interromper qualquer outra pergunta.
– Vai terminar aquele motor.
Seth levantou as mãos em rendição.
– Tá bom, chefe.
Ele ainda olhou para mim antes de se afastar.
– Foi um prazer conhecer você, professora.
– Igualmente – respondi, rindo.
Assim que Seth se afastou, Jacob voltou a olhar para mim.
Houve um pequeno silêncio antes dele falar novamente.
– Nesse caso…
Ele olhou para Ayla e depois para mim.
– Acho melhor ela estudar em casa.
Inclinei um pouco a cabeça.
– Não vai atrapalhar seu trabalho?
Olhei ao redor da oficina cheia de ferramentas e carros desmontados.
– Quero dizer… eu não quero interferir na rotina de vocês.
Jacob deu um pequeno sorriso e apontou com o polegar para o fundo da oficina, onde Seth já estava mergulhado novamente dentro do motor da caminhonete.
– Seth pode tomar conta da oficina por um tempo.
Ayla levantou os braços imediatamente.
– EBA!
A menina parecia ter acabado de ganhar o melhor castigo do mundo.
– Aula com a Nessie!
Eu não consegui evitar o sorriso.
Olhei para Jacob por um momento.
– Espero que você não se arrependa disso.
Ele deu de ombros com tranquilidade.
– Vamos descobrir.
Narrado por Jacob
Quando saímos da oficina e caminhamos até a casa, que ficava logo atrás do galpão, eu já estava pensando no estado da cozinha. Não era exatamente uma zona de desastre, mas também não era o tipo de lugar que eu esperava mostrar para alguém que eu mal conhecia, muito menos para a professora da minha filha.
Abri a porta e fiz um gesto para que elas entrassem primeiro.
– Só… não repara na bagunça.
A frase saiu meio automática enquanto eu passava a mão pela nuca.
Renesmee entrou olhando em volta com curiosidade, mas sem aquela expressão crítica que muita gente faz quando entra na casa de outra pessoa.
Ela apenas sorriu de leve.
– Não se preocupe com isso.
O sorriso dela era tímido, mas sincero o suficiente para me deixar um pouco menos constrangido.
A sala era simples. Um sofá grande que já tinha visto dias melhores, uma estante com algumas ferramentas e peças que eu tinha trazido da oficina e, mais ao fundo, a cozinha aberta com a mesa de madeira que eu e Ayla usávamos para praticamente tudo.
– Eu vou pegar minha mochila! – Ayla anunciou de repente.
Antes que eu respondesse, ela já estava correndo pelo corredor em direção ao quarto.
Observei a menina desaparecer e então voltei minha atenção para a mesa.
Ainda havia duas canecas e um prato com restos de torrada do café da manhã que eu tinha prometido a mim mesmo que lavaria antes de sair.
Suspirei.
– Um segundo.
Peguei as canecas e o prato enquanto falava.
– Vocês podem usar a mesa.
Renesmee soltou uma risada baixa, quase como se estivesse tentando não fazer barulho.
Quando olhei para ela, vi que estava me observando enquanto eu juntava as louças.
– O quê? – perguntei.
– Nada.
Ela ainda sorria.
Levei as coisas até a pia, mas antes que eu pudesse voltar para a mesa senti alguém se aproximando.
Quando virei, ela já estava ao meu lado.
– Deixa eu ajudar.
– Não precisa.
Mesmo assim ela pegou uma das canecas da minha mão.
– Eu não me importo.
Acabei cedendo com um pequeno gesto de cabeça.
– Obrigado.
Ela colocou as louças dentro da pia com cuidado e abriu a torneira por reflexo, como se já estivesse acostumada a ajudar em cozinhas que não eram dela.
Enquanto fazia isso, perguntou de forma natural:
– Você mora aqui só com a Ayla?
A pergunta não tinha curiosidade invasiva. Era mais uma conversa normal de quem estava tentando conhecer melhor a realidade de uma aluna.
Apoiei o quadril no balcão da pia antes de responder.
– Sim.
Ela levantou os olhos para mim.
– Só nós dois.
– Entendi.
Houve um pequeno silêncio confortável enquanto ela fechava a torneira.
Nesse momento ouvimos passos rápidos no corredor.
– EU VOLTEI!
Ayla apareceu na cozinha segurando a mochila com as duas mãos como se fosse um troféu.
– Trouxe tudo!
Ela colocou a mochila sobre a mesa com entusiasmo e já começou a abrir o zíper.
Balancei a cabeça, rindo um pouco da empolgação dela.
– Calma.
Olhei para as duas.
– Eu vou preparar um lanche primeiro.
Renesmee assentiu imediatamente.
– Obrigada.
Ela caminhou até a mesa e puxou uma cadeira, sentando ao lado de Ayla enquanto a menina já espalhava cadernos e lápis pela madeira.
Fiquei alguns segundos observando a cena enquanto pegava pão e algumas coisas da geladeira.
Minha filha estava completamente animada, falando sem parar enquanto mostrava os materiais para a professora.
E Renesmee escutava com atenção, inclinada um pouco na direção dela, com aquele sorriso tranquilo que parecia deixar Ayla ainda mais confortável.
Por um momento, a cozinha da minha casa pareceu um pouco mais cheia do que de costume.
E, estranhamente, isso não parecia algo ruim.
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