Uma história qualquer... Ou não.
4 Capítulo 4
Eu não suportava mais ficar deitada naquela cama, sendo tratada como uma criança. Confesso que no começo foi bom ser paparicada, mas já faziam 4 dias que eu não podia nem respirar mais fundo que já vinha alguém perguntar se estava tudo bem, se eu estava com dor, com frio, com fome, com queda de cabelo (Sim, a Sofia chegou a perguntar isso). A Júlia e o Serguei vieram me ver logo que eu cheguei do hospital. Claro que a Flaviana veio junto né, e então ela e a Sofia ficaram fofocando no quarto e eu não consegui falar sobre o desenho com os meus amigos. O Ben tentava ficar o máximo possível comigo, mas ele tinha que ir pro colégio e tinha conseguido o emprego de volta, depois que a Sofia assumiu que armou contra ele. Ou seja, ele passava em casa a noite, antes de ir pro quartinho do Omar. Eu passava o dia todo olhando pro meu pé e desejando que ele cicatrizasse logo. Estava ficando louca com tanto tempo vago. Os pensamentos que ocorrem nas cabeças vazias nunca são bons, e os meus tinham diversos motivos pra ser péssimos.
Eu acordei junto com todo mundo e decidi que não ia mais ficar o dia inteiro naquele quarto porque eu já não tinha mais nem manchas para decorar. Sabia exatamente onde estava cada uma em cada parede, lembrava de cada pedaço de tinta que estava descascando da janela e de cada furo que o rejunte do taco possuía. Claro que ninguém me deixaria ir para o colégio. Também não sei se meu pé aguentaria, ele inchava gratuitamente, sozinho, mesmo ficando o dia todo com ele quase no teto, tamanha era a pilha de travesseiros que arrumaram para meu “conforto”. Mesmo que não pudesse sair de casa, ia pelo menos passar o dia na sala, vendo o movimento do casarão. A parte mais divertida de morar nele é justamente essa. Sempre há um buzz aqui. Todo mundo se sente super a vontade pra vir falar com qualquer um da família, e por isso essa casa raramente esta vazia. Mas nada disso ocorre no meu quarto. Assim que a Sofia levantou da cama pedi que ela me ajudasse a levantar.
– Anita, você surtou? Você não vai pro colégio. Olha esse pé como ta.
– Eu não vou pro colégio Sofia. Só quero ficar la em baixo. Me ajuda vai.
– Eu não acredito que você pode ficar o dia todo na cama e quer acordar cedo. O mundo é tão injusto.
– Ai Giovana, fica quieta senão você vai ver o que é injusto aqui.
– Nossa Sofia já acordou de mal humor. Calma lá SoFria.
– Giovana volta aqui. Do que você me chamou?
– EI! SERÁ QUE DA PRAS DUAS PARAREM E ME AJUDAREM?
– Foi mal Anita. É que essa loira oxigenada me tira do sério.
– Vai Anita. Levanta aqui que eu e meus belos cachos te ajudamos.
Era tão bom poder ver a correria do dia-a-dia de novo. Claro que o sofá não era confortável como a minha cama e que meu pé assim que chegou a menos de um metro do chão começou a latejar mas não me importava, eu estava com saudade da minha família. Eles me paparicavam mas nunca ficavam lá. Entravam com a comida e corriam para baixo para almoçar. E ai normalmente quem era o responsável pela louça do dia gritava pra que alguém pegasse logo meu prato, senão ia ficar pro próximo, que entrava correndo pegava a bandeja e saia correndo. Algumas vezes, quando a Sofia era a que entrava pra recolher, até levava tudo antes que eu sequer tivesse acabado de comer. Mesmo com as costas tortas pela deformação que se criou no sofá quando a tia Lu dormiu la, eu estava aproveitando aquilo. Minha mãe correndo de um lado pro outro enquanto o Vitor reclamava que a Giovana tinha acabado com o ovo e o Pedro falava repetidamente pro Ronaldo que o Ben nunca mais tinha ido fazer French Toast no café da manhã. Obvio que a Sofia logo começou um discurso sobre as calorias do tradicional prato americano, o que gerou uma discussão que só teve fim quando o Fred entrou e avisou que estava indo pro colégio e todos foram atrás porque a essa altura já estavam super atrasados. Minha mãe saiu junto com eles mas não sem antes fazer um milhão de recomendações e dizer que eu deveria ligar se algo acontecesse. Foram mais de dez minutos de discurso antes que ela fosse rumo ao galpão enquanto o Ronaldo ia para o Embaixada. Parece que a manhã seria só minha de novo. Eu liguei a TV e fiquei ali assistindo desenhos. Acabei pegando no sono. Acordei com algo literalmente aterrizando na minha perna.
Alguém havia lançado um aviãozinho de papel pela janela. Senti um frio na espinha que me arrepiou de cima a baixo. Antes mesmo de abrir eu tinha certeza qual seria o conteúdo. Era a mesma folha do desenho que eu havia encontrado em meu caderno. Abri o avião com cuidado e na minha frente foi se revelando aqueles mesmos traços que eram tão característicos Dele. Depois da explosão da cabana eu passei a ter medo de falar o nome Dele, acho que vi muitos filmes de Harry Potter e acabei ficando um tanto quanto atormentada, mas eu não me importava. Continuaria sem falar aquele nome, com medo que pudesse atrair ele de novo e se tinha uma única coisa que eu realmente queria era distancia daquele que um dia me fez sofrer tanto, distancia daquele que foi o responsável pela destruição da minha felicidade e pelo fim do meu sonho de que um paraíso poderia existir. Conforme eu fui abrindo o papel e o desenho ia ficando mais claro e nítido para os meus olhos, eu comecei a perceber que aquele desenho era e não era o mesmo do outro. Ainda era algo pegando fogo e alguém caído, mas dessa vez não era a cabana e não era o Hernandez. Minha respiração foi ficando ofegante e meu coração ia disparando cada vez mais. Quanto mais eu percebia que aquele desenho mostrava o Ben caído em meio ao fogo mais descontrolada eu ficava. Eu amassei o desenho com raiva e o joguei longe. Como num instinto eu encolhi meus ombros e fui escorregando no sofá. Agarrei uma almofada e a abracei o mais forte que conseguia na tentativa de que a dor que eu sentia no peito fosse embora, porém o que ocorreu foi exatamente o inverso. Parecia que alguém havia arrancado meu coração do peito sem nenhuma piedade. Era mais do que eu podia aguentar, era muito mais. Eu me encolhi cada vez mais. Eu sentia as lagrimas se formarem e meu olhos se encherem a ponto delas começarem a cair e depois da primeira elas não pararam mais de cair, o tempo entre elas só diminuía e de repente eu percebi que estava as prantos.
Não sei muito bem quando o Ben entrou, mas foi nessa hora que eu o vi. Ele segurava o desenho que eu tinha jogado e ele deve ter pego quando entrou porque o papel estava todo engruvinhado e com as marcas do meu ódio. Ele olhava para o papel e tentava entender o que aquilo significava. Como numa tentativa de tentar engana-lo, rapidamente peguei a manga da blusa que eu estava vestindo e enxuguei as lágrimas que escorriam sem parar e gelavam meu rosto que pela temperatura deveria estar vermelho. Vi quando o Ben tirou os olhos do papel e ao poucos levantou a cabeça olhando para minha direção. Eu via nos olhos dele que algo estava errado, a começar pelo horário, afinal era a metade da manhã e o Ben deveria estar no colégio. Mas era mais do que isso. Aquele desenho tinha mudado alguma coisa nele e isso eu não podia perdoar. Quando aquele louco psicopata mexia comigo, eu podia aceitar e ficar quieta, talvez um dia até o perdoasse se ele assumisse que estava doente, mas mexer com o Ben era imperdoável, e ali mesmo manca, machucada, triste eu puis na cabeça que acabaria com a vida dele, porque ninguém mexe com o meu príncipe e sai imune. Não sei se algo me denunciou mas assim que o Ben finalmente conseguiu levantar a cabeça e me olhar nos olhos vi nos dele um sentimento de desespero, como se nós dois fossemos nos perder um do outro logo.
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