Tudo começou a muito, muito tempo. Mais tempo do que qualquer um se importou em contar.

Um povo primitivo que, como todo povo primitivo, se considerava o que há de mais avançado, viu um coco cair. Não seria um evento digno de nota em nenhum outro dia, mas naquele dia foi. Porque aquele coco, concluiu o povo, era a verdade.

Um altar foi construído e o coco-verdade foi aclamado como apenas a verdade podia ser.

A vida seguiu boa e monótona até que, num dia tão belo quanto qualquer outro, o povo se encontrou com outro povo. Foi um encontro esquisito, dois povos que não tinham nada em comum e, mesmo assim, eram tão parecidos.

Mesmo não dividindo uma língua, os povos conseguiram, enfim, se comunicar.

O que, é claro, apenas acentuou as diferenças e a antipatia generalizada. Ambos os povos concordavam que gostavam mais dos outros quando não entendiam uma palavra do que diziam.

O maior problema, veja só, é que o povo que chegou tinha na cor azul a verdade. Todos sabiam que a verdade era azul, porque foi assim desde que o mundo é mundo, e como aqueles hereges primitivos se atreviam a reverenciar um coco? Justo um coco? algo que às vezes é verde, às vezes é marrom, mas nunca é azul!

Toda e qualquer amizade que poderia ser fingida entre os povos morreu quando o altar do coco-verdade foi destruído.

Como aqueles bárbaros estúpidos se atreviam a destruir o coco-verdade?!

Os dois povos, que tinham em comum a soberba, sabiam que estavam certos, porque eram o povo mais avançado e civilizado existente.

Então, como qualquer povo civilizado e avançado, era dever deles levar a civilidade aos povos menos privilegiados. E que modo melhor de fazer isso que uma guerra?

Cada lado pegou seus melhores guerreiros e suas armas mais mortíferas, dispostos a ir até o fim para proteger a sagrada verdade.

Milhares de anos passaram, indiferentes.

Os descendentes do grande povo civilizado, aquele que venceu a guerra, seguiam suas vidas com a verdade.

Eles eram inteligentes o bastante para não falar com quem pensava diferente, um bom modo de evitar recair na guerra. No fim, eles sabiam que era burrice falar com pessoas tão estúpidas que não conseguem nem ver a óbvia verdade.

E a verdade, obviamente, era a cor vermelha.

Cultuada pelos descendentes dos guerreiros mais ávidos do passado que, em toda a sua honra, se deram conta: "se estou lutando pela verdade e manchando o chão de vermelho, a verdade é vermelha".

A não ser que você vá mais para o sul. Lá, todos sabem, a verdade está nas flores.

Como podia não estar, se seus tão nobres ancestrais abdicaram do coco para vencer a guerra com flores venenosas? Eles sim, tinham honra, não aqueles sanguinolentos bárbaros que só sabiam massacrar quem pensava diferente.

Mais a oeste o culto do coco vive. Claro, seus seguidores estão cada vez mais escassos e a grande questão do coco verde contra o coco marrom permanece, mas eles ainda são um povo. E, é claro, vão ter sucesso, porque acreditam na verdade, e quem venera a verdade é sempre recompensado.

Ninguém gosta daqueles fracassados delirantes do leste, com sua verdade maculada, febril e distorcida, então não falaremos deles.

O tempo ainda passa indiferente.

No sul, os hereges que adoravam as flores foram queimados em praça pública. Como se atrevem a cultuar meras flores supérfluas, quando a verdade está e sempre esteve no veneno? O único motivo dos ignorantes no passado cultuarem as flores, era por serem venenosas.

E aqueles que esquecessem disso em prol de algo que é meramente bonito, apenas um enfeite, um ornamento de pétalas, deveriam pagar o preço.

No fim, a verdade-veneno não perdoava floristas.

E seus seguidores, os lúcidos e coerentes, sabiam o que deviam fazer. Se você renega a verdade por algo tão fútil quanto uma flor mentirosa, não importa se é um irmão ou um inimigo, deve queimar.

Felizmente, os fugitivos das flores acharam refúgio no oeste. Seus filhos foram educados para serem pessoas civilizadas, diferente daqueles loucos envenenadores. Eles cresciam com a moral e os bons costumes: a verdade é a flor do coqueiro.

Pode não ser a mais bonita, mas é a verdade, e não se questiona a verdade.

Mas as flores do coqueiro são amareladas, não vermelhas. Como descendentes da flor-verdade, queimada em praça pública, e do coco-verdade, esquecido após uma grande guerra, os adoradores da flor de coqueiro, seguidores da verdadeira verdade, sabiam o que deviam fazer.

Porque aqueles bárbaros vão sempre tentar se livrar da verdade, invejosos daqueles que a seguem. E o povo do norte não passava de bárbaros sanguinários, exatamente como aqueles ignorantes primitivos antes deles.

Não havia dúvida, precisavam destruí-los antes que fossem destruídos por eles.

Tudo vale a pena pela verdade.

O povo do norte não esperava o ataque. Como poderiam? Sequer tinham relações com aquele povo.

Um dia, eles teriam resistido. Seus ancestrais, nobres guerreiros, não deixariam aquela afronta barata.

Mas a verdade já não estava no sangue, estava no vermelho-vivo das rosas.

O novo povo do norte era de jardineiros, não de lutadores. Talvez o novo povo do oeste os deixasse em paz se soubesse. Afinal, eles não eram tão diferentes de seus ancestrais ingênuos que cultuavam as flores.

Mas eles não sabiam. Não souberam. Nunca saberiam. E a verdade-vermelha, digna de seu nome, foi afogada no mesmo vermelho que a originou.

Ei, mas vejam só, aqueles irracionais do leste estão fazendo outra de suas loucuras.

Os séculos passam sem se importar.

Não dá mais para ignorar. Tudo está conectado.

E isso não é só uma metáfora bonita. É literal! Todo mundo e todos os lugares estão conectados a todo o tempo de todas as maneiras.

Os tolos delirantes do leste inventaram essas coisas. Essas coisas esquisitas cheias de cabos e que domam os raios, usando-os numa coisa que eles chamaram de "corrente elétrica".

Essas coisas, que pareciam tão esquisitas e hereges quando criadas, eram agora essenciais. Todas as verdades, aquela verdadeira mesmo e as falsas também, deram um jeito de encaixar as telas brilhantes e sinais eletrônicos em suas doutrinas.

Você não pode viver sem estar conectado.

Você não pode respirar sem estar conectado.

Você não está vivo se não está conectado.

Mas isso seria tão mais fácil se esse bando de irracionais parasse de gritar aos quatro ventos suas verdades profanas.

Porque agora, sem poder ignorar nada e ninguém, tudo era verdade.

E, se tudo era verdade, nada era verdade.

Isso não foi tudo que os do leste fizeram. Eles conseguiram manchar toda a verdade pura e bela com suas mentiras distorcidas.

Porque os do leste, diferente dos puro-sangue do passado, sempre foram um bando de vira-latas. Suas verdades eram tão débeis que sequer geravam qualquer tipo de tradição. Era um povo sem verdade e com milhares de verdades. Era um povo historicamente louco.

E a loucura se disseminou com seus cabos e fios e sinais e ondas e receptores.

A tradição dos outros grupos tenta e tenta segurar seus bons e nobres fiéis, manter essa distorção irracional fora de suas cabeças. Mas por quanto tempo vão conseguir?

A título de curiosidade, uma das vertentes distorcidas dos do leste tem o tempo como verdade. Porque a verdade deve ser fria, indiferente e imutável, como o próprio tempo.

Mas outra vertente diz que mesmo o tempo é mutável e parcial, então não se sabe.

Seja como for, o tempo passa.

Algo incrível aconteceu. Provavelmente a coisa mais incrível desde que aquele coco caiu, tanto tempo atrás.

Três pessoas, simultaneamente, descobriram a verdade.

Sim, aquela verdade, a verdade verdadeira.

Infelizmente, uma morreu pouco depois. Não foi assassinada nem nada — era um bebê — morreu por complicações naturais. Suas cordas vocais, assim como seu cérebro, não eram maduros o bastante para passar aquela informação adiante, então ele se foi apenas com aquela leveza interna de saber, realmente saber, a verdade.

Outro era um grande estudioso que dedicou sua vida para chegar a esse momento. Ele descobriu o que tanto queria. Foi desacreditado e considerado um velho gagá por todos que o rodeavam e, quando faleceu, anos depois, o fez com um misto do sublime e simples saber por saber, que levou o bebê, com uma tristeza inerente por aqueles que não o levaram a sério... Basicamente, toda a humanidade.

Mas a verdade continuava por aí. Ela era palpável e metafísica e colorida e monocromática e binária e múltipla e tudo e nada.

A terceira pessoa, você pergunta? Bem, nada emocionante... Um meio termo entre o bebê sereno e o velho desacreditado. Uma pessoa jovem que fez com a informação o que achou melhor.

Os outros também fizeram o que acharam melhor. Nada que alguns antipsicóticos e um pouco de terapia não resolvesse. Afinal, aquilo não era a verdade. Não podia ser.

E, se não pode ser, não é, simples assim.

Mas o tempo passa; os povos se unem e se separam; as verdades se misturam, complementam, envenenam, mudam, retornam; as sociedades progridem e regridem e param para descansar; as vírgulas viram ponto e vírgula pelo mero toque de pedantismo; as coisas seguem, sem rumo, sem preocupações, mas com muita história.

Uma pessoa entediada, como muitas outras entediadas ou não, escreve sobre a verdade que desconhece.

Outra pessoa, com suas próprias verdades e incertezas, lê.

A dialética disso com certeza não é a verdade.

Mas pode ser uma verdade.

Mas, ei, você não acha que eu estou falando a verdade, acha?

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