Uma estrangeira em sua própria vida
1 Uma estrangeira em sua própria vida
Notas iniciais
A vida é como um carrossel, tem altos e baixos, gira entorno de um eixo, que representa sua vida e não nos permite descer até que ele pare, sendo para nós, um símbolo da morte. Os momentos são como o tão apreciado mar de Mersault do livro “O Estrangeiro”, dançam como as ondas que, sempre vem e vão, se dissipam em meio a espuma do esquecimento, ciclo eterno e belo que encanta aqueles com um olhar mais cauteloso.
Papai era um daqueles que guardava seus sentimentos para si mesmo a ponto de esquecer que eles existem. Já eu tornei-me a ter preguiça de senti-los, interpretá-los. Como Mersault que perdeu a ambição ao ser obrigado a largar os estudos, os sonhos de papai morreram ao tornar-se marinheiro, sonhava em ser um discípulo do grande poeta e musico e existencialista Jim Morrison. Porém, toda noite, o gélido marinheiro na qual as águas profundas congelaram seus sentimentos me dizia “A fraqueza da mente esconde o infinito de nós”, frase de Morrison. Mamãe tinha o apelido de Macabéa, queria ser a nova Marilyn Monroe e seu sorriso expressava ambição. Diziam-me que eu era parecida com ela, eu queria estudar literatura, mas com sua partida, ao ajudar a cavar o buraco para seu túmulo, cavei o meu junto. Minha ambição, meus sonhos, minhas vontades foram enterradas junto ao seu caixão.
Ignoramos perguntas existenciais pelo conforto de não ter que enfrentar a realidade. Qual o sentido de viver? Como Lana Del Rey disse uma vez “nós nascemos para morrer”. Em seguida tive “crises de Reymond”. Não era a Marie, o amor, a apaixonada, não era o velho do cachorro, inundado pela saudade, nem Mersault, o estrangeiro mas logo, voltei a Mersault. Bloqueei qualquer tipo de sentimento, me apaixonei pelo cômodo e as únicas necessidades que eu tinha eram físicas. Impetuosa e agoniante é a existência humana, somos os únicos com consciência de nossa existência, daí vem o existencialismo, tão presente em Albert Camus.
Tive um namorado que me perguntava se eu o amava, eu dizia que não, ele me pediu em casamento e eu lhe disse, se for isso que você deseja. Revoltou-se com meus “tanto faz” e enquanto ele gritava comigo para que reagisse, balançando o revolver ao ritmo das ondas (estávamos na praia), pensei: Por que não? E sem sequer raciocinar atirei novamente como Mersault “um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça”.
Atrás das grades, a caminho da morte, cantarolei uma crença minha “Nada realmente importa, qualquer um pode ver, mesmo assim o vento sopra” Bohemian Rhapsody, do Queen. Escrevi uma carta que citava Morrison “pálida e sensacionalmente travessa chega a morte, numa hora estranha não anunciada, não planejada como um aterrador convidado amigável que tu trouxeste para a cama” Em minha epifania final percebi que cometera um erro fatal, Mersault não era alguém a seguir, mas sim estudar. E pela ultima vez, pensei “Se exponha aos seus medos mais profundos, depois disso o medo não tem poder, ele encolhe e desaparece. Você é livre.”
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