130 dias antes.

Marina estranhava o comportamento de Rafaela e Luana, elas não costumavam esconder nada dela mas parecia que havia algo errado no ar. Depois da festa, a loira de olhos cinzentos pediu que passassem a evitar Tiago e não quis explicar o porquê. Rafa apenas ficava calada com uma expressão estranha. Marina acabou desistindo de fazer perguntas e concordou em evitar o garoto, por mais curiosa que ela estivesse.

Mas, quando estavam sentadas no chão do corredor esperando bater o sinal para a próxima aula, viram Tiago caminhar determinado na direção das três amigas.

—Luana... – Rafa olhou para a loira desconcertada.

—Calma – Luana lançou um sorriso tranquilizador para a amiga, Marina olhou as duas sem entender nada –Você não precisa ter medo, eu vou estar aqui olhando.

Rafaela olhou para a amiga com nervosismo e encarou o garoto que se aproximava.

—Queria muito falar com você, sozinho – ele falou rispidamente.

A garota levantou e foi com ele para o canto do corredor sob o olhar atento de Luana.

***

—Ok, o que aconteceu nessa festa? – Marina perguntou confusa – Por que você disse que ela não precisava ter medo, que você ia ficar olhando?

—Porque somos garotas e se não formos fortes o suficiente o mundo inteiro vai se aproveitar para nos colocar pra baixo... – Luana se limitou a poucas palavras enquanto observava a amiga e o garoto de longe.

—Quer dizer que ele tentou se aproveitar dela? – Marina indagou.

—Não é meu segredo – a loira de olhos cinzentos continuou séria –Não cabe a mim contar.

Marina suspirou e olhou com curiosidade para os dois que conversavam.

***

—Você disse alguma coisa pra alguém? – o garoto perguntou apreensivo –Olha, eu não fiz nada de errado e não sei como você entendeu o que aconteceu...

—Escuta aqui – ela o interrompeu e fez Tiago a encarar surpreso –Se você tentar alguma coisa comigo de novo, todo mundo vai saber do que você fez. E acho bom não fazer com nenhuma outra garota também...

Tiago a encarou por alguns segundos antes de confessar:

—Guilherme tem razão. Todas vocês estão ficando iguaizinhas à Luana...

—Melhor do que ser igual a você – Rafa completou e deu as costas para o rapaz, indo ao encontro das duas amigas.

***

129 dias antes.

Luana dormia sobre a mesa, Marina mandava mensagens de texto para Guilherme e Rafaela apenas se limitava a olhar pela janela enquanto o professor dava uma aula extremamente desinteressante de Filosofia. Era uma matéria ótima, mas o professor parecia não fazer o menor esforço para captar a atenção dos alunos por isso a maior parte da classe estava ocupada em fazer outra coisa. Tinha até um garoto fazendo sanduiche nos fundos da sala!

Rafaela estranhava a tranquilidade que parecia tomar conta da escola, até mesmo Luana não estava se metendo em confusão nos últimos dias o que indicava duas possibilidades: ou a amiga estava planejando alguma coisa, o que não parecia ser o caso pois ela ficava agitada como uma criança com um brinquedo novo, ou alguma coisa estava vindo de encontro à elas.

O supervisor entrou na sala de aula para falar com o professor e todos se endireitaram imediatamente. Rafa riu quando Marina jogou uma borracha para acordar Luana e ela deu um pulo na cadeira, arregalando os olhos ao ver o supervisor. Todos procuraram fazer silêncio para escutar o que ele falava.

—... dar um tempo pra ele se adaptar por ser um aluno novo. É só apresentar ele à turma e arrumar um lugar pra ele se sentar – o funcionário da escola disse e saiu sem falar com a turma.

Um garoto entrou na sala e o queixo de todas as garotas pareceu cair. Ele era alto e tinha braços fortes, o cabelo liso era pintado de um loiro praticamente branco, seus olhos eram pretos como a cor da jaqueta que usava, tinha uma cicatriz no pescoço que sumia debaixo da camisa e possuía um olhar de quem é dono do mundo.

O professor tocou o ombro do rapaz, se sentindo bastante intimidado por toda a energia que parecia emanar dele, e disse:

—Pessoal, esse é o Eli. Espero que vocês recebam bem esse rapaz...

Ele lançou um olhar ao professor como se dissesse: “não quero que ninguém fique me paparicando”, mas logo sumiu do seu rosto. O professor indicou uma cadeira atrás de Luana e ele foi até lá.

Seu olhar encontrou o de Luana por um instante, os dois riram e ele se sentou.

Rafa queria perguntar de onde ela o conhecia mas teve que esperar até o fim da aula.

***

—E aquele novato, hein? – Marina perguntou pra Luana.

As duas a encararam, a loira as olhou confusa.

—O que foi?

—Vimos que ele riu pra você quando se olharam – respondeu Rafaela tentando disfarçar o ciúme que sentia –De onde vocês se conhecem?

Luana riu.

—Vocês acham que eu tive um caso com ele? – a loira riu mais alto ainda diante do silêncio das duas amigas –Meu Deus, vocês sabem que eu gosto de garotos burros e que podem ser enganados. Nunca iria querer nada com alguém inteligente como o Eli... Podem ficar tranquilas que eu não vou disputar esse com vocês.

—Eu tenho namorado, querida – Marina disse rindo.

—Isso não é problema pra ele – Luana respondeu –Mas já que você prefere o Guilherme, Rafa pode se aproveitar um pouco dele...

—Não, obrigada.

—Ele é um cara legal – Luana comentou –Me salvou de muitos problemas em algumas festas. É um bom amigo, podemos transformar ele no nosso amigo gay mas sem a parte de ser gay de verdade...

—Ele é bonito demais pra fazermos isso... – Marina falou mas ficou com vergonha na mesma hora quando Luana e Rafaela começaram a gritar que nem duas retardadas.

—Pelo menos ele tem carteira de motorista – Luana disse depois de pararem as provocações –Não vamos mais precisar nos esconder quando andarmos por aí e a polícia aparecer atrás da gente...

—Ei, isso só aconteceu uma vez – Rafa disse recebendo risadas das duas como resposta.

***

126 dias antes.

Rafaela fazia o caminho de volta para casa a pé. Ela se despedira das meninas a alguns minutos dizendo que queria fazer uma caminhada, elas se ofereceram para ir junto mas a garota recusou firmemente. Ela olhava para o céu sem nuvens e se sentiu feliz por ter feito isso, gostava de ter um tempo para si mesma. Os pássaros até mesmo pareciam cantar de um jeito diferente.

Rafa foi tomada pela mesma sensação que sentira na sala de aula no dia anterior, parecia que alguma coisa estava para acontecer. Ela queria desesperadamente se livrar desse medo que fazia seu estômago se revirar.

—Eu queria muito conversar com você, apesar do que você disse naquele dia – ela se virou assustada ao ouvir a voz de Tiago.

—Não tenho nada pra falar com você – Rafa respondeu e caminhou mais depressa.

—Não é mais tão corajosa quando não tem a Luana por perto, não é? – ele apressou o passo junto com ela.

—Isso não tem nada a ver com ela – Rafa se virou furiosa –E sim comigo! Eu não quero falar com você, não tem nada que eu queira de você! Por que não entende isso?

Ele a segurou com força pelo braço.

—Eu estou pedindo uma segunda chance, a maioria dos caras não se humilharia desse jeito mas eu estou aqui fazendo isso! – ele gritou bem perto do rosto dela mas a garota não se intimidou.

—Se humilhar? E o quanto você me humilhou? Me jogando pra fora daquele quarto com a blusa fora do lugar? Tentando me deixar bêbada pra fazer o que quisesse comigo? Acha que um pedido de desculpas vai me fazer ter alguma coisa com você?! Desculpas é o mínimo que você me deve, isso não me impressiona...

Ele a puxou com mais força mas uma voz fez os dois congelarem.

—Não é assim que se consegue uma garota. Geralmente você paga um cinema, diz o quanto ela é linda, leva ela em casa em segurança... Alguém te ensinou as coisas do jeito errado, cara – Rafa deu de cara com aqueles cabelos brancos lisos e os olhos negros sérios. Tinha um carro estacionado no acostamento, eles deveriam estar tão distraídos brigando que não viram o garoto encostar.

—Isso não é problema seu, novato! – Tiago reclamou com raiva.

—Poderia ser minha mãe, minha irmã... Eu diria que é problema meu sim – Eli se aproximou e Tiago soltou o braço de Rafaela, ele quase parecia assustado ao encarar o garoto de cabelos platinados.

—A gente conversa depois, Rafaela – Tiago cravou os olhos em Eli –Quando não tiver ninguém para interromper...

E deu as costas, indo embora.

Eli encarou a garota com uma expressão indiferente.

—Quer uma carona? – ele perguntou casualmente como se os dois se conhecessem há anos. Havia algo de intimidador nele, era como se fosse uma versão masculina de Luana mas, Rafa pensou, todas as pessoas com quem a Luana andava fora da escola deviam ser parecidas com ela.

—Não precisa...

—Eu entendo – ele disse se aproximando –Quem garante que eu não sou tão ruim quanto aquele cara?

—Não quis dizer isso – ela se apressou em dizer –Luana confia em você e qualquer pessoa em quem ela confia eu sei que posso confiar...

—Sendo amiga dela, você sabe que ela é bem louca... – o garoto riu.

—Mas o julgamento dela é impecável – Eli concordou com a cabeça –Obrigada, por ter me ajudado. De verdade. E, pensando bem, eu aceito a carona, se não for pedir demais.

Eli foi em direção ao carro sem dizer uma palavra, Rafa o seguiu se sentindo estranhamente em paz.

***

—Ele simplesmente apareceu e me ajudou! – Rafa disse ao telefone com Marina e Luana –Tiago ficou se mijando de medo...

—Imagino – Luana riu –Daria tudo pra ver a cara desse imprestável...

—Uau! Esse garoto é bem estranho mesmo – Marina comentou curiosa –Ele apareceu do nada? E se ele estava te seguindo, Rafa?

—Não – ela se apressou em descartar essa possibilidade –Ele passa por aquele caminho pra ir trabalhar. Ele ajuda um conhecido em uma oficina às vezes. Não tem nada de errado com ele, só é amigo da Luana...

—Ei – a loira protestou no telefone mas logo as três estavam rindo como as idiotas que eram.

***

125 dias antes.

—Ai quando chegamos em casa e fui colocar ela pra dormir, Luana vomitou na minha cama – Eli contou fazendo as três rirem, até mesmo Luana. A loira tinha convidado o garoto para ir ao lago com elas depois da aula e ele aceitou empolgado.

—Isso é bem a sua cara mesmo – Rafa comentou vermelha de tanto rir.

—Ok, ok, foi a única vez que eu vomitei por causa de bebida. E eu tinha só 14 anos! Ainda estava começando a aprender a beber...

—Empolgadinha – Marina provocou.

—Eu não era! – Luana protestou.

—Empolgadinha... – Rafa disse baixinho mas a loira lançou uma cara feia para ela.

—Empolgadinha! – Eli gritou fazendo Luana rir.

—Vocês são terríveis! – ela disse –Aposto que vão fazer um clube secreto pra contar todas as vergonhas que já me viram passar.

—Não é uma má ideia – Eli disse olhando para as meninas –O que acham?

—Perfeito – Rafa concordou e Marina balançou a cabeça sorrindo.

—Como me arrependo de ter apresentado vocês... – Luana olhou para o lago com um sorriso no rosto.

As meninas e Eli a imitaram.

—Como descobriram esse lugar? É lindo...

—Devemos isso à Rafaela – Marina respondeu.

—Ela gosta de andar sozinha às vezes, como você já deve saber, e acabou topando com esse lugar. No dia seguinte nos chamou aqui e disse que seria nosso lugar para fugir do mundo. Pelo menos até outra pessoa encontrar e destruir isso aqui – Luana contou.

—Abençoada seja você, Rafa – Eli sorriu para a garota –Por ter nos encontrado um lugar para fugir do resto dessa cidade nojenta.

Os três levantaram copos imaginários e brindaram à ela.

—À Rafaela – Marina e Luana disseram juntas.

Rafa levantou seu copo imaginário e sorriu.