Uma dose violenta de qualquer coisa
11 Eu sou uma bagunça
117 dias antes.
—Eles podem fazer isso? Ela não está de licença médica ou algo do tipo?– Rafaela perguntou à Marina.
Rafa e Marina estavam sentadas no sofá da casa da loira enquanto Luana se apoiava na bancada da cozinha. O pai de Marina ainda estava no trabalho então ela decidiu trazer a correspondência pra dentro. Se surpreendeu ao ver um envelope endereçado à sua mãe, o remetente era o escritório onde ela trabalhava antes de ficar doente e tirar uma licença médica em razão da sua depressão. Curiosa, a garota abriu a carta e se deparou com a informação de que sua mãe fora demitida e receberia pensão por alguns meses, ela deveria arrumar um emprego mas a filha sabia que ela não tinha condições de trabalhar ainda.
—Não faço ideia... – a loira respondeu triste, as coisas ficavam cada vez mais difíceis para mãe e ela sentia como se não pudesse fazer nada.
—Cara – Luana se aproximou das duas –Seu pai é advogado, ele vai processar esses filhos da puta e eles vão ter que pagar vocês até o fim da existência humana.
Marina riu desanimada, ela perguntou:
—E como isso vai ajudar a curar a depressão da minha mãe? Vai trazer o filho que ela perdeu de volta? – ela fez uma pausa, sentia as lágrimas queimarem seus olhos mas se não falasse tudo agora corria o risco de engasgar com as próprias palavras –E quando o ano acabar e nós formos para São Paulo cursar uma universidade? Isso vai ajudar a tornar minha ausência mais suportável? Porque quanto mais o tempo passa, mais percebo que essa vida é cruel, sem sentido e injusta...
Ela se enterrou no sofá escondendo o rosto entre as mãos. Rafaela e Luana se olharam preocupadas. Luana sentou ao lado das amigas e começou a falar o mais calmamente que conseguia:
—A gente não precisa ficar no chão só porque levou uma queda – Marina a encarou, a visão embaçada pelas lágrimas –Quando sua mãe perceber isso, vai ficar tudo bem. Você tem que fazer ela entender. Você sempre faz todo mundo entender...
Rafaela encarou a amiga admirada, foi uma coisa bonita de se falar.
—Talvez ela nem se lembre que tem uma filha, talvez seja melhor eu ir embora mesmo. Aí ela e o papai podem tentar de novo sem eu ficar por perto pra incomodar – Marina secou as lágrimas e suspirou, ela estava exausta.
—É muito difícil esquecer que você é filha deles – Rafa comentou.
—Por quê? – Marina perguntou confusa.
—Porque você é um saco e só traz problemas – Luana respondeu antes de Rafa ter a chance de abrir a boca. As três amigas riram juntas.
—Olha – Rafa chamou a atenção delas novamente –É difícil esquecer que você é filha deles porque você é incrível. E você tem dois pais ótimos, não como eu e Luana... Quer dizer, eu fui abandonada quando nasci e a mãe da Luana é bem ausente, você sabe...
—Na verdade – Luana interrompeu a amiga –Acho que deveríamos matar a Marina e ficar com a família dela pra gente, Rafaela. Ela está aqui no sofá chorando quando deveria estar agradecendo por ter pais como esses. O que me diz? A gente some com o corpo dela e fica com o Sr. e Sra. Duarte. Ah, podemos dividir o namorado dela também...
—Eu odeio você! – Marina riu, ela se sentiu melhor mas ao mesmo tempo um pouco culpada. Sim, ela tinha pais ótimos e um namorado que a amava, não devia reclamar da vida que tinha. Por outro lado, Rafa tinha sido abandonada ao nascer e Luana sempre fora deixada sozinha por muito tempo. Quão egoísta ela era por reclamar tanto da sua vida quando as das suas amigas eram terríveis? –Vocês tem razão, eu deveria me esforçar mais por ela. Só queria dizer, se vocês realmente me matarem um dia, podem ficar com meus pais mas quero as duas longe do Guilherme...
—Pode deixar – Luana respondeu sorrindo –Mas você devia enfatizar isso pra Rafaela, ela é a piranha daqui...
As duas loiras encaram a outra garota com um sorriso no rosto. Rafa até tentou forçar uma expressão de raiva mas logo se viu sorrindo também.
***
Depois daquela tarde na casa de Marina, cada uma das meninas voltou para sua casa. Rafa, por exemplo, estava sentada na cama do seu quarto encarando a parede. Um milhão de coisas se passavam pela cabeça dela. Luciana bateu na porta e entrou, ficou parada na entrada do quarto ao ver a expressão no rosto da filha adotiva.
—O que foi, querida? Tem algo errado?
—Não é nada, só que... – Rafa sentia sua garganta fechar, nunca em quase 18 anos de vida tinha feito a pergunta que queria fazer nesse momento –Acha que a minha mãe pensa em mim? Quero dizer, a mãe que me abandonou, não você...
—Sei o que você quer dizer – Luciana sorriu e se sentou na beira da cama ao lado da garota –Se fosse eu que tivesse sido obrigada a abrir mão de algo tão maravilhoso quanto você, pensaria em você durante todos os segundos da minha vida.
Rafa sorriu apesar de ter os olhos cheios de lágrimas, Luciana continuou:
—Já te disse que podemos ir atrás dela se você quiser...
—Isso vai adiantar alguma coisa? – Rafaela perguntou entre soluços, ela sentia um peso enorme no seu peito, era como se ele quase doesse, de verdade –Ela me abandonou, fez sua escolha, não sou eu que vou atrás dela.
Luciana passou os braços pelos ombros da garota e a abraçou. Rafa encostou a cabeça na mulher que cuidou dela e se permitiu chorar, muito. Chorou tudo que vinha segurando há anos, toda a mágoa que sentia por ter sido deixada pra trás sem considerarem a possibilidade dela morrer ou sofrer, chorou por não saber nada sobre si mesma...
—Você vai ter que escolher – Luciana começou –Ou vai atrás da verdade e acaba com sua dúvida por mais doloroso que isso possa ser, ou deixa tudo isso pra trás e segue em frente.
Rafa olhou nos olhos de Luciana.
—O que vai ser? – a médica perguntou, ela estava apreensiva com a resposta da filha.
—Preciso decidir agora? – a garota perguntou.
—Não, querida, você tem todo o tempo do mundo – e a abraçou mais apertado.
A única coisa em que Rafa pensava era em Luana e em ir vê-la naquela mesma noite.
***
—Então é aqui onde você mora? – Marina perguntou sorrindo.
Ela estava no apartamento de Eli. Ela sentia como se estivesse fazendo algo de errado mas procurava repetir para si mesma que não havia nada demais naquilo. Eli ficou sabendo da situação com sua mãe, Luana não sabia segurar a língua mesmo, e disse que poderia ajuda-la. A loira ficou bem confusa, claro, mas curiosa pra saber o que o misterioso garoto de cabelos platinados iria fazer.
—Sim, não é tão místico quanto você imaginava? – ele brincou e foi em direção à cozinha.
—Talvez um pouco – ela respondeu rindo mas por dentro ela pensava em outra coisa. O apartamento com certeza era como ela imaginava. As persianas de cores fortes davam um ar escuro à tudo, os móveis, a decoração, a pintura, tudo era bem masculino e moderno. Definitivamente não era como ela imaginava a casa dele, achou que ia encontrar sacos de pancadas e sangue seco no chão. Mas era aconchegante e dava vontade de nunca ir embora dali... Afastou os pensamentos da sua cabeça rápido assim que Eli voltou com um bolo nas mãos.
—Aqui – ele sorria de um jeito engraçado, como uma criança empolgada com alguma brincadeira.
—Como um bolo vai curar a depressão da minha mãe? – Marina queria soar irônica mas se arrependeu ao dizer isso pois soara como uma megera.
—Não é o bolo que vai curá-la, é a filha dela levando um bolo... – ele respondeu ainda com aquele sorriso estranho no rosto.
—O que você quer dizer?
—Quero dizer que ela precisa de você, Marina – ele respondeu mas estava sério dessa vez –Não precisa que você faça coisas mas sim que você esteja lá.
A loira ficou calada por alguns minutos mas balançou a cabeça, pegou o bolo e deu um beijo na bochecha de Eli.
“Ok, eu definitivamente estou fazendo alguma coisa errada”, ela pensou ao sair do apartamento dele.
***
Luana encarava o teto furiosa. O pai tinha saído para uma consulta de rotina no hospital, ele tinha que fazer uma bateria de exames periodicamente para prevenir a volta do câncer. Sozinha em casa e sem nada pra fazer, ela decidiu fazer uma faxina e o que aconteceu foi que a estúpida da sua mãe abandonadora de lares deixou uma mensagem na secretária eletrônica confirmando ao seu pai que viria no fim de semana para conversar com ela.
Ela se sentia traída. Era como se o pai, que sempre fora tão transparente e honesto com ela, tivesse de repente mudado para o lado de sua mãe. Luana definitivamente não queria aceitar isso!
Ela se assustou quando escutou barulhos na sua janela, alguém estava jogando pedrinhas. Se fosse Gabriel de novo, ela decidiu que iria arrancar um pedaço da parede e simplesmente jogar na cabeça dele. Se surpreendeu ao ver que era Rafaela.
—A porta da frente está destrancada, meu pai saiu – Luana gritou lá de cima, a amiga apenas balançou a cabeça e deu a volta. A loira esperou deitada encarando o teto até ouvir os passos da amiga cada vez mais perto.
Rafaela ficou parada na porta, Luana estava a um segundo de perguntar que merda ela estava fazendo quando viu o rosto da garota marcado por lágrimas. Ela ia abrir a boca para falar algo mas Rafa a impediu:
—Eu tive um dia de merda, só quero que você esteja aqui... – a garota subiu na cama e deitou ao lado da loira –Acho que a situação da Marina meio que acordou os meus demônios...
—Os meus também – Luana riu –O meu se chama mamãe.
—O meu também – Rafa emendou –Mas o sobrenome é biológica, porque a adotiva é um anjo, e essa filha da puta insiste em não sair da minha vida mesmo sem nunca ter estado nela...
Luana se virou e encostou a testa no ombro de Rafa. Rafaela suspirou, o toque da amiga a acalmava.
—Quando foi que nós nos tornamos essa merda? – Rafa perguntou mas a essa altura ela perguntava mais para si mesma do que para Luana –O que deu errado com a gente?
—Pessoas, isso deu errado – Luana sussurrou, a respiração dela fazia cócegas na pele de Rafaela –As pessoas estão sempre fazendo coisas ruins com a gente, é por isso que nós duas somos tão parecidas. Você vê a Marina, por exemplo, pais ótimos, namorado ótimo, vida escolar ótima, tudo ótimo... Ninguém nunca a machucou de verdade.
Rafaela olhou para a amiga, fez a pergunta com cuidado:
—E quem foi que te machucou, Luana?
Ela pôde sentir a amiga paralisar, como se não esperasse por aquela pergunta, como se tivesse sido pega totalmente de surpresa. Rafa de repente entrou em alerta, se não perguntasse agora talvez nunca mais houvesse uma chance...
—Luana...
—Rafa, por favor... – a loira pediu enterrando o rosto nas roupas da amiga.
—Você já quis me contar coisas muitas vezes mas nunca teve coragem... Sabe que pode confiar em mim, eu nunca faria nada pra te expor. Me conta o que houve.
—Rafa... – Luana lutava contra o impulso de contar tudo, de cuspir as palavras de uma vez e tirar tudo aquilo que escondia do seu peito mas não teve coragem –Você não quer saber...
—Eu quero – Rafaela levantou o queixo de Luana e fez a loira olhar nos seus olhos, pela primeira vez aqueles olhos cinzentos não estavam intimidadores ou cruéis mas sim frágeis e a ponto de se desfazerem. Com o passar dos segundos, a garota percebeu outra coisa também...
Elas estavam tão perto uma da outra que Rafa conseguia sentir a respiração de Luana nos seus lábios. Ela nunca quis tanto beijá-la como naquele momento, por um segundo se lembrou do beijo inocente que elas deram mais novas e se perguntou se os lábios da amiga ainda seriam tão macios quanto se lembrava. Percebeu que Luana olhava para sua boca, como se pensasse a mesma coisa. Então nesse segundo, nesse segundo breve em que se encararam, tudo que as duas escondiam parecia transparecer mas nenhuma delas foi suficientemente esperta para captar a mensagem.
—Eu... – Luana não conseguia pensar, ela queria falar mas as palavras teimavam em não sair, a sua garganta começava a queimar. Ela suspirou, encostou a testa no queixo de Rafaela e começou a chorar –Não consigo. Me desculpa, eu não consigo...
Rafa estremeceu, era a primeira vez desde os 13 anos em que via Luana chorar. Por um instante não soube o que fazer então a abraçou o mais apertado que pôde e beijou sua testa.
—Tudo bem, Luana. Um dia você vai conseguir e eu vou estar aqui – ela disse contra a testa da amiga.
Luana tremia e soluçava como uma criança, o coração de Rafa doeu. Essa é a parte difícil de ver alguém tão forte e que você ama tanto desmoronar na sua frente, você fica sem ter ideia do que fazer.
***
Marina olhava para mãe com satisfação. Ela chegara em casa e correra para o quarto dela. Entregou o bolo e disse que era um presente. O sorriso da mãe foi tão gratificante que ela teve vontade de voltar no Eli e pedir para ele fazer outro mas assim que a euforia inicial passou, se sentiu culpada.
Tinham três chamadas não atendidas de Guilherme, ela não tinha coragem de falar com o namorado. Sentia-se suja, como se fosse a pior das pessoas e ainda assim tentava se convencer de que não fora nada demais, não fizeram nada...
Mas talvez a questão não fosse o que tinham feito ou deixado de fazer e sim o fato dela não saber se desejava ter feito algo.
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