95 dias antes.

Luana encarava o teto tentando se concentrar nas cores e formas que via, qualquer coisa para conseguir desacelerar seu pensamentos. Sentia que algo estava errado.

“Merda, merda, merda”, era tudo que conseguia pensar. Ouvia o barulho do pai na cozinha, provavelmente fazendo o café da manhã e isso fazia ela se sentir mais agitada. Tinha que se acalmar, tinha que parecer normal para ninguém suspeitar.

Levantou-se devagar, o coração batia forte dentro do seu peito e sentia ondas de calor se espalharem como se estivessem correndo junto com o sangue nas suas veias, era insuportável. Cambaleou até a sua escrivaninha e encheu a bolsa da escola com roupas e um pouco de dinheiro no lugar dos livros, não conseguiria assistir aula no estado em que estava então apenas fingiria que iria para a escola enquanto se encaminhava para a sua casa na árvore.

Desceu as escadas e respirou fundo. Foi até a cozinha com um sorriso no rosto, que deveria parecer extremamente forçado, e deu um beijo no rosto do pai.

—Já vou – ela disse se afastando o mais rápido possível na esperança de que ele não pudesse ver que havia algo estranho mas também desejando que enxergasse o que ela estava escondendo, que pudesse ajuda-la.

—Vá com cuidado – ele disse sorrindo e isso partiu o coração de Luana.

***

Marina esperava ansiosamente do lado de fora do consultório. O pai estava lá dentro conversando com o psiquiatra da mãe e Eli já tinha ido pra casa há muito tempo por insistência dela, não queria que ele continuasse tendo que lidar com um problema que não era seu. Seu celular não parava de tocar mas ela nem mesmo estendia a mão para atende-lo, sabia que era Guilherme e tinha problemas maiores para lidar no momento.

A porta se abriu de repente e o pai saiu com uma expressão que a garota não conseguiu decifrar, ela se levantou e chegou perto dele rapidamente.

—Então? – ela o encarou.

Ele suspirou e apontou para uma poltrona:

—Acho melhor a gente sentar – Marina o obedeceu sem dizer uma palavra, apenas esperava que ele falasse o que havia para ser falado –Bom, eles suspenderam o sedativo dela...

—Isso é bom, certo? – a loira perguntou, tinha alguma coisa no jeito que o pai falava que a estava deixando extremamente nervosa.

—Sim, mas... – Marina ficava cada vez mais apreensiva com a demora em falar o que precisava ser falado –O médico disse que ela está em um quadro psicótico e...

—Psicótico? – Marina não entendia direito o que isso significava mas não soava como uma coisa boa.

—Quer dizer que ela perdeu o contato com a realidade – ele parecia dizer cada palavra com cuidado –Sua mãe vai precisar de terapia e tratamento intensivo, vão transferi-la para outra ala e vamos poder visita-la de vez em quando mas pode levar umas semanas até...

Marina sentiu como se tivesse se desligado de tudo e não prestou mais atenção ao que o pai dizia, entendera o básico. Aparentemente, a mãe ficara totalmente louca e ia precisar ficar internada por bastante tempo ainda. Ela não conseguia se conformar com a sensação de impotência que sentia, queria imensamente poder fazer qualquer coisa...

—Eu quero ir pra casa agora – ela disse interrompendo o que quer que o pai estava falando, ele a encarou preocupado mas ela insistiu –Quero ir pra casa, estou exausta.

Ele sorriu tristemente, passou o braço pelos ombros da filha e caminharam juntos até a saída do hospital.

***

Rafaela saía sozinha da escola, era mais um dia letivo que chegara ao fim mas hoje parecia ser diferente. Marina e Luana não tinham aparecido na escola. Sabia que provavelmente Marina estava ocupada lidando com toda a situação com sua mãe mas Luana não dera nenhuma explicação, nem um sinal de vida. Tudo bem que a amiga fazia o que bem queria e gostava de sumir às vezes mas Rafa não pôde deixar de se sentir preocupada.

Continuou caminhando sozinha em direção à sua casa e estranhou quando viu dois carros parados na frente da sua casa. Um era de Luciana mas não tinha ideia de quem era o outro. De repente seus sentidos acordaram e teve medo de que algo terrível pudesse ter acontecido com alguém. Entrou em casa sentindo-se mais nervosa a cada instante que passava mas relaxou ao ver a mãe adotiva conversando com uma mulher na cozinha. Ambas a encararam quando ouviram a porta se abrir, a expressão delas era de surpresa absoluta.

—Mãe? Está tudo bem? – a garota se aproximou enquanto Luciana se levantava e a outra mulher a imitava, a mãe adotiva se aproximou e começou a falar calmamente.

—Rafa, você precisa conhecer alguém... – se virou para a mulher ao seu lado e continuou –Essa é Rita, a sua mãe biológica.

Rafaela sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

***

Luana estava deitada na cama improvisada da casa na árvore tentando se acalmar. As fotos nas paredes pareciam encará-la e julgá-la e os pássaros que passavam voando ao lado da pequena abertura por onde a escada encontrava o piso pareciam xingá-la de todos os nomes possíveis.

Puta.

Idiota.

Dramática.

Irresponsável.

Negligente.

Ignorante.

Insensível.

Manipuladora.

Ela só queria que isso parasse. Sabia o que era, sabia o que tinha feito e não precisava que todos ficassem a lembrando disso o tempo todo. Sentia vontade de ligar para Marina e Rafaela mas sabia que Marina estava ocupada com todas as coisas pelas quais a família dela estava passando e não queria incomodar Rafa mais uma vez com seus problemas, tinha medo de chateá-la e perder a única pessoa que nunca sentiu raiva dela por um momento sequer. O melhor que poderia fazer era desaparecer.

Não é à toa que sua mãe desapareceu depois do que aconteceu, não é?

Ela enterrou o rosto no colchão velho tentando afastar os pensamentos mas não parecia funcionar, nada nunca parecia funcionar pra ela e já estava ficando cansada disso.

Ficou com tanto nojo de você que te deixou. Seu pai também teria nojo se soubesse...

Não, ela não queria continuar revivendo essas lembranças mas como poderia esquecer? Como conseguiria esquecer o que a transformara na pessoa problemática e confusa que era hoje? Tinha que ter um jeito... Quem sabe se batesse a cabeça até estourar na parede conseguisse enfim controlar suas memórias e trancar aquelas indesejadas no fundo do seu cérebro.

Vai ter que encarar o que aconteceu um dia, tem que parar de fugir.

Enterrava o rosto cada vez mais fundo no colchão, até ficar difícil respirar mas nada dava certo. Nada nunca dava certo para Luana.

***

Marina escutou a campainha tocando mesmo estando em seu quarto e ficou quieta tentando escutar o que seu pai dizia a quem quer que estivesse na porta. Escutou passos vindo na direção do seu quarto e viu a cabeça do pai na porta.

—Guilherme está aqui... – ele disse com uma atitude indiferente, o pai não sabia de todos os problemas que eles vinham tendo.

—Pode mandar ele entrar – ela se sentou na cama e procurou parecer o mais estável possível mesmo se sentindo acabada por dentro. Quando Guilherme apareceu na sua frente, com uma expressão preocupada e triste, parecia muito com o garoto que namorava a algumas semanas atrás, o garoto gentil que nunca fazia nada de ruim pra ninguém. Isso fez o peito de Marina se apertar.

—Oi – ele se sentou na beira da cama, a garota reparou que ele procurava se manter bem afastado dela e não sabia como se sentir em relação a isso.

—Oi – ela respondeu secamente encarando seus lençóis.

—Sabe – ele começou –Ouvi falar sobre as últimas notícias da sua mãe e decidi vir dar uma olhada em você. Sei que devia ter vindo antes mas é melhor tarde do que nunca... Enfim, só queria deixar você sabendo que estou aqui e sou seu namorado e me importo com você.

Os olhos de Marina se encheram de água e, quando deu por si, estava chorando nos braços dele. Guilherme afagava suas costas carinhosamente enquanto ela desmoronava, ela não sabia o que falar mas o garoto parecia preencher o silêncio por ela.

—Sei que tenho sido um bosta mas quero tentar fazer a coisa certa aqui. Vale a pena se esforçar por nós, Marina, e eu quero consertar as coisas...

A loira encarou seus olhos, ela mal conseguia enxergar direito devido às lagrimas mas conseguia ver onde sua boca estava e isso era o suficiente. Sentiu o gosto mentolado dele misturado com sua lágrimas mas não se importou, talvez as coisas voltassem a ficar bem afinal.

***

Rafa estava sentada na poltrona enquanto Luciana e a mulher que se dizia sua mãe biológica a encaravam do sofá onde estavam. Rafaela não queria admitir ter uma mãe que não fosse Luciana mas, agora que ela estava na sua frente, podia ver o quanto eram parecidas. Tinham a mesma pele clara, o nariz delicado, uma covinha discreta no queixo que só era visto caso prestasse muita atenção, os mesmos cabelos castanhos lisos e olhos um pouco tristes. Não tinha como negar, aquela mulher era a sua cara e provavelmente era sua mãe de verdade.

—Rita veio no hospital algumas vezes nessa semana conversar com o serviço social – Luciana estava explicando –Ela estava procurando a filha que abandonara, queria saber se ela tinha sobrevivido, se estava bem, se poderia ajudar com alguma coisa...

—Quer dizer que depois de quase 18 anos ela decidiu fazer isso? – Rafa interrompeu Luciana e evitou olhar para Rita mas conseguiu perceber que ela estremecera ao ouvir isso.

—Então – Luciana continuou como se não tivesse sido interrompida –O serviço social achou seu documento de internação e isso levou até a mim. Eu disse que estava completamente disponível para colaborar e aqui estamos nós...

—E você por acaso se perguntou se eu estava decidida a colaborar? – a garota continuou –A maioria das pessoas não colabora quando são abandonadas enquanto crianças, ou melhor, quando ainda são um bebê indefeso!

—Rafa, não foi bem assim – Luciana procurou conter a raiva da filha adotiva –Por que não escuta o que Rita tem a dizer e...

—Que tal ela começar me respondendo algumas coisas? – Rafaela finalmente voltou sua atenção à mulher que estava sentada ao lado de Luciana –Você me deixou na porta do hospital por que não queria cuidar de mim? Ou foi por que não teve tempo de chegar no lixo?

—Rafaela, chega! – Luciana gritou e isso assustou um pouco a garota mas não iria demonstrar isso –Você não é assim tão raivosa, o que está acontecendo? É a sua mãe que está aqui, aquela por quem você perguntou tantas vezes...

—E quando eu finalmente decido deixa-la pra lá você a traz pra reacender todos os conflitos que tive durante esses últimos anos? – Luciana a encarou sem saber o que fazer então Rafa se levantou e subiu as escadas até o seu quarto onde bateu a porta com força.

Tudo que podia escutar do seu quarto eram sussurros ansiosos e sentiu-se aliviada quando ouviu a porta da frente abrir e o carro de Rita sumir na da frente de sua casa. Alguns minutos depois, ouviu os passos de Luciana no corredor até parar na sua porta. Não encarou a mãe adotiva, estava sem energia pra isso.

—Isso não foi nem um pouco a sua cara, quer me contar o porquê disso tudo? – ela perguntou apoiada na porta.

—Só estou de saco cheio – a garota respondeu.

—Rafa – Luciana suspirou mas procurou manter a calma –Eu não vou mais chamar ela aqui, foi um erro. Devia ter perguntado o que você achava ou pelo menos ter te contado antes...

—Nisso a gente concorda.

—Mas – Luciana continuou –Ela vai estar disponível quando você finalmente quiser conversar e nós sabemos que isso vai acontecer um dia. Então você vai poder pedir desculpas pelo seu comportamento e ter as respostas que tanto quer.

—Ela mora aqui em Quixote? Como nunca a vi antes?

—Ela mora em uma cidade aqui perto. Saiu daqui depois de ter te...

—Abandonado? – a garota concluiu com um peso na voz.

—Não foi abandono, ela só te entregou para pessoas que sabia que cuidariam melhor de você – a mãe adotiva a corrigiu –Ela estava certa, não estava?

—Talvez – Rafa admitiu mesmo sem ter vontade –Mas não justifica o que ela fez! Eu nunca abandonaria minha filha por mais que as coisas estivessem difíceis. E, se abandonasse, não demoraria praticamente dezoito anos pra falar com ela novamente...

—Cada um tem seus motivos, Rafa. Acho que você não deveria julgá-la tanto sem saber exatamente o que aconteceu...

—Ela te contou? – Rafaela encarou Luciana –Ela te contou porque me abandonou, não foi? Por isso você está defendendo tanto ela...

—Não, eu disse que não queria saber. Isso não é da minha conta, é entre você e ela, não tenho nada a ver com isso...

—O que eu faço agora então? – a garota perguntou irritada, sentia a garganta queimar, era quase como se as palavras que saíam de sua boca a machucassem de verdade como veneno ou algo azedo que provocava incômodo demais -Vou morar com ela e viver como se fôssemos uma família perfeita? Como se nada de errado tivesse acontecido? Como se eu não tivesse sido criada por você?

—Não – Luciana respondeu calmamente enquanto saía do quarto –Você apenas perdoa ela e continua a partir daí.