Uma deusa no mundo dos mortais
4 capítulo 3 - Eu sou uma deusa. Literalmente.
Notas iniciais
Segui pé ante pé até a floresta, com meu arco improvisado. Consegui chegar até meu destino sem ser vista; todos só se preocupavam em falar mal de mim.
Não consegui mais me controlar. Tirei uma flecha da aljava, posicionei e atirei em uma árvore, minha visão embaçada pelas lágrimas. Coloquei outra flecha no arco, atirei. Cada flecha era uma dor, um trauma, uma vergonha, um momento, um rancor. Tinha vontade de gritar, de fazer um escândalo, de dizer para todos o que eu passei, mas me contive. Aquela era minha vida, meu sofrimento e ninguém tinha culpa.
– Guardar o sofrimento só pra si não é bom. – me assustei e atirei uma flecha em um garoto que aparentava uns dezoito anos, alto, loiro, bronzeado e de olhos azuis. Por sorte, ele se abaixou e a flecha passou onde estava sua cabeça um segundo antes.
– Hey! Não vai querer me matar antes de me conhecer não é mesmo? – ele sorriu.
– Quem é você? – perguntei tentando parecer o mais confiante possível.
– Eu? Sua família.
Tentei não deixar meu queixo cair. Será que aquele era meu pai? Não sabia por que, mas tinha certeza de que ele era um deus. Uma aura de poder saia dele. Como se lesse meus pensamentos ele disse:
– Eu sou um deus olimpiano, mas não sou seu pai.
– Então o que quis dizer com ser a minha família? — falei um pouco decepcionada.
– Eu sou seu irmão. – ele respondeu.
– Meu meio-irmão você quer dizer né? Tem o mesmo pai ou mãe que eu, mas o outro é um deus.
– Não, eu sou seu irmão mesmo. Já vou te explicar. – ele sentou-se em uma pedra e fez gesto para que eu me sentasse.
– Amanda, sua vida é bem mais complicada do que parece.
– Ah, jura?
– Estou falando sério! Você é fruto de algo que nunca houve, algo que nem mesmo os deuses sabem explicar.
– Estou ficando com medo.
– Eu vou te explicar direito. Há 37 anos, existia um grupo de semideuses. Eles salvaram o Olimpo, venceram o titã Cronos e derrotaram Gaia. Mas acabaram despertando algo novo sem saber. A missão deles contra Gaia foi nas terras antigas, Roma e Grécia. Ao derrotaram os gigantes filhos de Gaia, acabaram desencadeando algumas memórias e lembranças que deviam permanecer lá. Nessa época os deuses estavam meio enlouquecidos com sua metamorfose greco-romana, e essas memórias e lembranças tiveram influência em alguns de nós, como Ártemis por exemplo. As memórias dos amores dos heróis que deram certo, a Guerra de Troia e outros romances da história mexeram com Ártemis. Fez ela sentir que havia homens no mundo que poderiam ser fiéis, úteis, carinhosos, românticos, que ela poderia ser feliz com algum deles. Então, um dia veio passear aqui embaixo, sair pra dançar e se distrair. Acabou encontrando um homem numa festa. Ele era bonito, famoso, rico e impressionantemente não era mulherengo e sim romântico e valorizava as mulheres. Ela se apaixonou por ele e quebrou sua promessa de ser virgem. Os deuses não ficaram muito felizes por ela ter quebrado o pacto e resolveram tirar dela a imortalidade e a divindade. Ártemis estava grávida e os deuses decidiram que assim que ela desse a luz e a criança fosse entregue aos pais, Ártemis seria transformada em um bebê, colocada á porta de um orfanato e perderia todas as suas memórias. Nenhum deus saberia que mortal ela era, nem mesmo eu, exceto Zeus. E para que nenhum deus tentasse te encontrar ele a guardou em forma de bebê por alguns anos sem que ninguém soubesse. Mas o que ninguém sabia é que o Olimpo ficaria desestabilizado sem Ártemis. Ela era deusa da vida selvagem, da caça e da luz lunar. – ele olhou para as estrelas – Antes, havia muito mais estrelas no céu e a lua brilhava mais; os animais selvagens atacavam os humanos raramente. Ártemis também mantinha o Olimpo sob controle, com sua calma, razão e pacificidade, juntamente com Hera e Atena. Quando a situação já estava passando dos limites, Zeus ordenou minhas tarefas á Héstia e me designando procurador de Ártemis; mas também deixou bem claro que ela só voltaria para o Olimpo se provasse seu valor como mortal. Zeus me falou o ano em que havia colocado minha irmã á porta de um orfanato e comecei minha busca á partir daí. Pesquisei por vários locais e várias pessoas e, eu sei que você vai me chamar de louco, tudo me leva até você.
Eu estava com os olhos arregalados. Pisquei algumas vezes. Fiquei em silêncio alguns minutos tentando captar o que ele havia falado.
– Você chamou Ártemis de irmã, então você é Apolo. – ele assentiu com a cabeça – E você acha que eu sou sua irmã perdida? – ele assentiu de novo – Tá bom, isso tá ficando muito estranho. Olha, tem certeza disso? Você pode ter se enganado no meio do caminho.
– Amanda, você não acha estranho que nunca tenha encontrado seus pais? E que agora que você é considerada uma semideusa seu pai ou mãe olimpiano não se manifestou? E também que você não goste de estar com garotos? Você é boa com arco e flecha, independente e decidida. Tudo isso são características de Ártemis.
Minha cabeça zunia. Então eu era uma deusa? Isso explicava tudo! ... e nada. Mas o lado bom era que eu tinha um irmão; o ruim era que provavelmente eu iria ganhar uma missão para provar o meu valor como mortal... e eu não estava muito ansiosa para descobrir na real o que ‘mortal’ significava.
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