Discrição era a palavra de ordem da vida de Priscilla agora e era seu guia para tudo que fizesse a partir de então. Esse era o principal motivo para pegarem um dos últimos voos para Buenos Aires, durante a madrugada, uma verdadeira fuga. Viajar tão tarde assim significava que a viagem seria cansativa, ainda mais para Lisa, no entanto, eles tinham uma vantagem. Chegariam durante o dia ao seu destino final. Com o tempo, apesar da apreensão, Priscilla acabou dormindo no avião.

Com o sol tropical daquelas terras estranhas os dando as boas vindas, Priscilla, Lisa e Vernon desembarcaram. Enquanto isso, Elvis não fazia ideia de quando ou como eles chegariam, apenas tinha recebido uma carta que avisava para não deixar o hotel onde estava nos próximos dias. Não havia sinal de quem tinha escrito no papel, até mesmo o nome do remetente ele não reconhecia, com certeza, mais um truque para despistar qualquer curioso indesejável do seu paradeiro. Ele tentava não ficar ansioso, passava o tempo lendo, meditando em passagens da Bíblia ou assistindo a Jornada nas Estrelas, mesmo tendo dificuldade em entender o espanhol, tentando entender o enredo do episódio pelas lembranças que tinha de assisti-lo antes. Era um baita exercício mental que ajudava a espantar todo o resto, preocupação, medo de ser descoberto, ansiedade.

Ao chegarem ao hotel, Priscilla acabou contratando o serviço de quarto para evitar desconfianças. Acabou largando a bagagem no quarto e depois, passando pelos corredores, procurando o quarto dele. Segurando a mão de Lisa, com Vernon logo atrás dela, suspirou fundo e bateu na porta.

—Quem é? — ela o ouviu perguntar, com a voz inconfundível, o que fez Vernon se sobressaltar. Se estava duvidando de tudo aquilo até agora, estava prestes a ter sua prova definitiva agora.

—Sou eu, Priscilla — ela respondeu, esperando que ele acreditasse.

Mais que depressa, motivado pela animação e alívio, Elvis abriu a porta, a abraçando de supetão, sem se conter. Tinha ficado um mês e meio longe dela, apenas com notícias do que era mostrado na TV, a imagem cabisbaixa e séria dela, agora tinha sido trocada por sua versão real e muito emocionada.

—Eu senti tanto a sua falta, meu amor, não faz ideia do quanto — ele olhou pra ela, ainda embasbacado por ela estar bem ali, segurando seu rosto e em seguida a beijando profundamente.

—Eu sei, foi o mais cedo que pude vir — ela se justificou — mas eu também tinha que me organizar pra trazer visitas especiais comigo.

Priscilla abriu caminho para que Lisa e Vernon falassem com ele. A menininha lhe deu um abraço, sentindo o mesmo alívio e emoção que ele.

—Eu senti saudade, mamãe explicou tudo, que você vai ter que ficar escondido — Lisa explicou o que entendia de toda aquela situação.

—É, eu sei que soa muito maluco, mas não se preocupe com isso, meu bem, está bem? O importante é que vamos ficar juntos de novo — seu pai recomendou e seu conselho acalmou a mente dela.

Enquanto isso, o pai de Elvis ainda estava atônito sem acreditar direito no que estava vendo.

—Pai? — ele tentou — sou eu mesmo.

—Priscilla me contou, eu só não consigo acreditar ainda — Vernon suspirou, então decidiu se aproximar, recebendo um abraço — eu estou tão feliz que você está bem!

—Eu sei, é inacreditável demais, mas foi o que tivemos que fazer, sério, não tinha outro jeito — Elvis justificou o plano mais uma vez.

—Eu entendo, ninguém te deixaria em paz, o Coronel estava nos incomodando até o último momento — Vernon recordou — é só que... você não é um fugitivo, nem um criminoso...

—Talvez agora eu seja, não sei se conta como um crime — Elvis apontou.

—Mesmo assim, você não merecia ter que se submeter a uma situação dessas, meu filho — disse o Presley mais velho, demonstrando muito remorso em sua voz — talvez a culpa seja minha e eu peço que me perdoe, eu não sabia o que estava fazendo, eu me senti pressionado demais...

—Do que está falando, papai? — Elvis quis entender o que era toda aquela confissão repentina.

—Eu tive a chance de parar o Coronel, de deixar que você descansasse muito mais cedo, e talvez assim nos livrássemos dele sem nenhuma atitude drástica como essa — Vernon contou o que estava pensando — mas eu só pensei que foi aquele homem que nos tirou da pobreza e que devíamos tudo a ele.

—Não devemos, entendo o que quer dizer — foi a vez de seu filho opinar — ele alavancou minha carreira e tudo mais, mas tudo que conseguimos, todo dinheiro que aquele velho desprezível conseguiu foi por minha causa, só por isso, ele se aproveitou dos meus talentos, mas que sempre foram meus, não dele.

—Você podia estar em casa agora — Vernon ainda apontou.

—Não, é uma ilusão pensar isso, se não fosse o Coronel, os fãs nunca me deixariam em paz — Elvs insistiu — é tarde demais pra rever o que poderia ser feito ou não, fizemos o que tínhamos que fazer, as coisas vão ser diferentes agora, mas a escolha foi totalmente minha.

—Se está feliz, é isso que verdadeiramente importa — o pai acabou apoiando seu filho.

—Mas vamos deixar essa conversa mole de lado, tudo já está resolvido, vamos pensar daqui pra frente — Elvis mudou o tom da conversa, falando com toda animosidade que conseguia imprimir — eu fique preso aqui muito tempo, pretendo andar e ver o que há lá fora, explorar.

—Claro, mas não tão rápido — Priscilla achou melhor interromper os planos empolgantes dele por um bem maior — você precisa de um disfarce.

—Ah sei, olha, Cilla as minhas roupas são todas novas e muito diferentes do que eu costumava usar, pode conferir — ele abriu o armário de forma teatral, o que a fez rir.

O que ele sustentava era mesmo verdade, então ela tomou a liberdade de escolher algo que ele pudesse vestir, algo que combinasse com seu marido, mas não denunciasse que ele era Elvis Presley.

—Isso é pra você — ela ofereceu — e tem outra coisa que eu andei pensando, mas talvez essa seja uma negociação mais difícil.

—O que é que tem em mente? — seu marido olhou de forma desconfiada para ela.

—Pensei em tirar suas costeletas — Priscilla confessou com certo receio, sabendo que poderia ouvir grandes protestos — elas são muito icônicas.

—O que? Não, não, Cilla, sabe, entendo o que quer dizer, mas se eu ainda estou por dentro de alguma coisa sobre moda, é que costeletas ainda são tendência, ainda posso usá-las sem problema nenhum — ele protestou e se justificou, não pretendemdo se render tão facilmente.

—Tudo bem, até que é um argumento convincente e podemos chegar a um meio termo — ela ponderou a sugestão — pelo menos uma aparada?

—Certo, eu aceito, mas quem faria isso? — ele tinha que saber se estava em boas mãos.

—Eu posso fazer isso, sem problema nenhum — ela se ofereceu para o trabalho.

—Quanto cabelo você já cortou na vida? — Elvis perguntou, para saber no que exatamente estava se metendo.

—Não muitos, mas prometo que não vou fazer um estrago, você confia em mim? — Priscilla arriscou sua jogada.

—Claro que confio — ele se rendeu.

—Então senta e relaxa — ela ordenou, disposta a pôr sua ideia em prática.

Priscilla então pegou um pente que já estava ali e pediu uma tesoura emprestada à recepcionista do hotel e com muito cuidado, pôs as mãos à obra. Sentiu Elvis tenso sob o toque dela, mas ele não reclamou muito, sabia que ficar falando certamente a atrapalharia. Por fim, acabou gostando do resultado. Suas leais costeletas só estavam mais discretas e menores agora, mas não mais bonitas.

Levou mais um tempo para que eles se arrumassem, mas dentro de instantes, os quatro Presleys tomaram a estrada em Buenos Aires, se divertindo como uma família, como as coisas realmente deveriam ser.