Uma Visita Espacial
2 1 – Quando a Hospedaria quase foi destruída!
Notas iniciais
1 – Quando a Hospedaria quase foi destruída!
Eram cinco jovens: Bruno, Lucas, Renan, Miguel e Yuri, todos em ordem crescente de idade. Habitavam a velha Spazio Sidereal a tempos diferentes, mas estavam na hospedaria pelo mesmo motivo: estudar na cidade grande a fim de um melhor preparo para, futuramente, entrarem na Universidade Federal do Ceará, a melhor e mais importante faculdade pública de Fortaleza. Vindos de diferentes partes do interior do Ceará – e, no caso de Renan, recém chegado ao Brasil, da Sibéria, por ordem dos pais –, os rapazes encontraram no abrigo um lugar para viverem até o fim das suas graduações, caso desejassem, sem a necessidade de um grande deslocamento entre suas cidades natal e a universidade. Um ganho para realizarem seus sonhos.
Alguns ainda eram relativamente novos para já viverem na pensão, mas o intuito de uma melhor e mais preparada educação os havia tirado de suas casas. Lucas e Bruno, ambos com quinze anos, cursavam o primeiro ano do Ensino Médio. Já mais relativamente mais próximos do vestibular, Renan e Miguel, dezesseis anos, encontravam-se no segundo ano, e, por último, Yuri, dezessete anos, às portas da prova que definiria a sua vida, estava, por tanto, no terceiro ano. Porém, as pequenas diferenças de idade e escolaridade não impediam um bom relacionamento entre os moços. Os rapazes eram bastante amigos, brigando raras vezes e mantendo amizade, também, com alguns dos antigos moradores. A união prevalecia no recinto.
O responsável pela ordem local era o senhor Pedro Tasaki, carinhosamente chamado e “Vovô” pelos meninos. Amigo do fundador da obra, Tasaki ficou encarregado de regir a Hospedaria, tornando-se então o diretor da pensão. Era ele quem determinava os horários dos meninos, as tarefas a serem realizadas por eles, a data dos pagamentos e o que era permitido e proibido fazer dentro de Spazio Sidereal. E todos os meninos o obedeciam seriamente.
Tdavia, uma das principais ordens iria ser prontamente desobedecida naquela quente tarde de julho.
Pela primeira vez, Spazio Sidereal receberia a visita de mulheres em seu recinto.
- Isso é injustiça! – gritou Lucas, revoltado – Em plenas férias, temos que trabalhar!
- Você quis ficar aqui, então agüente as conseqüências! – disse Renan, entregando ao amigo a imensa bacia com roupas – Agora vá!
Lucas ainda reclamou um pouco, mas foi estender as roupas recém lavadas. Não tinha motivos exatos para ter permanecido na hospedaria, por isso não conseguia crer que passaria as férias ali, trabalhando para manter a ordem da casa. Exceto ele e Renan, os outros três moços foram aproveitar seu mês de folga em seus interiores. Yuri e Bruno seguiram para o Crato para verem seus pais – já que ambos são irmãos, e Miguel fora para Santa Quitéria, visitar a sua adorada avó. Enquanto isso, Lucas e Renan permaneciam em Spazio Sidereal, sem previsão para se divertir.
Ou pelo menos assim eles pensavam.
No campo onde existiam as duas varas de madeira puxando a corda, Lucas empenhava-se, ainda irritado, em estender todas as roupas. Amaldiçoou a sua idéia de permanecer em Spazio Sidereal e os amigos que deixaram na hospedaria as indumentárias sujas, assim como os inúmeros lençóis, roupas para cama e toalhas. Oras, que eles lavassem suas próprias roupas e não deixassem isso para os outros! Era injusto e não deixaria de ser. Ele próprio poderia bem estar agora na Praia de Iracema, jogando futebol e flertando várias meninas. Mas... sozinho? Não, não teria graça. E no shopping, quem sabe? Não deixaria de estar solitário. Poderia estar em Aracati mesmo, conversando a esta hora com os pais e olhando as vaquinhas atravessarem a estrada... Quê? Interior? Lutou tanto para poder ter uma chance de morar e se divertir na cidade, para agora voltar ao interior? Não! Nunca!
É, não havia outro meio. Tinha que continuar em Spazio Sidereal.
Suspirou, triste, ocioso. Pelo visto, suas férias continuariam a serem insuportáveis.
O clima tornou-se escuro, mas Lucas não ligou. As nuvens deveriam ter coberto o sol, o que demais teria nisso? Porém, ele não percebeu que a escuridão era mais intensa do que aquela que é provocada por uma nuvem encobertando a estrela. Estava do mesmo modo que acontecia quando se aproximava uma tempestade. Somente notou a estranha mudança de iluminação após ter terminado de estender todas as roupas do cesto. Não poderia estar se aproximando uma chuva, isso não! Só porque deu trabalho lavar tudo que estava sujo? Olhou, revoltado e inconformado, para o céu. Entretanto, não vira uma nuvem pesada e escura, como imaginara. Ao contrário, o que dissipava a luz solar era uma imensa massa negra formada no céu. Algo incrível, tenebroso, assustador. Lucas soltou a bacia que estava segurando. Uma terrível sensação passou por seu corpo, seria o fim do mundo? Ele iria morrer? A massa girava, e o seu contorno formava macabras formas de lâminas curvas, como aquela que existe na foice da Morte. Um buraco negro? Impossível afirmar. De uma coisa somente Lucas tinha certeza: aquilo não era algo bom.
Em um instinto de salvar a vida, o menino pôs-se a correr, aterrorizado. Sabia que correr não iria influir em nada, se fosse para morrer, nada o faria escapar da morte. Mas, mesmo assim, seu lado animal ainda queria preservar a jovem vida. Morrer com quinze anos, onde já se viu isso? Ele não havia aproveitado nada, não tinha feito nada de errado. Sonhava em poder fazer uma tatuagem tribal em torno do braço, estava juntando dinheiro para isso. “Ficar” com quinze meninas em uma noite era sua meta! Precisava passar no vestibular, para quê ele estava na cidade se não para estudar? Será que ele realmente iria morrer sem ao menos ter concretizado parte dos seus planos? Ah, não, era muita injustiça! Mas, se fosse para morrer, sabia que não seria o único. A humanidade também seria dizimada, o planeta Terra seria completamente destruído. Deus, era o Apocalipse!
Correu, desesperado, tropeçando em seus próprios pés. Olhou para cima, a fim de ver como estava o buraco negro no céu. Caso não fosse a sua impressão, ele estava mais próximo, como se estivesse caindo na Terra. Seria a força da gravidade que estaria o puxando? Filhos da mãe! Lucas continuou a correr, agora rezando, pedindo perdão e misericórdia a Deus. Que a sua morte não fosse dolorosa, nem a sua, nem a da sua mãe, nem a de ninguém. Esperava veemente que sua matriarca tivesse noção de quanto ele a amava – embora não tivesse o costume de falar. E que eles pudessem se encontrar no céu, caso ele conseguisse escapar do inferno.
Mas, na espera ansiosa de morrer, Lucas não percebeu que a escuridão que encobertava o sol havia desaparecido.
Todavia, o garoto não fora poupado de um ataque. Algo pesado, extremamente veloz e com grande força de impacto chocou-se contra seu corpo, fazendo-o cair e rolar barranco abaixo. Lucas não soube distinguir o que era, seus olhos estavam cerrados, crentes da sua morte inevitável. Quando parou de rolar, estava zonzo demais para perceber qualquer coisa ou se levantar. Sentia algo extremamente pesado em seu abdômen, mas não tinha forças para ver o que era e retirar. Apenas se limitou ao direito de permanecer de olhos fechados.
De repente, a casa inteira estava imersa na mais profunda e completa escuridão. Assustado, Renan largou a vassoura no chão e correu para fora da construção, acreditando estar próxima uma intensa e forte tempestade. Abriu a porta de trás da casa, que dava para o terreno, e assustou-se quando viu a imensa mancha negra no céu, com bordas em formas de lâminas inclinadas. Seu coração pulsou de maneira mais forte e todo o seu corpo paralisou. Não conseguiu raciocinar direito e nem compreender o que diabos seria aquilo. Estava inerte e incrédulo. Seus músculos travados o impediam de correr. Conseguia ficar apenas olhando para o céu, parado, sem reação.
Viu a massa estender a largura, assim como uma parte dela sendo puxada para a Terra. E, após longos e agonizantes instantes daquela coisa negra descendo à Terra, a massa negra explodiu, formando uma intensa e ofuscante luz. Renan protegeu os olhos – a única reação que conseguiu ter. E, após sentir a luz dissipar-se, olhou para o ambiente. Espantou-se. Tudo voltara ao normal e não existia mais nenhuma coisa negra e abjeta no céu.
Como se nada houvesse ocorrido.
Esfregou os olhos, deveria ter tido somente uma ilusão. Estava assistindo muitos filmes de terror e estudando muita física, só poderia. Após alguns segundos tentando assimilar o que houvera visto – e dizendo para si mesmo ter apenas imaginado coisas, voltou à sua antiga atividade de varrer a casa. Foi até o local onde a vassoura estava caída, abandonada. Pegou o objeto e tratou de esquecer o ocorrido – fruto de uma mente atordoada por física. Entretanto, enquanto voltava a varrer, escutou um forte barulho provindo dos quartos do andar de cima. Parecia que algo pesado estava quebrando a casa, a pancada era bastante similar. Assustado, Renan largou a vassoura outra vez e subiu as escadas apressadamente, tropeçando assim que chegou ao segundo andar. O corredor que dava para os dez quartos permanecia normal, intacto. Porém, o barulho vinha de algum dos aposentos, ainda dava para escutar algo caindo no chão. O rapaz encostou a orelha em cada uma das portas. Após alguns minutos, notou que o som vinha do quarto de Yuri. Tentou abrir a porta, mas essa estava trancada. Desceu as escadas desesperado, tropeçando nos degraus. Foi até a entrada da hospedaria, pegou as chaves de Yuri e subiu novamente. Nervoso, quase não conseguia colocar a chave na fechadura, errando várias vezes. E, quando finalmente destrancou a porta, abriu-a com ânsia.
Mal acreditou no que vira.
Lucas abriu os olhos vagarosamente. O sol cegava-lhe, incomodava-o a intensa e forte luz. Porém, não era só isso que estava lhe deixando irritado. Algo muito pesado estava em seu abdômen, impedindo-o de respirar direito. Não somente no seu abdômen, mas sim em seu corpo inteiro. Com certa dificuldade, o garoto levantou a cabeça, mas tudo o que vira fora fios louros. Estranhou, assustado. Levou os braços acima do seu peito e desceu as mãos. Como imaginara, não pegou em si próprio, mas sim em outra coisa. Continuou percorrendo a coisa com suas mãos e sentiu várias depressões e elevações. Prendeu o ar. Não poderia ser o que estava imaginando, mas era. Mordeu o lábio, e suas mãos agora desceram para o lado. Braços. Respirou fundo e tentou levantar o ser que estava acima de si. Colocou um pouco de força e retirou a pessoa, colocando-a ao seu lado. Aproveitou o tempo livre para pegar parte do ar que o peso daquele não o permitia pegar. Levantou-se, ficando agora sentado, e virou os olhos para o corpo caído no chão. Não acreditou no que via. Uma menina, uma linda moça, desacordada. Trajava estranhas roupas azuis – um macacão feito aparentemente de borracha, que cobria o seu corpo por inteiro – e tinha os cabelos presos em duas marias-chiquinhas, extremamente louras. Espantado, Lucas virou-se para ela e, sem saber o que fazer, apenas sacudiu o seu ombro, na inútil tentativa de acordá-la.
- Ei, menina! Menina! Acorda!
Nada. A jovem prosseguia adormecida.
- Acorda, moça! Você não pode ficar aqui! – falou o rapaz, agora dando leves batidinhas no rosto da menina.
A moça, então, abriu os olhos, com lentidão. Gemas extremamente azuis olhavam para Lucas, tentando compreender o ocorrido. Por alguns instantes, a menina ficou olhando, atenta, para o rapaz. Quando esse já esboçava um sorriso de satisfação por vê-la bem, a jovem o empurrou para o chão e sentou em cima dele, prendendo-o com as pernas.
- Onde eu estou? – perguntou, ansiosa, desesperada.
Lucas, sem entender a reação repentina da garota, apenas respondeu, estranhando:
- Em cima de mim.
A menina enrubesceu, percebendo que a sua atitude era precipitada demais. Envergonhada, saiu de cima do rapaz, sentando outra vez ao seu lado. Porém, ainda espantada e assustada, perguntou outra vez:
- Onde é que eu estou? Quem é você?
Renan prendeu o ar, estupefato. Em meio a pedaços de telha, pó de cimento e um quarto completamente sujo, estava uma menina, caída na cama de Yuri, desacordada. Renan olhou para cima e viu um imenso buraco no teto, mostrando o azul celeste do céu. Voltou outra vez os olhos para a jovem desacordada. De onde aquela garota havia saído? Aproximou-se, com cuidado, da menina. Olhou-a. Era uma linda moça loura, de longos cabelos lisos espalhados por todos os pontos da cama. Dormia, e alguns ferimentos existiam em sua pele branca, assim como a sua roupa exótica estava rasgada em algumas partes. O garoto, espantado, não possuía reação. Porém, antes mesmo que pensasse na possibilidade de acordar a jovem, essa arquejou, dolorosa. Algo dentro de si a estava incomodando, o que a fez despertar. Com dificuldade, sentou-se na cama, gemendo de dor. Parecia que algo seu houvera se quebrado. Já sentada, examinou o seu corpo, tocando algumas partes com delicadeza e gritando quando magoava algum machucado. Só depois desta auto-análise, voltou os seus olhos para a entrada, encontrando, então, um rapaz a encarando, incrédulo.
- Para onde você está me levando?
A menina, sem compreender, estava posta no ombro de Lucas, sendo por ele carregada. Batia-se com violência, mas o garoto não se importava com as pancadas que ela lhe dava. Somente queria explicações sobre o ocorrido.
- Para a minha casa. – falou, severo – Lá você me explica quem é, como chegou aqui, o que está fazendo, por que estava em cima de mim e mais um pouquinho de coisas.
- E se você for um estuprador? Um assassino em série? Um maníaco que gosta de matar e guardar a cabeça das suas vítimas debaixo da cama para depois sair por aí exibindo? Aí eu vou morrer! – a menina continuava em desespero crônico.
- Quer deixar de ser fantasiosa? Não sou sanguinário e não vou te fazer mal! – disse Lucas, enfurecido com as idéias sem nexo da jovem –Você só me deve explicações, nada demais!
- Me solta! – gritou outra vez a menina.
Lucas adentrou na hospedaria quase em loucura. A menina estava o deixando deveras furioso. Com raiva, gritou:
- Ô Renan, desculpa aí, mas encontrei uma doida pelo caminho e...
Lucas parou de falar. A cena que vira interrompera qualquer fala que ainda quisesse ser projetada em sua garganta. Renan também estava acompanhado de uma garota, vestida do mesmo modo que a menina por ele encontrada. O amigo enfaixava o pulso da outra jovem, enquanto essa mordiscava o lábio de dor.
- Lucas! – exclamou o menino assim que vira o garoto – Eu posso explicar!
- Você também? – perguntou Lucas, espantado.
- E quem é essa menina? – perguntou o outro rapaz.
- Eu sei lá! Tô aqui para descobrir! E essa, quem é?
- Eu também não sei!
- UPAMN!
O grito estridente da menina achada por Lucas dissipou a conversa dos dois amigos. Ambos os jovens olharam a garota, assustados, tentando compreender o que ela houvera gritado. Essa, porém, não os via. Seus olhos estavam surpresos, alegres, emocionados, olhando felizes a outra moça presente no recinto.
- Jshu! – exclamou a menina achada por Renan, sorrindo.
- VOCÊS SE CONHECEM? – perguntaram os dois rapazes, ao mesmo tempo.
Notas finais
Enfim, apossei-me das características dos personagens de CDZ e de SM para definir os meus personagens, a fim de uma melhor visualização ^^.
Aguardo reviews, oka? ^^
Sem mais!
Até a próxima!
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