Escorregar

''Águas escuras desmoronando

Você era a luz que eu conhecia

Não sabe como fingir

Eu não sou à prova de balas''

(2018 — Ruelle)

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Fico na ponta do pé no tempo em que sinto meus dedos tocarem a capa do livro que está em cima da prateleira, onde não devia estar por eu ser um pouco baixa, não consigo atingir certas alturas acima da minha. Percebo uma leve ardência em meu braço provavelmente causado por esticar demais, abro o livro na página em que coloquei um marca página. Deito na cama de brusco e leio até ouvir a porta do meu quarto abrir-se, ele entra com uma colher em uma mão e na outra com um pote pequeno com um líquido amarelo que tenho ideia que seja mel. Fico sentada no tempo em que ele chega mais perto de mim colocando a colher dentro do pote tirando-a para eu tomar, eu bebo para que eu tenha um pouco mais de energia e para melhorar a garganta irritada e dolorida. Depois novamente eu volto para o meu mundo imaginário que crio em minha mente enquanto leio as páginas que eu queria que nunca tivesse que terminar, cada capítulo que eu leio é um mais perto do fim. O que me faz refletir que nada é para sempre que tudo tem um fim, o mundo em que vivemos não é como o céu que se encontra ligado, e você pode sobrevoá-lo completamente varias e varias vezes, mas nunca vai se acabar é uma bola sem um fim. Como dizem que o universo também é: uma imensidão sem um fim, e talvez isso torne o nosso planeta um bom lugar. Por que a vida que há nela não é eterna, os pontinhos que o universo vê ao encarar a bola rodando vagarosamente, cada um desse tem o seu prazo de validade para morrer.

Levanto-me da cama guardando o livro junto com os outros, olho em direção à janela e vou até ela, abro-a e começo a fitar o céu o mesmo está tão azul que não se enxerga nenhuma faixa de nuvem que, parece neve pronta para cair do céu e afundar a cidade num ''mar branco'' — o que não acontece triste realidade. Sinto lágrimas brotarem em meus olhos e tento não as deixar caírem, mas não consigo e no fim elas caem. Passo meus dedos pelo meu rosto tentando limpar as lágrimas quentes que descem mesmo eu sentindo minha garganta latejar de vontade de eu chorar compulsivamente. Sento-me colocando minhas costas na beirada da cama pouso minha cabeça nas minhas pernas cobrindo-as enquanto no escuro das minhas pernas sinto as gotas toda saltando para o chão. Camila descansa sua mão em meu ombro tentando de algum modo mostra-me que não estou sozinha, viro minha cabeça tentando enxergá-la no meio da visão embasada pelas lágrimas. Ela sorri de canto e comenta com sua voz suave e calma:

— Você não está sozinha. Eu estou aqui com você e sempre estarei não se esqueça disso. As lembranças são uma tortura, dormir é uma tortura, viver está sendo torturante. Eu sei o que está passando, no entanto, uma forma de se sentir melhor é se libertando, saia da gaiola em que você se fechou e se liberte. Só assim você vai melhorar.

Ela acaricia as pontas do meu cabelo repetidamente olhando como se esperasse que eu conseguisse fazer o que ela mandasse, mas lá no fundo ela mesma sabe que eu não poderei me libertar, que fazer o que ela pede está longe de acontecer, não enquanto as asas que tiraram não nascerem de novo. Sou um pássaro sem asas, um pássaro que perdeu as asas que o fazia voar infinitamente.

— Eu amo você Nádia, mas não há nada que eu possa fazer. Não sou mais uma pessoa viva. — lembrou-me.

— Você ainda sente dor? — pergunto quase sentindo a voz sumir em minha boca.

— Não tanto. — ela pega minha mão levando-a em seu peito. — Eu saí da gaiola. — olhou-me atentamente.

Ela ainda segura minha mão em seu peito, eu já perdera a conta dos minutos que Camila esta a segurando sem soltar. Não consigo sentir seu coração bater o que me faz querer chorar ainda mais, seu coração parou de bater a tanto tempo o seu corpo está enterrado em um cemitério onde com o tempo vai desaparecer até virar ossos, sua forma carnal vai desaparecer na terra como todo o resto que está enterrado junto com ela. Ela beija minha mão sorrindo para mim e é quando percebo que as lágrimas pararam de descer pelo meu rosto, a dor continua, no entanto, eu já não quero chorar porque ela está aqui agora minha amiga não desistiu de mim como meus pais também não desistiram. Sorrio de canto para ela e a vejo infelizmente soltar minha mão e chegar um pouco mais perto de mim encarando o céu azul da mesma forma que eu costumo vislumbrar todas as manhãs e noites.

***

Abro um dos meus olhos e observo a janela que está aberta, porém está fechada com a cortina percebo que já está escuro lá fora me espreguiço na cama e sento-me olhando para a escrivaninha onde consigo enxergar meu notebook que desde que voltei do hospital mau uso. Franjo meu cenho pensativo, tentando recordar em como eu consegui dormir e como eu parei em minha cama se eu fiquei sentada com Camila no chão, observo em volta na esperança que Camila me contasse o que aconteceu enquanto eu estava apagada, entretanto, ela não está em nenhuma parte do meu quarto, ela não está aqui agora.

Ouço a voz do meu pai um tanto nervosa, eu caminho em direção à porta e lentamente eu a abro e pela fresta eu tento enxergar o que está acontecendo. Noto que ambos estão falando sobre mim:

— Você não pode fazer isso com ela, ela não está pronta para lidar com o mundo lá fora, já está sendo difícil para ela ir ao grupo de apoio e você está querendo jogá-la no mundo assim!

— Ela vai e pronto.

— Não! — vejo-o bater com a mão aberta sobre a mesa fazendo um barulho um pouco alto. — Eu não permito que ela vá. Não agora.

Observo minha mãe cruzar os braços e chegar um pouco mais perto dele, meu pai continua com a mão sobre a mesa e percebo que o mesmo está tenso:

— Ela minha filha... Eu que mando nessa casa... E se eu estou falando que ela vai, é por que ela vai. Ela precisa viver, não vai ficar trancada nesse quarto como se não existisse um mundo para conquistar. Ela vai voltar para escola e não se toca mais nisso. Se insistir Jonathan, o sofá vai ser sua cama. — vira-se para pia.

— Você é uma péssima mãe. — esclareceu.

Vejo-a se virar para ele e sorrir maliciosamente e lançar um olhar de ''sério mesmo?''. O vejo comprimir os lábios enquanto ela volta os olhos para a pia secando os pratos que ali se encontra:

— E o que mais tem a dizer Jonathan?

— O que houve com você? Como se deixou ficar assim? Eu tinha casado com uma mulher mágica parece que a magia simplesmente desapareceu.

— Interessante.

— É inútil falar com você, você não ouve. — ele olha em direção a porta do meu quarto e por um segundo o vejo olhar em meus olhos e ali eu percebo uma coisa; ele me viu.

Fecho a porta correndo e saio em disparada jogando-me na cama fingindo estar dormindo. Ouço a porta ranger e eu fecho meus olhos com firmeza, querendo desesperadamente que não precisasse conversar sobre esse assunto com ele, desejando que viesse numa outra hora, porém não agora e no fundo nem hoje.

— Nádia? Está acordada minha filha?

Suspiro profundamente e admito:

— Sim, estou papai.

— Podemos conversar?

Eu viro-me para ele e o encaro séria e pergunto:

— Por que brigou com a mamãe?

Ele segura minha mão acariciando-a e dizendo sem me olhar nos olhos:

— Ela quer... Fazer você voltar a estudar e eu... Bom... Não quero que vá, não agora.

Aperto sua mão levemente sorrindo de canto para ele:

— Não sente que estarei segura na escola, não é mesmo?

Ele balança a cabeça positivamente e eu afirmo;

— Ficarei bem papai. Não se preocupe.

— Mas... Você não devia ir, não está pronta para encarar o mundo.

— Não, não estou. Mas eu vou, é assim que mamãe quer que eu seja.

— Me deixa conversar com ela...

— Não, não quero que fiquem brigando por minha causa. Deixe como está papai, vai ficar tudo bem. Eu vou ficar bem.

Percebo que no momento que falei que ficaria bem ele apertou minha mão com mais intensidade e por um momento eu consegui sentir o quão preocupado ele estar, posso notar o medo em seu olhar que ele tenta esconder, porém eu o conheço mais que minha própria mãe, ele está apavorado e eu não sei como fazê-lo se sentir melhor, pois eu também estou com medo, não passava pela minha cabeça voltar ao mundo real tão cedo e eu não quero voltar, quero só abraçá-lo e chorar em seus braços e eu sei que ele vai me abraçar tão forte como se eu fosse desintegra-se em suas mãos e por dentro eu estou me despedaçando e a corda que tento segurar está se arrebentando lentamente e não há nada que eu possa fazer, a não ser ficar parada no lugar aceitando que a corda vai arrebentar completamente.

Observo o relógio na minha estante tocando a cada segundo que passa, já são quase 6h e eu vou precisar levantar se eu quiser chegar no horário certo à escola, a cada segundo que passa meu coração fica cada vez mais acelerado, a dor na minha barriga aumenta e eu posso sentir que não vou nem mesmo conseguir tomar café de tanto nervoso. Esfrego minhas mãos repetidamente tentando de alguma forma me acalmar, lamentavelmente o relógio toca e eu queria que não estivesse tocando evitaria eu ter que encarar esse dia, eu pensei que seria mais fácil, mas é como meu pai falou, está sendo tão difícil.

Ouço alguém bater repetidamente na porta, eu coloco os lençóis sobre minha cabeça me cobrindo por completo no tempo em que a porta se abre, sinto sua mão puxar o lençol sobre minha cabeça e eu olho em seus olhos azuis, ele acaricia minha bochecha dizendo:

— Vá se aprontar vai... Que irei fazer o café para você tomar.

Eu afirmo com a cabeça e ele sai do meu quarto me desejando bom dia e eu digo o mesmo. Eu me arrumo e vou até a sala colocando a bolsa sobre o sofá, sento-me a mesa encarando meu pai e minha mãe que fazem o mesmo. Eu observo o prato diante de mim que está com duas torradas e meia xícara de café com leite, engulo em seco sentindo meu estomago se embrulhar cada vez mais. Tento pensar em outra coisa enquanto vislumbro o teto da cozinha afastando o prato de perto de mim enquanto nego que irei comer tento beber o café, mas nem mesmo o café desce pela minha garganta, despejo o gole em minha boca de volta no copo e volto para meu quarto escovando os dentes e infelizmente indo para o carro esperando meu pai aparecer para me levar.

Imaginei-me eu e ele fugindo para alguma praia deserta longe da cidade onde moramos, vendo o sol mudar de cor durante as horas, pegando areia na mão e comendo algum lanche que ele comprara pelo caminho. Idealizar o choque da água gelada tocando minha pele, correr pela água até afunda-me nela, deixando-me boiar sobre a água enquanto ele me observa. Tentei de alguma forma acreditar que ele faria isso por mim, fugiria comigo para que eu não precisasse encarar esse dia, só para me salvar. Mas todos nós sabemos que isso não irá acontecer, eu estou correndo diretamente a um mar de olhos e não terá como eu fugir sem que me vejam. Eu sou o novo interesse das pessoas.

Notas finais
Olá? Como você está? Espero que esteja bem ♥ Parecem que os pais de Nadia, já não estão com uma boa convivência...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.