Uma Vida - Inacabada
5 Capítulo 5
Te Encontrar
''Eu vou te encontrar aqui dentro do escuro
Irei atravessar
Não importa aonde você esteja
Eu vou te encontrar''
(2017 — Ruelle)
****
Suspiro fundo enquanto caminho em direção ao carro de minha mãe onde noto meu pai sentado no banco da frente, certamente é ele que dirigirá. Sento no banco de trás colocando o sinto de segurança. Posso perceber os olhos de meu pai brilhar enquanto ele me olha pelo retrovisor, sorrio para ele e o mesmo retribui, mamãe acaricia minha mão ao sentar. Olho para a janela no tempo em que ouço papai começar a sair do estacionamento, e enfim, eu estou indo para casa que pelo que eu e mamãe conversamos, já não é a mesma casa que eu morava.
Observo as faixas da estrada passando rapidamente meus olhos paralisam por alguns instantes e a mente vaga pelas lembranças que tenho até agora, eu posso-me ver pelo vidro do carro dependendo da minha posição, noto que o eu do espelho não é mais a mesma garota que eu era antes de tudo isso acontecer, por que não sou eu que vejo, é outra coisa e sei que no fundo esse ser está feliz por eu estar me sentindo mal comigo mesmo. Fecho meus olhos encostando minha cabeça na poltrona e tentando sentir o pouco do calor do sol que restou dessa linda tarde. Reconhecer a sensação do sol em minha pele que está frágil e machucada e do ar agradável entrando nos meus pulmões.
Fecho a porta do carro enquanto respiro o ar puro que no fundo irrita minhas narinas acarretando uma leve coceira. Observo em volta, é uma casa um tanto grande para uma família de sós três pessoas, eu ouvi praticamente o caminho todo que eu irei gostar desse lugar, apesar de que eu já conheço essa vizinhança, eu passava de vez em quando por aqui quando eu queria demorar um pouco mais para chegar a casa. Agora percebo que demorar a chegar a casa não será mais um problema. Entro dentro da casa e uma coisa que noto é que está redecorada, muita decoração que tinha na outra moradia não parece ter vindo para essa nova residência. Surpreendentemente é uma casa muito bonita e sobra bastante espaço para quem sabe um lazer de brincadeiras.
Eu olho cada canto da casa, os lugares que eu mais gostei foi o fundo que meus pais parecem estar decorando com alguma coisa, que se analisar, vai ficar muito bonito no fim. Entro em meu quarto novo, as paredes pintada de rosa – escuro, os moveis, como estante e escrivaninha são brancos, observo um quadro pendurado abaixo da minha cama escrito ''Seja o amor que você quiser amar.'' Sorrio de canto observando o quadro, chego até a janela e abro-a observando o céu que já está escurecendo, por um momento, sinto uma leve dor em meu peito por já não conseguir sentir mais o calor do sol em minha pele que quanto mais penso no sol mais eu sinto minha pele formigar. Deito em minha cama enquanto observo a escrivaninha onde se encontra um laptop rosa que se eu averiguar adequadamente, eu vou perceber, que esse laptop é novo. Por um segundo penso que meus pais sempre acharam que eu voltaria para casa — o que me deixa triste —, pois e se eu não tivesse voltado? Esse quarto foi uma tortura para eles. E eu compreendo que meus pais não conseguiram aceitar que eu fora seqüestrada.
Acordo sentindo meu corpo dar leves arrepios como se estivesse muito frio dentro do meu quarto, sendo que sem eu perceber eu me encontrava coberta com uma manta cor lilás. Observo a janela que se encontra coberta pela cortina rolo onde eu conseguia ver o lado externo, é uma bela cortina. Noto uma borboleta alar-se parando diante da janela parecendo me encarar de alguma forma, eu engulo em seco começando a estranhar o tanto de borboleta perseguindo-me desde que eu sobrevivi àquele terrível dia.
Levanto-me da cama rapidamente e ao fazer isso sinto uma leve tontura que em poucos segundos ela passa, respiro fundo abrindo a janela e observando aquela nova borboleta — o que não parecia ser tão nova assim. Era idêntica a borboleta que eu vira no hospital ontem, borboleta de um azul brilhante tom metálico com as bordas em preto. Sorrio de canto tentando entender por que ela? O que a mesma viu em mim? E como ela conseguiu chegar até aqui? Sendo que borboletas do tipo dela são mais encontradas na Amazônia e estamos a mais de 3264 km de distancia até lá. São tantas perguntas que eu até pensara em questionar, porém é só uma pequena borboleta indefesa, não fala nem nada.
Quem lhe disse que eu não falo?
Eu arregalo meus olhos sem entender o que eu acabo de ouvir, fora uma voz baixa dizendo em minha consciência, como se minha mente tivesse vida própria. Sinto meus batimentos cardíacos aumentarem a cada segundo que eu encaro-a mais. Será que eu estou ficando louca?
Não, você não está maluca.
Coloco minhas mãos na minha testa pressionando as têmporas, eu estou perdidamente confusa. Uma borboleta esta falando comigo? Ou na verdade é minha mente que está falando dentro de mim? Eu mal consigo raciocinar direito, consigo sentir minhas pernas ficarem um tanto bambas, e eu pressinto, que a qualquer momento eu vou acabar desmaiando de tão nervosa e confusa que estou. Passo a mão sobre meu cabelo numa tentativa desesperançada de me acalmar o que raramente dar certo. Observo a borboleta atravessar o vidro como se fosse mágica e eu penso:
''maravilha, o mundo real agora é uma fantasia? Borboletas tem super-poderes que eu nem se quer sabia?''
Eu conseguia ouvir minha mente rir de tudo aquilo que eu estava pensando. É uma criatura tão pequenina que se eu quiser que tudo isso passe, apenas é eu esmagá-la em minha própria mão, como uma folha seca.
Nem pense nisso minha pequena Mélia.
Eu fito-a e sinto meus olhos começarem a encher de lágrimas cismando em como poderia ser possível ela está diante de mim, sendo que por mais angustiante que seja ela estava morta. Camila Gomes a menina que adorava me dizer o quanto gostava de astromélias que de vez em quando chamava de ''astronauta perfumoso''. Eu sorrio imaginando em minha mente aquele dia que tivemos, não foi um mal dia. Fora uns dos melhores dias que ela já teve durante todo o tempo que viveu trancafiada ali, o dia em que ela começou a me chamar de Mélia em um lindo apelido carinhoso. Volto os olhos para a borboleta que há essa hora eu já imagino ser na verdade Camila, a mesma começou a esvoaçar pelo canto do meu quarto, onde por algum motivo eu não pude segui-la já que falara em minha mente para não acompanhar.
Estava esperando o momento certo para fazer isso.
Eu não conseguia ver o que ela estava fazendo naquele canto escuro, sento na beirada da cama tentando recompor minha mente que já está a mil, se perguntando o porquê de ela estar aqui? Será que todos que morrem, na verdade, não morrem? Eu já reconhecia uma leve dor de cabeça começando aparecer, sinal que eu estou realmente preocupada com o que vai acontecer daqui para frente.
Eu observo-a a sair do canto da parede, ela parece impecável, sem nem se quer um aranhão em seu corpo — que um dia fora arruinado —, sua pele parecia agora tão macia e tão fácil de fragmentar ao toca-se. O que por um lado, fez-me ter medo de tocá-la. Ela agacha à frente de mim encarando-me cautelosamente tentando esconder os seus verdadeiros sentimentos, eu consigo ver em seu olhar a vontade que ela tem de me tocar. Noto um sorriso aparecer em seu rosto e, eu não consigo retribuir e eu sei que no fundo ela sente como eu estou assustada. Eu sei que eu não devia estar com medo dela, já que ela é minha melhor amiga, mas desde quando sua amiga vira um fantasma?
Eu deviria sorrir para ela e parecer feliz de vê-la na minha frente, porém eu não me sinto feliz, sinto que de algum modo ela está pressa nesse mundo, de maneira que talvez a mesma não queira se libertar, não queira me deixar para trás.
Eu prometi que sempre cuidaria de você.
Eu sinto uma dor agonizante preencher meu peito, as lágrimas já começavam a brotar nos cantos dos meus olhos. Eu sou a culpada de ela estar aqui? Levanto-me da minha cama e corro em direção à porta, abro-a e saio fechando-a atrás de mim. Eu mal consigo respirar a dor no peito é demais para mim, a dor da culpa, do desespero. Eu deslizo até o chão e começo a chorar no tempo em que vislumbro minha mãe chegar perto de mim preocupada, se perguntando o que aconteceu? Não consigo falar, apenas continuo a chorar como se meu coração dependesse de cada lágrima que desce por meu rosto. Eu estou dilacerada por dentro e nada concertara nada curara. Minha mãe me coloca em seus braços me abraçando enquanto acariciava meus cabelos, olho para meu pai que me lança um olhar triste. Eu procuro o jarro de rosas que sempre tinha perto da porta, no entanto, ela não estava lá e ali mesmo que percebo que nunca mais aquele lindo jarro de rosas estará lá e choro compulsivamente.
***
Abro lentamente meus olhos que ainda continuam cansados por causa de algum calmante que minha mãe me deu para fazer eu me acalmar. Tento olhar o meu quarto em volta, porém mal consigo me mexer. Só quero voltar a dormir na minha cama aconchegante e quente, no entanto, não quero sonhar ou para ser mais exato: não quero ter pesadelos, pesadelos são terríveis, ainda mais os meus.
Vai ficar tudo bem, Nadia.
Sorrio de canto no tempo em que observo Camila começar a ficar mais evidente. ela está diante de mim olhando-me nos olhos com um sorriso largo e intenso, dando a idéia de que até seus olhos estão sorrindo. Noto sua mão chegar até meu rosto e então acaricia minha bochecha, uma leve sensação de choque invade todo meu corpo me fazendo me sentir muito bem, como ela sempre fez. Ela sempre me fez me sentir bem mesmo nos piores momentos, sempre esteve lá por mim e novamente eu sorrio, porém dessa vez é um sorriso verdadeiro e eu fecho meus olhos dormindo sabendo que ela está ali para cuidar de mim a todo o momento.
Suspiro fundo enquanto observo a prateleira de livros que está cheia deles, pego um livro de fantasia e começo a ler a sinopse, uma sinopse interessante para um livro chamativo. Sorrio de canto enquanto observo Camila sentada na beirada da minha cama, também me observando. Deito na cama do lado dela enquanto começo ler o livro. O meu quarto é minha proteção externa, trancada em meu aposento eu não preciso sair lá fora, nem conversar com ninguém, nem mesmo com meus pais. Eu sei que minha mãe está fazendo de tudo para que eu volte a ter uma vida normal depois de tudo que eu passei, porém minha vida nunca vai ser normal, as cicatrizes vão sempre permanecer em minha alma. Ouço a porta se abrir eu olho na direção da porta fitando minha mãe adentrar. Eu sento na cama pensando por qual razão ela está em meu quarto tão cedo. Ela suspira fundo como se tivesse pensando no que dizer e um tempo depois começa a falar tentando achar as palavras sobre o motivo:
— É... Bom... Eu sei que você provavelmente vai ficar muito brava comigo por ter feito isso, mas querido saiba que é por uma boa causa. — segura minha mão acariciando lentamente. — Eu e seu pai conversamos sobre... Levá-la... A um grupo de apoio e tentar conversar com um psicólogo especializado no seu tipo de... Trauma.
Eu estreito meus lábios sentindo uma leve raiva crescer dentro de mim, não acredito que ela fez isso.
— Incrível como você estraga tudo, mãe.
Noto-a abaixar o rosto como se de algum modo fosse chorar, conheço-a o bastante para saber que raramente pessoas como ela, chora por alguém. Ela mais uma vez suspira e diz:
— Precisávamos fazer isso. Não queremos que você se isole de todo mundo, nem todo mundo vai ter machucar, Nadia.
— Não importa! Você não devia ter feito isso! Eu disse que não queria! Você nunca me ouve, nunca me ouve! Sai do meu quarto, agora! — grito enquanto sinto lágrimas começarem a brotar em meus olhos.
Eu a tiro do meu quarto e fecho a porta com tudo para não deixá-la questionar nada, consigo ouvir a casa estremecer com o impacto da porta. Eu me jogo sobre a cama começando a chorar agarrando o travesseiro, eu não quero sair de casa, não quero sair do meu quarto, eu estou bem aqui dentro, estou completamente segura aqui. Sinto a mão de Camila sob meus cabelos acariciando-os, porém não sinto o toque de sua mão e sim um leve arrepio que demonstra que ela esta ali comigo. Eu olho para ela ainda chorando e pergunto:
— Por que ela está fazendo isso comigo? Por que ela não me deixa em paz Camila?
— Ela só quer o seu bem, Mélia.
— Meu bem? — rio sarcasticamente, — serio mesmo que ela quer meu bem?
— Sim, ela só quer o seu bem, seu pai também.
Ao terminar de falar ela olha na direção da porta e logo ouço a porta se abrir e eu suspiro fundo falando:
— Já disse para você ir embora!
— Tem certeza?
Eu não respondo e o vejo entrar por completo no quarto, ele sorri de canto e pousa seu dedo indicador nos lábios para que eu corresponda o sorriso eu sorrio para ele no tempo em que coloco o travesseiro que está um tanto molhado em minhas pernas. Ele senta na beirada da cama me observando provavelmente pensando no que vai dizer:
— Sabe que lhe amamos né?
Eu faço um gesto positivo com a cabeça e percebo novamente o sorriso em seu rosto:
— Sabe que não estamos fazendo isso por maldade, não é mesmo?
— Estão sim. Eu disse que não quero sair de casa. — respondo-o olhando para meu travesseiro.
Ele levanta meu rosto cautelosamente me fazendo olhar em seus olhos azuis que no fundo compreende o que eu estou sentindo nesse momento:
— Eu sei que você nunca vai superar totalmente o que aconteceu, mas o único jeito de seguir a vida é vivendo-a por mais difícil que esteja sendo para você, aliás, para mim também está sendo muito difícil tudo isso, e eu sei que para sua mãe também. — acaricia meu rosto.
Eu pego sua mão e aperto-a levemente e logo em seguida ele me abraça forte sinto meu corpo latejar para ele se afastar de mim, no entanto, eu sorrio de canto enquanto inspiro o perfume forte que esta impregnada em sua roupa. Eu limpo as lágrimas que insistem em descer pelo meu rosto e noto Camila sorrindo para mim, como se estivesse dizendo para eu sempre confiar nele que a todo o momento estará ali para mim e constantemente me protegerá de eu não acabar sendo machucada mais uma vez.
— Então... Vai ir? Por mim. — pergunta acariciando minha costa.
— Sim papai, eu irei. Por você. — coloco sua mão direita em meu peito pressionando-a em sinal de juramento.
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