Uma Stark, Um Lannister
5 Mattys
Notas iniciais
– Mas claro, por que esperariam pela Patrulha da Noite? Nossas forças atualmente são apenas tradição. Todos sabem que desde que a Rainha Daenerys ajudou os selvagens em troca de apoio no Jogo dos Tronos, o trânsito deles através da Muralha se tornou tão comum quanto ratazanas em um porão – um dos patrulheiros tagarelava enquanto seu rústico manto negro esvoaçava pelo negrume da noite junto a poucos outros. Mais à frente, o mais jovem Senhor Comandante da Patrulha da Noite mandava o patrulheiro se calar.
Mattys tinha pouco mais de dezenove anos, e ganhara o posto após comandar, ainda verde, uma tropa estilhaçada pelos Outros e sem o Senhor Comandante, que tivera o coração arrancado do peito por um lobo gigante sem pelos, com as patas e o focinho negros como a noite e os olhos um par de fossos de neve. Mattys dançava pelos mortos-vivos com a Luminífera, antiga espada do Rei Stannis, espalhando lufadas de chamas por entre a neve e as árvores, decapitando os mortos e purificando os vivos, reagrupando aos berros patrulheiros quebrados e fincando a espada valiriana no buraco onde há poucos minutos houvera um coração batendo em seu senhor Comandante.
Archotes, tochas e postes com lampiões já estavam há muito acesos quando os quatro patrulheiros passaram pelo Portão da Neve em direção à Fortaleza de Sangue. Mattys Snow enfiou as esporas no garrano cinzento de pernas magras e incitou os outros a acelerarem o passo também. Já era possível ouvir uivos e gritos de dentro do Grande Salão. Da porta, irromperam chamas alvas que assustaram os cavalos e surpreenderam os patrulheiros, mas aos convidados fora causada apenas mais uma saraivada de urros e palmas. Com o fim do espetáculo, a dona das chamas se revelou por sobre os ombros de um rapaz não muito mais novo que o Senhor Comandante, de cabelos prateados e raras vestes tão brancas quanto as escamas de seu dragão. Ao notar a chegada dos patrulheiros, o rapaz viera ao seu encontro.
– Senhor Comandante – ele sorria – seja bem-vindo à reunião das Casas Novas e Antigas – o dragão em seus ombros se agitou com o cheiro do medo dos garranos e alçou voo, sendo agarrado pela cauda e redirecionado ao ombro do dono.- Meu irmão pede perdão por ter iniciado a festa sem a chegada da Patrulha da Noite...
– ...Mas como agora somos apenas uma força da tradição, o reino não faz questão da nossa presença. Poupe-me das convenções, Pyers – Mattys não era de floreios, quão menos de desculpas. O rosto de Pyers se transformara numa verdadeira pira de tão vermelha que estava. O rapaz tentou pedir desculpas, mas foi novamente interrompido – Perdoe-me, amigo. Infelizmente o que digo é verdade. Desde que derrotamos os Outros e perdemos mais de dois terços de nossos patrulheiros, não temos vivido bem.
– Eu soube. Parece que meu irmão não tem dispensado a devida atenção à Patrulha...
– A Patrulha da Noite não toma partido. Mas há anos também não toma patrulheiros. Também não toma tecidos, utensílios, armaduras, quão menos comida. Pyers – o jovem Comandante fez uma pausa, como se imensamente cansado, e se apoiou no ombro desocupado do Targaryen – Eu vim aqui para pedir recursos. Permaneceremos apenas o necessário.
Àquela altura, os outros três patrulheiros já haviam entregado os cavalos aos cavalariços e seguido para o calor da festa. Matt não acreditava. Eu tentando impor a vontade da Patrulha, e eles querendo festa e mulheres. Esqueceram o juramento? O Senhor Comandante viu quando nas mesas do fim do salão, um patrulheiro agarrou uma das serventes. Foi então conduzido pelo príncipe até o estrado ao seu lado. Alguns lugares à direita, estavam o Rei Barristan e os reis-príncipes Daario e Jon Targaryen, e ainda Brandon Stark e sua filha, Lyannia, acompanhados pelo intendente. Havia anos não via a herdeira Stark.
Ainda recordava do tempo em que era protegido do Rei do Norte. Um órfão de cinco anos, com um ferimento aberto na cabeça e sem memória, vagando pelo deserto branco em torno de Winterfell apenas com uma ráfia mal feita e esburacada e enrolado em um estandarte da casa Frey. Lembrava de ter adormecido no meio da neve, e quando acordara, tinha a cabeça enrolada em bandagens de seda e estava confortável em uma cama inundada de peles, com uma loba gigante sobre suas pequenas pernas semi-congeladas, e uma menina de olhos curiosos lhe observando. Fora armado cavaleiro aos doze anos por ter defendido Winterfell dos Corsários de Prata enquanto Lorde Brandon conferenciava em Correrrio, e aos quinze tinha se tornado o intendente do castelo e protetor de Lyannia. Quase fora impedido por Brandon de partir para a Patrulha, mas entendia que o lugar de um órfão com nome de bastardo não deveria ser entre os nobres senhores do Norte, por isso decidiu deixar o castelo.
Desde então nunca mais vira a filha do Protetor do Norte. Era uma mulher-feita, aquela. Os cabelos claros presos por um véu curto de renda de Myr e uma mecha que pendia sobre o olho direito. O vestido bordado em fio de prata exibia um pequeno lobo negro cosido junto ao peito, e o marfim do veludo da roupa contrastava com os olhos escuros e meio sorridentes dela. Porém, via que os lábios não sorriam. O pai conversava solenemente com o rei, e tanto ao seu lado como nos lugares abaixo parecia não conhecer ninguém.
– Barristan, o Senhor Comandante da Patrulha da Noite, Mattys Snow – ouviu Pyers entoar, e voltou sua atenção ao rei.
– Seja bem vindo, Senhor Comandante. É verdade que já foi protegido da Casa Stark? – o rei era todo sorrisos e curiosidade – Brandon me contou sobre sua breve mas eloquente passagem por Winterfell.
Matt revirou os olhos e respondeu um sim meio sem vontade. Fez uma meia reverência e foi cumprimentar Lorde Brandon.
– Há quanto tempo, filho – o rei se surpreendeu; Lorde Brandon não deveria ter contado a história completa, mas logo foi-lhe explicado – Não me olhe assim, Barry. Não deslizei para a cama de nenhuma camponesa como fez meu avô Eddard. Mattys – puxou-lhe pelo manto, o que forçou o Comandante a se ajoelhar – foi encontrado pela loba de Lyannia nos arredores do Portão do Caçador. Talvez devêssemos tê-lo chamado de Mattys Rivers ao invés de Mattys Snow, mas ele escolheu a neve, não as terras fluviais, certo? – e deu um incômodo cascudo no Senhor Comandante, rapidamente notado por seus homens. Conseguiu ouvir Gareth gargalhar do fundo do salão.
– Lorde Brandon – limpou a garganta. Seu rosto queimava – lembre-se que devo ser respeitado por meus homens. Mas obrigada pelo... caloroso cumprimento – e fugiu para o lado de Lyannia, acocorando-se ao lado direito da herdeira de Winterfell, que não controlou uma bela risada, habilmente repreendida – Lyannia, pare de rir. Não basta meus homens, minha amiga também?
– Me perdoe – segurou o riso – mas a esta altura, todo o salão já comentou sobre a recepção dada à Patrulha da Noite – explodiu em incontáveis e miseráveis risinhos – Está com menos cara de criança do que quando nos vimos pela última vez.
– Nos vimos pela ultima vez quando eu tinha quinze anos – ele a recordou.
– Oh, é mesmo – ela escarneceu – mas não tenho certeza de que seja um adulto na alma.
– E eu não tenho certeza se já conseguiu um marido. Lembro-me que seu pai procurava-lhe um quando parti para a Muralha. Temo não poder mais chamá-la de donzela.
A menção fez Lyannia corar e se calar. Melhor do que conversar com a Stark era fazê-la se calar. Ele sempre ganhava as discussões.
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