Uma Seleção Diferente
7 Primeiro Encontro - Katherine
Notas iniciais
Assim que entrei no quarto, arranquei meu vestido de uma só vez, ficando só de camisola. Não importava o quão bonito era, por culpa dele estou assim.
Me joguei na cama e as lágrimas vieram como uma enxurrada. Eu não conseguia acreditar que George fez isso. Me humilhar dessa forma.
Não!
Meu coração estava despedaçado, partido em mil pedaços.
Olhei para o criado-mudo e vi papeis e caneta. Era isso. Eu precisava da minha família.
Escrevi uma extensa carta aos meus pais, May e Gerad. A cada nova palavra, mais lágrimas caiam.
Terminei a carta deles e quando as guardei no envelope, lembrei de Jason.
Afinal ele tinha razão. Talvez só ele me amasse mesmo. Como eu era estúpida!
Peguei um novo papel e escrevi:
"Jay, estou com saudades.
Sua amiga Ka"
Fui totalmente sincera. Não podia dizer mais nada porque não sabia o que dizer. E pus nossos apelidos de criança para que não corrêssemos riscos.
Botei a carta no mesmo envelope que a dos meus pais. Torcia para que meu pai visse e enviasse a ele. Deixei o envelope no criado-mudo. Enviaria amanhã.
De repente, ouvi batidas na porta. Não tinha cabeça pra sermões da Alice agora.
– Vai embora Alice! — gritei com voz embargada — Eu não estou bem!
Mas de qualquer jeito, a porta se abriu. Mas não foi Alice que apareceu.
– Não é a Alice. Posso entrar? — George pediu com uma voz que nunca o tinha visto usar.
Apenas fiz que sim com a cabeça enquanto enxugava as lágrimas.
Ele correu até minha cama e sentou-se em minha frente. Passou suas mãos em minha face, enxugando minhas lágrimas.
– Eu... Não... Gosto... De... Te... Ver... Chorando — ele parecia estar com dificuldade para falar, mas foi a coisa mais sincera que já o ouvi dizendo.
– Eu só não entendo porque você é assim. — desabafei — Por que me trata desse jeito? Eu realmente te amo. Sou apaixonada por você desde 10 anos. Eu...
Desabei a chorar. George apenas me olhou, surpreso. Ele parecia desconcertado. Muito lentamente, ele segurou meu braço com delicadeza e me puxou para perto dele. Ele me envolveu num abraço. Chorei em seu em ombro. Não sabia mais o porquê. Se era choro de dor ou de alegria.
George Schreave estava me abraçando! Livremente! Isso para mim era muita felicidade!
– Você não deveria gostar tanto de mim assim — ele murmurou no meu ouvido.
– Mas eu gosto — murmurei de volta — Acredito que você ainda é como eu sempre imaginei.
Ele se afastou um pouco e me olhou curioso.
– E como você imaginou?
– Eu tenho vergonha, Alteza — corei e olhei para baixo.
Ele se aproximou até ficar a centímetros do meu rosto.
– Mas eu queria saber o que você pensa de mim — ele murmurou próximo a minha boca.
– Por favor, não faz isso — pedi.
Ele se afastou confuso.
– Isso o quê?
– Criar ilusões. Eu não tenho chance. Então só não faz com que pareça que eu tenha — eu estava suplicante.
George pareceu desconcertado por um momento.
– Eu só... Queria te pedir desculpas. Eu não devia ter falado aquilo — ele limpou a garganta — Você pode ficar a vontade para usar os vestidos. Além do mais, estava deslumbrante.
Eu não acreditei no que ouvi. George Schreave estava me elogiando?
– E também tem outra coisa — ele continuou — queria te chamar para passear comigo amanhã a tarde no Jardim.
Levei outro susto. Passear com ele?
– Alteza, o senhor mesmo disse que não tenho chance — ponderei — Então não consigo entender esse convite.
Ele soltou um riso.
– Você faz parte da Seleção. Quero te encontrar amanhã. Não falte — ele ordenou.
Embora seu tom de voz tenha sido firme, estava muito diferente do que ele costumava usar. Parecia que sua ordem, era mais uma súplica.
Acenei com a cabeça.
– Ótimo
Ele se levantou num salto e caminhou para sair. Mas parou ao tocar na maçaneta.
– Quer saber? Eu não tenho nada pra fazer e nem você, então que mal há em eu ficar aqui mais um pouco? — ele disse e sentou-se novamente na minha cama.
Eu ri e George me acompanhou. Seu riso era sincero. Ele estava totalmente a vontade. E eu também.
* * *
Acordei feliz no outro dia. George passara quase a noite toda comigo. Voltara para seu quarto perto das 2:00 da manhã.
As minhas criadas me vestiram com um lindo vestido de dia. Era verde com alguns detalhes prateados. Eu amei. E depois do elogio, acho que George também gostaria.
Dormi tanto que me atrasei para o café da manhã. Corri para o Salão das Mulheres antes que a rainha chegasse.
– Alice! — gritei assim que entrei no Salão das Mulheres.
– Opa! Que foi de tão grave assim? — Alice riu da minha ansiedade.
– É que eu tenho grande novidade! George me convidou para um encontro! — contei, empolgada.
– Ah, isso — de repente, Alice ficou estranha.
– É, isso. O que eu sempre quis — disse com firmeza — E pensei que você pudesse me ajudar.
– Eu? Por quê? — ela ficou confusa.
– Porque você já teve um encontro com ele! — falei como se fosse óbvio.
– Katherine, não é um dia que eu goste de lembrar. Sério, eu não posso te ajudar em nada — ela disse com sinceridade.
– Alice, sei que você não gosta dele, mas eu sim. Só quero saber como me comportar, como ele se comporta — insisti.
– Pro seu bem, espero que ele se comporte bem — Alice falou com raiva.
– Alice, aconteceu alguma coisa a mais nesse encontro de vocês? — perguntei, desconfiada.
– George Schreave é um grande babaca, mimado e que se acha o dono do mundo. É só isso — ela falou, olhando para longe.
Ela falava com tanta raiva. Eu não conseguia entender.
– Alice...
– Me desculpe, Katherine, mas eu não posso te ajudar — ela pegou seu livro e foi para outro canto, deixando-me ainda mais intrigada.
O que será que acontecera?
* * *
– Acho que este vestido está bom, senhorita — Lucy sugeriu.
– Não, não, Lucy! — Anne interviu — Este! Este aqui é o certo para a senhorita Katherine!
– Anne, Lucy, o tom de pele da senhorita Katherine combina melhor com o rosa — Mary se meteu, erguendo mais um vestido.
Meu quarto estava coberto de vestidos. Não conseguia decidir qual era o mais bonito. Então pedi ajuda as minhas criadas. Mas pelo visto não adiantou muito, pois estão as três discutindo a mais de 15 minutos sobre qual, na opinião delas, seria a melhor opção para mim.
– Chega! — gritei.
As três olharam imediatamente para mim.
– Olha, se vocês continuarem a discutir, não vou achar nada até chegar a hora. Eu preciso da ajuda de vocês e não da briga — falei com firmeza.
As três abaixaram a cabeça e murmuram em uníssono, um pedido de desculpas.
Logo depois, Mary deu um passo a frente e me estendeu o vestido rosa.
– Eu realmente acho que cairia muito bem o rosa, senhorita.
Olhei para o vestido novamente. Era realmente lindo. Era longo e tinha alguns detalhes prateados.
– Gostei. Vou ficar com este. Obrigada, Mary.
Ela abriu um largo sorriso e fez uma reverência. Elas me ajudaram a me vestir e fizeram minha maquiagem. Eu estava linda. Discreta, mas linda.
Perto das 16h00, George bateu em minha porta. Dispensei Mary, Lucy e Anne logo depois de ter ficado pronta.
Abri a porta com um longo sorriso.
– Boa tarde, Alteza — cumprimentei.
– Boa tarde, Katherine — ele me cumprimentou com um meio sorriso.
Ele me ofereceu o braço e eu o segurei com segurança. Como eu sonhei em fazer isso! Dobramos o primeiro corredor e nos deparamos com Celeste e Ashley. Elas nos olhavam chocadas.
– Boa tarde, senhoritas — George cumprimentou. Ele parecia constrangido.
As duas fizeram uma pequena reverência e nós continuamos a andar.
– Droga! — George exclamou baixinho.
– Você não queria que me vissem com você, é isso? — perguntei, desejando que fosse engano meu.
George não respondeu, apenas olhou para baixo. Puxei meu braço com força.
– Se não quer que as pessoas me vejam com você, por que me convidou pra sair? Já disse que não quero ser um peso pra você! E já pedi pra você não me iludir! — exclamei, frustada. Lágrimas já começavam a cair.
George se aproximou e tocou meu rosto da mesma forma que na noite anterior, mas desta vez eu o expulsei.
– Não! Não precisa ter pena de mim! Não quero sua piedade! Tudo que eu queria... Tudo que eu quero é o seu amor. Ou pelo menos seu respeito. Já pedi, por favor não me iluda!
– Não estou te iludindo Katherine! Nunca te disse que só por causa desse encontro suas chances aumentariam. — George defendeu-se — E não estou com pena de você. Eu realmente não gosto de te ver chorando e realmente queria sair com você.
Limpei as lágrimas. Por que tudo que ele falava mexia comigo? Por que eu era uma tonta quando o assunto era ele?
– Eu sempre quis ter um encontro com você — disse, olhando-o nos olhos.
– Ótimo! Então não vejo motivos para não irmos. Tem uma surpresa a sua espera.
Fiquei curiosa. Que surpresa? O que ele fizera pra mim?
George me ofereceu novamente o braço e desta vez segurei com mais firmeza.
– À propósito, você está linda hoje — ele elogiou no meu ouvido, me causando arrepios.
– Obrigada, Alteza — agradeci baixinho.
Chegamos ao Jardim e vi uma grande toalha de piquenique com várias comidas espalhadas.
– Não acredito! — exclamei, encantada — Eu adoro piquenique!
– Sabia que iria gostar — George falou, sorrindo.
Nos sentamos e ele me ofereceu algumas frutas.
– Humm. Amora. Adoro amora! — comi, me deliciando.
Pegava outras frutas, outras guloseimas que estavam por lá. Esse piquenique era tão farto. Bem diferente do que eu e Jason fazíamos. George ria do meu entusiasmo.
– Parece que você nunca foi a um piquenique. E você disse que adorava piqueniques — ele comentou.
– É, eu de fato gosto. Mas não, não faço muitos. Só fiz umas três vezes na vida — falei, meio embaraçada.
Não precisava nem dizer o porquê de não fazermos muito isso em casa.
– É, eu também não faço muito piqueniques. Na verdade, eu não gosto — ele falou, não percebendo meu embaraço.
– Então por que fez isto para mim? — perguntei, apontando para a toalha cheia de comida.
– Porque eu quis te agradar — ele foi direto, mas não estava olhando para mim, e sim para baixo.
– Como você soube que eu gostava?
– Imaginei. Mas tinha uma segunda opção caso não gostasse. Garotas sempre gostam de piqueniques — ele disse, sua expressão vazia.
– Então você já preparou piquenique pra outras garotas? — indaguei.
Ele soltou uma risada.
– Mas é óbvio que não! Não gosto de piqueniques. E as outras se contentam com outras coisas.
– Eu me contentaria em só caminhar ao seu lado — eu disse, também olhando para baixo.
– Mas você merece mais. Você merece isso. Pelo modo como eu tenho te tratado — ele falou, e talvez fosse impressão minha, mas ele tinha corado?
Sorri com a ideia.
– Mas e você? — ele perguntou de repente — Por que não faz muitos piqueniques? Se você gosta
– Eu acho que está meio óbvio né? — olhei para baixo novamente.
Não conseguia encará-lo.
– Oh! — ele exclamou — Me desculpe, eu não quis... Não, hoje não. Só desculpa.
Ele ergueu meu rosto. Meus olhos marejavam. Mas não de tristeza e sim de felicidade.
– Só não chore, por favor — George pediu, acariciando minha bochecha.
– Como quiser, Alteza — brinquei e nós dois rimos.
Ele pegou um pedaço de torta de morango e pôs na minha frente.
– Eu adoro torta de morango! — exclamei.
Ele riu.
– Aí, como eu queria que a minha irmãzinha tivesse aqui — sonhei alto — Ela iria adorar essa torta, essas frutas, tudo isso.
O sorriso de George se alargou. Parecia que estava maquinando algo.
– O que foi? — perguntei confusa.
– Talvez possamos mandar este banquete para a sua família, aí a sua irmãzinha poderia fazer esse piquenique como você queria.
Pisquei os olhos. Não estava acreditando. Ele era o mesmo que ontem tinha me humilhado? George Schreave também era gentil.
– Eu... Eu não sei o que dizer — falei, emocionada.
– Talvez um obrigada? — ele sugeriu, brincalhão.
– Obrigada, Alteza. — agradeci e me joguei nos seus braços.
Ele retribuiu o abraço, me apertando contra ele. Naquele momento eu me sentia indestrutível. E se alguém tentasse me destruir, teria George para me amparar. E naquele momento, mais do que nunca, eu sabia que o amava. O amava com mais força.
– Eu te amo — murmurei — eu te amo muito.
– Você não deveria gostar tanto assim de mim — ele falou baixinho.
– Sei que não sou boa o bastante pra você...
– Não! — ele me interrompeu — Eu que não sou bom o bastante pra você. Eu não te mereço.
– Por que você diz isso?
– Porque não gosto de te ver chorando. E se você continuar a gostar de mim, isso será inevitável — ele falava com sinceridade.
Não consegui falar mais nada. Permanecemos assim, abraçados e em silêncio por um longo tempo, até que ele resolveu romper.
– Sabe, não queria ter preparado tudo isso a toa.
Eu ri e me afastei.
– Tem razão.
A partir daí começamos a conversar sobre coisas mais amenas. Ele queria saber mais da minha família e sobre mim.
– Então quer dizer que você canta? — ele perguntou, fascinado.
– É — disse — É isso que fazemos pra sobreviver.
– Então por que você não canta pra mim? — ele perguntou, sorrindo galanteador.
– Alteza, o senhor... O senhor não vai gostar de ouvir — falei, encabulada.
Tinha vergonha. Vergonha de mostrar para ele e ele gostar menos de mim. E se eu não cantasse tão bem quanto imaginava?
Ele tocou meu rosto.
– Não se preocupe. Não te julgarei. Mas adoraria ouvir sua voz cantando.
Não tinha como resistir a George Schreave me olhando desse jeito!
– Está bem. — concordei — Cantarei uma música feita pela minha irmã, May
Ele sorriu e fez um gesto para que eu prosseguisse.
E então fechei os olhos e cantei. Cantei com todo o coração.
Quando terminei, abri meus olhos com cuidado e olhei para George. Seus olhos transmitiam um brilho que eu nunca vira antes.
– Fascinante! — ele exclamou.
Meu coração parou. Fascinante?
– Alteza, o senhor com certeza deve ter visto algo melhor...
– Não! — ele me interrompeu de novo — Você é a melhor.
Ele tocou as minhas mãos.
– Você é fantástica, Katherine. E não só nesse sentido. Tudo em você, é fantástico!
Meu coração parou. Acho que esqueci de respirar por um momento. Meu estômago dava voltas. Eu era fantástica? Eu era fantástica na visão de George Schreave?
– Você faz ideia do que está acontecendo com meu coração neste exato momento? — perguntei — Então por favor, se for algum tipo de brincadeira...
– Não é brincadeira. Estou falando sério. Você é fantástica — ele confirmou.
Depois, beijou minhas mãos, o que me causou arrepios.
– Bom, você faz mais alguma coisa além de cantar? — ele perguntou, mudando totalmente de assunto.
Voltamos ao tema "banalidades".
Já passava das dez, quando George mudou de novo o assunto da conversa.
– Qual é o seu sonho? — ele perguntou, acariciando meu rosto.
Eu estava deitada com a cabeça em seu colo e ele fazia carinhos.
– Hum. Acho que você já deve saber — olhei em seus olhos — Ganhar um beijo seu.
– Acho que você pode realizar — ele falou, me olhando firme.
Eu me levantei e nós ficamos cara a cara.
George segurou meu rosto com delicadeza e se aproximou.
– Espere — pedi com sua boca praticamente colada na minha — É o meu primeiro beijo. É especial pra mim. Preciso saber se será especial para você também.
– Não devia ser — ele sussurrou. Respirou fundo e continuou — Mas é. É especial.
Depois, ele rompeu a pequena distância e me beijou.
Seu beijo foi doce e intenso. Não sabia com agir. Nunca tinha beijado antes. Deixei-me levar. E foi mágico. Muito melhor do que sonho.
Quando nos afastamos, lutávamos por ar. Nos olhamos e sorrimos.
Pelo seu olhar pude perceber. Fora especial para ele, tanto quanto fora pra mim.
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