Uma Selecionada?!
4 Capítulo 4
Olhei para os saltos em minhas mãos e suspirei. Não aguentava usar saltos e vestidos quase todos os dias. E eu me arrumava tanto pra quem...? Antigamente, era tudo para Peter: as tranças que pedia que minhas criadas aprendessem a fazer, os vestidos que eu ajudei a desenhar... E o mais engraçado é que nunca percebi isso. Nem eu, nem ninguém.
Sai da biblioteca e dei de cara com minha mãe.
"Mãe!" suspirei e a abracei. Ela riu e retribuiu o abraço.
"Filha! O quê está fazendo aqui? Achei que você fosse estar com Peter e..."
Olhei para meus pés. Peter. As coisas aconteceram tão rápido que foi como se nada tivesse acontecido.
"Ei, Anna, está tudo bem?"
Encontrei os olhos da minha mãe. Ao contrário dos meus, seus olhos eram azuis, e me lembravam a neve caindo numa tarde de inverno. Os meus pareciam duas avelãs. Lágrimas brotaram em meus olhos, e minha mãe entrou na biblioteca comigo.
"Vamos Anna, conte-me." ela disse, ríspida.
"Contar?" eu disse, secando as lágrimas dos meus olhos. "Contar o quê, mãe? Não há nada pra contar. Não aconteceu nada"
"Filha" minha mãe disse, sorrindo "eu e seu pai sabemos de sua queda pelo Peter. Você acha que te afastávamos dele simplesmente por causa de um príncipe, que foi rejeitado?" ela riu "Não minha filha. Sabíamos que vocês dois não poderiam ficar juntos, e sabíamos que ele não gostava de você..."
"Aí é que está, mãe" eu disse, chateada por meus pais terem descoberto meu segredo antes de mim mesma "Ele gosta. Se declarou pra mim, da mesma forma que eu o fiz. Mas não importa, ele vai casar. Com a Célia, aquela menina loirinha e linda! Ela é muito mais bonita que eu..."
Minha mãe se levantou, rapidamente. Seu vestido de cetim esvoaçou com a brisa que atravessou a janela do cômodo.
"Nunca mais diga isso, Anna Schreave Singer. Você, mais do que muitas princesas e selecionadas que já passaram por estes aposentos, é linda! E só você não enxerga isso!" ela disse, soltando minha trança e passando a mão sobre meu cabelo. Uma mexa ruiva encontrava-se teimosamente sobre meu rosto, e ela a tirou de uma forma carinhosa "Vamos, minha filha. A Seleção irá começar, as coisas irão mudar. Você é uma boa menina, é linda, inteligente, talentosa" disse, apontando para o filme em minhas mãos "Não vai terminar de mãos abanando, ok?"
Assenti, secando minhas lágrimas novamente, dessa vez de alegria. Minha mãe beijou minha testa, e olhou para meus pés. Começou a rir.
"Em minha defesa, estes saltos tem oito centímetros!"
Ela riu novamente, levantou o vestido longo e retirou os seus, que eram muito parecidos com os meus: nudes, apenas sem o pequeno laço no calcanhar.
"Os meus também!"
Rimos e saímos do local. Minha mãe foi para uma reunião, portanto botou novamente os sapatos, mas deixou que eu fosse descalça até o meu quarto.
Ao chegar ao quarto, bato em algo, ou melhor, alguém
"Me desculpe, eu não o vi..."
"Não se preocupe, senhorita, a culpa foi toda minha."
Li o broche no uniforme do rapaz: Jonathan.
"Bonito nome. É inglês?"
Ele se mostrou surpreso com meu interesse.
"Acredito que sim, senhorita. Também gosto do seu nome." ele me lançou um sorriso tímido.
"Obrigada!" disse "Não sei a origem, mas também gosto muito dele."
Rimos e ele sussurrou
"A senhorita é muito bondosa com os funcionários do palácio, e nós a adoramos. Qualquer coisa que precisar, é só chamar certo?"
Assenti feliz. Jonathan devia ter a minha idade, e tinha uma aparência muito atraente, apesar de não fazer meu tipo: seus olhos eram azuis, como os da minha mãe, e seus cabelos eram dourados, curtos, como os de um soldado.
Fiz uma breve reverência e entrei no quarto, me deparando com o mais belo dos vestidos: era longo, de seda, creme. Continha duas alças entrelaçadas em um X no tronco. A saia tinha lindos bordados e este continha um cinto dourado. Um par de sandálias beges não deixavam dúvidas de que este era um vestido de verão, apropriado para o tempo.
Minhas criadas entraram no quarto e, assim que me viram, empalideceram.
"Senhorita, estávamos no nosso café da manhã, viemos o mais rápido que conseguimos e..."
"Adorei..." sussurrei, pra ninguém em especial
"O que disse, senhorita?" Juliet disse, o mais calma possível.
"Eu amei esse vestido!" disse, me virando para elas, que sorriam, orgulhosas "Este é um dos vestido mais lindos que já vi em toda minha vida! Vocês capricharam!" dei um abraço em cada uma delas, empolgada "Mas para que usaria algo tão..."
Parei de falar assim que olhei para minha escrivaninha. Oh, não.
Uma pasta amarela tinha um carimbo bem grande, escrito SELECIONADOS.
"Senhorita?" Carla disse, desajeitada "Está tudo bem?"
Senti minhas pernas estremecerem, e meu corpo ficar gélido.
E, de repente, tudo escureceu, como no final do ato de uma peça de teatro.
***
Acordei em uma cama, e logo reconheci o local: a enfermaria do palácio. Olhei em volta, e vi meu pai ao meu lado, analisando, se eu tinha visto bem, uma foto que eu mesma tirei de mim no jardim á algumas semanas: eu sorria, alegre.
"Pai?!" eu disse, ao notar que usava apenas uma camisola azul marinho.
"Querida!" ele disse, e me abraçou "Sua mãe foi tomar um café, e assim que soube do ocorrido, cancelei todos os meus compromissos de hoje. Quer dizer que você desmaiou ao ver a ficha dos Selecionados?"
Assenti, ao me lembrar da cena do meu desmaio. Foi horrível, como se alguém tivesse me apagado, como uma lanterna.
"Achou alguém mais bonito que seu pai?"
Ri e bati em seu ombro.
"Acontece que eu nem cheguei a ver os meninos que você e a mamãe escolheram. Eu vi a pasta e acho que escolheram uma péssima cor de carimbo, portanto cai..."
"Nos braços de um Guarda. Quem diria, não é?" minha mãe me disse, ao entrar na sala.
"Ah, disso eu não lembro. Como assim?"
"Ao perceber alguma coisa errada, o guarda que fazia ronda em frente ao seu quarto abriu a porta e a segurou, bem na hora de sua queda. Quer dizer, foi isso que a Juliet nos disse."
Arregalei os olhos e me lembrei do que Jonathan havia me dito: se precisar de algo, é só nos chamar... Só que dessa vez nem chamar eu precisei. Que eficiência!
"Acho que as coisas começaram bem para você, Anna".
"Como assim, começaram?" disse, sem entender, para meu pai.
"Bom filha, como sabíamos que estava com medo de não conseguir encontrar ninguém na Seleção, pedimos que alguns guardas se inscrevessem."
"E...?" eu disse, esperando que Peter estivesse na lista. Apesar que, bem, Peter estava noivo
"E, o destino te deu uma ajudinha, porque o Jonathan foi um deles!" minha mãe disse animada.
Olhei para meus pais. Minha mãe olhava para mim, esperançosa. Já meu pai me lançava um olhar malicioso. Jonathan? Peter?
Era muita coisa pra minha cabeça.
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