Uma Realidade Diferente

3 Capítulo 2 - Curiosidade matou a gata


Notas iniciais
Heh, e tudo agora começa...

Curiosidade matou a gata

Uma claridade começou a incomodar. Anna acordou totalmente grogue, bastante sonolenta também, e os olhos semi abertos. Levou alguns minutos para se dar conta que sua máscara ainda estava em seu rosto. Não que isso fosse de extrema importância mas ficou contente por manter sua identidade ainda oculta. Seu corpo estava deitado em algo confortável e quente. Uma cama. Só podia ser uma cama grande e bem macia. Porém o teto que via não era o de sua casa, seu esconderijo. Aquela cama com certeza também não era dela. Aquele lugar não era seu porto seguro.

Onde estou...?, pensou.

Fechou os olhos para se lembrar do que havia acontecido ou como fora parar ali. Não conseguia, estava tudo muito confuso e sua cabeça girava e girava. Arriscou mexer o corpo mas não teve sucesso. Só sentia a sensação de dormência em todo lugar. Sensação de peso.

De repente sua cabeça ficou pesada e atordoada e Anna foi obrigada a fechar os olhos e sucumbir ao sono uma outra vez. Um sono sem sonhos. Somente a escuridão...

Quando acordou novamente, não havia tanta claridade como da primeira vez que abrira os olhos, a única diferença era que a dormência em seu corpo diminuíra e sentia-se capaz de mexer, no mínimo, sua cabeça. A boca estava seca e com um leve sabor metálico nos lábios quando passou a língua para umedecê-los. Lembrava sangue seco. Sangue? Ah, sim, sangue. Agora lembrou-se exatamente o que havia acontecido. Ela protegera V com seu corpo. Protegera-o de cada bala atirada por Creedy e seus homens. Aliviada, imaginou que, onde estava, deveria ser o lar de V. Suspirou vagarosamente de alívio por imaginar V vivo, são e salvo e... Espera! Se ele estava vivo, se ela fora impiedosamente baleada e agora se encontrava em uma cama, supostamente a dele, e sentia dormência em seu corpo, só podia significar que...

Céus!

Ele tratara e cuidara de seus ferimentos! E, para isso, com certeza ele teve que rasgar suas roupas para ter acesso aos diversos buracos de bala. Limpá-los, remover bala por bala, estancar o sangue e por gaze e curativos. Ele provavelmente vira sua pele exposta, seus pequenos e delicados seios, sua barriga bem malhada, suas coxas e, se duvidar, parte de sua pélvis.

Anna imediatamente se sentiu envergonhada e exposta. Sentiu-se vulnerável e assustada. Podia sentir as maçãs de seu rosto queimarem só de imaginar as mãos enluvadas de V tocando sua pele nua.

Engoliu em seco, sentindo a garganta terrivelmente seca, e tentou respirar fundo mas uma agonizante dor aguda trespassou seu peito e seus sentidos. Anna trincou os dentes, o maxilar de repente tenso, e soltou um longo gemido de dor.

– Bom dia, senhorita. – afirmou uma voz masculina próxima à cama. Seu tom transmitia tranquilidade. – Fico contente que tenha finalmente acordado.

Anna virou a cabeça na direção da voz, só agora notando como o travesseiro era macio, e viu V sentado em uma cadeira, encarando-a com seus olhos ocultos pela máscara de Guy Fawkes. Ele não estava muito distante e segurava um livro aberto na metade em suas mãos. Devia estar esperando–a despertar há algum tempo.

Levantando-se da cadeira, V colocou o livro onde estava sentado, e aproximou-se da cama com passos rápidos. Anna arqueou uma sobrancelha pela graciosidade com que ele se movimentava, achando intrigante e ao mesmo tempo sensual.

– Como se sente? – ouviu–o perguntar.

– Meu corpo parece pesado mas acho que estou bem, obrigada. – respondeu, sorrindo fracamente por trás de sua máscara. – Quanto tempo fiquei desacordada?

– Quatro dias. – V respondeu prontamente. – Fiquei preocupado que não acordasse mais.

– Quatro dias?! – Anna pareceu espantada. – Nossa... Ahn, não se preocupe, tenho resistência o suficiente para suportar aquilo e sobreviver.

Não, não tenho. Na verdade, nunca pensei que tivesse. Pensei que fosse morrer, isso sim.

V deu uma risadinha e baixou a cabeça para fitar o chão de forma pensativa e estática. Anna se perguntou o que deveria estar se passando naquela mente geniosa mas infelizmente relembrou que ele provavelmente a vira semi nua. Novamente se sentiu envergonhada e fechou os olhos desejando afastar tais pensamentos ou não seria capaz de encará-lo mesmo que seu rosto estivesse escondido por uma máscara simples.

Um silêncio constrangedor se sucedeu, o ar tenso, mas Anna foi a primeira a cortar esse incômodo.

– Estou...

– Em meu lar? – cortou V, como se soubesse o que ela ia perguntar. – Sim. Era necessário tratá-la imediatamente e minha casa era o único local próximo e seguro para isso.

Anna assentiu com a cabeça, compreensiva, e suspirou sentindo-se cansada de repente. Não queria voltar a dormir queria aproveitar que ele estava bem ali, finalmente perto um do outro como no dia do atentado ao prédio da BTN, para conversar. Então como alternativa para se manter acordada, tentou se sentar na cama. Um doloroso erro. Parecia que muitas partes de seu corpo, com exceção de suas pernas, eram alfinetadas pela agulha chamada dor.

Anna rosnou de dor imediatamente, arqueando a cabeça para trás.

V prontamente se sentou na beira da cama, tomando cuidado para não machucá-la, e afagou a cabeça de Anna com uma de suas mãos enluvadas impedindo-a de se mexer. Anna sentiu o calor de V através da luva e isso lhe causou uma boa sensação de tranquilidade.

– Não aconselho que se movimente agora. O mais certo a fazer é descansar e permanecer como está.

– O que aconteceu com Creedy e seus homens? – perguntou ela, subitamente.

– Todos mortos.

– E o Parlamento?

Anna teve a leve impressão que a cabeça de V mexera. Apenas uma incerta impressão.

– Em ruínas. – V respondeu sem hesitação e logo ficou de pé. – Agora, por favor, trate de descansar. Deixemos as perguntas e conversas para quando estiver mais forte.

Então V se virou e fez seu caminho para a porta até ouviu Anna dizer, a voz próxima a um sussurro. Podia sentir o sorriso na voz dela.

– A gratidão é o único tesouro dos humildes¹.

Muito bem, pensou V.

Com um meio sorriso nos lábios, o vigilante fechou a porta atrás de si e deixou que sua salvadora descansasse. Estava ansioso por sua recuperação porque queria fazer algumas perguntas. Ansioso por saber sobre o que acontecera na noite de sua revolução. Tinha que admitir que tamanho ato de bravura da parte dela não era algo que tivesse previsto. Muito menos era uma coincidência porque V não acreditava em coincidências. Sabia muito bem que deveria ter alguma razão especial para Anna quase sacrificar vida pela dele.

No entanto, sendo somente um pensamento para depois, V resolveu sair e observar como as pessoas estavam lidando com sua revolução depois que deixou o Parlamento só as ruínas e destroços. Não sabia quanto tempo iria demorar mas seria o mais breve possível. Até aproveitaria esse tempo e faria a "compra" da semana.


O cômodo estava um breu quando Anna acordou. Significava que V não estava ali perto em sua cadeira, lendo, mas poderia estar simplesmente observando na escuridão. Por que não? Anna faria o mesmo se fosse o contrário. Não seria capaz de evitar não observar V enquanto dormia, ansiosa para que acordasse. Talvez fosse pela ausência de V ali que se sentia desapontada.


Testou seu corpo antes de, finalmente, sentar-se na cama. Uma tontura quase a fez cair deitar na cama novamente mas não tardou a voltar ao normal. Murmurou um "Yes", contente por mal ter sentido dor, somente a tontura, e isso significava que seu corpo estava se recuperando bem. Adorava a sua alta capacidade de cura, algo totalmente anormal se comparado a um ser humano comum. O mesmo pode-se dizer quanto à sua resistência, velocidade e reflexos. Anna não era uma simples e normal mulher londrina que bancava a vigilante feminina e assassina de Fingermen.

Ele não está no quarto então deve estar em algum outro lugar. Não acho que me fará mau explorar a casa alheia um pouco..., ela pensou, olhando para a porta.

Contou até três antes de, num salto, colocar-se de pé e caminhar rumo à porta do cômodo. Não parecia uma missão difícil como também não era fácil.

Anna cambaleou um pouco no começo mas logo tomou firmeza assim que sua mão tocou na maçaneta de bronze e a puxou, abrindo a porta, xingando mentalmente quando as dobradiças rangeram baixinho. Mesmo assim continuou o seu caminho com os olhos semi cerrados enquanto não se adaptavam a recente luminosidade do corredor que levava à outra porta de madeira. O corredor era similar a um túnel e as portas eram de madeira aparentemente antiga.

Quando Anna, cautelosamente, passou por essa segunda porta, abriu a boca, sem palavras, por ver tantos lindos quadros de pintores famosos e outros desconhecidos. Logo ao lado esquerdo, olhando para ela, viu uma estátua em tamanho real de Guy Fawkes, entre outras pequenas e médias estatuas mais adiante, aqui e acolá. Era uma esplêndida e peculiar coleção de artefatos antigos, quadros, estátuas, esculturas e borboletas. Nunca antes havia visto esses tesouros e muito pouco os reconhecia de livros que já lera ou fotos que já vira. Simplesmente impressionante. Incrível! Avistou até mesmo xadrez e um piano no centro do que deveria ser... Bem, poderia chamar esse amplo espaço de sala de estar? Hm, não era algo importante para se preocupar agora, apenas deveria se deixar encantar por estar em um lugar tão bonito.

No tempo que esteve seguindo V obsessivamente, nunca tivera coragem de entrar ali. O interessante é que não sabia se devia se arrepender ou não por nunca ter entrado naquele local.

Havia uma jukebox também! Isso ela não acreditava estar vendo e por isso certificou-se por si mesma que era mesmo uma jukebox. Havia tempos que não via uma assim tão de perto e principalmente com tantas músicas antigas e clássicas. Teve que segurar o impulso de escolher uma música e se deliciar da primeira melodia que atravessasse seus tímpanos.

Sorria como uma boba e, virando a cabeça para captar cada centímetro e cada artefato ali, curiosa, admirada. Parecia uma criança após descobrir seu novo lugar para brincar e se divertir. Há tempos não se sentia tão bem dessa forma...

Passava a mão, aproveitando que não calçava nenhuma luva nas mãos, sobre a madeira lisa do piano, sentindo sua solidez e o cheiro puro e original do verniz. Fechou os olhos imaginando quais músicas ainda se lembrava tocar; e se AINDA sabia tocar alguma. Lembrava que seu irmão mais velho tocava piano com perfeição e graça, principalmente em feriados ou reuniões de família as quais Anna odiava porque era obrigada a vestir um vestido escolhido pela mãe. Oh, pensar sobre isso lhe trouxe uma dor no peito e sentimento de tristeza.

Ah, lembrei! Minha boca ainda deve estar suja de sangue seco, tenho que limpar. Onde será que é o banheiro daqui?, relembrou ela, chutando seu passado para longe.

Anna olhou os lados e só agora veio perceber que devia estar sozinha ali e que V deveria ter saído para fazer alguma coisa. Ou simplesmente ter saído para dar uma volta ou caminhada. Pelo menos ela fazia caminhadas vez ou outra para relaxar o corpo. Entretanto, aproveitaria que V estava fora e iria limpar sua boca e lavar o rosto.

Suspirou e ergueu os braços, pondo as mãos atrás da cabeça, entre os fios do seu curto cabelo, para desatar o nó que mantinha sua máscara presa ao seu rosto. Porém sentiu alguma coisa pingar em seu pé e escorrer pela sua canela em seguida. Água? Não poderia ser. Então...

Havia várias respingos de sangue ao redor de seus pés (inclusive o pingo que caíra no pé dela) além de sangue escorrendo por suas pernas, coxas e barriga. De repente sua cabeça girou e ficou pesada, sua visão embaçando aos poucos.

Porcaria...

Mexeu sua mão cegamente procurando algo que pudesse se apoiar porque suas pernas estavam fraquejando e sua cabeça pesava cada vez mais. Não encontrou nada ao seu toque e devagar seu corpo ia se inclinando para trás, caindo em direção ao chão...

Até que braços fortes a seguraram com firmeza, ouvindo o clank de alguma coisa após cair no chão e focalizou rosto de Guy Fawkes encarando-a e sacudindo-a. Anna lutou para manter seus olhos abertos, abrindo a boca para falar alguma coisa mas não conseguia se lembrar como se falava.

Novamente seu corpo foi ficou dormente e seus sentidos aos poucos se apagaram.


Dessa vez foi gemendo e bocejando que Anna abriu os olhos devagar e perceber que estava no quarto, deitada na cama novamente. Resmungou baixinho e ajeitou-se o suficiente para se sentar com as costas encostadas na cabeceira da cama e usando os travesseiros como almofadas.


Só agora Anna podia ver como era o quarto e como ele era atolado de pilhas de livros. Tinha até mesmo logo acima de sua cabeça em prateleiras com mais livros em pilhas inacabáveis. Perguntou-se como ele conseguia manter tudo aquilo em pé ou como ele alcançava os livros que se encontravam no topo dos mais altos pilares. Quem sabe usasse uma escada ou um simples banquinho.

Até quando ele vai conseguir me surpreender com suas coisas?

– Quantos livros... – ela murmurou, explorando com olhar de águia.

Havia títulos de famosos como Shakespeare, Jane Eyre, Dante, Charles Dickens, ECT. Alguns que Anna lera no passado e possuía em sua estante de livros em sua casa.

– Sim, uma extensa e valorosa coleção de livros. Todos lidos.

Anna se assustou e levou, por reflexo e instinto, uma mão para sua cintura em busca de uma adaga imaginária. Imaginária porque não estava com seu cinto de utilidades. Relaxou quando viu V em pé, de braços cruzados, e com o ombro apoiado no batente da porta, fitando-a intensamente. Sentindo o peso do olhar, Anna fingiu que ainda explorava com os olhos.

– Não apareça assim de repente. Sempre tem o hábito de assustar as pessoas? – disse ela, baixinho, sem encará-lo, tentando soar divertida.

– Minhas desculpas, não era minha intenção assustá-la. Como se sente?

– Espero que melhor...

V resolveu se aproximar da cama cruzando os braços atrás do corpo e inclinando um pouco a cabeça para baixa afim de manter os olhos em Anna. Ficou assim por longos 35 segundos de silêncio, a coitada morrendo de nervosismo e visivelmente sendo observada.

– Também espero. Se me permite perguntar, gostaria de saber o que fazia fora da cama e na minha sala de estar? – então realmente era uma sala de estar, interessante.

Anna suspirou e moveu a cabeça para encarar V.

– Fiquei curiosa e resolvi explorar sua casa, não demorando para notar que você estava fora. – respondeu, pronunciando as palavras devagar. – Então lembrei que minha boca ainda devia estar suja de sangue e iria procurar pelo banheiro para lavar meu rosto.

– Hum.

V puxou a cadeira de sua escrivaninha que ficava relativamente perto da cama e se sentou com as pernas parcialmente abertas e os antebraços apoiados nos braços de aço. Seus olhos ainda encaravam fixamente Anna como se estivesse encantado ou admirando um quadro com curiosidade. Ela, por sua vez, também encarava V nos olhos; os olhos da máscara mesmo.

Então desceu o olhar para seus ombros e seu peitoral largo, vendo que o tecido era de seda preta e razoavelmente justa ao seu corpo. Depois delineou seus braços e, por fim, suas pernas tão bem malhadas; ou assim pensou. Era impossível de ver sua pele, totalmente protegido por sua roupa de vigilante. Um estranho e oculto desejo aqueceu a barriga de Anna que corou com o pensamento.

V sorriu por trás de sua máscara e inclinou um pouco diagonalmente sua cabeça.

– Gostaria de tomar um pouco de chá? – ele perguntou com voz suave.

– Sim, claro, obrigada. Estou sedenta.

– Está logo ao seu lado. Garanto que se sentirá melhor ainda.

– Obrigada, é muita...

Hesitante, Anna pausou para finalmente desviar o olhar e encontrar uma xícara de chá ao seu lado, sobre um pequeno móvel rente à cama. O líquido fumegava e tinha um odor agradável.

– ... Muita gentileza de sua parte.

– Não há porquê agradecer, senhorita. – ele retribuiu, ainda sorrindo. – É o mínimo que posso fazer como agradecimento por ter salvo minha vida. Todavia, gostaria de conversar um pouco?

¹.: "A gratidão é o único tesouro dos humildes" by Willian Shakespeare.

Notas finais
Espero que tenham gostado da Anna, minha OC >.