Uma Nova Vida
11 funeral
Na segunda quando cheguei na escola encontrei July perto da entrada, parecia estar esperando por alguém.
— Caius, preciso falar com você, é urgente. — Ela disse falou afoita. Eu pude ver pelo tom de sua voz que o assunto, seja lá qual fosse, era sério.
— Diga.
— A mãe da Milla, ela passou mal ontem. Eles levaram ela pro hospital, mas a Milla acabou de me ligar. Parece que ela se foi ... — Enquanto falava lagrimas corriam pelo rosto da garota. Naquele momento meu chão parecia ter desaparecido. — Milla disse que o funeral vai ser hoje a tarde. Você vai não é? — Ela falou. Eu estava em transe. Tudo que eu podia pensar naquele momento é em como Milla devia estar se sentindo.
— Vamos lá agora! — Eu sugeri desesperado pra saber o estado em que a garota estaria.
— Não, ela deve estar com o pai e o irmão agora. É melhor você assistir as aulas junto comigo, depois que elas acabarem a gente vai na igreja ver como ela esta. — Ela disse me segurando.
•••
POV Milla
Eu não podia acreditar. Meu mundo caia aos poucos. Eu estava perdida ali, meu irmão me abraçando forte. Eu deixava lagrimas correrem soltas por meu rosto. Eu não acreditaria se eu mesma não tivesse visto quando o médico tentou ressuscitar ela pela ultima vez com a massagem cardíaca.
O momento que nós vínhamos adianto nos últimos dois anos finalmente chegara. Eu estava perdida, parecia não haver chão em baixo dos meus pés. Eu só sentia o vazio. E a dor excruciante da certeza de que ela não estaria ali. Meu irmão me soltou no momento em que uma de nossas velhas tias veio desejar seus pêsames a nós.
A igreja estava cheia. Vários parentes nossos estavam ali, alguns amigos da família também. Lá na frente, próximo ao altar estava o caixão de minha mãe, varias coroas de flores ao redor dele. O caixão estava aberto. O corpo de minha mãe estava mergulhado em um mar de flores amarelas e brancas, as favoritas dela.
Ela faleceu de madrugada, eu lembro de ter visto o sol começar a nascer quando ela começou a ter o ultimo ataque. Eu lembro dos médicos entrando no quarto com toda a parafernália deles. Eu me lembro de um deles me empurrar pra longe dela e pedir que eu não atrapalha-se enquanto eles tentavam salva-la.
As imagens embaçadas se misturavam em minha mente. Tudo era muito confuso naquele momento. Eu precisava de algum rosto conhecido ali, meu irmão e meu pai estavam ocupados dando a atenção que eu não conseguia as pessoas que chegavam para se despedir de mamãe. Eu tinha ligado mais cedo pra July, eu precisava de uma amiga nesse momento. Ela tinha prometido vir assim que as aulas acabassem.
Eu não fazia idéia da hora, eu só sabia que estava ali a tanto tempo que meu corpo já começara a reclamar da falta de alimento.
— Filha, vamos comer alguma coisa. — Meu pai se aproximou de mim tranquilamente. Ele era assim, o mundo podia estar desabando ao seu redor que ele ficava assim: tranqüilo. Ele não gostava de mostrar seu lado fraco a ninguém, ele era sempre o suporte de todos.
— Não, vou ficar mais um pouco, depois eu vou. — Me recusei a sair dali, eu não queria me afasta do corpo de minha mãe. Fiquei sentada naquele banco da igreja, mais ao fundo pois não queria ser incomodada pelas pessoas que iam e vinham.
Eu senti uma mão tocar meu ombro. Me deparei com July, seu rosto era preocupado. Eu nunca tinha visto a tão confiante July dessa forma. Levantei me deixando ser abraçada por ela.
— Ta tudo bem com você Milla? — Ela perguntou, sua voz saindo meio falha. Eu senti as lagrimas correndo por seu rosto delicado.
— Na medida do possível. Obrigada por ter vindo. — Eu disse me afastando dela. Só agora eu notava um Caius sério, parado um pouco a traz de July. Ele caminhou até mim me abraçando forte.
Ele simplesmente suspirou baixo e encostou o queixo nos meus cabelos, me trazendo mais pra perto de si. O chão pareceu sumir sob meus pés, tudo desapareceu de minha consciência, os convidados querendo me desejar suas malditas condolências, os bancos ao redor, as flores da decoração, até mesmo o caixão de mamãe. Tudo. Só o que restou foi aquela mão gentil em minhas costas. E foi nesse momento que eu me dei conta que aquele toque não representava a segurança de um amigo, mas sim a segurança de um homem, aquele tipo de proteção de que uma mulher precisa, a certeza de saber que sempre haverá um cavalheiro para ampará-la.
— Uma hora essa dor passa, acredite em mim. — Ele disse em meu ouvido, logo em seguida rompendo o abraço reconfortante. — Vem comigo, eu queria me despedir da sua mãe.
Eu achei que meus joelhos não fossem mais capazes de me manter em pé a não ser que ele me segurasse, mas para meu alívio ele deixou que eu continuasse segurando sua mão enquanto caminhávamos até o lugar onde estava corpo de minha mãe.
Eu segui, a mão forte dele presa a minha frágil. Ele me conduziu até o altar. Eu nunca tinha notado Caius daquela forma, talvez fosse a situação, ou até mesmo lugar. Eu não sei, só sei que ele estava diferente. Ele parecia mais forte, mais seguro de si. Seu cabelo estava preso como no dia do baile, alguns fios rebeldes escapando.
Peguei-me olhando para Caius enquanto ele se despedia de minha mãe, acompanhando os fios negros dançando de leve no pescoço dele quando a brisa fraca que entrava na igreja soprava. Senti-me bem ao me ver com alguém ao meu lado, uma companhia agradável e silenciosa. Era tudo que eu precisava naquele momento.
Quando ele terminou, eu vi July fazer o mesmo.
— Quando foi a ultima vez que você comeu alguma coisa? — July me perguntou preocupada.
— Eu não me lembro. — Falei sincera.
— Vem, você vai almoçar com a gente. — Caius me puxou pela mão que ele ainda segurava.
Eu simplesmente fiz o que aqueles dois me mandavam. Eu estava ali com eles e isso me transmitia uma sensação de segurança de outro mundo. Eles me distraíram durante a tarde inteira.
A tarde já estava acabando quando nós voltávamos para a capela. Olhei para o rapaz ao meu lado e sorri ao ver como os raios do sol cintilavam sobre os fios negros do cabelo dele. Ele me olhou e notou que eu sorria, retribuiu o sorriso e continuou andando. Eu suspirei, pensando no quão reconfortante era estar ali, do lado dele. Toquei a mão dele. A pele fria da minha mão contrastou com o calor da mão dele. Ele envolveu minha mão na sua, acariciando-a, me abraçando novamente. Eu senti sua mão esquentar, uma exata cópia de seu peito. Deixei-me levar por aquele toque, aquele carinho, aquele calor.
— Eu tenho que ir, minha mãe já deve estar chegando. — Ele sussurrou no meu ouvido.
— Tem mesmo? — Eu perguntei, me recusando a sair dali.
— Tenho, e você também. — Ele disse desfazendo o abraço, ainda segurando a minha mão. — O enterro vai ser amanha cedo, certo?
— Uhum. Vocês dois vão poder ir? — Perguntei, me lembrando que July ainda estava conosco.
— Vamos sim, não é July? — Ele falou olhando pra loira.
— Vamos sim. — Ela disse vindo em minha direção e me abraçando. Eu podia sentir a preocupação de minha amiga naquele abraço. Quando ela me soltou nós voltamos pra capela, encontrando a mãe de Caius conversando com meu pai.
— Oh, Milla minha querida, eu sinto muito. — Ela veio em minha direção me dando um terno abraço. Eu gostava muito dela, sempre fora muito amável comigo em todas as nossas conversas.
Quando Yume me soltou ela foi para junto do filho.
— Acho que esta na hora de irmos, não é meu filho? — Ela falou olhando para Caius. O alto rapaz concordou fazendo um pequeno aceno com a cabeça.
Os braços longos me envolveram novamente e instintivamente fechei meus olhos. A respiração suspensa pelos segundos que duraram aquele contato. O calor do corpo colado ao meu quase me fazendo gemer de satisfação. Desejei tanto que aquilo acontecesse novamente.
Caius se soltou do abraço de forma súbita demais me tirando de meu torpor momentâneo.
— Tchau. — Ele disse se afastando, ainda olhando no fundo de meus olhos.
O observei até alcançar o veículo e se acomodar dentro dele.
— Eu quero muito ver a cara do Caius quando ele descobrir....
— Descobrir o que? –Indaguei após ouvir July divagando.
— Descobrir o que você sente por ele.
— Você não vai...
— Claro que não vou. – A loira me tranqüilizou com um sorriso no rosto. — Mas ele vai cair na real em algum momento. Cedo ou tarde ele vai perceber o que tem diante do nariz dele. Só espero que seja esperto o suficiente para não deixar escapar.
•••
POV Caius
Eu estava olhando pela janela do carro enquanto minha mãe se acomodava. Pude ver July falando alguma coisa com Milla. Eu vi a garota ficar sem graça com o que a outra tinha lhe dito. Eu fiquei observando Milla até ela sumir da paisagem.
Encostei a testa no vidro e fiquei observando o horizonte, o sol se punha a minha frente. O dia havia sido estranho. Nunca havia sentido Milla tão próxima de mim. Eu podia sentir na garota a necessidade de me ter ali por perto. Ela precisava de alguém que pudesse lhe dar atenção e carinho naquele momento. E eu tinha completa certeza de que esse alguém deveria ser eu.
A tristeza dela era enorme. Eu e July passamos a tarde inteira com ela, tentamos de todas as formas possíveis fazer a garota se distrair, mas nada parecia funcionar. Ela pareceu estar em outro mundo o tempo inteiro que esteve conosco. Ela passou mais tempo observando o nada do que nos dando atenção. Não que eu a culpasse por isso, afinal ela perdera a pessoa mais querida pra ela no mundo.
Minha mãe me avisou quando chegamos em casa, fui direto pro meu quarto, não querendo conversar com ninguém depois de tudo que acontecera durante o dia. Já tinha sido difícil agüentar assistir todas as aulas pela manha. Acabei nem indo cortar meu cabelo como tinha combinado com July. Deitei em minha cama pensando na vida. Os olhos tristes de Milla ainda nítidos em minha retina. Adormeci com aquela visão.
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