Tessa Roberth


“Tess, você foi a minha primeira filha. Foi a primeira vez que desejei viver eternamente, para nunca perder um sorriso seu.

Com amor, tia Adeline.”




— Alô, estou falando com Tessa Roberth? — Uma voz urgente ecoou do outro lado da linha.


— Sim… o que aconteceu?


— Sou da emergência do Hospital Saint Mary. A senhorita estava na discagem rápida de Adeline Haster.


Em alguns momentos, nossa mente simplesmente não consegue processar corretamente as informações que recebeu.


Porém, nessas ocasiões, o corpo simplesmente entra em um estado automático.


E é assim que me sinto agora.


Eu notei quando o peso do telefone desapareceu.


Quando peguei as chaves do carro.


Quando alcancei minha bolsa no cabideiro, próximo à porta.


Era tudo mecânico, programado.


Assim como o caminho que comecei a percorrer. As luzes fora do carro se transformaram em borrões coloridos.


Tudo estava desfocado. Abafado.


Ao chegar na recepção, nada foi dito por mim. Parece que eles já me esperavam.


— Você deve ser a Tessa, correto? — Aquele questionamento pareceu muito mais uma sentença. Apenas sinalizei com a cabeça, tinha medo de fraquejar ali. — Me siga, por favor.


O cheiro dos produtos de limpeza se misturava com o odor de medicação, tornando aquele lugar etéreo impossível de esquecer.


Caminhei por corredores brancos, vi famílias esperando boas notícias, pacientes torcendo por melhora e mais profissionais passando por nós.


Finalmente, ao virar uma última vez, fui guiada para dentro de uma enorme sala.


E ali, naquele lugar frio e sem cor, aquele golpe finalmente se tornou real.


Incapaz de ser ignorado.


No centro havia uma enorme mesa de metal e sobre ela… meu porto seguro.


Sem vida.


A expressão serena em seu rosto foi o ponto de ruptura para tudo.


O chão sumiu sob meus pés e o mundo ficou ensurdecedor. Tudo veio rápido, rasgando cada parte da minha alma.


Sendo sincera, eu não sei o que aconteceu depois. Seu rosto é a última lembrança nítida que tenho.


O restante simplesmente não existe mais na minha memória.


Tudo o que queria era conforto. Um abraço que juntasse os pedaços do meu coração.

E foi com esse pensamento que saí daquela sala.


Queria fugir. Esquecer.


Encontrá-lo.


Tudo em mim rogava que a fachada vermelha da casa de Dylan surgisse no horizonte. Não importava se tivéssemos brigado na noite anterior.


Não. Aquilo podia esperar.


Havia algo mais importante agora, mais urgente.


Senti a fisgada no peito quando vi, por fim, a pintura descascada se tornar mais nítida, conforme me aproximava.


Saí do carro praticamente correndo, tamanho era o meu desespero.


Me agachei para pegar a cópia da chave sob o capacho, um movimento rotineiro, adquirido no último ano, quando começamos a namorar.


O cheiro familiar de madeira e sândalo preencheu meus pulmões, conforme entrava na sala e seguia para seu quarto. Era uma terça-feira à noite, então sei bem que deve estar jogando com sua guilda.


Mas, aparentemente, a vida tem uma forma curiosa de te dar um choque de realidade. Para mim, ela escolheu o pior dia da minha vida para me mostrar a pior face de alguém que um dia amei.


O homem para o qual corri, aquele que busquei como conforto para a partida de Adeline, estava nesse momento agarrado a uma figura loira.


O beijo urgente, as roupas no chão e os corpos enroscados com uma intimidade paralisante.


— AH! — Exclamou a figura esbelta, ao me ver sob o arco da porta.


— Tessa?!


Nesse ponto, o que eu poderia dizer?


Minha mente está em branco.


— Tes, não é o que você está pensando! — Exclamou Dylan, vindo em minha direção, ainda sem camisa.


Bom, isso não importa muito agora.


Meu corpo agiu antes que minha mente estivesse pronta. Minhas pernas me levaram para longe daquele homem e depois para longe daquela casa.


Ouvi gritos. Sei que ouvi.


Talvez fossem dele, ou mesmo da garota.


Porém, não me interessava mais. Apenas voltei ao carro, dei a ré e saí dali.


❇❇❇


A casa que foi meu abrigo nos últimos dois anos agora tem uma atmosfera diferente.


Parece vazia.


Eu acho que deveria estar gritando. Ou pelo menos chorando, mas não consigo.


Guardei minhas chaves no mesmo lugar de sempre, próximo a um jarro de flores. Pendurei minha bolsa no cabideiro e tirei os sapatos antes de adentrar a sala.


Mecânico. Diário.


Me sentei no sofá, o escuro me envolvendo e ali permaneci. Através da janela, vi o brilho das estrelas e a escuridão da noite cederem espaço para os primeiros raios da manhã. Ouvi os sons do senhor Milles, nosso vizinho da frente, quando ele saiu para pegar o jornal. Quando a senhora William disse para Adam, seu neto, aparar mais um pouco a grama do lado esquerdo.


Até mesmo os cumprimentos que o carteiro Jorge dava para as pessoas, enquanto fazia seu trabalho.


Tudo parecia igual lá fora, mas aqui dentro… nada jamais seria como antes.


Não há ninguém falando com as rosas no jardim. Não existe o cheiro de lavanda inundando a sala, vindo de cabelos recém lavados. Na cozinha, não há o cheiro do café forte, nem mesmo das panquecas que costumavam ser feitas. Não há olhos de mirtilos e nem sorriso de chantilly, decorando cada uma delas.


Não há mais Adeline Haster.


Senti um aperto no peito e as lágrimas enfim queimaram meu rosto enquanto desciam descontroladas.


Rápidas, constantes.


A dor começou a tomar conta das minhas ações. De mim.


Acabou.


Notas finais
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