Tessa Roberth


Mesmo que fosse verão, os últimos dias em Brighton haviam sido de chuva. Como se o próprio céu quisesse me lembrar, com suas nuvens cinzas, dos novos tons que a minha vida tinha agora.


As flores balançavam conforme o vento, uma dança antes da água deixá-las molhadas, pesadas.


— Um jardineiro…


“— Pronto, assim está ótimo, devemos ter bastante cuidado com as papoulas, suas raízes são muito delicadas. — orientou, colocando mais adubo junto ao caule das flores.


— A senhora sabe tanto sobre jardinagem, tia.


— Sou escritora, como não saberia?


— Não entendi — comentei, entregando o regador para ela.


— Um escritor é como um jardineiro — começou. — ele é capaz de transformar uma pequena semente de ideia em uma flor de páginas! Cada livro funciona como uma planta, devemos cuidar e regar, para que cresça.”


— Obrigado. — Ouvi e meus olhos imediatamente vagaram até o carro estacionado junto à calçada. O homem de cabelos loiros, tão diferente desde a última vez que o vi, agora caminhava lentamente até os degraus da frente. As orbes verdes estavam carregadas, enquanto observava tudo ao seu redor.


Quando o chão sob a soleira da porta rangeu, meu corpo se moveu antes que pudesse processar direito. Girei a maçaneta dourada, para encontrar o garoto assustado que, em um dia de inverno, a tia Adeline trouxe para casa.


Porém, agora o seu semblante era uma mistura de dor e revolta.


❇❇❇


O silêncio naquela casa era muito mais pesado do que antes. Até mesmo estranho e desconfortável. Nem mesmo o chá que havia feito conseguiria melhorar aquela sensação, tudo parecia doente sem a vida que antes brilhava ao nosso redor.


Muitas dúvidas rondando a minha mente.


— Como… — sussurrou, a voz fria.


— Um acidente de carro — Olhei para minhas mãos, incapaz de encará-lo. — Um homem bêbado a pegou em uma curva…


O sofá rangeu com o movimento brusco de Alec ao levantar, as mãos passando desesperadas pelos cabelos. Apenas o observei enquanto o mesmo rodava pela sala.


Parecia travar uma guerra interna…


— Espera… quando, exatamente, isso aconteceu? — A pergunta caiu como uma bomba. Senti um nó se formar no meu estômago.


— E-eu…


— Tessa! — exclamou, o tom subindo conforme se aproximava. Apenas me encolhi, tentando controlar a minha respiração, conter as lágrimas e encontrar, em meio ao caos da minha mente, as palavras certas.


— Cinco dias… hoje fazem cinco dias! — soltei, encarando não o homem que Alec havia se tornado, mas o garoto silencioso que, por anos, tentei me aproximar.


Sem sucesso.


— Você… como — Ele arregalou os olhos, as mãos paradas junto ao corpo. Imóvel.


Também não consegui me mover ou sequer falar, apenas segurei o seu olhar.


Ele tinha razão em estar bravo.


Não posso culpá-lo por isso. O espaço em branco na minha memória, quando penso nos dias anteriores, também me deixa irritada. Nem sequer lembro quando liguei para a minha mãe ou como a convenci a me deixar permanecer aqui, nesta casa.


— Por que não me ligou?


— Alec-


— Me fala, Tessa! — exclamou, as lágrimas banhando o rosto, suas mãos agora segurando os meus braços. O desespero era palpável, cada gesto, expressão ou tom de sua voz deixava claro o quanto aquilo era doloroso.


Eu nada fiz.


O que poderia fazer? Era minha culpa, no fim das contas.


— Me diz — começou, se afastando. Apenas mantive o seu olhar, uma sensação aterradora tentando me engolir. — Por quê?!


— Sinto muito, Alec! Eu só… apenas- não sei! — Me coloquei de pé, indo em sua direção.


— Não sabe?! Essa é a sua resposta para ver a minha mãe morrer e nem sequer me enviar a droga de uma mensagem?!


— Ela era a minha tia! — gritei, logo colocando as mãos sobre a boca, o arrependimento chegando antes que pudesse pensar melhor.


— Adeline era a minha mãe, Tessa! — riu, dando passos para trás, se afastando de mim. — Ela era… minha mãe…


Àquela altura, qualquer controle sobre o meu corpo já havia escapado, soluços involuntários me faziam tremer.


Era minha culpa, eu fui egoísta.


— Alec… me desculpe


Pior do que a cena naquela sala de hospital, era ver o bem mais precioso de Adeline sofrer tanto e pelas minhas mãos.


— A minha… mãe — Suas mãos passavam rapidamente pelo rosto, até se agarrarem aos fios loiros. — De novo… eu perdi de novo.


Pouco me importa se ele vai me empurrar, como quando éramos pequenos, ou se vai me chamar de pirralha. Isso não importa agora.


Corri, cortando o espaço entre nós, e envolvi meus braços em volta do seu pescoço. Apertei-o máximo que conseguia, queria poder juntar os pedaços que ficaram do seu coração, tanto quanto minha tia já fez um dia.


Por alguns minutos ele apenas ficou parado, ainda o ouvia chorar e podia sentir o tremor em seu corpo aumentando gradualmente. Quando seus braços envolveram minhas costas, a dor já não pediu espaço. Simplesmente invadiu tudo e nós dois choramos, porém, agora não havia as mãos carinhosas de Adeline passeando pelos nossos cabelos e dizendo que tudo ficaria bem.


Uma ferida profunda foi aberta e eu realmente não sei o que fazer depois.




Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.