Uma Nova Versão
5 Jardim
Tessa Roberth
Mesmo que fosse verão, os últimos dias em Brighton haviam sido de chuva. Como se o próprio céu quisesse me lembrar, com suas nuvens cinzas, dos novos tons que a minha vida tinha agora.
As flores balançavam conforme o vento, uma dança antes da água deixá-las molhadas, pesadas.
— Um jardineiro…
“— Pronto, assim está ótimo, devemos ter bastante cuidado com as papoulas, suas raízes são muito delicadas. — orientou, colocando mais adubo junto ao caule das flores.
— A senhora sabe tanto sobre jardinagem, tia.
— Sou escritora, como não saberia?
— Não entendi — comentei, entregando o regador para ela.
— Um escritor é como um jardineiro — começou. — ele é capaz de transformar uma pequena semente de ideia em uma flor de páginas! Cada livro funciona como uma planta, devemos cuidar e regar, para que cresça.”
— Obrigado. — Ouvi e meus olhos imediatamente vagaram até o carro estacionado junto à calçada. O homem de cabelos loiros, tão diferente desde a última vez que o vi, agora caminhava lentamente até os degraus da frente. As orbes verdes estavam carregadas, enquanto observava tudo ao seu redor.
Quando o chão sob a soleira da porta rangeu, meu corpo se moveu antes que pudesse processar direito. Girei a maçaneta dourada, para encontrar o garoto assustado que, em um dia de inverno, a tia Adeline trouxe para casa.
Porém, agora o seu semblante era uma mistura de dor e revolta.
❇❇❇
O silêncio naquela casa era muito mais pesado do que antes. Até mesmo estranho e desconfortável. Nem mesmo o chá que havia feito conseguiria melhorar aquela sensação, tudo parecia doente sem a vida que antes brilhava ao nosso redor.
Muitas dúvidas rondando a minha mente.
— Como… — sussurrou, a voz fria.
— Um acidente de carro — Olhei para minhas mãos, incapaz de encará-lo. — Um homem bêbado a pegou em uma curva…
O sofá rangeu com o movimento brusco de Alec ao levantar, as mãos passando desesperadas pelos cabelos. Apenas o observei enquanto o mesmo rodava pela sala.
Parecia travar uma guerra interna…
— Espera… quando, exatamente, isso aconteceu? — A pergunta caiu como uma bomba. Senti um nó se formar no meu estômago.
— E-eu…
— Tessa! — exclamou, o tom subindo conforme se aproximava. Apenas me encolhi, tentando controlar a minha respiração, conter as lágrimas e encontrar, em meio ao caos da minha mente, as palavras certas.
— Cinco dias… hoje fazem cinco dias! — soltei, encarando não o homem que Alec havia se tornado, mas o garoto silencioso que, por anos, tentei me aproximar.
Sem sucesso.
— Você… como — Ele arregalou os olhos, as mãos paradas junto ao corpo. Imóvel.
Também não consegui me mover ou sequer falar, apenas segurei o seu olhar.
Ele tinha razão em estar bravo.
Não posso culpá-lo por isso. O espaço em branco na minha memória, quando penso nos dias anteriores, também me deixa irritada. Nem sequer lembro quando liguei para a minha mãe ou como a convenci a me deixar permanecer aqui, nesta casa.
— Por que não me ligou?
— Alec-
— Me fala, Tessa! — exclamou, as lágrimas banhando o rosto, suas mãos agora segurando os meus braços. O desespero era palpável, cada gesto, expressão ou tom de sua voz deixava claro o quanto aquilo era doloroso.
Eu nada fiz.
O que poderia fazer? Era minha culpa, no fim das contas.
— Me diz — começou, se afastando. Apenas mantive o seu olhar, uma sensação aterradora tentando me engolir. — Por quê?!
— Sinto muito, Alec! Eu só… apenas- não sei! — Me coloquei de pé, indo em sua direção.
— Não sabe?! Essa é a sua resposta para ver a minha mãe morrer e nem sequer me enviar a droga de uma mensagem?!
— Ela era a minha tia! — gritei, logo colocando as mãos sobre a boca, o arrependimento chegando antes que pudesse pensar melhor.
— Adeline era a minha mãe, Tessa! — riu, dando passos para trás, se afastando de mim. — Ela era… minha mãe…
Àquela altura, qualquer controle sobre o meu corpo já havia escapado, soluços involuntários me faziam tremer.
Era minha culpa, eu fui egoísta.
— Alec… me desculpe
Pior do que a cena naquela sala de hospital, era ver o bem mais precioso de Adeline sofrer tanto e pelas minhas mãos.
— A minha… mãe — Suas mãos passavam rapidamente pelo rosto, até se agarrarem aos fios loiros. — De novo… eu perdi de novo.
Pouco me importa se ele vai me empurrar, como quando éramos pequenos, ou se vai me chamar de pirralha. Isso não importa agora.
Corri, cortando o espaço entre nós, e envolvi meus braços em volta do seu pescoço. Apertei-o máximo que conseguia, queria poder juntar os pedaços que ficaram do seu coração, tanto quanto minha tia já fez um dia.
Por alguns minutos ele apenas ficou parado, ainda o ouvia chorar e podia sentir o tremor em seu corpo aumentando gradualmente. Quando seus braços envolveram minhas costas, a dor já não pediu espaço. Simplesmente invadiu tudo e nós dois choramos, porém, agora não havia as mãos carinhosas de Adeline passeando pelos nossos cabelos e dizendo que tudo ficaria bem.
Uma ferida profunda foi aberta e eu realmente não sei o que fazer depois.
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