Uma Nova Cor No Céu
1 Capítulo 1 - A arte gratuita
Notas iniciais
— Diga que você me ama, diga que ainda pensa em mim.... Porque eu ainda penso em você, eu ainda sinto sua falta.... Mesmo anos terem se passado desde então. – Ele soltou as palavras como se as estivessem segurando por muito tempo.
Eu não soube o que fazer, a única coisa que eu pensava era que eu a tinha perdido. E eu estava ali, escutando tudo isso atrás da porta, como um tolo. Mas meu coração estava a mil, ansiando pela sua resposta. Ansiando por umas palavras negativas. Eu só não aguentaria ver ela voltando para ele.
Não novamente.
— Eu ainda penso em você... – Ela respondeu.
(...)
Aqui estou eu, nova semana, novo semestre, mais aulas, mais tarefas e mais estresse. Eu odeio começo de semestre, porque a gente sabe que vai tudo começar novamente e eu vou ansiar mais ainda pelo final de ano, é um ciclo interminável.
— Bom dia, Mia.
— Bom dia, John. – Sorri para o zelador, ele era a primeira e, muitas vezes, a última pessoa que eu falava no dia. É um cara bem correto, mas gosta muito dos alunos (o que é uma raridade hoje em dia nas escolas).
— Chegou cedo hoje, preparada para o novo semestre?
— Ah, se você soubesse.... Eu só queria estar na minha cama, mas querer não é poder. – Respirei fundo ajeitando o cabelo.
— Mia, sabe o que eu mais gosto em acordar cedo? – Respondeu com serenidade – Olhar o sol nascer e espalhar sua luz... pintando assim, um novo céu. É uma arte que a natureza nos dá sem percebermos.
Segui o seu olhar para o céu, e realmente uma nova paleta de cores se formava a cada minuto, e a brisa da manhã trazia um novo sentimento consigo, uma arte, uma arte gratuita, um cenário de filme, uma nova tomada sendo criada.
Entrei na escola e observei a multidão crescendo aos poucos, nem sei ao certo o que me fez chegar tão cedo, não sou assim. Na verdade, até evito chegar cedo porque odeio olhares curiosos sobre mim. Caminhei até o banheiro do andar da minha primeira aula. Fiquei um tempo escutando música sentada no vaso sanitário. Para ser sincera, não é tão ruim quanto parece.
— ALICE! – E lá vamos nós, criaturas se encontrando bem aqui, era tudo o que eu queria evitar – Amiga, finalmente você aqui.
— Pois é, amiga. As férias foram tão longas...
— Eu vi que você estava em Paris, seu Instagram bateu outro recorde de likes e seguidores!
— Que besteira, nem foi tanto. Encontrei um fotógrafo francês famoso que estava implorando para tirar fotos minhas, ele não parava de falar que eu parecia uma estrela.
— Hmm, vocês se pegaram, não foi?
— Por favor, eu não sou baixa assim. E você sabe, eu tenho namorado.
— O Richard? Vocês ainda estão juntos?
— Claro que estamos, por que não? Mantemos contato as férias inteiras, inclusive ele acabou de mandar uma mensagem que quer me encontrar.
O sinal tocou e eu queria já estar fora daquele banheiro, mas eu não poderia já que eu estava ali antes mesmo dessas meninas. Escutando toda a conversa e assim, talvez achariam que eu estava espionando ou algo do tipo.
— Alice, na verdade...
— Ai garota, agora não vai dar. Vou para minha aula e depois encontrar o Richard, nos falamos depois. – Disse a tal da Alice, fazendo sons de beijinhos no ar.
Finalmente consegui sair e caminhar para minha aula, eu já estava dois minutos atrasada. Droga, eu tinha chegado tão cedo na escola para acabar me atrasando na primeira aula? Entrei na minha sala junto com um garoto e o professor acabou não ligando muito para nosso atraso e eu me senti maravilhada por um segundo. Sentei no canto da sala, na primeira cadeira que eu sabia que ia ser a única que estaria vazia. Eu não gostava, entretanto, era um lugar que eu sabia que ninguém iria me notar.
E eu sei, parece um pensamento solitário, mas não é. Na verdade, eu gosto de ficar sozinha. Não é algo que me deixa depressiva ou algo assim, mas é reconfortante. Uma zona de conforto que eu não sairia tão cedo. Isso me faz focar no meu estudo e sou capaz de ter meu próprio tempo. Olhei para a janela ao lado e observei novamente a arte que o John falou, deixei um sorriso escapar escondido. Senti meu coração se aquecer lembrando das agradáveis palavras do mesmo. O professor então começou sua aula.
E foi mais um dia normal, estudantes novos e pessoas “felizes” se reencontrando. Na hora do almoço eu acabei não tendo tempo para comer ou sentar em algum lugar, eu precisei conversar com o professor de história para saber se ele precisava de alguma ajudante. Eu gostava muito dele, o ajudava em meu tempo livre, e em troca ele me contava curiosidade históricas que eu adorava. De alguma forma, ele me reconfortava bastante e eu me sentia como se ele fosse parte da minha família.
— Tudo bem então, Mia, fico feliz de você decidir me ajudar novamente esse ano. – Falou ajeitando alguns papeis – Esse semestre vai ser duro, muitos novos estudantes entraram na escola, vamos ficar bem ocupados.
Não, eu não ganho uma nota extra na minha media ou algo assim. Eu simplesmente gostava de ouvir ele contar histórias com tanto amor em sua profissão. No final, o dia foi apenas isso, eu voltei para casa e deitei na cama olhando para o teto branco, rolei na cama e peguei um caderninho que havia em minha cômoda. Pegando uma caneta e escrevendo aquelas palavras que mais cedo fizeram meu coração chocalhar um pouquinho.
A semana inteira foi entediante, e eu estava preparada para passar meu fim de semana descobrindo novas músicas e assistir filmes da minha lista infinita.
— Senhora Rose? – Não foi um momento bom para receber uma visita da vizinha, eu tinha acabo de apertar a play para assistir Zodiac.
— Boa tarde, minha querida. Desculpa incomodá-la nesse domingo, mas minha neta está viajando e eu acabei ficando com seu cachorrinho. Eu realmente não sirvo para ser uma boa babá de animais. – Eu já estava vendo para onde isso iria levar – Eu queria saber se você poderia passear com ele por algum tempo até ela voltar, mas claro, eu vou dar um dinheiro para você fazer isso.
Eu estava juntando dinheiro para comprar uma câmera nova, não era uma ideia ruim. Meu filme podia esperar mais um pouco.
— Não, tudo bem. Claro que posso, não iria fazer nada esses dias mesmo. – Sorri.
— Ai que bom então, venha o conhecer.
Ela me levou até sua casa, e eu fiquei confusa com o diminutivo que ela usou quando se referiu ao cachorro, ele era enorme. Não sou experiente, mas acredito que seja um labrador. Mas isso não me atingiu tanto, eu gostava da ideia de cuidar de um animal. Minha mãe nunca gostou de ter um bichinho em casa por vários motivos, então nunca soube como era essa sensação.
— Parece que o Mike gostou de você. – Riu a senhora quando viu o cachorro me lamber todinha.
— Ah, pois é. Ele é bem agitado, não é? – Comentei acariciando sua cabeça.
Eu acabei saindo para passear com ele um pouco animada, mas me sentindo estranha. Eu estava carregando na minha outra mão sacolinhas paga juntar o cocô dessa criatura, porque os filmes não mostram isso, e essa é a dura realidade quando passeamos com cachorros. Depois de um tempo paramos num parque para eu sentar um pouco.
— Okay Mike. Vamos conversar. – O puxei para mais perto – Eu sou uma pessoa muito livre e mente aberta com animais. Eu vejo que você também gosta muito da liberdade e mesmo assim é comportado. Então quero te propor um trato, eu te solto da coleira e você fica perto de mim, entendido?
Ele mostrou uma cara confusa. Qual é, nenhuma pessoa conversou contigo antes? Logo em seguida ele abaixou uma das orelhas, provavelmente esperando que eu tomasse alguma ação. E foi o que eu fiz, o soltei. Ele demorou uns segundos para perceber o que eu tinha feito e depois começou a cheirar o chão e árvores ao nosso redor. Bom garoto, pensei ainda sentada. Coloquei uma música e o fiquei observando. Era uma linda tarde e era estranho porque eu nunca gostei de domingos, eu só ficava pensando o dia todo que a semana começou novamente e o fim de semana estava tão longe agora. Estava tranquilo até o Mike avistar um cachorro do outro lado do pequeno lago que estava na nossa frente.
— Mike, calma, não entre em pânico. – Falei baixinho e fui chegando devagarinho atrás dele – É só um cachorro.
Mas infelizmente o outro começou a latir e já sabemos o que aconteceu. E lá vamos nós correr atrás do Mike. Ele deu a volta no lago inteiro e eu já estava ofegante gritando e correndo ao mesmo tempo, então eu avistei o outro correndo na nossa direção me fazendo ficar assustada. Quando eles quase se encontraram, um indivíduo aparecer e segurou o Mike.
— Opa, opa amigão. – Disse calmamente acariciando o Mike e olhando para o lado – Lily, para trás.
O mesmo conseguiu acalmar o Mike e o outro cachorro. Eu parei tentando recuperar meu fôlego.
— Desculpa – Falei ofegante – E obrigada...
— Ah, não se preocupe. Essas coisas acontecem.... Parece que ele é novo na área, estou certo? – Finalmente tirei meu cabelo da cara e olhei mais atenta para ele.
— Sim, na verdade ele nem é meu. Então não estou acostumada a isso...
Era um garoto, provavelmente da minha idade. Um cabelo encaracolado e castanho, não consegui ver seu rosto porque ele nem estava olhando para mim. A tal da Lily, era relativamente pequena em comparação ao Mike.
— É um Golden Retriever, eles parecem quietos em um momento, mas são bem agitados ao conhecer um novo lugar. Não é muito confiável, mas ele sempre volta. – Ele se levantou e afastou um pouco sua franja para me olhar – Recomendo que sempre esteja preparada para uma fuga inesperada.
— Ah.... Entendi, não sou muito fã de coleiras, mas vou tomar mais cuidado. – Ele mostrou um sorriso leve – Estava com medo dele brigar com ela.
— Eu também não gosto, sempre deixo a Lily solta. Mas ela já está treinada em não sair do meu lado, então né... – Caçoou a cabeça – Bom, não se preocupe. Ele não irá machucar ninguém, provavelmente ficou curioso com a Lily, mas com certeza não iria atacar nem nada.
Olhamos para o Mike e ele estava cheirando a Lily e latindo de vez em quando.
— Obrigada novamente. – Andei até o Mike – Vem cá, você já causou bagunça demais para uma novata como eu. Vai com calma comigo, viu? Vamos voltar.
— Não tem de quê. Ele aos poucos vai se tornar familiarizado com o local e as pessoas. – Disse pegando a coleira da sua cachorra e caminhando para longe – Até mais... E boa sorte com o Mike.
Eu balancei a mão me despedindo, e ficamos ali vendo eles sumirem no meio das árvores.
— Eu já vi ele em algum lugar... – Um latido alto me tirou dos pensamentos – Ei, não precisa desse escândalo, vamos logo.
Eu voltei para a casa da Rose para o devolver, achei melhor não contar do incidente de mais cedo porque não queria que ela me achasse irresponsável ou algo assim, e até porque não aconteceu nada demais. Prometi a ela que iria voltar amanhã novamente, a deixando aliviada e ainda esclareceu que iria me pagar no final dessa nova semana. Voltando para casa, eu tomei um banho para tirar a sujeira e um pouco do cansaço. Lembrei o que o garoto falou e pesquisei um pouco sobre a raça Golden Retriever: Socializa tranquilamente com outros cachorros ou animais de diferentes espécies. Se eu soubesse antes não sairia correndo que nem uma louca atrás dele. Fiquei curiosa sobre a raça da Lily, mas não consegui encontrar, então acabei adormecendo e acordando apenas no dia seguinte atrasada porque meu celular estava descarregado.
Droga, droga, droga.
— Atrasada na segunda semana, senhorita Rodrigues? – O professor de Ciência Marinha não era o mais tolerante para atrasos nessa escola e realmente 30 minutos depois da aula ter começado não era algo para se orgulhar.
— Sinto muito, professor. – Eu já estava com tanta vergonha com a classe toda olhando para mim que eu preferia ter voltado só depois da aula acabar.
— Sente-se logo, você já atrapalhou demais minha aula. – E foi o que eu fiz, minha querida cadeira na ponta ainda estava livre.
A aula pareceu passar rápido, não sei se foi porque eu perdi trinta minutos ou se foi porque eu caí no sono umas cinco vezes durante a explicação, o que fez o professor não gostar mais ainda de mim. Naquele ponto, eu já nem ligava mais, ele não gosta de ninguém mesmo. Em seguida fui para minha próxima aula, espanhol, é uma aula divertida até porque podemos escutar música a aula inteira, a professora apenas nos pede para copiar o assunto do quadro. A hora do almoço chegou e eu fui direto para meu cantinho sagrado, que até então eu era a única dona daquela arvore afastada do colégio, mas que agora surpreendentemente estava ocupado.
Não é possível, ninguém se senta aqui, nem os mais solitários.
Eu poderia voltar e procurar, mas eu sabia que não haveria lugar tão calmo e escondido como esse. Perguntei a mim mesma se eu deveria sair, mas não era justo, eu passei quase dois anos sentando aqui. Então cheguei mais perto e ele parecia estar lendo um livro, e antes de eu falar algo, ouvi a melodia dos Beatles tocando bem baixinho, vindo do seu lado esquerdo.
— When I crossed that room and I held her hand in mine… – Sem querer acabei cantarolando alguns versos da música e o mesmo olhou para mim confuso – Ah, errr. Eu gosto de Beatles, então foi inevitável.
Ele pareceu entender meu comportamento estranho depois de uns segundos.
— Ah, esse lugar é seu? – Ele se levantou rapidamente pegando suas coisas – Desculpa, eu...
— Não, não. Quer dizer, eu sento aí..., mas não é minha propriedade nem nada, então né... – Eu já estava super envergonhada nesse ponto – Err, você pode ficar, eu vou para outro lugar.
Quando me virei senti uma mão fria tocar meu braço, foi como um choque imediato.
— Eu sou novo aqui, desculpa. É o lugar que você se senta, não precisa sair, eu vou. Apenas pensei que era um lugar que ninguém sentaria. – Eu o olhei confusa por seu ato repentino, mas algo mais intrigante me chamou atenção, sua aparência e voz me lembravam...
— O garoto dos cachorros? – Pensei em voz alto, o assustando. Ele agora, estava usando um óculos quase impossível de perceber se você não olhar para seu rosto atentamente.
— O que?
— Droga, desculpa. Eu sou aquela garota que saiu correndo atrás do cachorro ontem no parque.
— Ah! Bem achei que você parecia com alguém. – Ele mostrou um sorriso leve.
— Olha, faz o seguinte. Você continua sentando nesse lado da árvore e eu sento do outro, assim ninguém precisa sair... – Ele realmente pareceu pensar sobre isso, mas acabou aceitando.
Nós sentamos nos devidos lugares e ele decidiu diminuir a música, eu já nem conseguia a ouvir. Não era mais um lugar confortável, na verdade eu estava super desconfortável ali sabendo que tinha alguém do outro lado e mesmo não conseguindo vê-lo, eu o sentia mesmo assim.
Since I saw her standing there…
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