Uma Noite de Música
2 Capítulo 2 - Sandor

Se pudesse escolher, ele definitivamente não estaria na mesma banda que aquele bostinha de cabelos dourados, mas Joffrey era filho do reitor da Universidade onde ele lecionava e não tinha muita escolha sobre o fato. E nem fora ele quem me chamara para formar a banda, foi o pai da criatura maldita, blasfemou em pensamento, enquanto se aquecia para a performance bebendo sua segunda taça de vinho.
Sandor Clegane podia ser um homem sem escrúpulos, que falava o que pensava e utilizava a violência verbal e física para resolver quase todos os seus problemas, mas ele tinha bom gosto e preferia vinho em comparação com qualquer outra bebida alcoólica. Já tinha um considerável tempo que ele não ingeria álcool e também já fazia tempo em que ele esteve com uma mulher disposta a satisfazê-lo na cama por não encontrar tempo livre em seu trabalho atual e nesta noite ele acabaria com as suas abstinências. Era o mínimo que ele merecia por estar ali fazendo o que não queria.
– Tem um monte de gente já, hein? — Gritou Meryn 'Fuck' Trant para ser ouvido entre as batidas de Nascidos do Ferro, a banda de abertura.
Sandor fingiu não ouvir o seu companheiro. Entre todos os integrantes, Meryn e Joffrey disputavam o posto de mais odiado no seu rank pessoal. Trant além de tocar na mesma banda dava aula assim como ele no Instituto Baelor, só que diferente dele, Meryn dava aula para o Ensino Médio e tinha a fama de pegar alunas do colegial. Quanto mais nova melhor, ele confessara a Clegane na comemoração do Dia dos Professores quando ele julgara que os dois estavam tão bêbados para não se lembrarem do que disseram e fizeram no dia seguinte. Claro que o professor do Ensino Médio estava enganado em relação ao estado de embriaguez de Sandor, que embora não tivesse contado a ninguém a respeito disso, decidiu que o desprezava.
– Cão! — Joffrey o chamara, sentando-se ao seu lado no bar.
Cão de Caça era o apelido de Sandor Clegane e ele não se importava nem um pouco em ser chamado assim. Todo artista deve ter um pseudônimo. Ele aprendera isso com o seu falecido pai quando decidiu que queria seguir a carreira musical. Sempre gostei mais de cães do que de pessoas e quando saio para a noite eu me transformo em um caçador, disse a si mesmo. Sandor nunca voltava sozinho para casa apesar de ter um lado do rosto deformado desde a adolescência por um acidente no palco quando tocava com o estúpido do seu irmão que decidira que quebrar a guitarra era muito mainstream e que tacar fogo nos instrumentos poderia ser a nova moda. Uma moda que nunca mais foi repetida e que custou metade da minha cara. Desde o ocorrido ele e o irmão nunca mais se falaram e a banda acabou com Sandor jurando se vingar pelo ocorrido sendo mais famoso do que Gregor Clegane. O ocorrido já tinha mais de 20 anos e ainda assim ele não conseguira fazer o seu nome como o irmão fizera. Gregor agora seguia carreira solo e fazia apresentações internacionais, enquanto ele era um reles professor universitário. Um brinde a isso, comemorou com mais uma taça de vinho.
– O que é? — Rosnou a pergunta, tentando soar mais alto do que o som ao vivo.
– Está animado para a nossa apresentação? — Joffrey estava animado, dava para ver pelo sorriso de orelha a orelha que ele exibia.
Nem um pouco, desejou responder. O filho do reitor cantava mal apesar de estar no penúltimo ano de música e talvez, só talvez, se ele realmente frequentasse as aulas ele poderia ter melhorado seus acordes vocais.
– Claro — Mentiu, tomando um gole de sua bebida.
– Nós seremos os próximos a subir no palco! — Informou o estudante.
– Não vá encher a cara, Clegane! — Meryn Trant entrou na conversa e tomou o vinho das mãos de Sandor — Você pode beber o quanto quiser depois de nos apresentarmos — Avisou o homem.
– Quantas que você já bebeu, Trant? — Ironizou — Você é um merda quando bebe! Não consegue nem se manter em pé, quem dirá encontrar as cordas certas no baixo!
Meryn gargalhou abertamente da observação que recebera, se pôs em pé e abrindo os dois braços, sem apoiar em nada, mostrou que ainda estava sóbrio o suficiente para isso, ainda que estivesse dado a sorrisos.
– Não pretendo foder com a noite do nosso principezinho, amigo. É a primeira vez que ele se apresenta em público — Comentou o homem, tornando a se sentar.
E se depender do talento dele será a última, concluiu ao estudar o garoto. Joffrey Baratheon ainda tinha os traços de uma criança, uma criança bem feia, analisou. O principezinho – apelido que ganhara por ser o filho do Rei.tor — tinha os lábios finos como dois pequenos vermes, a pele bronzeada artificialmente, os cabelos loiros descendo em cachos na altura dos ombros e profundos olhos verdes. Ele tinha o estereótipo de um surfista e era desejado pela maioria das garotas da cidade, no entanto no ponto de vista de Sandor ele não era nem um pouco atraente. Joffrey tinha os traços femininos demais para um garoto que já passara pela puberdade. Pelo menos ele tem o rosto inteiro, lamentou, e talvez seja inveja o que sinto, analisou, decidido a não pensar mais no assunto.
– Você está nervoso? — Sandor indagou.
– Não, eu nasci para isso! — O egocentrismo de Joffrey respondeu por ele e Sandor desviou o olhar e crispou os lábios achando tudo aquilo um saco.
– Chamou alguma gatinha para vir assisti-lo, meu príncipe? — Trant se animou com o novo tópico que abordara.
– A filha mais velha do diretor, Sansa Stark — O sorriso de Joffrey sumira ao mencionar sua convidada.
Sandor abriu um sorriso pelo canto dos lábios. Ele podia não conhecer tão bem os filhos do diretor, todavia conhecia muito bem Eddard Stark e sabia que nenhuma de suas filhas compareceria em um lugar como este. Talvez a mais nova aparecesse, aquela criança selvagem, ele mesmo já a vira algumas vezes durante alguns concertos que fora assistir, contudo nunca a mais velha. Ela está mais para o Pop do que para o Rock, constatou ao relembrar das vezes que a vira andando pela faculdade.
Joffrey irá dar com o burro n'água se pensa que ela aparecerá, e Sandor adoraria ver a cara do rapaz ao ser abandonado por sua pretendente.
– Soube que está saindo com ela. Fisgou um bom partido, embora eu ache a irmã dela mais atraente — Observou Meryn e Sandor entendeu o porquê. A Stark que ele mencionara ainda estava no colegial enquanto a nova paquera de Joffrey estava na faculdade.
– Não acho nenhuma delas bonitas o suficiente para mim, mas o meu pai exige que eu me aproxime de Sansa, que é a melhorzinha entre as duas — Joffrey encarou os companheiros de banda com desprezo — Vocês acreditam que o meu pai disse que se eu não o fizesse ele me reprovaria por faltas!? Eu sei que eu não vou muito as aulas, mas isso não dá direito à ele de me submeter a isso! Não sei porque ele sempre tenta agradar Eddard Stark. Ele acredita que se eu sair com a filha do diretor eu vou estar fazendo um favor à ele. Isso é ridículo!
– E mesmo assim você está fazendo o que ele mandou? — Dessa vez foi Sandor quem entrou na conversa.
Joffrey deu de ombros.
– Se eu não encontrar coisa melhor esta noite eu não me importarei de sair com aquela burrinha — O garoto esticou os lábios de verme em um sorriso amarelo — Ela acredita que eu estou apaixonado por ela.
Meryn riu como uma gralha ao ouvir a resposta do rapaz.
– E você acredita que ela esteja apaixonada por você? — Sandor provocou já imaginando a resposta que receberia.
– Todas as mulheres estão apaixonadas por mim — Joffrey realmente era previsível — Mas só uma me importa — Ele se virou para os dois professores com uma postura de quem estava prestes a abordar um assunto sério — Ei, além de Sansa eu também convidei Margaery... — O tom de voz do rapaz mudou — Margaery Tyrell, a ex-noiva do meu tio Renly. Ele ainda não sabe de nada, mas na festa que fui na semana passada ela estava lá e nós começamos a conversar e aí... bem, deu no que deu. Se ela vier aqui hoje vai significar algo, certo?
Sandor teve pena de Sansa. Ele só a vira meia dúzia de vezes, embora nunca tenha falado com ela e nem sido seu professor, mas se ela realmente estivesse apaixonada por aquele cretino ela iria se ferrar. Não era preciso ser um gênio para saber que aquele rapaz estava brincando com os sentimentos da garota e pela forma que ele mencionara Margaery, Joffrey estava gostando de verdade daquela moça. Pelo menos ela não estará aqui pra ver sua concorrente, embora ela saberá do que acontecerá amanhã pelos fofoqueiros de plantão. Se havia uma coisa que Sandor tinha certeza, é que a garota que Joffrey estava afim comparecia ao evento. Margaery Tyrell adorava andar no meio da sociedade e independente se os sentimentos do seu aluno eram ou não retribuídos, ela não perderia a oportunidade de se aproximar de alguém tão famoso quanto ele. Mesmo que sua fama venha de seu pai e não de seus próprios méritos.
– Senhores? — Uma mulher com a blusa preta escrita Staff em letra branca veio até eles e os três se viraram na direção dela — Só falta mais uma música e será a vez de vocês subirem ao palco. Se puderem me acompanhar, irei levá-los até o backstage.
– Faltam mais duas pessoas desta banda — Sandor a informou.
– Eles já se encontram lá, senhor. Agora se fizerem a gentileza... — A integrante da organização do evento esperou que eles se levantassem para então começar a andar.
Sandor fez como era esperado, finalizando o resto do líquido que estava na taça que Trant tomara dele. Joffrey podia ser o pior cantor e Meryn poderia errar algumas notas pela forma que bebera, contudo isso não o impediria de dar o seu melhor como sempre fazia quando subia ao palco.
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