Uma Lady Em Apuros
5 IV
Notas iniciais
Quando cheguei na vila abaixo eu já sabia que aquilo fora a maior insanidade que eu já cometi na minha vida. Suspirei pesadamente, ele estava descontrolado achando que matou um homem e eu estava cansada e instável com toda a tensão do dia. Fora apenas um beijo de desespero, céus!
Cheguei em casa pela porta do lado, que dava acesso ao pequeno bosque. Mari estava sentada na poltrona da sala de visitas e levantou quando me ouviu chegar.
— O que te aconteceu? — ela disse assustada.
Só então pensei em como eu estava parecendo desarrumada e suja. Tentei disfarçar.
— Eu vim correndo pelo bosque.
— Está maluca? Sozinha?
Ela abanou os braços em desespero.
— Desculpa, Mari, mas é que a Margot..
— Tá tudo bem. Você chegou bem em casa e isso importa mais que qualquer outra coisa. Você está bem?
Assenti.
— Boa noite, Mari.
— Espero nunca mais ouvir que você andou por esses lugares tamanha madrugada.
— Não se preocupe.
Ela assentiu e voltou para sala. Eu subi para o meu quarto.
Dormir foi o mais difícil, mas eu consegui fazê-lo. Embora tenha sonhado por mais uma semana com meu pequeno encontro no penhasco e nunca mais tenha tido coragem de voltar lá.
•Meses depois•
Estavamos na pequena casa onde minha amiga iria morar com o falecido marido dela. Caixas enormes eram levadas até o lado de fora enquanto ela ficava na cozinha tomando uma pequena xícara de chá. Quando terminaram de carregar as caixas, que continham todos os pertences do falecido, itens que eu mesma tinha guardado, fechei a porta e atravessei a pequena sala de estar até a cozinha.
— Feito.
Ela sorriu. Nas últimas semanas ela havia voltado a sorrir com frequência o que era um alívio vendo que ela havia passado os três primeiros meses sendo inimiga até mesmo da luz solar.
— Obrigada, Isabel. — ela segurou minha mão. — Eu não teria conseguido.
— Jamais precisaria fazê-lo, tem empregados e tem a mim.
— Os empregados deixariam algo para trás, você foi perfeita. Agora eu acho que posso viver aqui, finalmente.
Morar? Estava confusa. Ela sorriu novamente.
— Sim, eu precisava sair da casa de mamãe. Essa é perfeita.
Me servi de uma xícara de chá e dois biscoitos e me sentei a sua frente.
— Tem certeza disso, Margot?
— Toda. Mas antes...
Ela levantou e foi até a bancada, tirou um pequeno envelope e me entregou. Sentou de novo sorridente.
— Abra.
— O que seria?
— Verás.
Abri e um pequeno cartão lilás estava lá dentro. Sorri enquanto lia.
— Por que tão formalmente?
— Eu adoraria que você morasse comigo. Essa casa tem dois quartos confortáveis e se seus pais aceitarem, bem seria uma ótima companhia para mim.
Eu sorri. Aceitei, obviamente.
Ao final do inverno eu estava então sentada na poltrona da sala segurando uma xícara de chá forte. Sorri.
"Então eu te vejo no final desse inverno."
Sorri lembrando da minha promessa. Eu finalmente subira até o penhasco, atravessando o frio de gelar os ossos. Mas ele não chegara nem nesse, nem no seguinte. Dois invernos haviam se passado e ele não voltou. Suspirei sorridente. Eu era mesmo uma adolescente apaixonada, naquela época. Levantei e deixei a xícara ao lado.
Margoth desceu correndo as escadas.
— Nem vai acreditar!
Meu coração deu um salto. Virei para sua direção.
— Um velho amigo nosso está de volta!
Era ele. Sorri abertamente.
— Alexander!
E saiu rápido em direção a cozinha. Meu ânimo caiu novamente, o irmão viera, ele não. Suspirei e sentei na poltrona novamente, tocando a porcelana já fria da xícara que deixei lá instantes antes.
— Vê! — ela vinha da cozinha correndo. — Recebemos convites para a festa que a mãe vai dar na propriedade deles.
Assenti desanimada.
— O que aconteceu? Esta passando mal?
— Não.. apenas cansada.
— Andar por aí em pleno inverno não é uma boa ideia. — ela virou para buscar o casaco. — Acha que Benjamin também virá?
Meu coração saltou novamente. Eu não lhe contara sobre aquela noite, então ela não notara de fato meu súbito interesse.
— Ele viria com o irmão? — perguntei.
— Absolutamente! — ela disse negando e parando ao meu lado já com o casaco. — Que tal se formos juntas até minha casa?
— Claro.
Sorri e busquei o casaco. Saímos às duas pelas ruas cobertas de lama e neve.
Fale com o autor