Uma Gota de Água

2 Arrancando Lírios do jardim


Notas iniciais
Neste capítulo, o dia-a-dia da personagem principal é explorado, mostrando o quanto sua vida é normal. Aos poucos, o sobrenatural vai entrando em sua vida, dando lugar a uma nova Lilly.

Vinte e cinco anos. Quanta coisa pode acontecer em um quarto de século? Quantas pessoas nascem? Quantos corações são partidos? Quantas pessoas se formam na faculdade? Quantos desastres naturais acontecem no período de vinte e cinco anos? Deitada na cama ainda com os olhos fechados, ela pensava na nova idade. Por coincidência, ainda faltavam 25 dias para os 25 anos e ela não entendia como tinha chego tão rápido neles. Ao abrir os olhos, um feixe de luz que escapava do blecaute da janela iluminava o seu rosto. “Mais um dia”. A frase soou em sua cabeça reafirmando o desanimo que já estava instalado. O celular marcava oito horas em ponto, o que significava que estava atrasada.

Levantou-se meio grogue e sentou-se na cama encarando seu reflexo no espelho. O rosto inchado do sono, o cabelo desgrenhado, ela só conseguiria sair de casa depois de um banho e uma xícara de café forte e puro. Levantou cambaleando pelo quarto, vestiu o robe e foi direto para o banheiro, com os olhos pesados.

Dormir era um de seus hobbies. Ela sempre foi fã de uma boa noite de sono e sempre priorizou isso. Mesmo cheia de trabalhos durante a faculdade, ou quando trazia trabalho extra do emprego para casa, nunca ficava sem dormir pelo menos 8 horas por noite. Nos últimos dias, as boas noites de descanso estavam dando lugar a noites em claro, preenchidas por livros e seriados que serviam como distração esperando pelo sono. Era estranho como seu corpo se recusava a dormir. Ela sentia as costas implorando para sair da cama, simplesmente não se encaixando no colchão. Naquele dia, ela dormiu cerca de quatro horas e quando acordou sentia os efeitos do cansaço, não físico, mas mental.

Depois de um banho curto revigorante, Lilly se vestiu correndo enquanto o relógio a apressava. Ela vestiu um jeans surrado que já usava há uns três anos e amava de paixão, uma blusa branca com mangas curtas e a barra em cetim e um cardigã marrom jogado por cima para dar um toque mais sério. Era sexta-feira, então ela empurrou as botas de salto alto para baixo da cama e vestiu um tênis all star preto de couro ecológico. Ela não era muita adepta de usar salto alto e não negava sua paixão por tênis, eles sempre davam um toque descontraído e estiloso ao look. Com pressa, pegou sua bolsa e as chaves do carro e saiu correndo, com esperanças de pegar um café em alguma padaria no caminho.

Lilly completaria vinte e cinco anos em breve e até hoje não entendia o que aconteceu dos vinte até aquela idade. Num piscar de olhos, a rebelde adolescente de quinze anos que achava pessoas de vinte e cinco velhas, se tornou uma dessas pessoas. Ou então, a jovem de dezoito anos na faculdade, que se imaginava rica e bem sucedida aos vinte e cinco, de repente se torna uma simples jovem adulta completamente perdida na vida. Ela se formou em Marketing há dois anos e trabalhava como assistente de uma mulher chamada Emília numa revista Cult, a Kombicool. Emília era a editora chefe e Lilly tinha muitas funções enquanto sua assistente. Era um trabalho que ela enxergava como temporário, porém ainda não tinha certeza do que realmente queria fazer enquanto profissional de marketing. Na real, sempre desejou trabalhar com música e ser famosa por isso, porém nunca aprendeu a tocar nenhum instrumento. Dessa forma, ela pensava em trabalhar com bandas e artistas futuramente, agenciando suas carreiras ou promovendo atrações musicais em eventos, por exemplo.

A manhã daquela sexta-feira não podia estar mais linda, o céu azul e limpo se destacava entre os prédios da cidade, o horizonte parecia um oceano cheio de navios, porém de cabeça-para-baixo. Lilly admirou aquele céu enquanto o semáforo estava no vermelho, talvez fosse uma de suas qualidades encontrar a calma em meio ao caos. Nos carros ao lado, um homem com cerca de quarenta anos segurava impaciente o smartphone próximo à boca enquanto falava algo de forma bem grosseira, provavelmente estava enviando um áudio pelo WhatsApp. Lilly podia ouvir sua voz alterada mesmo do meu carro. Do outro lado, uma moça na faixa dos trinta digitava rapidamente uma mensagem em seu Iphone alternando os olhares nas teclas com o semáforo, esperando a luz mudar para verde. Assim que todos receberam permissão para seguir em frente, ambos largaram os aparelhos de forma atrapalhada, dirigindo os automóveis pela larga avenida.

Curitiba era uma cidade incrivelmente bonita, principalmente pela manhã. Apesar do caos da cidade grande, era possível sentir o ar fresco e puro das árvores em cada quarteirão. Era incrível como Lilly sentia-se em casa, mesmo não tendo nascido na cidade. Ao chegar à padaria mais próxima da Kombicool, Lilly estacionou o carro em frente ao estabelecimento de forma desajeitada devido à pressa e entrou para pegar seu preciso companheiro das manhãs. Ela já estava atrasada e morrendo de sono, então alguns minutos a mais não fariam tanta diferença. Ela pediu dois cafés para viagem, um puro (preto e sem açúcar) e outro com leite e melado pra caramba, pois precisava compensar o atraso com Emília.

Que mulher interessante era Emília, uma chefe tranquila e plena ao mesmo tempo em que era firme e destemida. Quando as pessoas a viam pela primeira vez ficavam encantadas com a delicadeza na voz e postura daquela mulher. Porém, quando a viam trabalhando, ficavam surpresos com seu pulso firme e espírito de liderança. Ela era uma mulher e tanto e não se importaria com o de atraso, pois Lilly em algum momento trabalharia muito mais que dez minutos extras se precisasse, sem ao menos cogitar. Ela era tão interessante quanto Emília e por isso as duas trabalhavam tão bem juntas.

Com os cafés na bandeja no banco do passageiro, ela avistou na próxima esquina a placa de identificação da Kombicool. A empresa ficava em um imóvel tombado da cidade, a antiga Residência Pedro José Sanches[1], um exemplo da arquitetura moderna da década de 50, um dos poucos remanescentes da arquitetura de expressão Modernista Brasileira na cidade, o lugar perfeito para uma revista Cult. Ela estacionou seu Fiat Uno Mille vermelho, saiu do carro e correu apressada para o interior do prédio. Cumprimentou os colegas de trabalho que encontrou no caminho para sua sala enquanto andava apressando os passos, ansiosa para desfrutar do seu café. Entregou o copo com a bebida misturada com leite e açúcar mascavo para Emília, a qual agradeceu com um sorriso largo enquanto a cumprimentava, e voltou para sua mesa. Largou a bolsa transversal na madeira do móvel e sentou-se, dando o primeiro gole no seu café. Apesar de seu desânimo pela manhã devido ao sono, ela estava decida a ter um dia produtivo no trabalho.

—Lilly, assim que terminar meu café quero fazer uma breve reunião com você_ Emília disse tirando a cabeça para fora da porta de vidro com o copo numa mão e o smartphone em outra.

O sonho profissional de Lilly sem dúvida era ser famosa. Ela se imaginava enquanto líder em sua própria companhia, trabalhando com pessoas incríveis e sendo um exemplo enquanto se tratava de liderança. Infelizmente, era algo muito difícil de conquistar. Não necessariamente por sua falta de determinação ou inteligência, mas simplesmente pela dificuldade que possuía em entender as pessoas. Não só entender, na verdade, mas até mesmo conviver. Eram poucos indivíduos que conseguiam despertar a verdadeira essência de Lilly e deixa-la tranquila em sua presença. Na realidade, essas poucas pessoas conseguiam apenas vislumbrar sua essência, já que ela era como o sol: nenhum humano poderia vê-la de perto sem cegar-se.

Contudo, no momento em que chegava ao trabalho naquele dia e bebia lentamente seu café, apreciando o gosto amargo da bebida e sentindo todo o seu corpo acordando e despertando com ela, Lilly não fazia ideia do quanto seu verdadeiro eu era fatal para os humanos. Como a menina doce, meiga e principalmente cética que era jamais poderia imaginar a força que emanava de seu espírito, a qual apenas se fortaleceu em todos os anos que acumulava de sua existência, até por que nem imaginava que era diferente daqueles que a cercavam (apesar de sempre desejar que fosse). Nos próximos dias, teria esse desejo realizado e desafiaria sua própria lógica ao descobrir que estava longe de ser humana. Na verdade, era responsável por eles, por todo o planeta em que viviam.

Ela tomou seu último gole de café enquanto verificava a agenda do dia de Emília, surpreendentemente tranquila para aquele dia. Lilly ficava feliz por suas salas ficarem próximas _ Uma grande sala dividida em dois espaços: Lilly e duas outras assistentes ficavam num tipo de recepção e aos fundos ficava sala de Emília, separadas por uma repartição metade branca, metade transparente. _ Ela respirou fundo, aliviada por não precisar encarar o mar de vozes e atitudes desnecessárias que seus colegas de trabalho iriam emanar assim que saísse da sala para o corredor. Ela realmente não conseguia se sentir a vontade com qualquer humano. Ela não conseguia desenvolver uma conversa com qualquer pessoa, não conseguia entender as atrocidades que muitas delas praticavam com a fauna e a flora daquele planeta. Ela conseguia sentir a falsidade nas palavras das pessoas, dentre muitos outros motivos. Lilly, sem mesmo saber, tinha a habilidade de sentir a energia dos seres humanos e assim era capaz de identificar quando eram bons ou maus. Ela empurrou sua cadeira para traz e levantou-se, indo em direção à porta com a agenda e caneta nas mãos, fazendo o que a chefe ordenou.

_ Bom dia Emília, você me chamou?

_ Bom dia querida. Por favor, sente-se. Quero passar algumas coisinhas referentes ao evento em São Paulo, na semana que vem. Temos muitas coisas para fazer antes de irmos, quero deixar tudo certo por aqui para que não haja problemas durante nossa ausência.

_Claro, estou muito animada para o festival. Vai ser uma ótima oportunidade para conhecer novos trabalhos que podemos trazer para a revista, futuramente.

_Com certeza será! _ Emília sentia-se entusiasmada com a empolgação na voz de sua assistente, abrindo um sorriso de animação tão grande que poderia contagiar toda a empresa. _ Por favor, providencie nosso hotel e passagens aéreas com a agência de viagens parceira da revista. Depois, vamos rever toda a programação e nos concentrar em absorver o máximo de informação e experiência para voltarmos cheias de ideias.

Alguns colaboradores da revista Kombicool visitariam um festival de arte independente naquela semana, já que a empresa patrocinaria o festival. Lilly sentiu-se privilegiada em ser uma das escolhidas para a função, vendo que conheceria diversos artistas independentes que poderia trabalhar futuramente, quando tivesse sua empresa. Ideias não lhe faltavam, era cheia delas. Seu único problema era atingir um de seus principais objetivos: ser uma líder e tanto. Como faria isso com sua dificuldade em conviver com a maioria das pessoas? Era estranho que tivesse essa ambição, às vezes se perguntava por que não estudou veterinária para trabalhar cuidando dos animais que tanto amava?

Um dos motivos pelos quais não conseguia conviver com qualquer indivíduo era a falta de confiança. Muitas pessoas já a haviam decepcionado, fossem amigos, família, ou romances. Naquele momento, o que mais a desmotivava eram as pessoas do seu círculo profissional. Existiam pessoas naquela empresa que desejavam ocupar sua vaga e tentavam todos os dias puxar-lhe o tapete, fosse criando intrigas, fosse passando por cima de seus trabalhos.

Naquela semana, tentou não pensar nessas pessoas, mas pensou. Na verdade, uma pessoa em especial: João Paulo, conhecido na empresa como JP. Ele era um sujeito deplorável, mas conseguia esconder seu interior podre com sua face bonita e seu jeito extrovertido. Lilly tentava coexistir com JP no trabalho por razões profissionais, mas desejava do fundo da alma que ele sumisse em algum momento. Ou que ela sumisse. Porém, sumir não era uma possibilidade (para os humanos, pelo menos) e dessa forma JP não iria a lugar nenhum por enquanto.

Apesar da sua habilidade de sentir a energia das pessoas, não era só isso que a fazia ansiar pela distância de JP. Essa habilidade ainda era algo desconhecido para Lilly, que ela encarava apenas como uma intuição e não levava tão a sério quanto deveria. Mas em relação à JP, Lilly o via como uma cobra pronta para dar o bote a qualquer sinal de fraqueza. Ele já tentou prejudicá-la no trabalho várias vezes, além de cobiçar a viagem para o festival NaLua de arte independente, o qual ela visitaria em São Paulo acompanhando Emília. Sua tentativa foi um sucesso, vendo que ele não apenas conseguiu garantir sua ida, mas também a de sua assistente: Ana Clara, ou apenas Clara para o pessoal da empresa.

JP tinha praticamente a mesma autoridade que Emília na Kombicool, a diferença é que ele era vinte anos mais jovem, tendo idade próxima a de Lilly. Ele também não era editor chefe, mas editor de arte. Muitos ficariam surpresos em ouvir tal situação, vendo que JP não teria nenhum motivo para puxar o tapete de uma simples assistente. A realidade, é que Lilly era temida por suas ideias únicas e por sua determinação, ela não só era esperta como criativa e conseguia inovar em muitos aspectos. Emília não abriria mão de sua assistente por nada, a não ser que surgisse uma oportunidade melhor para Lilly vendo que era uma jovem brilhante e teria muito sucesso, se dependesse dela. Era uma boa chefe, uma verdadeira Líder a quem Lilly realmente admirava. Ela era uma mulher cheia de experiências, que viveu os dois lados da moeda e cresceu enquanto profissional devido à sua determinação e persistência. JP, por outro lado, cresceu na revista com base na família, já que seu pai era o sócio majoritário. É claro que ele tinha muitas qualidades, e seu pai não o colocou como diretor de arte apenas pelos laços familiares, mas existiam muitas pessoas dentro da própria revista que possuíam mais qualidades que ele, podendo tomar sua posição devido a elas. Uma dessas pessoas era Lilly.

Naquele dia, o expediente foi muito calmo e tudo estava voltado para a visita ao Festival Nalua, na semana que vem. A programação era incrível e mesclava bandas e artistas que tinham contrato com grandes gravadoras, com bandas independentes que tinham como ferramenta de divulgação inicial. O objetivo do Festival Nalua era justamente unir os artistas promovendo um intercâmbio de experiências entre eles e o público. Era uma enorme vitrine. Além da música, o Nalua também abria espaço para o cinema, artes cênicas, literatura, artes visuais e dança. Era uma bomba de arte e cultura que pretendia atingir a todos que participassem. A intenção era que todos voltassem mudados após participar do Nalua. Sem sombra de dúvidas, isso aconteceria para Lilly.

[1] Inspirado na Residência João Luís Bettega, em Curitiba.

Notas finais
Críticas e sugestões sempre são bem vindas! O capítulo continua!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.