Uma Estranha No Meu Quarto
43 Capítulo 37 - Carlisle
Notas iniciais
O tempo cura todas as feridas, é o que dizem. Não sei dizer se isso se aplica a nós, fantasmas. Encaro ele, o tempo, como algo bem relativo; quando se está morto algumas coisas que aconteceram a duzentos anos parecem ter acontecido há dias atrás. Enquanto coisas que aconteceram ontem são facilmente esquecidas.
Ainda lembro o dia em que minha amada Alana anunciou seu casamento com meu irmão: O cheiro do alecrim vindo de suas mãos que manuseavam a horta, seu timbre embargado... o vislumbre de seus olhos opacos dentre a cabeça baixa e derrotada. Lembro-me inclusive a direção do vento enquanto os cabelos ruivos grudavam nas lágrimas que escorriam em sua face.
Mas nada se compara ao frescor do ódio que exalei naquele dia: O ódio por perder para ele a última coisa que me restava. A lembrança desse sentimento está gravada em fogo, queimando eternamente.
Roosevelt sempre tomava tudo de mim; Filho preferido e o grande prodígio, eu era aos poucos deixado de escanteio e ofuscado por seu impertinente ego. Ele era tão superestimado pela família que possuía seus próprios professores, tinha os melhores livros, as melhores roupas, uma rotina diferenciada na qual nem se dava ao trabalho de me incluir, tão pouco fingir que se importava com seu irmão mais novo.
Eu era constantemente largado ao chão gélido e sujo do jardim sob os cuidados de uma empregada qualquer, vivendo dos restos de amor que sobravam do meu irmão. Foi assim durante praticamente toda a minha infância, até que eu finalmente a conheci.
Alana era linda, e eu estava no princípio de minha adolescência. Foi fácil me interessar por ela. E muito apropriado.
Como irmã do meio, compartilhávamos dos mesmos problemas e inseguranças, já que Ana assim como Roosevelt, mantinha todas atenções de sua mãe voltadas para ela e a interminável procura do marido perfeito. Por conta disso, Alana era visivelmente insatisfeita e aproveitei de um dia em que a encontrei chorando em um canto para me aproximar. Não demorou muito e começamos um romance proibido, onde nos encontrávamos no jardim como dois amigos adolescentes de dia e nos amávamos perdidamente a noite.
Assim que ela se casou com meu irmão não fiquei muito preocupado, mantínhamos a mesma rotina de nossa vida dupla. Alana jurou que nunca encostaria em meu irmão e eu sabia que ela jamais o deixaria se aproximar. Eu via o relacionamento conturbado dos dois e ouvia os lamentos de Roosevelt com velada satisfação. E assim foram anos e anos de segredos. Porém com o passar do tempo algo foi crescendo e viver entre as sombras não era mais suficiente; A necessidade de sair com Alana pela rua como minha esposa. Queria ela inteiramente para mim e queria a vida que Roosevelt me privou.
Comecei a planejar uma forma de acabar com meu martírio e a solução pareceu óbvia. Teria que me afastar de Alana por um tempo, dispersar as atenções da perspicaz elite londrina, para depois roubar minha herança e fugir com ela para algum lugar do outro lado do oceano. Seria difícil me manter longe mas ao fim a teria para sempre, junto de tudo que era meu por direito. Enquanto mantinha distância guardava na mente meu objetivo e a lembrança de seus olhos verdes desejosos em meu corpo. E com muito sacrifício pedi outra mulher em casamento.
Valia tudo para manter nossa fuga oculta até o final.
No entanto, o que eu jamais imaginara era que, justamente meu afastamento — Necessário!! — a faria se entregar ao meu pior inimigo. Ouvir Roosevelt se gabar que Alana e ele eram finalmente um casal, despertava as sombras perdidas em mim. Imaginar Alana em seus braços de bom grado e ver o quanto ela estava apaixonada me tirava do sério. Perdê-la para Roosevelt, foi o gatilho para algo maior que estava guardado há muitos anos.
Então eu o matei.
Queria dizer que foi difícil, que eu vacilei por algum momento ou mesmo pensei em reconsiderar, no entanto cometer meu primeiro assassinato foi extremamente... fácil. Ver meu irmão caído ao chão, sua cara perplexa e saborear cada linha de dor em seu rosto; nunca havia me sentido tão bem.
Então tudo mudou. Finalmente eu era o pilar da minha família, tinha tudo que era meu de direito, e Alana de volta em meus braços. Estava finalmente realizado e feliz.
Nada disso durou. Minha vida perfeita caiu por terra quando descobrimos que Alana esperava um filho dele. Mesmo após a morte, o maldito Roosevelt dava um jeito de se fazer presente e me assombrar. Cada vez que ela olhava o ventre com uma expressão nostálgica sabia que ela lembrava de seu novo amado, sabia que cada lágrima derramada era por vontade de estar com ele, cada segundo de sua depressão era por causa da morte dele. E a minha vontade foi de chutar sua barriga até não restar nada dentro dela, prender Alana em casa até o nascimento e jogar a criança dentro do Loch Ness e vê-la se afogar. Mas me contive; aquele empecilho tinha de ter uma solução mais fria e sensata. Eu tinha de achar alguma coisa.
Conforme o tempo foi passando Alana foi Ficando mais e mais estranha. De uma mulher totalmente depressiva, Alana passou a fazer o estilo grávida radiante. E no dia em que achei a solução para nosso problema, achei também o motivo dela agir assim. Roosevelt ainda estava de alguma forma ali, me atrapalhando. Tudo que eu queria era levar ela em um médico confiável e me livrar do bebê, mas ele estragou mais uma vez contando a ela de meus planos. E quando dei por mim estava batendo em Alana, descontando toda raiva por ela ter me traído, por ela não ter esperado, por ela por Roosevelt acima de mim.
Admito que na época me descontrolei, mas qualquer um faria o mesmo em meu lugar. Era estranho pensar nele como um espectro mas quando senti ele me esfaquear eu não tive mais dúvidas: Fantasmas eram reais. Então eu voltei, assim como ele. Vi ali a oportunidade não de morte, mas sim de uma nova vida.
Me distanciei de meu irmão. Conheci outras pessoas de muitas épocas, e diversas histórias. Ganhei estranhos poderes, viajei e observei o mundo evoluir. Vi a cura para doenças que eu achava ser impossíveis de serem curadas; assisti a tecnologia em seu berço, os primeiros aviões riscarem os céus e os prédios se erguerem às alturas. Ganhei poderes e conheci pessoas que me fizeram poderosos. Pessoas que mesmo vivas podiam me ver. Fiz alianças ergui um império mesmo após a vida, graças aos meus parceiros. Mas ainda faltava algo, eu era um novo homem por fora, mas permanecia vazio em meu interior.
Então eu a vi; em dia chuvoso qualquer, nossos destinos cruzaram novamente. Foi como voltar quinhentos anos no passado. Seus olhos verdes e penetrantes reluziam mais que os raios que cortavam os céus. Achei ser um delírio meu, no entanto meu irmão apareceu ao seu lado, um golpe do destino para me mostrar que a visão deslumbrante dela era verdade.
Alana caminhava com Roosevelt em uma calçada a passos apressados. Os dois discutiam enquanto seguiam dois vivos próximo a um beco, ambos com as mesmas vestes de nossa época. Fiquei um tempo parado, apenas absorvendo o choque em ver aqueles fios ruivos que eu tanto amava novamente. E me senti um tremendo idiota por nunca ter cogitado sequer a hipótese de Alana ter se tornado uma fantasma, assim como Roosevelt e eu.
Enquanto eu vivia os últimos quinhentos anos sozinho, Roosevelt passara o tempo inteiro com ela. E de novo pude sentir o ódio latente brotando dentro de mim.
Segui os dois a uma certa distância e descobri que, não só ela ainda existia neste plano, mas os dois planejavam reviver juntos em alguma espécie de ritual demoníaco. Alana rodeava Roosevelt animada, falando de um livro místico enquanto planejava sua nova vida ao lado dele.
Ao lado dele. E não do meu.
Imagens dos dois no passado me assolaram de forma arrebatadora: Os dois felizes, Alana desistindo de mim e o escolhendo. Foi preciso uma tremenda força de vontade para não me revelar e arrastá-la comigo pelo braço, mas eu me detive.
Se Roosevelt possuía um meio de reviver eu o desejava, mais até do que tê-la de volta.
Foram dias à espreita, observando cada passo que meu irmão dava. No entanto a mansão era bem protegida, com fantasmas que ele acolhera por toda parte e o máximo que eu conseguia era ficar no jardim. Então certo dia eu o vi acompanhado de uma criança ingênua e nela vi uma brecha. Entrei em contato com Selene; uma fantasma que se apoderava da mente de outros e pedi para ela controlar a menina, tornando-se meus olhos dentro da casa.
No princípio deu certo. Descobri que meu irmão tinha um livro com rituais de ressuscitação, e que ambos tentavam um ritual que incluía matar quinhentas pessoas, e passei a assassinar pessoas também. Mas não consegui ter acesso ao ritual. Logo Roosevelt notou o comportamento estranho da criança e Alana passou a também controlar a menina, disputando com Selene.
Procurei então um mediador e contei do livro.
Antes Theodoro era um cientista bastante cético e poderoso. A única coisa em que ele acreditava era na ressuscitação do corpo através de métodos relacionados a sua profissão, e ele era plenamente obcecado por isso. No entanto havia um outro cientista interessado no tema e seus estudos estavam sempre um passo atrás de seu concorrente; o milionário Enrique Becker.
O fato do rival ser superior o irritou ao ponto de contratar bandidos para invadir a casa particular de Enrique e roubar informações. O golpe dera errado pois Enrique não guardava informação em nenhuma e o roubo serviu apenas para tirar a vida da filha de Becker.
Mas quando ele passou a nos enxergar suas convicções se expandiram. Ele passou a estudar também o inexplicável e ao tomar conhecimento do livro por mim sua obsessão foi toda redirecionada a ele, transformando Theodoro num poderoso aliado. Prometi que assim que tomasse o livro de Roosevelt o entregaria e ele me deu todas os recursos para destruir meu irmão.
Pouco me importava o destino do livro, ou mesmo se era perigoso deixa-lo nas mãos do cientista. Tudo que eu queria era roubar Alana de Roosevelt, usar o livro uma vez e reviver em seu lugar. Com isso em mente fechei um acordo: Theodoro exorcizaria meu irmão em troca do livro, no entanto não podia enquanto não soubéssemos sua localização.
Anos passaram até que aconteceu o inimaginável. Os fios do destino se cruzaram finalmente em meu favor e Roosevelt passou a se encontrar com ninguém menos que a filha de Enrique Becker. Theodore surtou dizendo que Enrique ia ter o livro primeiro que ele, que Roosevelt também possuía um mediador como aliado, mas eu não conseguia sequer me concentrar. Tudo que eu via era uma oportunidade de ter Alana de volta.
Foi tão tentador que não resisti e me revelei antes do tempo, desviando meus planos e convidando-a a vir comigo. E ela veio.
Ver o misto de espanto, tristeza e derrota nos olhos de Roosevelt fez minha alma transbordar em satisfação. Foi difícil até mesmo manter minha expressão de homem arrependido. Pois por mais que Roosevelt quisesse se relacionar com Jaynet, estava nítido que ele ainda amava Alana. E tirá-la dele foi minha primeira e prazerosa vitória.
Mas eu sabia, era apenas o começo da guerra.
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