Uma Estranha No Meu Quarto

42 Capítulo 36 - Os Beckers.


Notas iniciais
Olá fantasminhas!!! O título já é um mini spoiler, então não vou nem dizer mais nada aqui, rsrsrs. Sem mais delongas, tenham uma boa leitura!!

Jaynet verifica o computador enquanto nós olhamos fixamente para o pequeno quadrado prateado à nossa frente. Tento controlar minhas mãos, mas elas esfregam minha blusa; rebeldes, suadas e trêmulas. Sinto uma fisgada no ombro em que tomei um tiro, mas estou tão ansioso que ignoro até mesmo o sangramento. Finalmente vou ver Jaynet em sua totalidade, tê-la em meus braços em carne e osso.

— Protocolo de emergência, selando portas e acionando as autoridades. Favor confirmar código de liberação por voz. Tempo restante: Um minuto e cinquenta e sete segundos.

A câmara estala e nos afastamos um pouco, mantendo os no quadrado. Com um som metálico e sob muita fumaça o quadrado vai chegando lentamente para frente, revelando uma redoma de vidro. Estreito os olhos tentando ver dentro do vidro como uma criança esperando um presente do papai noel. E quando finalmente o vidro desembaça, arfo alto e sinto meu coração para de bater.

Porra, é errado sentir atração por um cadáver???

O corpo de Jaynet é ainda mais lindo do que seu espectro. Seus cabelos loiros são um pouco maiores que sua versão fantasma, e estão espalhados dentro da redoma de forma aleatória. Suas pálpebras estão fechadas e, apesar da cor excessivamente pálida, ela parece mais estar dormindo do que morta, como minha própria Branca de Neve. Corro meus dedos trêmulos pelo vidro, ansiando saber a sensação de sua pele. Estou tão deslumbrado por ela que nem percebo que Jaynet — A fantasma — está aparada ao meu lado, até que me sobressalto com sua mão brilhante ao vidro.

— Tem tantos anos que não me vejo...

— Você é perfeita. — Digo de forma automática e enrubesço. Pigarreio sentindo os olhos dos meninos em mim e tento mudar de assunto. — E agora? O que a gente faz?

— hummm, acho que a gente precisa de alguns cilindros de nitrogênio. — Ela aperta um botão que eu não tinha visto antes e a redoma se abre. — Não sou cientista como meu pai mas acho que partir de agora o processo de decomposição vai recomeçar, temos que manter ele congelado o máximo que pudermos.

Imagino seu lindo corpo apodrecendo e um calafrio percorre todo meu corpo.

— Está bem, e como a gente faz isso?

— Nitrogênio. Eu só sei dessa forma... — Jaynet aponta para o canto da sala. — Aqueles cilindros são de nitrogênio, precisamos levar alguns deles. Alguém pode me colocar em uma maca, sei lá. E precisamos de um termômetro.

Repasso seu comando aos meninos. Eles pegam um dos carrinhos de transportem da sala e se apressam em enchê-los com os cilindros. Eu faço menção de pegar Jaynet no colo, mas ela mesma me impede, segurando meu braço com firmeza.

— Não pode encostar em mim diretamente, vai congelar sua mão e danificar suas células. Meu corpo está a 196 graus negativos.

— Ah... é.

Estou tão distraído que havia me esquecido disso e de tudo ao meu redor. Ansioso, percorro meus olhos pelo cômodo em busca de um pano e acabo encontrando uma pilha de lençóis dobrados em uma prateleira. Vou até lá e pego um deles com afinco e cubro meus braços, finalmente podendo tocá-la, mesmo que indiretamente. Ergo Jaynet em meus braços e deixo escapar um suspiro. Eu nunca fiquei tão feliz em segurar um cadáver. Aliás eu nunca segurei um.

A constatação de seu peso faz meu sangue esquentar dentro das veias. Ainda mais por saber que tudo que acontecera esse ano não foi um sonho. Em meu intimo eu ainda duvidada de minha sanidade.

Caralho, ela existe mesmo! É mesmo de verdade! Eu sou MESMO um mediador.

Deveria coloca-la na maca, mas minha respiração falha só de imaginar me separar dela, nem que seja por um segundo. Aperto-a em meus braços ignorando a forte pontada que sinto em meu ferimento. Quero carrega-la rumo a uma nova vida, então mesmo com as pernas trêmulas a mantenho junto a mim. E sou tomado por uma emoção nova, tão forte e avassaladora que transborda do meu coração direto para meus olhos. A fantasma me encara com curiosidade e é nela que mantenho meus olhos cravados por trás da terrível máscara de palhaço, quando enfim digo o que já deveria ter dito há muito tempo.

— Eu te amo, Jaynet.

Ela não me responde de imediato, mas abaixa a cabeça e sorri, brincando com os cabelos, visivelmente sem graça por mais que não enrubesça. Começa a suar, nunca havia dito que amava ninguém antes e sei que a ocasião não é a mais apropriada, mas as palavras me escaparam e, mesmo num momento inoportuno, dizer isso a ela parece tão certo que não me arrependo de ter dito.

Jaynet abre a boca e a fecha receosa. Entretanto quando seus olhos voltam a fitar os meus e ela aparenta querer dar uma resposta, Roosevelt se materializa no cômodo. Ele observa rapidamente o embrulho em meus braços e os meninos param de carregar o nitrogênio, se reunindo a sua volta. A expressão em seu rosto não é nada animadora.

— Eles estão vindo para cá. Matamos alguns, mas ainda resta uns setenta pelo prédio. — Xerife e Hugo aparecem atrás dele. Hugo me lança um olhar raivoso ao perceber Jaynet em meus braços, mas se mantém em silêncio. — Se já terminaram é melhor partimos agora.

— Acabamos sim. — Digo a ele, levando o corpo de Jaynet até a porta.

— Você vai levar ela assim? — Indaga Kevin com um olhar curioso.

— Sim, vou leva-la comigo.

Me dirijo até a porta do cômodo, acompanhado por Roosevelt e Nick. Michael e Kevin vem logo atrás com os cilindros. Mal saímos no corredor e damos de cara com alguns seguranças armados. Seus olhos miram no corpo de Jaynet e rapidamente o líder manda os outros baixarem as armas.

— Larguem a senhorita Becker, terroristas.

— Ela é nossa refém. — Dispara Michael com um tom debochado em sua voz. — Afastem-se ou vamos danificar o corpo da falecida. Aposto que o chefe de vocês não vai gostar nada disso.

Procuro seus olhos por trás da máscara e o vejo apontar a arma na cabeça de Jaynet com determinação. Quero gritar com ele, perguntar se ficou louco e lhe acertar um soco, mas ele me dá uma piscadela e acabo por lhe dar um voto de confiança.

— E então o que vai ser? Estou doido para estourar uns miolos.

— Protocolo de emergência, selando portas e acionando as autoridades. Favor confirmar código de liberação por voz. Tempo restante: dez segundos.

Com um gesto de mãos o segurança líder ordena que os outros se afastem e caminhamos calmamente para o elevador, carregando além de Jaynet, o carrinho com os cilindros de nitrogênio. O segurança dá uma gargalhada e nos encara com fúria.

— Vocês estão mortos, dentro de cinco minutos a Interpol vai invadir esse prédio inteiro.

Engulo em seco e quando as portas se fecham, sinto o desespero tomar conta do elevador. Eu mesmo me sinto nervoso.

— Vamos retomar o plano original. Tivemos que improvisar, mas agora ninguém vai atirar enquanto o corpo da Jaynet estiver com você.

O plano original consistia em entrar silenciosamente, pegar Jaynet e fingir que saíamos pelo telhado novamente, quando na verdade sairíamos pelo térreo, onde o furgão e a Ferrari estão esperando. Lá em baixo, os meninos iam no furgão despistando a segurança enquanto eu iria com Jaynet na Ferrari até a Escócia. Roosevelt explodiria o helicóptero, deixando a dúvida se fugimos com o corpo por terra ou se ele foi para os ares. Balanço a cabeça concordando com Roosevelt. É a melhor opção que temos para sair daqui.

Assim que as portas do elevador reabrem no térreo e vemos mais seguranças, suas armas apontadas em nossa direção. Estou prestes a ameaça-los como Michael fez no andar de cima, contudo um homem no meio deles chama minha atenção de imediato, deixando minha frase engasgada na garganta.

O homem de meia idade aparenta ser mais jovem do que realmente é por baixo do jaleco branco. Seus olhos azuis cravam nos meus por trás das lentes retangulares, e meus pés fincam ao chão tamanho ódio estampado em suas orbes. O cientista tem uma expressão petulante e egocêntrico, no entanto ao baixar o olhar para o embrulho em meu braço, vejo um lampejo de dor percorrer cada centelha de seu rosto.

Solto o ar em forma de uma pequena nuvem de fumaça, e estremeço, só então me dando conta do frio que o corpo de Jaynet estava me causando. Minha suspeita quanto ao homem é confirmada quando Jaynet estica a mão para frente e abre um sorriso emocionado.

— Pai... — Ela volta o olhar para mim ainda sorrindo. — Eu sabia que ele estava aqui, a contagem de Helena parou em quinze segundos. Tanto tempo não o vejo...

Sorrio disfarçadamente para ela e volto a encenar o bandido, Muito mais nervoso. Péssimo jeito de conhecer meu futuro sogro. Seu olhar parece mais sombrio a cada instante e sinto Jaynet — O corpo. — Cada vez mais gélido contra mim. Os seguranças fazem menção de atirar, contudo o Senhor Becker ergue o braço para o lado, com a palma da mão aberta.

— Quem atirar será demitido. — Anuncia com a voz gélida e autoritária. — E vocês, soltem minha fi... soltem o corpo, imediatamente.

— Sinto muito. — Respondo com uma pontada de pena do pai da Jaynet, minha voz abafada pela máscara. — Eu não posso. — O pai de Jaynet arqueia uma sobrancelha e sou obrigado a improvisar. — Nosso contratador aguarda a entrega.

— Quem é seu contratador? — Nego a informação com a cabeça e ele bufa. — Não importa. Eu pago o Triplo do que ele ofereceu. A vista, agora. Somente diga o valor.

Engulo em seco e ouço Michael tossir a palavra “milionários”. Reviro os olhos para ele, repreendendo-o. Não somos bandidos, nem precisamos realmente do dinheiro, só estamos fingindo pelo bem de Jaynet.

— Não. Fizemos um acordo e somos... profissionais.

O pai de Jaynet avança um passo com fúria, mas ao cravar os olhos em sua filha ele para no caminho repleto de receio.

— Escutem. — Sua voz soa um pouco mais amena. — Se saírem daqui com esse corpo, minha filha, serão perseguidos pelo resto da vida. Podem ter certeza que não irei descansar enquanto não a recuperá-la e, quando o fizer, podem ter certeza de que não irão sobreviver. Mas se deixarem-na agora, serei misericordioso. Darei o dinheiro e deixarei até que levem um outro corpo no lugar.

Vacilo. Não pelo dinheiro ou nada do que ele tenha dito, mas sim pelo desespero que vejo em seus olhos, tão parecidos com os de Jaynet. Quero dizer que é para o bem dela, contar que ela está aqui do meu lado. Sinto os olhos de Jaynet em meu rosto e ela me segura pelo ombro.

— Não pode contar, ele não vai acreditar. Ele é um cientista, é um cético por natureza. Não conte Chritian, por favor...

— Vamos leva-la assim mesmo. O acordo era levar a Senhorita Becker, não pegamos um corpo aleatório. — Digo com um nó na garganta. — Libere as portas do edifício.

— Nunca.

Com um pontada no peito, apoiei Jaynet no chão e puxei uma faca de meu bolso e, com o coração partido, efetuei um corte preciso por quase toda extensão do braço de Jaynet. Com o corpo congelado, seu sangue sequer escorreu. Se é que ela ainda o possuía dentro das veias. O Senhor Becker ficou branco e vi a confusão nos olhos de Jaynet como os meus próprios. Por ela encenei um semblante ameaçador e anunciei com a voz fria e ameaçadora.

— Se não nos deixar passar cortarei seu lindo experimento em pedaços.

— Não. — Sussurrou o Senhor Becker, desesperado. — Por favor, preciso do corpo dela inteiro.

Eu sei Senhor Becker, eu também.

— Então deixe-nos ir.

O Senhor Becker deteve o olhar em mim, e depois em sua filha. Depois tornou a olhar para mim. E então para o braço cortado dela.

— Está bem, só não a machuque mais. — Assinto. Não queria nem mesmo ter feito esse corte. — Helena. — Ele ordena com a voz fria.

— Senhor Becker.

— Libere todas as portas do prédio e ordene que os seguranças se mantenham passivos.

— Mas senhor... — O chefe de segurança atrás dele protesta.

— Quieto. — Ele fita sua filha pela última vez. — Podem ir, mas eu irei acha-los nem que seja no quinto dos infernos. Não sei como quatro idiotas quebraram todas as câmeras do prédio, mas saibam que isso e essas suas máscaras bobas não irão me impedir de encontra-los.

Sob sua ameaça seguimos praticamente correndo até o outro elevador que nos leva de volta ao terraço. Mas não entramos. Seguindo o plano e aproveitando que Roosevelt se desfez de todas as câmeras, nos esgueiramos até a portaria de serviço, nos fundos dos prédios. Os fantasmas seguem de elevador até o terraço, onde irão fingir que saímos de helicóptero. Por sorte não encontramos mais ninguém.

Da saída do prédio podemos ver o helicóptero levantando voo e depois explodindo no ar com um barulho ensurdecedor, e mil fagulhas de fogo e destroços caem aletoriamente do céu. Nos entreolhamos e estamos todos tremendo.

— O pai de Jaynet é assustador!! — Choraminga Kevin. — Deus me livre, ele não vai descansar até nos achar!

— Acho que não, por que teoricamente estamos mortos. — Deduz Michael, com nick apoiado em si. Sua perna agora sangra deliberadamente — Você está bem cara?

— Estou. — Responde Nick com um fiapo de voz. — Melhor a gente não ficar dando sopa aqui. Ela vai descongelar.

Estremeço de novo, soprando a fumaça. Estou com tanto frio que é difícil até de raciocinar. Sigo os meninos até o beco de trás do prédio e eles descobrem o furgão e a Ferrari. Entrego a chave a Kevin que coloca dois cilindros no porta malas e me devolve, se despedindo de mim. Eles saem primeiro do beco e como previsto, são seguidos por alguns carros sem identificação.

— Espero que eles fiquem bem.

Ouço Jaynet dizer ao meu lado e mal consigo encará-la nos olhos. Deposito seu corpo no banco traseiro, e tento ajeitar suas pernas de forma confortável. Então a cubro com o lençol, como se a preparasse para dormir. Sei que ela está morta, mas não consigo evitar de ser superprotetor. Vou até meu lado no carro e me contenho para não ligar o aquecedor. Conferindo Jaynet pelo retrovisor dou a partida e vejo-a tomar seu lugar ao meu lado como sempre faz como vamos à escola. Ela estuda meu rosto atentamente e baixo o olhar em pânico.

— Ei. Deu tudo certo, qual o problema?

— Te cortei. — Sinto meu peito arder de tanto desgosto. — Me perdoe, eu não queria.

Jaynet segura meu rosto exigindo meus olhos.

— Não se culpe, foi necessário. Papai é muito teimoso. — Ela me dá um selinho rápido na boca. — Eu não estou com raiva de você. Aliás, vocês todos foram incríveis, eu não poderia estar mais agradecida.

Solto o ar aliviado meus olhos vão da Jaynet fantasma para a Jaynet real no banco de trás.

— Isso é tão estranho. Beijar você com você no banco de trás.

Nós dois rimos e engato a primeira, seguindo o caminho contrário do furgão.

— Verdade é estranho, mas logo estarei te beijando de verdade.

Mordo meu lábio imaginando a cena e meu estômago se contraí em expectativa e em algo mais; Medo.

— E se não der certo? O ritual...

— Vai dar sim. — Garante ela esfregando as mãos em meu ombro reconfortantemente. — Depois de tudo isso, tem que dar né?

— É...

Respondo, mas a incerteza em minha voz é tangente. Me remexo no banco, conferindo o trânsito e pegando a via principal em direção a Escócia. Meu ombro baleado dói a cada mínima virada de volante. Agora que a adrenalina diminuíra, eu estava com dificuldades para manter o movimento do braço. Suspiro pela dor e pelo medo que me preenchem.

O caminho é longo e terei muito tempo para remoer minhas inseguranças.

Vai dar tudo certo. Digo para mim mesmo, repetindo o mantra em minha cabeça. Vai dar tudo certo.

Então por que estou com esse pressentimento tão ruim?

Notas finais
Gente, não tenho certeza por que ainda não escrevi, mas acho que o próximo capítulo é o final. Estão preparados? Eu não :'( Beijosss ♥