Uma Estranha No Meu Quarto
29 Capítulo 27 - O velho time novamente
Notas iniciais
O sol resplandecia nos cabelos loiros de Jaynet e a ultrapassava. A folgada se jogou na grama verde e fresca, perfeitamente aparada, e ficou sentada ali, mais linda que qualquer coisa que eu já vi, gesticulando com a mão para que eu seguisse. Bufei para ela e subindo os pequenos degraus que levavam a varanda toquei a campainha da casa à minha frente. Uma construção rosa claro de dois andares de madeira, janelas com cortinas abobadas e flores. Fitei o jardim perfeitamente florido e a cerca recém pintada, e rolei meus olhos. Uma casa muito feminina pro meu gosto. Toquei a campainha pela segunda vez.
Ninguém atendeu. Encarei o fantasma do meu lado. Um homem de uns quarenta anos, com duas entradas no cabelo, calça social bege e blusa social branca. Ele parecia um daqueles caras que trabalhavam o dia inteiro digitando em um cubículo com seus óculos quadrados e ombros curvados.
— Leôncio... — Chamei. Jaynet riu e pôs a mão na boca tentando abafar. Lancei um olhar fulminante a ela. — Tem certeza que sua mãe mora aqui?
— T-t-t-enho, Chr-chr-christian. Minha m-mãe s-s-sempre…. Morou aqui.
Uma gargalhada histérica ecoou atrás de mim. Jaynet rolava pela grama e Leôncio se encolheu constrangido. Fitei ela com raiva, faziam quse 48 horas que eu estava me segurando para não rir do pobre Leôncio, mas ela e chato do Jason não conseguiam disfarçar. Me encostei na pilastra e pigarreei, arrependido de ter trazido ela comigo.
— Jaynet, por favor!
Jaynet voltou a se sentar e tomou um longo fôlego. Encarou o Nerd do meu lado, secando uma lágrima imaginária no rosto.
— Desculpa Leôncio, sou uma babaca, mas é que eu nunca havia visto ninguém gago antes, só em filmes. — Ela deu de ombros. — Mas não se preocupe, depois que minha situação for resolvida com certeza eu vou pro inferno.
Ela voltou a rir. Esfreguei as têmporas e toquei a campainha pela terceira vez. Sorte dela que o Leôncio era um fantasma tranquilo e que o caso dele era bem simples na verdade.
— Não liga para ela não, fique calmo. Então... — Pensei em algo para puxar assunto. — Você trabalhava de que mesmo Leôncio?
— Eu era A-auxiliar de C-contabilidade.
Ia responder algo automático quando ouvi um barulho na fechadura. Uma senhora de roupas rosas e bob’s no cabelo abriu a porta, segurando um gato preto. Ela aparentava ter uns setenta anos e metade da minha altura. Me endireitei no lugar e fiquei pensando em como não causar um enfarte na velhinha.
— Pois não?
Lancei um olhar pro fantasma ao meu lado, ele tinha um sorriso de ponta a ponta no rosto.
— É ela, minha mãezinha...
Voltei a olhar para a senhora nervoso e peguei uma carta velha dobrada em meu bolso.
— A senhora é mãe do Leôncio? Ele mandou lhe entregar essa carta.
— Meu filho morreu tem seis meses. — Ela estendeu a mão e eu lhe dei o envelope, mas ela não o pegou. — Que brincadeira de mal gosto é essa jovem? Não tem vergonha, você nem é mais tão adolescente para brincar com essas coisas..
Senti meu rosto queimar. Eu tinha sim muita vergonha. Suspirei, tomando algum tempo para pensar em alguma desculpa.
— Não é nenhuma brincadeira, ele me entregou antes de morrer. Eu sou contador, trabalhava com seu filho.
A senhora me encarou de cima a baixo e franziu o cenho.
— Tão novinho para ser formado em contabilidade.
— Sou um prodígio.
Ela sorriu por um segundo, mas logo fechou a cara.
— E por que ele te entregaria uma carta endereçada a mim antes de morrer, se ele podia simplesmente vir aqui e me entregar?
Suspirei, não estava com um pingo de paciência.
— Só pega essa carta senhora, pelo amor de deus.
— F-fala p-para minha m-m-m-mãe que é s-sobre a conta s-secreta que eu t-t-t-tenho.
— Ele disse que é sobre a conta secreta que ele tinha. Ele falou isso para mim antes de morrer claro, não é como se ele estivesse aqui agora.
Peguei a mão da senhora bastante desconfiada a minha frente e forcei a ficar com o envelope. Ela examinou a carta e sorriu, emocionada.
— É a letra do meu menininho. Obrigada.
— De nada. Agora se a senhora me der licença tenho que ir pra esco... pro escritório.. de contabilidade... que eu trabalho, sabe.
Mal ela fechou a porta, Leôncio começou a brilhar de uma forma mais intensa. Ele estava indo embora, me perguntei mentalmente para onde ele iria. Mas até que eu mesmo morra não saberia a resposta. Ele me estendeu a mão sorrindo e eu a apertei.
— Obrigada Christian. Agora estou em paz. — Ele voltou o olhar para Jaynet que o encarava de forma deslumbrada. — Adeus Jaynet, espero que você encontre sua paz também...
Sua voz ficou no ar e ele sumiu. Sentei ao lado de Jaynet na grama e estiquei as mãos atrás do corpo. Ela pareceu meia triste. Dei um tapinha em suas costas, esperando que aquele olhar perdido desaparecesse.
— O time está de volta! Você poderia ter sido mais profissional, tipo não rir do fantasma que a gente está ajudando, por mais engraçado que seja.
Ela sorriu mas voltou a ficar séria.
— Ele nem gaguejou no final. Deve ser muito bom achar a paz eterna, ou seja lá o que aquilo for..
Ela baixou o olhar e ficou em silêncio. Detestava vê-la assim, preferia que ela zoasse alguém e risse de algo inapropriado. Peguei seu rosto entre as mãos, sem ligar para possibilidade de alguém me ver atrás da cerca segurando “o nada”. E encarei aqueles olhos azuis lindos e triste, tentando demonstrar a confiança que nem mesmo eu possuía.
— A gente vai resolver seu problema, eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.
— Eu sei que vai..
— Vamos perguntar a Maria hoje depois da escola sobre tudo que o Roosevelt disse e se ela confirmar eu vou ter uma conversa com ele.
Ela confirmou com a cabeça e mordeu os lábios apreensiva, o que sem querer, acabou sendo muito sensual para mim. Arfei de desejo puxando aqueles lábios deliciosos aos meus, e meu coração bateu descompassado quando finalmente nos beijamos.
Toda vez que eu a beijava me sentia perdido e fraco, fora aquele sensação estranha que sempre senti desde a primeira vez que nos tocamos, mas eu não conseguia evitar de beijá-la. Valia cada desmaio, valia ficar cansado e mesmo morrer por ela.
Jaynet puxou meus cabelos para trás, e me afastou.
— Melhor não, Christian. — Ela fitou a grama fugindo do meu olhar. — Não acho que a gente deva se beijar enquanto não resolver minha situação... Acho melhor a gente
Passei as mãos pelos cabelos, e soquei a grama irritado. De novo ela com essa história de me afastar e voltarmos ao que éramos antes e blábláblá...
Levantei da grama e fui em direção ao carro, não estava a fim de ouvir tudo de novo. Abri a porta da Ferrari e entrei, passando o cinto e girando a chave da ignição. Segundos depois ela estava no banco ao meu lado, com um olhar apreensivo. Engatei a primeira e saí, pegando uma via lateral que era um atalho para a escola.
— Não fique chateado Chris, eu fico com medo.. Você fica tão fraco quando...
— Está bem Jaynet, esquece isso. — Interrompi. — Se você não está me afastando pela sua indecisão de ficar com o Roosevelt tudo bem.
Olhei para ela apreensivo. Roosevelt era o que a minha mãe considera um bom partido; rico, educado, trabalhador, esforçado, bem vestido, habilidoso... Ao contrário de mim que sou só....rico. Além de tudo ele ainda a podia beijar livremente como eu desejava e não podia. Lembrei subitamente dos dois se agarrando em seu escritório, ambos praticamente em cima da mesa. Vez ou outra lembrava dessa cena, de como Jaynet estava despreocupada em seus braços, e de como ela fica tensa comigo, achando que eu vou morrer ou coisa assim. Do modo como ele corria sua mão pelo corpo dela...
Caralho, queria tanto desver isso.
— Eu não tenho nada com o Roosevelt, foi só daquela vez.
— Ok Jaynet, você não me deve satisfações, afinal não sou seu namorado mesmo.
Fitei ela revirando os olhos e bufando pelo retrovisor.
— Está vendo? Por isso que eu não queria que a gente se beijasse nunca! Agora vai ficar esse clima estranho entre a gente até você me exorcizar.
Liguei a seta e entrei pelo estacionamento da escola procurando uma vaga disponível.
— Eu. Não. Vou. Exorcizar. Você. — Engatei a ré e girei o volante tentando me concentrar em estacionar o veículo. — Porra Jay, quantas vezes vou ter que te dizer isso?
— E se a gente não conseguir me reviver? Vou ficar sendo seu bibelô particular? Você não vai casar, ter filhos... vou ser sua amante? Ver você envelhecendo e morrendo, enquanto torço para você virar um fantasma após a morte.
Desliguei o carro e peguei meu material escolar; um caderno e uma caneta velha. Ela saiu do carro e ficou me seguindo pelo pátio. As aulas já estavam acabando e graças a ela faziam 3 semanas que eu não vinha a escola. Agradeci mentalmente por terem alunos fora da sala e não poder mais responder a suas perguntas.
Acho que se esse ritual for uma porcaria inútil e, a Jaynet não reviver mesmo e, eu começar a envelhecer sem ela, eu faria uma loucura.
Estava andando pelo corredor, perdido em pensamentos suicidas quando uma mão de alguém vivo — Pra variar. — tocou levemente meu ombro. Virei o rosto pensando ser um dos meninos, mas era a insuportável da minha agora ex-namorada Heather. Ela me encarou com olhos receosos e a boca trêmula.
— Oi, Christian.
É serio porra? Quer tomar um tapa na cara?!
Jaynet cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão, irritada.
— Ai que vontade de cortar o cabelo dessa vagabunda. Depois de toda aquela putaria na festa e de todo o chororô, ela quer falar com você por que? Essa galinha de macumba.
Segurei o riso. Pelo menos Jaynet apesar de me afastar sentia ciúmes de mim. Esse pensamento quase me fez esquecer da garota ruiva esperando uma resposta a minha frente.
— Heather. — Respondi sem qualquer emoção. — Pensei que a gente não se falaria mais... depois de tudo.
— É... O que aconteceu foi uma fatalidade. Pensei que você não ia mais voltar para a escola.
— Eu fui suspenso. — Estreitei os olhos para Jaynet que gesticulou um “desculpe” com a boca. — Mas já acabou o período de suspensão, agora vou ver se consigo salvar o meu ano letivo. Vai ser difícil, por que eu já estava prejudicado por conta do coma...
— Sobre as fotos. — Heather esfregou uma mão na outra. — Eu fiquei com raiva na hora, mas eu entendo perfeitamente por que você fez isso. E quero dizer que te desculpo. Se a gente puder conversar direito em um outro lugar..
Bufei, puto da vida.
— Entende por que eu fiz isso? Jura? E será que eu entendo por que você agiu como um vagabunda e me traiu na frente da escola toda? Será que eu te perdoei? Você não tinha nem que me dirigir mais a palavra, quanto mais falar que me desculpou. — Voltei a andar mas parei, voltando a olhar para ela. — Aliás, não te devo satisfações, mas eu não espalhei porra de foto nenhuma pela escola. Nem eu, nem meus amigos.
Ela deu uma risada debochada.
— Ah claro. Se não foi você nem um dos seus capangas, quem foi?
Devolvi a risada debochada.
— Ah sei lá Heather, deve ter sido... Qualquer um, por que você é insuportável e falsa. Todo mundo te odeia.
Ela botou a mão sobre o peito, indignada.
— Fique sabendo que eu não sou falsa. Eu só te traí por que você nunca quis dormir comigo!!! — Alguns estudantes que conversavam viraram a cabeça em nossa direção. — Sempre que eu dispensava meus pais e dava um jeito de você ir lá em casa, você arrumava uma desculpa para não ir ou ir embora mais cedo. E sempre que eu ia na sua casa você sequer me chamava para o seu quarto. Me diz qual o meu problema? Eu não sou atraente?
Jaynet me encarou com um meio sorriso nos lábios. Ela sabia que eu não levava a Heather lá por ela, mas não sabia do outro motivo. Abri o colarinho da minha blusa gola polo ficando tenso de repente.
— Não tem nada a ver com você Heather, tem a ver comigo.
— Aff, a desculpa mais velha do mundo.
— Não é desculpa!
— Pois fique sabendo que a culpa de eu te trair foi sua! Eu esperei o máximo que pude... E consequentemente a culpa da escola toda me ver nua também é sua, independente de você ter espalhado as fotos ou não!
— Então por que você está falando comigo?! Vai ver sua vida, volta com o Carl e seja feliz transando por aí feito uma coelha.
— Você é gay?
Jaynet riu, as pessoas do corredor também. Lancei um sorriso debochado para minha ex-namorada.
— Não, querida. Quer saber mesmo por que eu não dormi com você?
Heather cruzou os braços.
— Quero sim.
— Por que eu gosto de outra pessoa. Achei que você tivesse o mínimo de inteligência para notar isso por si só, mas vejo que me enganei.
A mão de Heather voou direto na minha cara. Senti meu rosto arder enquanto ela estremecia parada no lugar. Fitei Jaynet encolhida num canto e falei:
— Alguém mil vezes melhor que você. Estava mesmo querendo terminar com você há muitos meses. Toda essa situação só facilitou as coisas para mim.
— Quem é essa piranha? De qual sala ela é?
— Ela não é da escola.
— De qual escola ela é então? Vou ralar a cara dela no asfalto e depois a sua, seu atrevido, vagabundo, ridículo!
— Você não tem esse direito. Mas se quer saber mais: Eu beijei ela no baile. — Encarei Jaynet com um sorriso sacana. — E foi simplesmente perfeito. Eu estava me sentindo mal por isso, mas agora depois de ver você de pernas abertas com outro homem, vejo que não merece. Por mim ficava com ela naquele terraço por toda eternidade. Mas você interrompeu, desagradável como sempre.
— Traídor, escroto de merda! Seu filho da puta!
Heather gritou me dando outro tapa no rosto e vários tapas nos braços e tórax. Eu não liguei, ela que começou, agora ela ia ouvir. Que me batesse o quanto quiser. O público já estava rouco de tanto gritar, teria que encerrar essa discursão antes que eu fosse suspenso de novo.
— Eu não ligo se você transou com um, com dois, ou com dez mil homens, aquela noite foi a melhor da minha vida e você não vai estragar isso.
— A vagabunda estava com você no terraço? Aonde você escondeu ela que eu não vi? Ainda diz que ela não estuda na escola, mentiroso de merda.
— Ah você acha que eu minto como você? Procura por ela então, pode revirar essa escola inteira! E as outras escolas também. Boa sorte com isso.
Virei as costas e apressei o passo para a sala, ignorando os gritos histéricos de Heather de que “a nossa conversa não havia acabado”. O que eu menos devia era satisfações a essa garota. Sentei na primeira cadeira da fileira do meio e fiquei ouvindo os cochichos a meu respeito. Logo Heather entrou na sala como um furacão e passou por mim, quase levando o meu braço junto ela.
Jaynet se sentou na mesa do professor e ficou me encarando com um sorriso bobo no rosto. Baixei a cabeça na mesa repleto de vergonha. Havia ficado tão irritado que acabei colocando ela no meio de nossa briga e falado coisas que eu não havia dito nem para ela.
O tempo passava na velocidade de uma lesma. Ao final de cada aula Heather dava um jeito de esbarrar com força no meu braço e de contar sua versão distorcida da nossa briga as pessoas. Permaneci em silencio o tempo inteiro, não ligava realmente para o que ela estava inventando a meu respeito.
Assim que as aulas acabaram corri para o estacionamento e quando entrei no meu carro, Jaynet estava lá com o mesmo sorriso. Revirei os olhos e encarei sua boca rosada, desejando poder beijá-la ali mesmo no estacionamento lotado.
— Melhor noite da sua vida, é?
— Lá vem a convencida.
— Palavras suas.
Fitei seu sorriso debochado e seus olhos brilhantes cor de safira. Peguei sua mão entre as minhas me certificando de estar numa altura que ninguém do estacionamento pudesse ver.
— Foi sim a melhor noite da minha vida. Quer que eu fale de novo?
— Quero. — Sussurrou.
— Foi a melhor noite de minha vida. Sonhei com aquele momento desde que te vi pela primeira vez em meu quarto.
Ela riu e se aproximou mais de mim. Perto o bastante para que nossos lábios quase se tocassem.
— Você de toalha, me lembro vagamente...
— Vagamente?
Num gesto rápido puxei ela pela cintura com um braço e com o outro abaixei o banco do carro, deixando ela sobre mim. Beijei sua boca com desespero. Jaynet se desmaterializou e apareceu sentada no banco do carona, interrompendo o beijo cedo demais.
— Está maluco?! E se alguém te ver deitado ai com a boca aberta pro nada. Já imaginou que coisa estranha de se ver?
Levantei o banco, rindo ao imaginar o que ela dizia.
— Obrigada, não havia imaginado, mas agora se tornou inevitável. Nunca mais vou te beijar.
Liguei o carro e fitei a fantasma do meu lado um pouco mais sério, engatando a primeira.
— Acho que agora temos que tratar de um assunto importante, não?
— Maria... — Ela sussurrou, ligeiramente apreensiva.
— aham... Maria. Vamos ver o que ela tem a dizer sobre o nosso amigo Roosevelt.
Fale com o autor