Uma Breve Vista da Morte - Contos Avulsos
7 Skullbrandes
Andréia sempre se vira como uma solitária e já estava acostumada com a vida de solteira. Sempre se viu como uma pessoa difícil de conviver nesta questão, e o fato de seus primeiros relacionamentos terem tido tudo, menos a verdade, apenas fortaleceu esta preferência.
Sua família, principalmente sua mãe, ficou apreensiva quando ela decidiu sair de casa e se mudar para uma cidade vizinha. De certo modo eles sempre acreditaram que ela iria mudar de ideia e arranjar alguém, se desse a chance de isso acontecer.
Mas ela não queria. Simplesmente não queria. Estava decidida que sua liberdade valia mais do que qualquer possível alegria momentânea que a vida a dois poderia lhe trazer. Estava firme na certeza de que poderia ser feliz sozinha... O que não era mentira. Então, em uma manhã ensolarada, observou sua mãe sumir de vista na plataforma da estação, enquanto ela acenava da cadeira A21, bem no meio do corredor 3 do expresso das 10:30, em direção a Blidger.
O que sentiu quando entrou em sua nova casa foi indescritível em todos os sentidos. Era o misto de uma enorme tristeza e uma grande realização. Dentro de si, Andréia sabia que estava seguindo seu coração e sabia que, de qualquer modo, seria feliz ali. Apenas era necessário “dar tempo ao tempo”.
Avisou a todos que chegou bem e que ligaria em casos de emergência. Sua família já estava acostumada com seu jeito, então todos sabiam que era normal ela passar dias, as vezes semanas, sem entrar em contato.
Os primeiros dias foram tranquilos, por mais que a mudança a tivesse esgotado. Planejou chegar em uma segunda, assim ela teria toda a semana para organizar seus móveis e procurar emprego, após o fim dela. E foi isso que ela fez.
Levantou bem cedo na segunda seguinte, vestiu a melhor roupa que possuía e, após um café bem reforçado, saiu de casa com sua bolsa e os classificados do jornal nas mãos. Havia selecionado dois ou três lugares, porém o primeiro deles era bastante promissor.
— Epar Secretariado e Contabilidade... com certeza parece um bom lugar. – Disse Andréia baixinho, enquanto esperava o ônibus em uma rua a menos de 5 quadras de sua casa.
Conseguir este emprego era muito importante. Além de ser uma área que ela gostava, seria a reafirmação de sua independência. Por isto a jovem estava tão concentrada repassando mentalmente como deveria se comportar e as informações sobre a empresa que havia pesquisado na noite anterior, que não percebeu quando uma mulher, aparentando estar próxima aos 50 anos e ter usado muita maquiagem para aquela hora da manhã, sentou ao seu lado na parada.
— Bom Dia. – Disse a mulher.
Sendo levada por um misto de concentração e costume, Andréia não respondeu. Continuou a ignorar por completo a presença dela. A ponto de não notar que aquela que lhe fazia companhia havia retirado um telefone do bolso e feito uma ligação, sussurrando com a pessoa que estava do outro lado da linha enquanto a examinava “pelo canto do olho”.
E assim ela continuou... distraída com o que seria uma de suas grandes chances, ela apenas repassava várias e várias vezes, em sua mente, o que deveria falar quando estivesse na entrevista com o responsável pelo recrutamento da Epar Secretariado e Contabilidade. Até que sua cabeça foi coberta por algo que lhe bloqueou totalmente a visão e sua mente foi invadida por todos os sinais de alertas possíveis, pouco antes de sentir uma enorme e dolorida pressão em sua nuca e perder a consciência.
Andréia assistia muitos filmes, principalmente aqueles que retratavam crimes violentos. Estes, junto com as matérias de jornal com a mesma temática, eram um de seus hobbys preferidos. Por ter este costume, ela já havia lido e visto várias vezes a respeito de pessoas que, depois de situações como uma ida ao banco ou um encontro às escuras, haviam acordado sem um de seus órgãos. A perspectiva a assustava, porém ela sentia que estava acima disso, pois sua personalidade naturalmente a afastava das situações que poderiam fazer com que alguém fizesse isso com ela.
Ao menos era isso o que ela pensava. Até quando, piscando os olhos e sentindo vários pontos de seu corpo doerem, ela percebeu que não estava mais no ponto de ônibus a menos de 5 quadras de sua casa.
Ela estava em uma espécie de açougue, mas não era bem um. Suas paredes eram de aço, sem nenhuma porta aparente, e seu teto e piso eram do mesmo azulejo branco com rejuntes azulados. Algumas facas e bisturis estavam à direita da maca onde estava deitada, e algumas delas estavam sujas de sangue... porém não foi isso o que mais lhe aterrorizou naquele momento.
A medida em que os sentidos e a mente de Andréia se aproximavam do normal, a dor que sentia começou a ficar mais localizada e mais forte, junto com uma estranha e crescente sensação de frio, que caminhava da parte de baixo para a de cima de seu corpo.
Então, ainda sem compreender o motivo pelo qual estava ali, ela conseguiu identificar de qual parte de seu corpo a dor estava vindo... e o motivo pelo qual estava sentindo frio. Ela estava deitada em uma grossa camada de gelo em escamas, que foram arrumadas para lhe servirem como uma espécie de cama. Após tocar ele com a ponta de seus dedos e sentir o frio adormecer o local, tateou seu corpo com as mãos até os locais onde as dores estavam concentradas... dois pontos do lado esquerdo e direito de sua coluna, próximos ao seu quadril.
O sombrio medo que sentia, junto com a infinita sequência de vezes onde as palavras de cuidado ditas por sua mãe se repetiam em sua cabeça, apenas ficaram mais fortes quando ela sentiu um liquido viscoso no gelo, bem abaixo de onde doía. E Andréia entrou completamente em desespero quando, ao aproximar os dedos novamente de seu corpo, sentiu que algo estava estranho... que algo havia sido retirado pelos buracos de 11 por 7 centímetros de diâmetro, de onde ela já havia perdido bastante sangue... e o pouco que ainda restava em seu corpo continuava a escorrer, lentamente, e a formar uma grossa e grudenta camada em cima do gelo.
A mulher começou a chorar com a pouca força que ainda lhe restava. Pelos ferimentos em seu corpo e pela quantidade de sangue que havia perdido, sabia que tinha poucos minutos de vida. E sabia que iria morrer sem a chance de se despedir ou de entender o motivo pelo qual alguém tinha feito isso com ela.
Sem saber quanto tempo se passou, Andréia sentiu o cansaço lhe invadir e um estranho sono pesar sobre seus olhos. E sua última lembrança foi a de, após um estalo seco que veio de algum lugar atrás de sua cabeça, ver duas pessoas vestidas com grossos aventais de plástico marrom entrarem onde estava e parar uma de cada lado da maca... apenas para a observar e dizer, após alguns segundos:
— A primeira parte do pedido já foi despachada. Ela já está quase morta, então podemos começar a remover sua pele e seu coração. Ela não irá mais precisar mesmo!
Todo o ambiente se encheu com o som gerado pela serra circular que fora ligada por aquele que estava à direita. E Andréia estava viva quando a serra tocou a pele entre seus seios, fazendo com que ela entrasse em choque pela dor.
Andréia sempre se vira como uma solitária. Portanto, e atendendo a sua vontade de ficar sozinha, o destino decidiu lhe atender fazendo com que sua morte fosse exatamente assim...
... Sozinha.
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