Uma Batalha sem Vencedores

2 Capítulo II - Àlbum de Fotografias - Parte I


Notas iniciais
Nesse capítulo, Bastian de alguma forma tenta reviver o passado, relembrar os velhos tempos e acontecimentos de um passado, na verdade, de um ano atrás, quando estava de férias escolares e isso é só o começo.

Capítulo II — Àlbum de Fotografias — Parte I

O retorno para casa foi tranqüilo, Bastian veio até adormecido no ônibus, teve sonhos maravilhosos, e como toda pessoa acordou bem antes da parada e desceu perfeitamente nela, mas quando estava chegando a casa já estava anoitecendo e seu pai dessa vez estava fazendo o jantar.

- Pai precisamos nos ver em outras ocasiões fora essa – disse ao ver o pai novamente na cozinha.

- Tem razão, acho que vou tentar nesse final de semana dar um jeito de ficar mais tempo com você, como nos velhos tempos – disse se lembrando de como o filho mudou quando foi a aquele mundo estranho e voltou bem melhor, até mesmo mais confiante de si, mais disposto e até mesmo mais corajoso.

- Realmente, como nos velhos tempos – disse Bastian lembrando-se das várias aventuras que teve durante todo esse tempo. – Sabe, estive pensando, o senhor sabe onde está o álbum de fotografias?

- Aquele álbum que você tirou lá naquele lugar?

- E Fantasia pai, o nome daquele lugar é Fantasia. E esse álbum que procuro mesmo.

- Está bem, o álbum de fantasia está na terceira prateleira, de cima para baixo, na estante da sala.

- Obrigado pai – disse levantando-se da mesa. – Eu vou dar uma olhada.

- Você não vai nem jantar primeiro?

- Estou sem fome, depois eu janto – e saiu disparado da cozinha.

- Eu acho que nunca vou entender muito bem esse meu filho – e balançava a cabeça ao falar isso.

Ninguém entendia porque a pressa dele para ver um antigo álbum no qual estava guardado cenas de momentos importantes, aventuras maravilhosas entre aqueles três, que havia acontecido um ano atrás. Mas por algum motivo ele de alguma forma queria muito ver esse álbum, queria muito relembrar essas histórias, essas aventuras, os momentos no qual passou com Atreyu e a imperatriz, ele precisava dessa dose, de momento só seu, com o seus amigos, que fazia tempo que não via. Vai ver relembrou-se enquanto dormia ou ao visita o seu velho amigo o Sr. Koreandes, de acontecimentos do passado, de uma ano anterior, enquanto estava de férias do colégio. O livro estava sim na terceira prateleira, de cima para baixo e Bastian não demorou nem mais um minuto em pegá-lo, abri-lo e olhar o que tinha dentro.

Só o próprio Bastian pode relatar como foi imensamente gratificante abrir aquele álbum, relembrar todas aquelas aventuras, os dias embaixo das arvores, os banhos no rio e... alguns momentos que para qualquer um passaria despercebido, e para crianças, como todas aquelas três eram, mas não foi bem assim que aconteceu, não foi bem assim que essa história tomou seu rumo, houve fatos bastante diferentes, um tanto constrangedor, desconcertante, um mais mágico, mas especial, mais enigmático que o outro e que cada um interpretasse a sua forma. Logo quando entrou de férias, ele decidiu visitar os amigos, com seus poderes, sua imaginação e a capacidade de criar o que quisesse, encontrou um meio de ir à fantasia sem a necessidade do livro, simplesmente usava a porta do armário como porta, mas para isso tinha que dizer a palavra mágica “Latrop haras Aisatnaf”, que ao contrário significa “Portal para Fantasia” e quando chegou lá, não sabia o que esperava por ele. Na verdade o portal era numa porta que havia criado em seu quarto e só abria ao dizer as palavras e ela dava para uma porta, bem perto do salão real.

- Bastian quanto tempo, vejo que mudou bastante – disse ao vê-lo entrar pela porta do salão real, no alto da Torre de Marfim.

- Você também está diferente – notando que a imperatriz sorria mais, que o cabelo crescerá um pouco, continuava a usa aquele enfeite na cabeça, mas agora também usava uma coroa, simbolizando sua realeza, que governava aquele lugar.

- Agradecida, mas espero que não tenha sido um esforço muito grande ter vindo até a minha humilde presença.

- Não, nada demais, o bom é que isto me deixa mais em forma ainda, mas lembre-me de criar um elevador para subir até aqui.

- Me desculpe esse contratempo, mas é que preciso estar no alto dessa torre, por precaução, você sabe medida de segurança.

- È, eu sei, mas um elevador não vai matar ninguém.

- Tem razão, e quando quiser é só desejar e todos os seus desejos se realizam.

- Imperatriz, porque esse mundo afina existe? Porque criaturas como vocês existem, isso não é estranho não.

- O que você diz com relação a estranho? Estarmos dentro de um livro, mas será que estamos dentro de um livro? O no seu mundo, não seria um livro também, pelo que sei os seres humanos escrevem coisas sobre suas vidas.

- Ah, você fala das biografias e autobiografias, o que chamamos de livro de memórias, mas o que isso tem haver com meu mundo e o seu.

- Meu, esse mundo não é meu, e todo o povo e mesmo assim de ninguém, nós só estamos aqui porque é para estarmos aqui.

- Já estou ficando confuso, quer dizer que esse mundo existe, mesmo fora de um livro.

- Quem sabe, o livro pode ser o portal ou também onde está o nosso mundo, os limites de fantasia, mesmo anteriormente ter se dito que não havia esse tipo de limite, essas fronteiras.

- E agora existe?

- Não, pois lembra-se que você desejou que o nosso mundo crescesse sempre, que nunca pararia de crescer?

- Sim, mas se ele estiver.

- Não importa se Fantasia está ou não em um livro, o que importa é que estamos aqui, vivendo nossa vida, fazendo o que nos foi ordenado, o que devemos cumprir como missão nessa terra. Isso é a coisa mais importante, tão importante quanto descobri como é e o que é fantasia.

- Então esse mundo realmente não está num livro.

- Acredito que não, e antes que pergunte esse mundo é movido por magia sim, um pouco diferente do seu mundo, mas não deixa de ser um mundo.

- Quer dizer então que esse é como se fosse outro mundo, outra dimensão?

- Sim, mas acredito que talvez já seja um planeta, mas que está em constante transformação.

- Quer dizer então que você é imperatriz desse planeta todo?

- Do planeta? Talvez sim, eu posso governa nesse planeta todo, mas sem problema, nada demais.

- Poxa, você diz que não é nada demais? Como consegue?

- Eu não trabalho sozinha, tenho alguns aliados, outras pessoas que governam ao meu lado.

Nesse momento chega Atreyu, não mudará quase nada, continua o mesmo, vestia até as mesmas roupas, que deixavam a mostra parte de seu peito nu, só havia crescido um pouco de altura e o cabelo também crescerá um pouco, mesmo assim continuava bonito como sempre, e por algum motivo que Bastian não entendeu naquele momento, mas entenderia um dia, ficou totalmente corado ao ver o amigo mais uma vez. Sentir vergonha do amigo, como podia? Não deve ter sido isso, deve ter sido outra coisa.

- Imperatriz, é uma honra está mais uma vez aqui. Venho a pedido de convocação de vossa majestade – disse ajoelhado sobre uma das pernas e beijou levemente a mão direita da moça. – Como vai Bastian, velho amigo? – disse dando um aperto de mão e um forte abraço, pois apesar de tudo haviam se tornado grandes amigos.

O pobre garoto não soube como retribuir, não sabia se abraçava ou se ficava na dele, mas acabou cedendo e abraçou o amigo também, e forçou ao máximo para dar um sorriso, o melhor que podia ter, para disfarçar um pouco a sua vergonha. Mesmo assim a curiosidade de Bastian sempre vencia a tudo.

- Porque você o convocou até aqui Beatriz – era outro nome que tinha dado a imperatriz, e com outro desejo retirou a limitação de poder ver a mesma somente uma vez, onde todos podiam vê-la quanto fosse necessário.

- Vejo que me chamou pelo nome que deu, pois bem Bastian, é que nomeei Atreyu como Conselheiro Real de Guerra e Paz e de vez em quando nos reunirmos para discutir algum assunto pertinente, você sabe, coisa de política mesmo.

- Mas logo hoje, quando eu pretendi vir visitar vocês, vão logo discutir sobre política.

- Hoje? Não temos nenhum assunto importante para discutir hoje, ou o convoquei mesmo porque sabia que você viria e porque também tenho uma coisa especial para você.

- Como sabia que eu vinha?

- Esqueceu que o Aurin é o meu canal de comunicação com vocês? Foi assim que chamei Atreyu agora a pouco e foi assim que descobrir que você viria.

- Entendi, e qual é a surpresa?

- Você já vai saber, agora aproxime-se – disse levantando-se do trono e pegando uma espada atrás do mesmo, mais uma medida de segurança.

Ele foi até ela e se ajoelhou também em uma das pernas e com a espada falou:

- Bastian Baltazar Bux, como imperatriz e governante do mundo de Fantasia, eu o nomeio Conselheiro Real de Assuntos Gerais – disse falando com sua voz doce e meiga de sempre e batendo de leve com a espada em cada lado do ombro dele.

- Eu? Conselheiro? Isso é uma grande honra Beatriz, mas não sei se posso aceitar.

- Mas é claro que pode, faça isso por ela, faça isso por mim, por nossa amizade – pediu Atreyu.

- Está bem, por nossa amizade, mas vou logo dizendo que não posso ficar aqui todas às vezes, e você tem que me avisar de cada reunião com antecedência, para que eu possa encaixar com os meu afazeres lá no meu mundo.

- Certo, irei consultá-lo no momento e no tempo certo e não se preocupe, no seu caso será um horário especial.

- Por falar nisso, nem tive tempo de dizer o quanto você mudou Bastian, está bem diferente, bem melhor agora, esse é o Bastian que eu tinha certeza que existia dentro de você? Só precisava nascer.

- Você também mudou um pouco desde daquele tempo para cá – disse encabulado novamente.

- É, mas as minhas mudanças foram insignificantes se comparada as suas.

- É, você deve ter razão.

- Mas imperatriz, qual o motivo da minha convocação então, se não para tratar de assuntos militares?

- Eu quero que você e Bastian venham comigo, eu tenho outra surpresa – e puxou os dois pelo braço.

Estava a caminho da biblioteca real, enorme como qualquer outra, com milhões de livros, em estantes enormes, que iam até o alto teto, corujas arrumavam os livros em seus devidos lugares ou pegavam um livro para ler ou para ajudar em alguma pesquisa que realizavam, quando a coruja-mestre os viu chegando foi saudá-los.

- Olá princesa, olá para vocês dois também. O que traz jovens até esse humilde lugar de conhecimento e passatempo?

- Eu estava querendo aquele livro, aquele que lhe pedir semana passada para você reservar.

- Ah, aquele livro, é para já – e voou em direção ao alto de uma das prateleiras e pegou um livro grosso com uma gravura na capa e o resto era rosa, as folhas eram brancas.

Bastian e Atreyu esticaram os pescoços para ver direito o titulo do livro, que havia passado das mãos da coruja para as mãos da imperatriz e leram em dourado brilhante “O Amor é Assim Estranho”, cujo autor era alguém chamado Patrick H. Richard.

- Como eu soube que você é um grande contador de histórias, queria que contasse essa história para mim e Atreyu. Será que era pedir muito.

- Não, eu posso fazer isso, será ótimo – disse mais uma vez encabulado.

- Mas não aqui, tem um lugar especial. Sigam-me.

O local no qual ela estava se referindo era o jardim, com várias flores, árvores imensas, tão altas que chega ao topo demoraria um pouco, cada fruto tão gostoso como o outro e sombras imensas, onde se podia ficar sem nenhum problema, pois naquela tarde batia um vento refrescante, uma brisa calma, como era aquele mundo e como estavam àquelas crianças, tudo calmo, que era como deveriam ficar. A imperatriz trouxera uma toalha e sentara-se em cima, Atreyu ficou deitado no tapete de folhas que estavam por todo o chão ali, e encostará a cabeça no caule da árvore e Bastian ficou em pé, na frente deles. Então ele começou...

- Foi um belo dia, que o encontrei...

E assim foi até metade da historia, quando dois mordomos da imperatriz vinham trazendo uma bandeja com um café da tarde e bolo de chocolate.

- Sirvam-se – disse para os dois garotos, que comeram o bolo e tomaram uma deliciosa xícara de café, apesar de Bastian ter de ajudar Atreyu por ele não saber muito bem utilizar essas coisas.

- Obrigado – agradeceu o desajeitado Atreyu.

- De nada – respondeu Bastian.

A imperatriz só observava tudo do lugar onde estava, foi quando disse finalmente:

- Me desculpe, mas a história estava excelente, a conversa muito boa, mas preciso ir agora.

- Já, mas você disse que não tinha nada de importante para hoje? Gostaríamos que ficasse, não é Atreyu.

- Sim, queremos que fique.

- Realmente gostaria de ficar, mas não será possível. Lembrei de que tenho hoje um... um compromisso inadiável, me desculpe por tudo, mas tenho de ir – levantou-se e foi calmamente caminhado pelo jardim, de volta para Torre de Marfim.

Já que estavam somente os dois ali, Atreyu resolveu fazer um pedido um tanto inimaginável.

- Bastian, já que estamos sozinho, você poderia me mostrar como é um bei... bei... como é aquele troço das línguas que os personagens faziam?

- Beijo? É isso que você quis dizer?

- Sim isso mesmo, beijo. Você me mostra como é?

- Você não sabe do que se trata?

- Sim, eu sei do que se trata, mas é que eu nunca... sabe testei.

- Mas você quer testar comigo?

- Sim claro, porque, isso é algum problema para você?

- Não, mas é que você sabe... somos... eu e você.

- Você quer dizer que é porque somos homens não é?

- De certo modo sim, mas é que...

- Se você não se sente bem com isso, não precisa fazer e eu não falo mais nisso.

- Não, mas é que... porque essa curiosidade afinal.

- Você não desconfia nem um pouco – disse com um olhar meio sindico, meio sedutor.

Não há como não descrever que Bastian ficou totalmente vermelho, pelo jeito entenderá bem a mensagem, isso só queria dizer uma coisa, Atreyu estava gostando dele, ou só poderia está ficando doido.

- Realmente não consigo entender aonde quer chegar com tudo isso – disse fingindo ser burrinho.

Atreyu começou a andar de quatro, como um animal pronto para o bote, ficou por cima de Bastian e numa posição um tanto sexual, com uma camisa deixando a mostra seu peito, cochichou no ouvido do amigo:

- Não sei ao certo, mas eu sinto algo por você sabe... algo que não consigo descrever, algo que envolve meus sentimentos.

Bastian só conseguiu engolir em seco, não conseguia falar nada, estava totalmente paralisado, o ar passava por sua garganta, mas parecia não ter força suficiente para formar uma palavra.

- Esqueça, finja que não escutou isso – disse Atreyu se levantando e indo na direção do castelo.

- Não espere – e Bastian se levantou e segurou na mão do amigo, jogando para perto dele e o abraçando o ponto de colarem seus corpos um no outro e finalizou aquela cena com um beijo, estava realmente parecendo muito com o que ele contou na história.

Depois o deixou livre para fazer o que bem entende-se. Poderia sair correndo dali se quisesse, mas não o fez. O que aconteceu foi que ficaram ali parado, tentavam procurar alguma coisa para dizer ao outro, mas não conseguiam pensar em algo muito criativo, resolveram somente olhar para o chão e ficarem encabulados como sempre (porque sempre as pessoas ficam com vergonha, talvez seja a surpresa, a emoção ou simplesmente uma causa, uma conseqüência do amor), foi depois de algum minuto que finalmente Atreyu falou:

- Vamos voltar para o castelo? – foi só o que disse.

- Sim vamos – foi só o que disse também.

Depois de falar com um último súdito a princesa voltou sua atenção para os dois garotos que vinha em sua direção e tendo a curiosidade perguntou:

- E então, como foi o resto da tarde.

- Foi bom – respondeu Atreyu.

- È, foi um tanto especial – concluiu Bastian.

- Ótimo, por falar nisso o jantar será servido um pouco mais tarde, mas o convido-os a me acompanharem, se quiserem.

- Está bem, mas acho que não estou com tanta fome essa noite – Atreyu falou.

- Nem eu.

- Certo, mas mesmo assim deixarei a mesa posta, caso mudem de idéia.

- Tudo bem – responderam os dois.

- Tem certeza de que está tudo bem com vocês dois?

- Sim, você acha que tem algo de errado? – se exaltou Bastian.

- Não, mas é que...

- Estamos muito bem, não se preocupe conosco princesa – ponderou Atreyu.

- Está bem, não falo mais no assunto.

E cada foi para seu aposento, deixando o que parecia ser uma garota confusa para trás, ao entrarem, nem se atreveram a olhar um para o outro, poderiam deixar transparece alguma coisa, algum sentimento, alguma dúvida e eles não queriam ter dúvida de nada, achavam que não tinha nenhuma, que nada demais aconteceu naquele fim de tarde ensolarado num dia quente de verão, na sombra de uma estrondosa árvore.

- Esses garotos, realmente não sabem o que é o amor, estão tão confusos e mal sabem por quê. Mas o tempo se encarregará de consertar isso, e quem sabe ele pode ter uma ajuda – disse para si.

Parecia que ela estava tramando alguma coisa e aquilo só seria o começo de algo que ainda estava muito longe de ter um final feliz.

Notas finais
-> Continua... Próximo Capítulo III - Álbum de Fotografias - Parte Final