Uma Batalha sem Vencedores
4 Capitulo IV – Caos: Destroços pelo Chão
Notas iniciais
O tempo foi passando, tanto para um mundo, como para o outro, e Atreyu realmente gastou o resto do dias do mês de julho para essa missão de paz, pois tanto a imperatriz, como a própria Fantasia odiavam a guerra, mas se fosse necessário, lutariam até o fim, mas felizmente tudo saiu muito bem, e o jovem guerreiro representando esse país, assinou um tratado de paz sem data para expirar com o povo das Terras Longínquas, que era como se chamavam as pessoas que vinham além das fronteiras de Fantasia. Finalmente após mais alguns dias cavalgando de volta em seu fiel cavalo Artax chegaram novamente ao castelo e nas escadarias que davam para o saguão principal, pediu para um dos guardas levarem o cavalo para o estábulo e certamente lá ele teria os cuidados necessários, com ordem expressa da própria imperatriz. Subiu as escadas com tanto vigor, com tanta energia e alegria, nem parecia cansado ou com o corpo fadado ou o estomago roncando, dessa longa viagem de ida e volta, parecia o mesmo quando partiu. Quando a imperatriz o viu tentou dar o seu melhor sorriso, mas estampando nele estava um rosto de tristeza, Atreyu percebeu isso.
- Algum problema imperatriz? Parece está triste?
- Não, eu estou bem, como foi de viagem? Tem um aposento pronto para você, se quiser descansar e o cozinheiro está pronto para fazer o que você quiser, só basta dizer o que vai querer.
- Não quero descansar e muito menos comer alguma coisa? Onde está Bastian, não o vejo por aqui, ainda está no quarto dele? Sei que parece tardio, mas podemos fazer o que ele tinha planejado fazer no dia em que partiu.
A imperatriz colocou sua mão sobre o ombro do garoto, isso com certeza não era um bom sinal, pois a resposta que viria em seguida não era nenhuma das melhores.
- Bastian foi embora, para nunca mais voltar, foi mesmo assim que ele falou para mim, estava com muita raiva por eu ter estragado o grande dia dele.
- Mas você não estragou, eu tinha que fazer um serviço, partir em uma missão especial, eu gosto de fazer isso, eu gosto de aventura, se ele ficou com tanta raiva, teria ido com ele.
- Isso não vem ao caso, ele tinha toda razão, poderia colocar qualquer pessoa no seu lugar, mas fui logo escolhe o jovem Atreyu, eu estraguei tudo.
- Ele não tinha o direito de ficar com tanta raiva assim. Parece até uma criança mimada.
- Você conhece muito bem o Bastian, sabe que ele não gosta que as coisas saiam erradas, tudo bem que mandei um jovem em vez de um adulto para realizar um acordo de paz, mas você está seguro, tinha o Aurin com você e mandei secretamente um grupo de minha própria segurança, uma segurança aérea, para retirá-lo do confronto são e salvo.
Mais uma vez a imperatriz mostrava que tudo o que ela fazia era minuciosamente pensado, planejado, com idéias e planos bem arquitetados. Muito pensariam que Bastian foi um idiota e como Atreyu disse agiu como uma criança mimada, que qualquer ser pode errar, e com a imperatriz não seria diferente, contudo se ela mandou Atreyu não foi por acaso, tinha um objetivo, ele era conhecido, com certeza iria intimidar o outro lado ou com certeza iria impor respeito. Prevaleceu à segunda opção, ninguém ia querer se meter com o jovem que junto com Bastian salvou Fantasia da destruição. Contudo ninguém tiraria a razão de Bastian no ponto de que é certa loucura mandar uma criança, ou um adolescente tratar de um acordo de paz, que mandasse um adulto, mais instruído, com mais experiência no assunto, em fazer acordo, com poder de voz, de persuadir o outro lado, enfim, alguém mais competente e experiente.
- E ele falou alguma coisa de mim? – perguntou Atreyu depois de um tempo.
- Sim, pediu para lhe transmitir um recado – os olhos da imperatriz pareciam tristes novamente, parecia que haviam perdido os brilhos. – Além de ele ter dito que não voltaria nunca mais, mandou dizer que:
- Diga a Atreyu que o que existiu entre nós não passou de uma loucura, de algo passageiro, passível de mudança, que isso não é o certo, não é o correto a se fazer e se dependesse dele, isso não voltaria a acontecer, eu sou um garoto comum e pretendo assim e você é um jovem guerreiro com um futuro promissor, e eu não quero atrapalhar isso, além do mais o que seus pais, sua família e sua tribo pensariam de uma relação como a nossa. É melhor assim para nós dois. Foi bom enquanto durou.
A imperatriz quase não conseguiu terminar de falar, ela não gostava, se sentia mal de ver as pessoas sofrendo, de fazer as pessoas sofrerem, como de algum modo estava fazendo agora, isso doía muito em seu coração, por isso abraçou com toda força que tinha o jovem Atreyu a sua frente, que continuava imóvel, que parecia está digerindo tudo o que ela havia dito, que parecia ouvir a voz dele em sua cabeça, falando aquilo tudo. Ele parecia uma peça de porcelana, um objeto frágil, a ponto de cair no chão e se espatifar todo, ficando vários pedaços pelo chão, incapazes de serem colados novamente, dentro de si havia uma mistura de tristeza, raiva e ódio, seu coração parecia que ia explodir, estava com uma sensação de quer arrancá-lo do peito e jogá-lo, mas será que a morte seria o caminho mais certo, o melhor para acabar com essa dor e sofrimento que sentia. Não claro que não, mas parecia ser o caminho mais viável nesse momento. Como as coisas mudam da noite para o dia, pensamos que somos o caçador e temos uma boa presa no dia, mas ao contrario, nós é que fomos caçados, e era como Atreyu uma caça acuada, sem escapatória, sem caminho nenhum para realizar sua fuga para a liberdade. Como aquele abraço era bom, parecia transmitir amor, paz e tranqüilidade, mas não era o suficiente para curar o estrago feito, Atreyu queria retribuir, mas parecia que pois que quisesse, seus braços, seu corpo não lhe obedecia, só fazia o que queria ou bem entendesse, mas ao menos tempo aquilo parecia lembrar alguma coisa, uma sensação que já sentirá, uma pessoa, que nesse momento ele gostaria de esquecer, por isso falou:
- Imperatriz, se não for muito incomodo gostaria de ir para o quarto agora – a voz saiu rapidamente de sua boca, não houve nenhuma pausa.
- Claro Atreyu pode ir – disse soltando de seu abraço revigorante.
Atreyu começou a andar, parecia que seu corpo realmente ia por conta própria, como se tivesse criado vida, pois parecia que sua mente não estava pedindo para ele fazer aquilo, parecia que aquele era um corpo vazio, perambulando por aquele mundo se uma alma dentro dele, mas a alma existia, estava ali, só que parecia invisível. Aquilo era demais para imperatriz, ela chorou como nunca, bem mais no dia em que Fantasia desapareceu por completo, mas com a ajuda de Bastian voltou a existir, mesmo assim enxugou as lágrimas e pediu as suas criadas que...
- Dêem um banho apropriado no jovem Atreyu, ele deve está sujo da viagem, acomodem-no da melhor forma possível na cama, também deve está cansado da viagem e pensam ao cozinheiro que faça um dos seu melhores pratos, que traga um pouco da força que foi roubada dele e mande o mensageiro vim falar comigo, preciso que parta em uma missão urgente.
Não precisando repetir nada do que ela disse, cada uma das moças partiu para fazer uma coisa, um número maior, no mínimo cinco moças ajudaram o jovem rapaz a tirar a roupa suja, deram-lhe o melhor banho que poderiam ter, mesmo não recebendo nenhum elogio por isso, depois lhe colocaram uma roupa mais apropriada e o colocaram de um jeito bem delicado na cama, e cobriram-no, pela janela o vento parecia entrar com força, fazendo as cortinas tremerem ao máximo. Outra foi falar com o cozinheiro para que preparasse, sem muita pressa um prato que trouxesse um pouco da força de Atreyu e uma última pediu que o mensageiro fosse urgentemente falar com a imperatriz, ela não queria que o mesmo se atrasasse nem um pouco.
- Aqui estou eu Sra. Imperatriz, o mensageiro real. O que deseja?
- Quero que faça algo para mim Joe, quero que mande ir buscar Falcon, o dragão, estou precisando urgentemente falar com ele. Mande outra pessoa ir procurar a mãe de Atreyu, ela deve vir imediatamente a Torre de Marfim, tragam-na num transporte apropriado, podem levar uma das carruagem e por fim que falem com o feiticeiro e peçam que venha o quanto antes ao palácio, preciso falar com ele e tirá algumas dúvidas. Tudo entendido?
- Sim senhora, farei tudo o que mandou — fez uma continência e partiu.
As reuniões, visitas dos cidadãos e todos os compromissos daquele dia foram cancelados, o pessoal de comunicação informou a qualquer que chegasse procurando a imperatriz, que a mesma estava com indisposição, mas que estava bem, e isso não deixava de ser uma verdade. Naquele dia três mensageiro partiram, cada um para uma missão, da qual não poderiam falhar. A imperatriz foi para perto de Atreyu, que nesse momento dormia tranqüilo em sua cama, o vento parecia muda, como o tempo que agora começará a ficar nublado, a mesma se prontificou a ir fechar algumas janelas, pois a tempestade logo em seguida caia, e muito forte por sinal, com direito a raios e trovões, porque sempre nesses momentos tem de chover? Talvez seja a natureza mostrando sua tristeza, seu pesar por uma fase ruim na vida de alguém, como o amor pode ser uma arma letal, capaz de destruir pessoas. E voltando para sentar-se ao lado de Atreyu a imperatriz sorria por ver que ele estava sorrindo, talvez tivesse tendo bons sonhos, e como uma mãe protetora e zelosa afagava seu cabelo, tirava da testa, os fios que teimavam em ficar longe dos outros fios e inconscientemente rezavam para que o tempo concertasse tudo aquilo, o mais rápido possível que pudesse fazer.
Enquanto isso um dos mensageiro conseguiu noticias de que o dragão branco da sorte estava ajudando um pessoal de um vilarejo próximo ao palácio, chegaria lá certamente em duas ou três horas no máximo, quando chegou ao local, pediu informação a um senhor, sentado em frente da sua casa.
- Falcon está no rio, ensinando o pessoal a como pescar, aquilo é que é um bom dragão, não é a toa que o chamam de o dragão da sorte – disse dando uma gargalhada gostosa e apontando em qual direção ficava o rio.
- Obrigado senhor – disse fazendo uma reverência.
- De nada meu filho, de nada – disse ainda sorrindo.
Seguindo em direção ao rio, não foi difícil notar a presença do dragão que sobrevoava uma parte do rio e dando dicas aos pescadores.
- Fiquem parados e quietos, quando o peixe aparecer, jogue o arpão se tiverem sorte conseguiram pegar um peixe... E vocês ai, puxem mais a rede e não se esqueçam de solta os peixes menores e as fêmeas, pois assim estarão contribuindo para o equilíbrio da espécie e poderão pegar esse peixes quando estiverem maiores.
- Com licença, Sr. Falcon, poderia falar com você um minuto.
- Sim meu rapaz – disse descendo até ele, em vôos rasantes e dando sua melhor risada de dragão. – Qual o problema meu filho?
- A imperatriz deseja falar com o senhor o mais urgente possível, deseja que vá para Torre de Marfim o quanto antes.
- Ela disse de que assunto se trata?
- Não, só me pediu para transmitir essa informação.
- Tudo bem, suba nas minhas costas então – disse se agachando.
- Mas senhor, pretende ir agora, e os pescadores?
- Eles já sabem o que é necessário, não preciso ensinar mais nada, pelo menos por enquanto, poderão fazer isso sozinho agora – disse sorrindo. – Então suba de uma vez.
Subindo na corcunda do dragão os dois partiram pelo céu, mas antes Falcon se despediu dos pescadores e disse que agora era por conta deles e que não se preocupasse, era só acreditar na sorte e no empenho de cada um, que tudo daria certo e partiu em direção ao castelo. Com sua rapidez não demorou muito a chegar lá, deixou o mensageiro no saguão de entrada e sabendo que a imperatriz estava no terceiro andar, nos aposentos de Atreyu, ele saiu voando, nem esperou a moça dizer qual a janela e em que direção ficava, pois com sorte ele iria encontrara-la e conseguiu. Ao vê-lo a imperatriz foi abrir a janela para ele poder entrar.
- Falcon, que bom que veio o quanto antes, estamos precisando de você aqui – disse cochichando a imperatriz, para não acordar o rapaz.
- Não se preocupe, o dragão da sorte está aqui. Qual o problema então? – disse também falando baixinho.
- È Atreyu, ele não está bem, como pode ver dorme, mesmo que tranquilamente na cama.
- Qual o problema dele? Alguma doença? Precisa que eu vá buscar algum remédio ou planta rara em algum lugar?
- Não o problema dele é simples, contudo tão difícil de curar, ele sofre de amor, coração partido?
- O que? Como assim? Quem pode destruir um coraçãozinho tão forte como o dele?
- Alguém com tamanha força como a dele, Bastian Baltasar Bux.
- Quer dizer que...
- Desculpe não ter lhe dito antes, mas é que a amizade desses dois garotos parece que se tornou algo mais profundo, eu sempre notei que havia alguma coisa entre eles dois, só não sabia que isso se tratava de amor, por isso tratei de descobrir a verdade e percebi que minha intuição estava certa. Mas agora parece que tudo foi por água abaixo.
- Não se preocupe minha criança, a sorte sempre vem acompanhada de fé, esperança de que tudo irá melhorar, de que tudo será concertado com o tempo e não se preocupe, dias melhores voltaram a reinar na vida deles dois.
- Você acha Falcon?
- Mas é claro que sim, eu já menti alguma vez para você?
- Não, pois você realmente é melhor dragão da sorte que existe no mundo – disse lhe abraçando.
- Agora vá descansar um pouco, eu fico com ele aqui.
- Não eu quero ficar com ele. Ele precisa de mim.
- Se ele precisar ele vai chamá-la. Agora o melhor a fazer é descansar, você realmente não tem um bom dia hoje, ninguém aqui pelo jeito teve.
- Você tem razão, mas lembre-se, qualquer coisa que acontece não deixe de me chamar.
- Não se preocupe, eu chamarei se necessário.
O pior é que iria precisar, pois os sonhos maravilhosos que vinham tendo de repente se tornou um pesadelo, onde rostos que sorriam, lugares bonitos, se tornaram rostos diabólicos, perversos e maus o ambiente ao seu redor escureceu, o chão começou a se abrir para a escuridão de um abismo que parecia não ter fim, e por mais que Atreyu corresse, em qualquer direção que fosse não conseguia fugir daquele buraco faminto por uma alma fragilizada, destroçada, em ruínas e podia escutar as vozes de Bastian, da imperatriz e Falcon falando coisas como:
- Seu inútil, imbecil, imprestável... você não fale nada... você não tem sorte na vida... você é inútil... patético... uma criança com medo do escuro... e por ai ia.
Finalmente ele não tinha mais força para correr, o buraco o alcançava e ele se via tentando não cair no mesmo, se segurando no que você, mas não conseguindo, por estava esgotando, também não agüentava mais ouvir aquelas palavras duras como pedra, que faziam seu ouvido doer, seu coração se transformar em pedra e finalmente caia no abismo escuro e assim ia, sem parar, sem um chão para lhe parar. Foi quando acordou sobressaltado, gritando o que parecia ser socorro, a testa, o rosto e o peito todo suado, o coração batendo acelerado e a respiração rápida, como se tudo aquilo tivesse sido real, entretanto Falcon estava ali para ajudá-lo.
- Calma Atreyu, estou aqui, isso só foi um pesadelo, está tudo bem agora – disse se aproximando dele.
- Oh Falcon, que bom que esteja aqui, eu tive um pesadelo horrível em que...
- È melhor nem recordá-lo, já passou – disse interrompendo o garoto, que o abraçava com força, era bom ter um velho amigo por perto em momentos com esse.
Como o quarto da imperatriz ficava perto, ela escutou o grito de Atreyu, pulou da cama, vestiu seu roupão e foi correndo em direção ao quarto dele, ela temia que uma coisa como essa pudesse acontecer, ela queria muito que não chegasse a se concretizar, mas parece que não foi bem assim que as coisas aconteceram.
- Estou aqui, eu disse que se precisasse de mim, era só me chamar – disse a imperatriz com seu olhar mais triste e abraçando Atreyu novamente.
- Beatriz, eu não pensei que uma coisa como essas poderiam doer tanto, não existe nenhum meio de parar essa dor, eu não suporto mais, eu não agüento mais – e finalmente o jovem Atreyu, forte a valente não suportou tanta dor e desatou a chorar, como nunca fizera na vida.
- Isso, chore, chore bastante, não é melhor remédio, mas vai lhe fazer bem – nisso Falcon também solidário encosta sua cabeça na de Atreyu, tentando demonstrar solidariedade para com um grande amigo seu.
Nisso o cozinheiro chegar e após bater na porta e abri-la, falar:
- O jantar já está servido vossa majestade, venham comer – disse com uma colher de pau na mão. – E não se preocupe Falcon, eu lhe preparo alguma coisa – disse o mesmo quando viu que o dragão.
- Muito obrigado Perry, mas não precisa, já comi antes de vir para cá, mas poderia me fazer uma daquelas suas bebidas especiais? Estou precisando de um pouco dela?
- Tudo bem, é só que precisa mesmo?
- Sim, só isso.
- Certo, vou preparar imediatamente, com licença a todos – e fazendo um reverência, foi-se embora.
Atreyu mesmo sofrendo tanto não deixou de ficar curioso para saber que bebida especial era essa, por isso perguntou:
- Falcon, o que você pediu para o cozinheiro fazer?
- Nada demais, somente um tônico, um bebida que recupere minha força e disposição. Aonde é que você acha que um dragão como eu consegue isso? – disse dando uma de sua melhores gargalhadas? Tem que ter muita disposição para ser um dragão da sorte – completou.
E pela primeira vez depois disso tudo Atreyu mostrou um sorriso, parecia rir, mesmo que por pouco de tempo.
- Você ouviu Perry, ele disse que a comida já está pronta, então me acompanhe no jantar, tem roupas mais adequadas no armário, se quiser. Encontre-me no Salão de Refeições – e foi-se, precisava se arrumar melhor.
Atreyu foi até o armário, vestiu um tênis comum, um calça normal, colocou um cinto que amarava na para frente, mas para o lado da cintura e pôs uma camisa com as mangas largas e toda rendada, sem gola e com uma abertura no peito em forma de “v”, e com o cabelo devidamente penteado, depois foi apesar de não estar com tanta fome assim, Falcon saiu pela janela, iria encontrá-los no referido salão, o bom é que poderia ir para qualquer lugar, pois as janelas eram largas e altas. Lá já esperava a imperatriz devidamente trajada como uma realeza, com seu vestido longo, ornamentada com bijuterias (não uma qualquer, somente as melhores e mais valiosas) e sua coroa, quando viu Atreyu o elogio.
- Está lindo, maravilhoso, venha, sente-se – disse indicando a cadeira. Falcon já havia chegado lá e esperava do lado em que os dois podiam vê-los.
Enquanto isso Perry servia os pratos e para o dragão foi colocando uma tigela enorme no chão, aonde o mesmo ia tomando, a princesa comia com todo o requinte e etiqueta, mas parecia que Atreyu não estava mexendo na comida, só remexendo a comida de um lado para o outro.
- Não vai comer filho, ainda vou lhe trazer aquela sobremesa.
- Desculpe Perry, mas acho que não estou com tanta fome assim.
- Deixe disso meu querido, você está pior do que a pessoa que partiu se coração, isso acontece com qualquer um e também acontecem os efeitos colaterais, de não querer comer, não sair da cama, se achar que sua vida é inútil e um saco, mas anime-se, o dia é outro amanhã, oportunidade surgem todos os dias, e não vai ser por um por outro que você vai querer acabar com sua vida, não querer mais viver. O pior já passou, a dor de ter uma parte do coração arrancado, os rios de lágrimas chorados, depois disso vem a fase de recuperação, então cuide-se e vai se recuperar o quanto antes.
- Obrigado Perry, você tem toda razão, não irei ficar lamentando pelos cantos, preciso continuar a viver como se nada tivesse acontecido, oportunidades virão, nunca deixar de faltar – e começou a tomar a sopa especial, onde logo estaria se sentindo bem melhor. – Está bom, me sinto bem melhor, mais revigorado.
- Eu não disse que iria fazer uma sopa daquelas, agora tome tudinho e lhe trago sua sobremesa preferida.
A alegria parecia que ia voltando a Fantasia, não era definitivo, mas pelo menos estava valendo à pena. O mais triste talvez fosse o fato de que isso mudaria completamente a vida de Atreyu, não somente sua relação com Bastian, mas também sua forma de encarar os desafios da vida. Enquanto colocar mais uma colherada na boca pensava o quanto havia sido fraco, ridículo e ingênuo a ponto de sofrer e chorar por alguém, mas é como Perry disse, seja homem ou mulher, alto ou baixo, adolescente, criança ou um adulto, todos irão sofrer do mesmo jeito, mas isso passa, tudo passa na vida e não somente como ele, mas como a qualquer pessoa. O que iria fazer daquele momento em diante, só dependeria exclusivamente dele. Mesmo assim ainda teve uma conversa a sós com a imperatriz, no terraço do seu quarto, contemplando não mais o céu chuvoso, mas totalmente recheado de estrelas.
- Beatriz (por sinal esse era o nome que Bastian tinha dado a imperatriz, o nome da mãe dele) você acha que agi pateticamente, feito um idiota, um imbecil chorando pelos cantos?
- Claro que não Atreyu, você estava sofrendo, isso acontece com qualquer pessoa, mas agora parece que o problema se amenizou
- Mas eu me acho...
- Tão ridículo, eu sei disso, é o que acontece quando o chão aos nossos pés desmorona e nos leva junto. Mas por falar nisso e como fica, você sabe... sua relação com Bastian?
- Como fica? Nunca começou e terminou desse jeito, é claro que nem quero mais saber dele, se foi assim que ele decidiu, se é assim que ele quer, então também será essa a minha decisão.
- Tem certeza que é isso mesmo? Que quer fazer isso? É o que seu coração diz?
- Sim, é isso mesmo – mas parecia que seu coração dizia outra coisa, é como se tudo o que foi dito foi por pura raiva.
Contudo o que estava feito estava, não havia como muda, o que tivesse de sofrer alguma modificação, o tempo ficaria responsável por isso. Entretanto o que a imperatriz queria com um mago que ia a caminho de Fantasia, voando de vassoura com o mensageiro atrás e o que iria dizer ou pedir para a mãe de Atreyu que vinha em uma carruagem guiada por outro mensageiro? E como Bastian estava se sentindo nesse momento?
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