O trem estava quase lotado. As pessoas ocuparam praticamente todos os assentos. Os três aventureiros escolheram um lugar no canto do vagão, e comiam uma refeição entregue por uma das funcionárias do trem e uma Audino. O assunto que predominava nas conversas ali ainda era a invasão a Creminin.

— Depois de tudo isso, eu só quero voltar para casa. – um passageiro falou.

— Metade da minha residência foi abaixo. Vou buscar o meu irmão para que me ajude na reconstrução. – outro dizia.

Terminado o jantar, Malie passou a ler um guia sobre Scranz. Zet estava aconchegadamente deitado no banco, e parecia cochilar. Lamp encontrava-se com o cotovelo direito apoiado na base da janela, repousando o queixo sobre a mão. Às vezes, via olhos brilhantes nas árvores das florestas circundantes, e pensava serem Noctowl. Em outros momentos, observava misteriosas chamas faiscando no interior da mata, as quais ele julgava obra de algum Pokémon fantasma. Isso o fez se arrepiar levemente, já que tinha certo medo dessas coisas.

— Já chegamos ao santuário? – a voz de Arceus ecoou nos pensamentos deles. Malie ergueu os olhos da leitura, Zet levantou uma das orelhas, e Lamp desviou o olhar para a mochila.

O garoto abriu a sua bolsa e viu uma pequena fagulha de luz amarela brilhando no fundo.

— Nós ainda estamos em viagem para Scranz. – Malie disse baixo, para que as pessoas não achassem aquele diálogo estranho e pensassem que estava louca, apesar de que as outras conversas geravam barulho o suficiente para que eles pudessem aumentar a voz.

— Entendo. Estive alheio ao que acontecia no exterior durante esse tempo.

Lamp nutria certa curiosidade sobre Arceus, afinal ele vivera todo o tempo e conhecia todas as coisas. Em oportunidades como aquela, a sua avidez por respostas transbordava:

— Arceus, como era no início de tudo?

Após a indagação do garoto, os três esperavam algum retorno da entidade, que não respondeu de imediato. No entanto, em alguns instantes, a sua voz soou novamente.

— Vejo que esta viagem ainda durará certo tempo. Garoto, por que não encontra a resposta por si mesmo? Eu os levarei a uma pequena jornada.

Malie ficou surpresa não só pela forma que Arceus dissera isso, mas principalmente pela atitude que ele tomara. A mulher esperava que o espectro agisse da forma arrogante habitual, e que não se importasse senão com o que estavam buscando. Quanto a Lamp, é desnecessário dizer que ouvir aquelas palavras o deixou imensamente entusiasmado.

— Sério?! – Malie e Lamp exclamaram. – Mas como assim? – o garoto perguntou confuso.

— Vocês irão temporariamente a outra dimensão.

Arceus disse isso e em seguida Lamp passou a ter uma sensação estranha. Um forte frio na barriga se apoderou dele, e sentia como se algo o estivesse puxando de dentro para fora. Após isso, ele se assustou ao perceber que de repente estava de frente para si mesmo dormindo no banco. Ao olhar para o lado, notou o espectro de Arceus flutuando.

— Agora você está como eu. – a aura amarela disse.

O garoto então baixou o olhar e percebeu suas mãos translúcidas. Ele assumira a forma de uma aura fantasmagórica. Malie e Zet passaram pelo mesmo processo, e, assim como Lamp, flutuavam próximo aos seus corpos nos assentos.

— O que é isso, Arceus? – o espectro de Malie perguntou.

— As suas almas se separaram das suas estruturas físicas, porém não se preocupem, pois não morreram. Os seus corpos assumirão consciências temporárias, e agirão conforme vocês agiriam normalmente.

Os três ouviram aquilo estupefatos, tentando assimilar a informação.

— Então vamos continuar. – Arceus disse e desapareceu de repente.

Logo em seguida, os três também sumiram dali, e quando perceberam estavam voando a uma velocidade absurda em um espaço que era formado apenas por uma luz branca ofuscante. Não demorou para que parassem abruptamente e que fossem novamente teleportados. Dessa vez, surgiram em um lugar mais familiar: aquilo parecia uma floresta, porém em seguida perceberam que ao redor havia arbustos bem maiores do que os que conheciam, e se assustaram ao notar que estavam embaixo de uma árvore colossal.

— Que lugar é esse? – Lamp disse, ele ainda estava um pouco atordoado devido àquelas mudanças de espaço repentinas.

Eles então ouviram fortes estrondos que ecoavam do interior da floresta e tremiam o solo. Perceberam também o barulho característico de árvores despencando. Em seguida, eles tiveram um grande susto, pois surgiram dois Tyrantrum imensos correndo um em direção ao outro.

— Lamp, cuidado!! – Malie exclamou, vendo que o menino estava no caminho dos dois Pokémon.

O garoto fechou os olhos quando percebeu que seria pisoteado por um deles. No entanto, para sua surpresa e dos outros ali, não fora esmagado. Ele então se deu conta de que o seu aspecto ainda era o de um fantasma, e que continuava podendo flutuar no ar.

— Quê? – Malie exclamou confusa com o resultado. – Então parece que atravessamos as coisas agora? – ela seguiu até a árvore próxima deles, e pôs metade do seu braço dentro do tronco.

— Nossa, essa sensação é muito estranha. – Lamp falou e passou a se movimentar pairando. Zet dava cambalhotas no ar.

Em seguida, eles passaram a observar o ambiente, e focaram na luta dos dois colossos. A força dos Pokémon era tão grande que, quando chocavam as cabeças, ondas se espalhavam pelo ar, balançando tudo. Após algum tempo, Arceus subitamente surgiu ali junto deles.

— O que acham do mundo há cem bilhões de anos? Devem ter notado que estão aqui apenas como espectadores. Meu poder é insuficiente para fazê-los experienciar isto em suas formas físicas.

— Cem bilhões? – Lamp exclamou.

— Começaremos daqui da terra, pois lhes seria prejudicial presenciar o surgimento do universo. Os Pokémon que vêem aqui são descendentes diretos dos primeiros que surgiram neste planeta. – Arceus disse e subiu voando para acima das árvores, sendo seguido pelos outros.

A visão daquele bioma primitivo era magnífica, tudo parecia ter uma magnitude gigante. Eles observaram vários Pokémon pré-históricos de que os humanos já tinham conhecimento. Aerodactyl voavam em grupos pelo céu, Cradily eram vistos ao longe andando nas florestas, assim como alguns outros Pokémon dos quais já tinham ouvido falar. Entretanto, também notaram muitos outros bem diferentes, e imaginaram se tratar de espécies ainda não descobertas.

— Que incrível! – Lamp disse conforme se moviam pela paisagem.

Arceus os levou para mergulhar no oceano, e lá também se surpreenderam. A biodiversidade dos Pokémon era vastíssima, e alguns eram bem estranhos e tenebrosos. Eles se assustaram quando se depararam com o que parecia ser o ancestral de um Sharpedo, porém aquele ali era gigantesco, e os viajantes eram minúsculos perto dele. Mesmo sabendo que eram espectros e que não havia perigo algum, os aventureiros não ousavam chegar muito perto do titã. Permaneceram explorando aquelas águas, e passou pela cabeça de Lamp que o oceano de cem bilhões de anos era praticamente o mesmo da atualidade, e que seus mistérios permaneciam desconhecidos.

— Vamos dar prosseguimento. – Arceus disse após algum tempo. – Avançaremos a um período mais recente.

Então se teleportaram novamente. Dessa vez, surgiram em uma floresta normal, e notaram a presença de alguns humanos nômades junto a alguns Pokémon.

— Desde o começo, os humanos cultivaram uma relação harmoniosa com certos Pokémon. Isso era vantajoso a ambos, pois os humanos podiam se valer da força das criaturas, guiando-os, e assim uniam forças para sobreviver e enfrentar outros mais perigosos que poderiam ser seus predadores. Esse trabalho conjunto foi o que permitiu a sua espécie chegar aos dias atuais. – Arceus explicou se dirigindo a Lamp.

Avançaram no tempo mais uma vez, e alcançaram um lugar com cabanas rudimentares e plantações.

— O contato passou a se expandir, e os humanos estabeleceram companheirismo com vários outros tipos. Com a ajuda dos Pokémon de fogo e os de grama, passaram a cozinhar os alimentos e a produzir por meio da agricultura. Desse modo, deixaram de vagar de um lugar a outro e começaram a viver em locais fixos.

Eles observaram alguns homens e mulheres ancestrais ao redor de uma fogueira acendida por um Pansear, pareciam assar alguma comida. Em outro local, alguns Sunflora auxiliavam no cultivo da plantação, impulsionando o desenvolvimento da lavoura e tornando-a mais resistente às intempéries.

— No entanto, havia Pokémon selvagens muito fortes que causavam problemas e destruição, mas que seriam de grande valia em companhia dos humanos. Conforme se tornavam mais inteligentes, perceberam que os frutos dessas árvores faziam os Pokémon irem a outra dimensão, e quando voltavam pareciam se tornar mais dóceis, e consequentemente mais propícios a serem sua companhia. – Arceus tinha os levado a ver uma dessas árvores, as quais eles já conheciam, apesar de aquela ser levemente diferente.

— Apricorns?! – Lamp exclamou.

— As mesmas que existem atualmente. Essa árvore foi criada por Palkia quando eu lhe deixei responsável por certa quantidade de energia que restava do surgimento da terra.

Eles então continuaram a explorar o passado. Viram o desenvolvimento das primeiras grandes cidades e consequentemente as grandes civilizações. Presenciaram também grandes guerras envolvendo impérios expansionistas. Humanos e Pokémon lutavam lado a lado, e eles ficaram chocados com toda a destruição causada pelas batalhas. Arceus disse-lhes que, após um tempo, as nações perceberam o quão prejudiciais eram aqueles confrontos, e passaram a conviver de forma mais harmoniosa.

— O conhecimento humano aumentou exponencialmente neste período, quando passaram a desenvolver laços com certos Pokémon. – eles agora estavam dentro do que parecia ser uma construção medieval, em uma grande sala com vários livros, e perceberam um homem junto a um Alakazam sentados a uma mesa. – Além disso, alguns humanos nasciam dotados de certas habilidades especiais, o que os fez enxergar o mundo a sua volta de forma diferente.

Observaram, a partir daí, o surgimento de tecnologias revolucionárias em todos os setores, e como todo aquele desenvolvimento era permitido por meio do trabalho conjunto entre seres humanos e Pokémon. Os exploradores estavam completamente imersos naquela experiência, e observavam tudo com grande admiração. No entanto, em certo ponto Arceus disse:

— Já estamos quase chegando ao nosso destino. Mais precisamente, a viagem terá fim no dia seguinte. Nós retornaremos agora.

— Sério?! – Lamp disse com uma expressão levemente frustrada, pois queria continuar a expedição.

— Aproveitem esse tempo para que se recuperem, porque quando voltarem seus corpos serão acometidos por uma exaustão imensa. – a aura amarela disse por fim.

Em seguida, eles foram teleportados novamente ao espaço branco, movendo-se em alta velocidade. Quando se deram conta, estavam sentados no banco do trem, de volta aos seus corpos. Eles notaram que já era tarde da noite, pois as luzes do vagão encontravam-se todas apagadas e estava escuro lá fora. Além disso, o silêncio agora predominava, e perceberam que os passageiros nos outros assentos dormiam. No entanto, tiveram apenas o tempo dessas observações, porque, logo em seguida, passaram a sentir um cansaço intenso se abater sobre eles, e caíram em um sono profundo.