Zet estava cochilando na cadeira enquanto os dois conversavam. Malie citou que aquela jornada seria longa, e que por isso não poderiam voltar à cidade para se suprir, devendo provavelmente aderir à utilização de recursos da própria floresta doravante certo ponto. Entretanto, precisariam de um farnel inicial, e por isso resolveram se abastecer de algumas coisas, para que pudessem usar enquanto não tivessem aprendido a se virar na mata.

— Com licença, onde nós podemos encontrar um mercado? – os três haviam se dirigido à atendente e o garoto indagou-lhe.

— Há alguns pela cidade, porém o mais próximo daqui fica a dez árvores à esquerda do centro Pokémon. – a mulher respondeu gentilmente.

Lamp achou interessante a forma de se localizar ali por meio das plantas. Caminharam por um tempo seguindo a recomendação, e o garoto e Zet observavam a sombra projetada no chão pelas altas árvores, atingidas com a luz do sol do meio dia. Sem delongamento chegaram ao local. A construção não destoava sobremodo das outras ao redor. Era apenas um pouco maior que as demais casas normais que havia ali. Isso os fez pensar que não dispuseria de muito espaço para os produtos , e que assim deveria haver pouca variedade. No entanto, com certeza aquele era o lugar, pois o nome “mercado” estava estampado em um letreiro. Antes de entrarem, Lamp notou Malie contando notas de dinheiro.

— Como você arranja essa grana? – o garoto indagou.

— Hmm… – ela estava concentrada. – Ah, sim! Eu sou uma pesquisadora de verdade na universidade de Troub. Ser exploradora não é só uma diversão: é o meu trabalho também.

— Isso é incrível! Acho que vou querer fazer o mesmo no futuro. – o garoto disse entusiasmado.

— Você terá que se esforçar bastante. Depois que tudo isso terminar, foque e estude muito, certo? – eles conversaram até entrarem na loja, abrindo a porta de madeira.

Ao entrarem, perceberam que o interior refletia o que viram do lado de fora: o espaço era realmente curto, provavelmente do tamanho de uma sala de uma casa média em uma metrópole. Todavia, o que mais os surpreendeu foi que ali não havia nada para ser vendido. No centro estava o caule da árvore que se estendia acima do teto, e, em um dos cantos, um balcão com dois homens atrás dele. Os aventureiros encontravam-se confusos, e se dirigiram até eles para perguntar sobre aquilo.

— Boa tarde, gostaríamos de comprar algumas coisas. – Malie disse percorrendo o recinto com o olhar, como se insinuasse não estar entendendo nada.

— Boa tarde e bem-vindos. – um dos homens falou cortesmente. – Por acaso a quantidade excederia cem quilogramas?

— Não, não. São só algumas coisinhas. – a mulher respondeu ainda procurando os itens, e Lamp e Zet também mantinham uma expressão de estranheza.

— Pela sua surpresa, imagino que são visitantes. – o outro atendente disse com um sorriso amigável. – Acontece que armazenamos as mercadorias em um outro lugar. Por favor, sigam-nos.

Os vendedores saíram de trás do balcão e foram em direção ao outro canto da sala. Só agora Lamp tinha notado que ali havia dois grandes compartimentos de madeira próximos à parede. Percebeu cabos que saíam da parte de cima deles e, ao erguer o olhar, deu-se conta de um mecanismo ligado ao teto que também se apoiava na árvore. Viu dali uma fresta no chão abaixo daquelas grandes caixas, e começou a entender o que aquilo podia significar.

— Podem entrar. Nós teremos que descer até lá embaixo.

Os aventureiros então os acompanharam, pasmos com aquela possibilidade que acabavam de encontrar. Após adentrarem, Lamp pôde observar melhor e inferiu que ali era de fato consideravelmente espaçoso, sendo talvez possível acomodar cinco pessoas simultaneamente. Um dos vendedores moveu uma alavanca acoplada na parede do elevador, e eles começaram a descer progressivamente.

— Os mercados de Scranz têm essa peculiariedade. – um dos homens começou a explicar. – O espaço para os produtos encontra-se no subterrâneo, e é relativamente profundo, pois buscou-se construí-lo em um nível abaixo do alcance das raízes das árvores, porém ainda é um local bem mais elevado do que o ponto onde fluem os aquíferos.

Os aventureiros perceberam que aquilo era verdade, porque, mesmo em um ritmo considerável, levaram um certo tempo para aterrissarem. Quando o elevador parou, o vendedor que lhes falou abriu a porta, e eles puderam sair e observar o local.

— Esse lugar foi expandido com a ajuda de Dugtrio e Diglett. – o atendente falou.

Era um ambiente efetivamente amplo. Havia várias prateleiras de madeira com muitas coisas diferentes. Não perderia no quesito diversidade para um mercado grande.

— Fiquem à vontade. – o homem disse. – Podem usar aqueles para carregarem os itens. – ele apontou para um lugar onde havia cestas artesanais construídas com folhas de palmeira, também estavam ali algumas coisas que se assemelhavam a carrinhos feitos de madeira.

Os três se dirigiram até lá e começaram a pegar o que levariam. Buscaram selecionar apenas o essencial com relação à alimentação. Malie tratou de arranjar os acessórios indispensáveis àquela jornada. Ela ainda não tinha visitado uma floresta como a da região, porém sabia o básico necessário para casos desse tipo. Eles enfim terminaram e recolheram tudo ao elevador com o auxílio dos vendedores. Após organizarem tudo, os homens deram partida novamente. Malie estava interessada naquela estrutura, pois nunca vira algo parecido. Enquanto subiam, a mulher perguntou:

— Como vocês produzem oxigênio ali?

— Acho que vocês não perceberam, mas há algumas aberturas de ventilação no teto. – um deles disse. – Todos os dias, ao abrirmos a loja, um Shiftry produz uma lufada de ar que chega por uma tubulação até o subterrâneo. Isso é capaz de manter o ar do ambiente renovado por um bom intervalo.

Após algum tempo, alcançaram o nível da cidade novamente. Desembarcaram e carregaram as coisas ao balcão. Malie pagou e eles dispensaram as sacolas, colocando tudo em suas mochilas. Agradeceram aos atendentes e saíram da loja, pensando sobre como Scranz era exótica. Na porta do estabelecimento, a mulher pegou um mapa que conseguiu no centro Pokémon, e passou a observá-lo junto à Lamp.

— Nós estamos neste mercado aqui. – ela apontou o local no papel. – Bem… não sabemos exatamente que caminho seguir na mata, então por agora só precisamos entrar nela. Vamos seguir para a mais próxima fronteira da cidade.

— Hmm… que bom! – o garoto observou o mapa. – Nós estamos perto de uma, apenas um quilômetro.

Eles então seguiram pela cidade. Não demorou muito para que alcançassem um ponto onde não havia mais casas e a floresta se estendia profundamente. Malie tinha pensado em uma forma de se localizarem. Conforme adentravam na selva, eles amarravam, em algumas árvores, fitas que trouxeram do mercado. Desse modo, poderiam facilmente saber por onde já haviam passado.

— Há várias outras na mochila, então não economizem na quantidade. Ponham nos galhos e no tronco. Temos que deixar tudo bem sinalizado. – Malie disse aos outros dois.

Passaram a seguir em linha reta por um tempo, usando a bússola da mulher para estabelecer a direção. Quando já tinham caminhado consideravelmente, a mochila de Lamp passou a brilhar, e eles se deram conta de que estavam se esquecendo de Arceus.

— Nós ainda estamos distantes do santuário. – o espectro disse ao surgir flutuando no ar.

— Boa tarde para você também, hein? – Malie disse sarcástica. – E obrigada por trazer “novidades”.

— Oi, Arceus. – Lamp falou olhando a aura fantasma, ele ainda se surpreendia com aquela visão fantástica. – Você tem alguma solução para isso?

— Já consigo sentir levemente a energia, porém ainda não é suficiente para que eu a localize. – o espectro disse após se mover um pouco ao redor, parecendo pensativo. – É necessário que eu me aproxime mais.

— Ué… Mas você não deveria saber onde fica? – a mulher indagou franzindo o semblante duvidosamente.

— Esse templo não assume uma posição fixa. A cada mês, é escolhido um novo lugar aleatório na floresta para que o santuário se estabeleça. Essa região é imensa, e a minha percepção continua muito limitada.

— Bem… então vamos continuar seguindo até você encontrá-lo. – Malie deu de ombros.

— Sim, agora talvez tenhamos mais chances. – Lamp acrescentou.

Após caminharem por um tempo, com Lamp e Zet responsáveis pelas fitas, e a mulher utilizando de sua experiência para tomarem caminhos diferentes, um leve sereno se fez ouvir caindo sobre a copa das árvores. Eles não se atentaram para o fato de que poderia chover, não se precavendo de capas impermeáveis ou algo do tipo. Desse modo, em pouco tempo ficaram encharcados pelo dilúvio que tomou lugar, ainda que houvesse a barreira das folhas altas.

— Minha nossa! Quanta chuva! – Malie disse enquanto a água escorria por todos os lugares e penetrava pelo pano de suas vestimentas.

— As mochilas são de tecido, não podemos deixar que molhem muito, pois várias das coisas vão se estragar. – Lamp alertou, ele e Zet tinham colocado as bolsas embaixo de uma árvore e estavam debruçados sobre elas, para que as gotas d'água não as atingisse diretamente.

— É verdade. – a mulher concordou. – Fiquem aí enquanto eu procuro alguma coisa para colocar em cima delas.

— Não será necessário procurar. – Arceus disse se dirigindo a ela. A aura amarela não era atingida pela chuva: as gotas de água passavam diretamente através da sua forma diáfana e alcançavam o chão. – Pegue um galho como aquele. – falou apontando para uma árvore cujas folhas eram relativamente largas, porém não o suficiente para que uma única delas fizesse o trabalho de proteção.

— Oh! – Malie exclamou surpresa, seguindo até o local indicado pelo espectro. – Então vamos vê-lo em ação desta vez? – ela se pendurou no galho e o forçou para baixo com o peso do corpo, quebrando-o.

— Traga até aqui e arranque as folhas. – ele se aproximou de Lamp e Zet. – Agora coloquem algumas sobre a primeira bolsa, e segurem por um instante. – Malie retirou as folhas, e os três fizeram o que Arceus disse.

O espectro estendeu a sua mão fantasmagórica sobre o conjunto de folhas suspensas. Em alguns segundos, uma luz verde passou a cair levemente por cima delas, e logo começaram a surgir algumas ramificações ligando umas às outras, além de fixá-las no tecido da mochila. Desse modo, as folhas formaram uma superfície firme, constituindo-se ótima para impedir a penetração da água da chuva.

— Que legal! – Lamp se admirou com o processo e como aquilo ficou bem amarrado.

— Virem-na e coloquem mais folhas do outro lado para cobrirmos todo o exterior. – Arceus disse.

Eles continuaram o processo e realizaram o mesmo para a outra bolsa. Nos dois casos, apenas as alças não foram forradas. Malie e Lamp as puseram nas costas e eles voltaram a caminhar em seguida. Pelo menos agora garantiriam a preservação de suas coisas, porque ainda achavam bem desconfortável andar completamente ensopados. O garoto não gostava que a sua roupa molhada ficasse grudando no corpo, e era um incômodo caminhar com seus sapatos cheios d’água.

— Alguma intuição? – Malie perguntou à aura amarela em certo ponto.

— Não, pelo contrário: me é sentido que a direção tomada no momento desavém da correta.

— É, realmente seria interessante mudar o sentido, já que faz um tempo que estamos seguindo para o leste. Vamos voltar um pouco pelo caminho que fizemos e escolher um outro curso. – a mulher falou e eles voltaram pela trilha de fitas.

No entanto, após algum tempo retrocedendo, eles alcançaram uma parte onde a sinalização acabava, o que surpreendeu imensamente Lamp e Zet.

— Quê?! – o garoto exclamou. Ele e o Riolu procuraram por todos os lados, entretanto não encontraram o percurso que tinham criado. – Como assim?! Nós colocamos em quase todas as árvores! – ele pôs as mãos na cabeça.

— Ali. – Arceus apontou com o seu braço translúcido um local entre a vegetação.

Foi então que eles conseguiram observar um grupo de Passimian em algumas árvores mais à frente. Quando analisaram melhor, perceberam que alguns deles seguravam várias fitas em suas mãos, e as usavam brincando uns com os outros.

— Não pode ser… – Lamp sussurrou surpreso. – É sério?! – exclamou em seguida.

— Caramba! – Malie pôs as mãos na cintura. – Que danadinhos!

Em seguida, apenas viram o bando se afastar pulando pelas árvores. O garoto percebeu que seria inútil segui-los ou coisa do tipo, pois o estrago já estava feito: não tinham mais o caminho base para se localizar na floresta, e inclusive agora não sabiam como retornar a Scranz.

— Parece que vamos acabar morando por aqui. – Malie falou.

— Ei, não diga isso! – Lamp lançou-lhe um olhar de aspecto reprovador.

— Mas temos um problema de fato. – a mulher prosseguiu. – Podemos acabar andando em círculos a partir de agora. Só nos sobra acreditar no senso de direção do nosso amigo fantasma. – a mulher se direcionou para o espectro.

— Vamos! – Arceus começou a se mover em outro sentido e foi seguido pelos outros.

Eles caminharam por um tempo, com a aura amarela na liderança, e Malie auxiliando como podia com suas experiências de se guiar por florestas. A chuva passou a cessar gradativamente, em breve convertendo-se em uma leve garoa. O sol ainda encontrou espaço para marcar presença naquele momento, porém a forma pela qual alguns raios de sol penetravam por entre a malha de folhas demonstrava que provavelmente metade da tarde já ia embora. Os exploradores permaneciam com seus trajes úmidos e o clima estava bem abafado, o que contribuía para que aquela situação continuasse bem desagradável. Além disso, a exaustão começou a tomar lugar. Em certo ponto, eles avistaram uma grande pedra, e resolveram descansar um pouco próximo a ela. Quando se aproximaram mais, observaram que no chão da base da rocha havia um buraco com um tamanho razoável, com diâmetro similar talvez ao do tronco de uma árvore média. Foi então que, no instante em que Lamp deu alguns passos para chegar ao local, um ataque atingiu o solo constituído de folhas secas e pequenas plantas à sua frente.

— O que foi isso?! – o garoto pulou para trás de súbito, e todos procuraram descobrir de onde aquilo viera.

— Quem está aí?! – Malie gritou após eles terem recuado um pouco. Fizeram silêncio, assumindo uma posição alerta, e Zet estava com as suas orelhas erguidas.

Em seguida, eles ouviram o balançar de algumas folhas. De repente, um Grovyle mostrou-se, saltando de uma das árvores, e parando em cima da pedra. O Pokémon permaneceu imóvel com seu olhar fixado neles. Os exploradores o observaram por um instante, bastante intrigados. Malie relanceou ao redor e pousou a sua atenção em Arceus, percebendo que sua expressão tinha mudado, e ele parecia muito desconfortável com aquela situação, como se pressentisse algo.

— Por que nos atacou? – Lamp deu mais uns passos à frente.

Logo após isso, o Pokémon conduziu uma nova investida. Dessa vez, conjurou uma esfera brilhante de energia que refletia a essência das plantas, e a lançou contra o garoto, que deveria ser capaz de desviar rapidamente daquilo se não quisesse ser atingido. Todavia, o novo golpe foi interceptado no meio do caminho, porque Zet conjurou a sua esfera de aura contra ele.

— Esta criatura quer nos avisar de algo… – o espectro disse com seu semblante franzido.

— Como assim, Arceus? O que há de errado? – Malie perguntou confusa.

O Pokémon de grama pulou do ponto onde estava no tronco de uma árvore, e se impulsionou em direção ao Riolu. As ramificações de seus braços se enrijeceram, tornando-se chapas afiadas e refletindo um intenso e resplandecente verde. O movimento foi muito rápido, fazendo Lamp relembrar a última batalha que tiveram. No entanto, diferentemente do caso anterior, Zet foi capaz de desviar apenas do primeiro talho, pois o segundo ataque da lâmina de folha o atingiu em seu braço esquerdo, não causando maiores danos devido à dureza de seus músculos. Ele ainda tentou contra-atacar, desferindo um Mach Punch com seu outro membro assim que teve chance. Contudo, o seu oponente desviou com facilidade, girando a cabeça em seguida, e batendo fortemente no Riolu com sua larga folha superior. Zet foi lançado contra uma árvore, causando um barulho abafado ao atingir o caule, e chocalhando as folhas.

— Zet… – antes que o garoto pudesse dizer qualquer coisa, assustou-se ao perceber que o Grovyle agora corria em sua direção, e pensou que ele o alvejaria a partir desse momento.

Todavia, Lamp se surpreendeu quando o Pokémon passou pelo seu lado, e olhou para trás buscando entender o que ele queria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.