Um último Fio de Esperança
1 Capítulo 1 - Carta
Notas iniciais
Bem, minha primeira fic. Não sei se está boa, mas minhas amigas dizem que sim. Então...
Boa leitura.
– Carmem, fofa, vai logo, por favor? – Denise já devia estar cansada de esperar por mim, que estava trocando de roupas. Nós e mais algumas meninas tinham marcado encontro no shopping e, mais tarde, a semanal ‘Noite das Garotas’.
– Já estou saindo. – Saí do quarto trajando uma regatinha branca, saia rodada bege, all-star branco, colar de coração com pedras de strass e os cabelos presos em um rabo-de-cavalo.
– Caprichou, hein?!
– Claro! Já me viu sair desarrumada?
– Na verdade, não. Mais achei que você preferia salto à all-star.
– Normalmente, sim. Mas como vou andar muito no shopping... Hahah!
Conversamos o caminho todo até a sorveteria em que tínhamos marcado, perto do shopping.
Acho que a Denise é uma garota que eu possa chamar de amiga (não em todos os sentidos), por mais que ela seja um pouquinho interesseira e fofoqueira. Acho que posso dizer que a gente mantém uma amizade.
Ao chegarmos à sorveteria, vimos as meninas, Mônica, Magali e Marina, nos esperando e já tomando sorvete.
– Aleluia! – Marina comemorou.
– Estamos esperando a quase meia-hora, sabiam?! – Mônica parecia um tanto entediada. Parecia repetir o mesmo movimento a horas, mexendo na barra do vestido verde frente-única. Preciso perguntar onde ela comprou esse. Amei.
– Magali, não vai dizer nada?
– Ah Carmem, ela está ocupada demais com o sorvete. – Marina acabou o sorvete, se levantou e alisou a roupa, uma blusinha amarela claro, calça jeans e sapatilha amarela como a blusa.
– Quê? Ah, oi Carmem, oi Denise e... Oi sorvete! – os olhos dela brilhavam. Eu nunca consegui entender qual é o milagre da Magali, de comer e não engordar.
– Anda logo fofa, estou com um pouquinho de pressa. Preciso URGENTEMENTE comprar roupas novas. – digamos que não mudei muito em questões de consumismo.
– Como diz Denise, ai, a louca. – Mônica se segurou, vendo Magali acabar com o sorvete em cinco segundos.
– Terminei. Vamos?
– Claro, assim que você pagar a conta.
– Blu, é mesmo. Disfarça beijinho. – depois de pagar a conta, Magali colocou o mini-bolero rosa claro por cima da blusa de mangas levemente bufantes, que usava com um short preto e rasteirinha rosa. Ui, todo mundo está estiloso hoje.
Só risos. Todas nós amávamos sair em grupo. O ‘Clube das Calcinhas’, como costumamos dizer. Passar o dia só entre garotas era divertido e delicioso.
Fomos direto para o shopping. Entramos numa loja e eu comprei umas três sacolas de roupas, coisa básica. Aproveitei pra espiar o gato que estava comprando uma camiseta perto de mim. Minha bolsa tremeu no meio das nossas risadas. Meu celular.
– Licencinha fofas, vou atender. – tirei o aparelhinho (já ultrapassado) da bolsa e espiei o número. Naná – Alô?
– Carminha?
– Carmem, por favor. O que é?
– Venha já para casa, amor. Não tenho boas notícias.
– Assim você me assusta, Naná. O que é?
– Não é o tipo de notícia que se dá por telefone. Estou esperando.
– Ok. Já vou indo. – desliguei. – Meninas, preciso ir pra casa.
– Jáááááá? – falaram todas em uníssono. Eu ia perder a fama se continuasse saindo no meio das tardes de compras.
– Aconteceu alguma coisa lá em casa. Beijinho, tchau.
– Tchau!
Charles estava me esperando em frente ao shopping. Eu sempre o chamava pra não ter que pegar um táxi em caso de emergência, como agora.
Naná é minha babá desde que eu me conheço por gente. Ela sempre cuidou de mim. Ela é um pouco acima do peso e eu nunca a vi sem o uniforme de trabalho ou com os cabelos fora do coque diário. Ela me dá o carinho que eu não recebo dos meus pais. Minha segunda mãe.
A mansão estava muito movimentada. Cheia de carros, inclusive de polícia, com as luzes da sirene ligadas, formando uma sombra vermelha e azul em tudo. Fiquei tonta. Também tinha muita gente. Naná estava me esperando perto da entrada.
– O que aconteceu, Naná? – saí praticamente correndo do carro.
– Entra. Não vamos conversar aqui fora.
Entramos em casa e eu percebi um aglomerado de pessoas na sala. Andamos pelos corredores, sempre passando por alguém. Eu não estava entendendo nada. Milhões de perguntas borbulhavam da minha mente: Quem eram aquelas pessoas? Porque elas estavam ali? Pra quê aqueles carros de polícia? O que tão sério tinha acontecido? E, a mais importante: Se era tão sério, onde estava a minha mãe? Sempre era ela que me comunicava as coisas sérias, como quando minha bisavó morreu, há alguns anos.
Entramos no meu quarto, impecavelmente arrumado, como sempre. Minha cômoda em ordem, ao contrário de como eu a havia deixado de manhã. E a minha cama estava coberta com a minha colcha favorita, rosa, felpuda e macia. Mas aquilo não respondia as minhas perguntas.
– E então? O que é? – eu disse, sentando na beira da minha cama.
– Sua mãe morreu. – ela disse, sem rodeios.
O quê? Como assim? Não fazia sentido. Porque minha mãe morreria? Ela sempre esteve em boa forma e cuidava da saúde tanto quanto eu! Eu continuava sem entender nada.
– Hein? – eu precisava de explicações. Naná teria de me dar todas elas.
– Sua mãe morreu.
– Por quê?! Como?! De quê?! – as lágrimas nos meus olhos insistiam em cair. E quem ficaria comigo, a partir de agora? Meu pai nunca ligou pra mim. E, mesmo agora, eu não o via em canto nenhum.
– Ainda não sabemos. Mas ela disse que se acontecesse alguma coisa com ela, eu deveria te entregar essa caixa. – me entregou uma caixinha branca, minimamente talhada, com detalhes em dourado e o brasão da minha família no centro da tampa.
– Me deixa sozinha. – eu podia sentir as minhas lágrimas escorrendo pelo meu rosto e pescoço, deixando um pequeno rastro molhado por onde passavam.
– Mas, Car-
– ME DEIXA SOZINHA, NANÁ! SAI DAQUI! – eu a empurrei pra fora. Eu queria – não, precisava ficar sozinha. Bati a porta em suas costas.
– Tudo bem. – eu a ouvi sussurrar através da madeira.
Eu estava de costas para a porta dupla do meu quarto, já não contendo as lágrimas nem um pouco. Meu rosto já estava completamente ensopado e meus olhos já deviam estar vermelhos. Eu escorreguei com as costas na porta, e me sentei no chão, segurando meus joelhos com os dois braços. Então escondi meu rosto entre meus joelhos e deixei o mundo cair sobre minha cabeça.
***
Acordei ainda com a cabeça encostada nos joelhos. A parte do meu cabelo que havia ficado envolta do meu rosto estava ensopada. Olhei meu relógio. Eu havia dormido em torno de três horas e, pelo que parecia, o movimento lá fora continuava. Eu ouvia passos para todos os lados e muitas vozes. Meu pai ainda não veio me ver. Se ele tivesse vindo, eu estaria na minha cama.
Meu pai. Será que ele se importava comigo? Ele devia ter vindo me ver, não devia? Ele era meu pai, ele devia estar me ajudando nesse dia. O dia mais horrível da minha vida. E, se meu pai não estava ali, quem iria cuidar de mim? Naná?
Olhei para a minha cama. A caixinha ainda estava lá. Sem vontade nenhuma, levantei e me arrastei até ela. Sentei na beirada da cama e abri a caixinha. Dentro tinha uma folha de papel pesado e requintado, parecido com os que a minha mãe usava para me deixar bilhetes preso por uma fita rosa em formato de pergaminho, aninhado no fundo acolchoado da caixa.
Retirei a fita e desenrolei a folha. Era uma carta.
Querida Carmem.
Imagino que não esteja sendo fácil para você. Não estou nem um pouco alegre escrevendo essa carta também. Sei que não vai ser nem um pouco fácil agüentar o que eu tenho pra te dizer. Vou explicar desde o começo.
Assim que eu fiquei grávida de você, seu verdadeiro pai – um policial – foi convocado para alguma coisa da polícia, não soube direito. Ele nem ficou sabendo que eu estava esperando você.
Se eu fosse mãe solteira, cairia na boca do povo. Então pedi para o homem que eu julgava ser meu melhor amigo, Cornélio*, que assumisse você.
Mas, assim que eu contei sobre a gravidez para ele, ele me obrigou a me casar com ele, ou ele contaria a todos sobre meu segredo. Ele estava interessado só no meu dinheiro.
Meus olhos deixavam cair mais lágrimas. E, para cada uma que caia, vinham outras duas no lugar. Continuei lendo.
Com a minha morte, seu verdadeiro pai seria encontrado e cuidaria de você e da sua herança. Tudo o que eu tinha eu deixei para você no meu testamento.
Filha, eu sinto muito que as coisas tenham que ser assim com você. Mas não deixe que o Cornélio toque na sua herança. E tenha paciência com o seu pai, ele é um pouquinho grosso, como a maioria dos policiais.
Naná e seu pai cuidarão de você até que você tenha vinte e um anos e possa seguir a sua vida.
Carmem, eu te amo muito, e vou olhar por você por onde você for, onde quer que eu esteja. Sinto muito que tudo tenha que ser assim pra você. Mesmo.
Sua mãe.
Eu não agüentaria ler mais nada. Uma pequena mancha de água surgiu no papel marfim. Seguida de muitas outras. Lá fora, pude ouvir a chuva que começava a cair.
Notas finais
Cornélio*: Suposto pai da Carmem.
Bom, está aí o primeiro capítulo da minha fic. Espero tenham gostado.
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