Um segredo obscuro - Dramione
4 Capítulo 4
Não pensava muito quando pegou o carro pela noite. Estava sentindo o peito dolorido. Sentia-se aterrorizada. Muito solitária e seu coração parecia rasgar ao meio, por pensar no que não queria pensar. Ainda mais quando Gina a viu no hotel. O olhar duro que recebeu lhe dizia que realmente não era bem-vinda. Lágrimas escorriam de seu rosto ainda, por causa daquela indiferença da sua melhor amiga. Alguém que sempre confiara. Mas, ela sabia, tinha uma cota de culpa no modo como Gina estava a tratando.
Abriu a porta do carro, tremula, entre soluços e lágrimas que saiam como uma torrente. Estaria mesmo bem para dirigir daquela maneira? Bom, ela precisava dar o fora dali o mais depressa possível. O aviso de Malfoy era claro. Ela não deveria ficar e começava a desconfiar que ele era alguém perigoso. Não sabia ainda se ele tinha alguma relação com a morte de Fred, mas não ficaria ali para pagar pelas consequências de sua teimosia em permanecer em Mountain Black.
Notou que a neblina tomava conta da cidade, o que era de fato estranho. De um momento para o outro, a temperatura havia caído. Bom, o local era mais frio do que quente, afinal, estavam perto das montanhas. Pegou seu casaco de couro no banco traseiro, ao entrar e o vestiu. Tremia pela queda de temperatura e por estar muito abalada. Deu partida no carro e ligou os faróis. A luz iluminava muito pouco a sua frente. Mesmo assim, continuou seu caminho, sem hesitação. Iria encontrar um hotel pelo caminho. Pouco importava.
Enxegar pelo para-brisa rachado era um esforço hercúleo, afinal, a rachadura estava no centro, se estendendo como teias ao redor do vidro. E a neblina estava sendo inclemente. Hermione, ainda com os sentimentos a flor da pele, dirigiu depressa, sem se importar com sua própria segurança. Quanto mais longe de Mountain Black, melhor. Seguiu pelas ruas desertas. Não havia uma alma viva, como se a cidade estivesse desabitada. Enquanto avançava, podia ver as casas através do nevoeiro. Nenhuma luz acesa nas varandas, nem dentro das casas. A cidade dormia, enquanto ela tentava escapar, não sabia exatamente do que. O medo parecia crescente, o que a deixava com todos os músculos do corpo tenso.
Quando finalmente chegou na estrada de saída da cidade, pode ver os pinheiros um de cada lado da pista. Estranhamente, viu uma figura correr na pista. Tentou frear, mas a velocidade em que estava, mais de 100 por hora, a fez derrapar na pista. Por frações de segundo jurou ter visto um lobo parado no meio da pista, enquanto seu carro girava, até adentrar o bosque e bater contra uma árvore. O corpo de Hermione, amparado pelo cinto de segurança foi jogado para frente. Como não havia air bag, ela bateu a cabeça contra o volante e apagou em seguida.
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Teve a impressão de ver o lobo na pista, correndo por entre as árvores. Ela saiu do carro, desorientada, para segui-lo. O nevoeiro era denso, como se estivesse prestes a engoli-la. Não via um palmo do chão e conforme avançava, tropega, tropeçava no que julgou ser raízes de árvores. Sua visão estava turva, o que a impossilitava de ver com destreza o caminho. Se segurou entre os troncos de árvore, procurando pelo lobo. Sabia que ele estava a esperando. Sentia em seu intimo que ele queria mostrar algo a ela.
Ele apareceu em seu campo de visão mais uma vez e ela o seguiu, parando perto de um penhasco. Retrocedeu alguns passos, sentindo mãos firmes tocarem em seus ombros, como se a segurasse. Ela se virou, para encarar seu salvador, contudo, o que viu não era o que esperava. Fred estava a sua frente, com a garganta cortada. Sangue jorrava da ferida, contudo, seu olhar era triste. Ela sentiu vontade de gritar, mas não conseguia, estava paralisada. A visão dele, um tanto fantasmagórica, lhe deixou com os pelos do corpo arrepiados. Fechou os olhos, pedindo que ele sumisse. Que se fosse. Que não era sua culpa ele ter morrido de forma tão brutal.
Quando deu por si, abriu os olhos. Estava suando, ainda na cama de hotel. Tocou a testa, procurando vestigios do machucado que fizera, ao bater a cabeça no volante com força, mas não tinha qualquer machucado. Mas, a dor era muito real. Sentia a cabeça latejar. Levantou-se da cama, tremula. As pernas não pareciam obedece-la. Se apoiou na parede, vendo o quarto mergulhado na penumbra. A luz dos postes incidiam através das cortinas claras. Ela automaticamente foi até a janela, para verificar se seu carro continuava lá, parado. De fato, continuava no mesmo lugar. Mas, não se lembrava de ter ido dormir. Não conseguia se lembrar de nada.
Foi até o banheiro, dentro do quarto. Tateou para ligar a luz. A visão que teve era de seu rosto pálido, com olheiras profundas. A pele da testa de um tom arroexado, dando lugar ao um tom amarelado e esverdeado. Passou as pontas dos dedos pelo hematoma, sentindo a dor irradiar. Soltou um muxoxo, apoiando as mãos na pia de marmore bege. Respirou profusamente. Não estava enlouquecendo. Jurava ter saído do hotel. Não poderia ter sido tudo um sonho. Não se lembrava de ter ido deitar e dormir.
Voltou ao quarto, procurando o interruptor de luz e observou que havia uma garrafa de whisky sobre a mesinha de cabeceira. De fato, o gosto em sua boca era amargo, como se tivesse bebido algo. Mas, não se recordava. Estaria perdendo o juízo? Sentou-se na cama, com as mãos tremulas, apoiadas sobre as coxas. O que estava acontecendo consigo? Deitou-se na cama, com a luz acesa, pois não queria dormir no escuro. Não queria ver os olhos sem vida de Fred, muito menos, ver seus olhos implorando por ajuda. Não sabia o que fazer. Apenas a culpa a corroía por dentro. Se tivesse feito mais. Se tivesse voltado a Mountain Black antes, poderia tê-lo salvo.
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— Querida, você está tão magrinha — Molly disse, com um olhar preocupado para Hermione.
Ela havia decidido sair do hotel de Gina. Alugou outro quarto, em uma pensão, até dar o prazo das suas passagens, para ir embora. Depois que resolveu o problema com o quarto, resolveria o problema do carro alugado. Ao que parecia, alguém estava pregando alguma peça nela. A lataria estava amassada na parte frontal. O que só a deixou ainda mais preocupada. Se estava realmente em seu quarto quando acreditou estar indo embora de Mountain Black pela noite. Mas, não poderia ter deixado o hotel, afinal, o machucado em sua testa parecia igual, sem alterações. Talvez, devesse ficar longe das bebidas álcoolicas. Talvez, isso não estivesse fazendo bem a si mesma.
— Eu estou bem, senhora Weasley — respondeu Hermione, sentando-se na cadeira vaga, na cozinha.
Depois que resolvera sua questão de hospedagem, Molly havia ligado, para convida-la para um chá. Hermione prontamente aceitou. O dia estava tão melacólico e triste. O clima parecia ter mudado na cidade. O frio parecia congelar até seus ossos, contudo, poderia ser uma sensação psicológica, afinal, não conseguia tirar da sua cabeça a visão aterradora de Fred.
— Não parece. Anda se alimentando direito? — Molly ralhou, em tom maternal, servindo o chá com bolinhos — Coma querida — passou o prato para ela, com um olhar que não admitia uma recusa.
Hermione comeu, sentindo gosto de serragem. Não que os bolinhos da senhora Weasley fossem ruins. Na verdade, ela não sentia o menor apetite.
— Conte-me, como estão as coisas, querida. Faz tanto tempo que não a vejo.
Hermione narrou sobre sua vida em Londres. As noites de autógrafo, os livros publicados. Sua vida em Cambridge e suas palestras na área de Simbologia. Era a mais novo professora naquela área e havia angariado admiradores. Contudo, olhando para trás, não parecia uma conquista substancial. Não fizera amigos durante aquela jornada. Passara a maior parte do tempo focando em sua própria carreira, o que a fez ser uma pessoa solitária. Porém, não pensaria sobre isso, não naquele momento.
— Parece algo maravilhoso — Molly disse, mexendo o chá com uma colher. Parecia sincera e sorriu. Mas, logo sua expressão se transformou. Parecia pensativa, como se algo a estivesse incomodando — Fred não parava de falar o quanto você o queria em Londres. Não entendo o motivo para estar tão reticente. Se ele tivesse ido, estaria vivo hoje.
— Eu sinto muito, Molly, de verdade — Hermione disse, sentindo sua garganta apertar — Eu não esperava...bom...não esperava que isso fosse acontecer — Mas, em seu intimo sabia que ele poderia estar em uma situação irreversível. Somente, não imaginava que isso o levaria a morte.
— Eu sei — Molly murmurou, olhando-a, com os olhos marejados — É so que...é difícil viver nessa casa vazia. Arthur sempre está trabalhando. Ou viajando. Gina...ela não sai do hotel, depois que Harry...- ficou em silêncio, então. Sua expressão denotava que não deveria ter falado tanto sobre o assunto, o que aguçou a curiosidade de Hermione — Bom, eles tiveram uma briga tola. Mas, enfim. George está sempre em serviço. Tenho medo de que seja convocado para alguma guerra. Eu disse a ele para largar o exercíto, mas isso só o ofendeu. Percy, Carlinhos e Gui, já estão casados há tanto tempo. Rony resolveu tentar a vida em Nova York. Nenhum deles querem voltar. Só me restava Fred...
O soluço que escutara, tão baixo, a feriu. Engoliu a seco, sem saber o que fazer diante do choro silencioso de Molly. Ela não merecia o que estava acontecendo. Mas, o que Hermione poderia fazer? Mal conseguia lidar com suas próprias emoções. Não sabia se seria um bom suporte para ela naquele momento.
O silêncio preencheu o ambiente, deixando Hermione desconfortável. Molly limpou o rosto, avermelhado, coberto de sulcos, pelo cansaço e envelhecimento.
— Me desculpe por isso — Molly disse, com um sorriso forçado — Eu não consigo me controlar, quando se trata de Fred.
— Não é necessário desculpas — Hermione tentou confortá-la — Diga-me, Molly...bom...- Não sabia como abordar o assunto — Fred era querido na cidade?
Os olhos de Molly brilharam diante da pergunta, que tinha uma finalidade. Descobrir quem poderia ser o responsável por sua morte. Se estava ali ainda, precisava saber quem poderia ter feito isso com ele.
— Muito, querida. Não imagina o quanto. Tão popular com as garotas...tão solicito...Mas, ele se perdeu um pouco — ela crispou os lábios, então, parecendo insatisfeita — Não consigo imaginar quem poderia ter feito isso com ele. Não consigo imaginar que exista alguém no mundo que quisesse fazer mal a ele.
Ela apertou os punhos, por cima da mesa, demonstrando toda sua raiva contida. O que não poderia ser bom. Não era interessante deixar Molly nervosa. Isso só poderia piorar as coisas.
— Bom...foi uma fatalidade — Hermione disse, com cuidado.
— Não foi só uma fatalidade, Hermione — disse Molly, ríspida — Não consigo entender como Thomas pode ser tão tolo, de acreditar que meu filho tinha envolvimento com drogas. Ele era bom. Nunca faria tal coisa.
Hermione tentou fingir surpresa. Se Molly não sabia que seu filho estava envolvido com aqueles problemas, o que mais Fred estava escondendo dela? A culpa a corroeu, como um verme que se encralacrado em sua pele.
— Eu sinto muito, Molly...eu não fazia ideia — mentiu, entrelaçando as mãos uma na outra, contendo a tensão.
Molly mordiscou os lábios, ainda irritada, mas aquiesceu.
— Claro, que não querida. Você não poderia advinhar. Faz tanto tempo que não vem para cá — a senhora Weasley, disse em tom mais afável — Você sempre foi tão querida. Fez o melhor que poderia por Fred.
Hermione queria fugir naquele instante. Não encarar aqueles olhos bondosos. Ah, se ela soubesse de toda a verdade.
— Mas, o que me deixa irritada é o descaso da polícia. Meu filho não foi morto por um traficante. Foi morto brutalmente por alguém desequilibrado — continuou Molly, sem notar o quanto o interior de Hermione pesava — Com certeza, o assassino está a solta agora. E pode fazer uma nova vítima. Você precisa se cuidar, querida. Se eu fosse você, voltaria para casa. Uma moça tão bonita como você, pode ser um alvo dele.
E mais uma vez, escutava aquela frase, sobre o fato de que deveria voltar para casa. Contudo, vindas de Molly, era de um tom zeloso. Apesar disso, sentia em seu intímo que não deveria partir. Quanto mais tentavam a empurrar para fora daquela cidade, mais ela desejava ficar.
— Vou precisar ficar mais um pouco, Molly. Não tenho como voltar agora. Minha passagem é para a próxima semana.
Molly anuiu com a cabeça, parecendo entre preocupada e contente pela notícia.
— Bom, tenha cuidado querida. E venha me visitar, por favor. Sem Fred...eu não...bom...- ela engoliu a seco. Algumas lágrimas escapavam, insistentes.
— Eu virei, Molly. Prometo.
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