Acordar pela manhã não parecia algo fácil. Mas, pela primeira vez, não sonhara com Fred. Em todas as vezes que dormira, desde que chegará, sonhara com ele de alguma forma. Daquela vez, sua noite fora sem sonhos. Na verdade, era como se tivesse piscado os olhos e de repente, estava acordada. O que não era bom, no entanto. Sentiu os olhos como se estivessem cobertos de areia.

Passou a mão pelos lábios, sentindo o inferior sensível ao toque da ponta do dedo. O que Draco fizera na noite passada não parecia algo comum. E não era comum para ela aceitar aquela investida. Lembraria de ficar longe dele. Isso incluia sair da sua casa. Com isso em mente, pegou o telefone de baixo do travesseiro. Precisava ligar para alguma pousada ou hotel que pudesse se hospedar, londe da cidade, é claro. Não deveria ficar mais. Deveria partir. Mas, primeiro confirmaria com a senhora Thompson se realmente aquela mulher não a desejava lá. Não confiava em Draco. Não confiava mesmo.

— Pensão Thompson — Pode escutar a voz da senhora, quando ela atendeu o telefone.

— Senhora Thompson, sou eu... a Hermione Granger — Estava hesitante. Esperava que a mulher fosse grosseira, mas ela disse algo que a surpreendeu.

— Hermione, querida. Você está bem? Já está fora do hospital?

— Eu...estou — ela respondeu, sentando-se na cama. A decepção que sentiu era amarga. Aquela mulher não estava irritada com ela, tão pouco preocupada com a própria reputação, como Draco a fez entender.

— Ah...pensei que fosse voltar, mas o senhor Malfoy mandou um homem estranho buscar suas coisas. Pagou todas as suas diárias. Que generoso da parte dele, querida.

— Ah, é mesmo? — seu tom de irônia era impossível de conter.

— Sim, sim — a senhora respondeu de forma ingênua — Eu confesso que fiquei triste por saber que você estava de partida, mas, se o senhor Malfoy vai ajuda-la é isso que importa.

— Sim, mas eu preciso de um lugar para ficar. Será que tem um quarto no andar térreo?

— Vou precisar verificar querida. Um instante — ela parecia animada ao telefone. O que era bom. E isso significava que Draco era um mentiroso. Mas, o que ele ganharia com isso? — Está sim querida. Você vai vir para cá? Eu posso reservar para você.

— Sim, sim. Irei hoje — respondeu.

— Que ótimo. Eu a aguardo, então querida.

— Obrigada, senhora Thompson. Até logo.

— Até querida — Então, ela desligou o telefone.

Hermione respirou profusamente, tentando controlar a própria raiva. Como faria agora para sair dali?

— Pense Hermione — passou a mão pelo rosto, tensa — Pense.

Poderia pedir ajuda a única pessoa que não parecia odiá-la. A única pessoa que jurou nunca estar sozinha em um cômodo. George. Bom, ele era seu amigo, antes que se passasse por Fred e a beijasse a força, no ensino médio. Teria que recorrer a ele. Apenas de pensar nisso, sentiu-se enjoada. Não. Não poderia recorrer em outra pessoa que não confiava, mas precisava. Se Draco tinha mentido sobre ela não ser mais aceita na pensão, sobre o que mais ele teria mentido? E o que intuito ele precisaria mentir a ela? Infelizmente, estava presa e vulnerável. Sua perna era um problema. Testou até mesmo se colocar de pé, mas era difícil andar se apoiar. O peso do gesso atrapalhava sua caminhada. Pelo menos, estava mais ágil e conseguiu se trocar. Foi até a sacada, depois disso, abrindo a cortina. O dia estava cinzento. Parecia prestes a chover. Suspirou. Pegou o telefone dentro do bolso da calça de linho e ligou para George. Não era o que queria, mas era necessário.

— Alô — a voz dele ecoou, em um tom grave. Parecia com a voz de Fred, mas seu gêmeo era muito mais sério, quanto Fred, era divertido e animado.

— Oi George, é a Hermione — hesitara para falar, mas não podia voltar atrás.

— Hermione? — a voz dele se tornou preocupada e um tanto surpresa — Você está bem?

— Não...eu...sofri um acidente.

— Meu Deus, Hermione. Onde você está?

A preocupação dele parecia real. E isso a reconfortou. Talvez, não fosse tão ruim assim confiar nele.

— Eu estou bem. Fiquei no hospital uma semana inteira e minha perna está quebrada. Mas, estou em uma situação delicada. Precisava de um favor.

— Claro, qualquer coisa.

Ele parecia tão atencioso. Tão sincero e Hermione sentiu remorso por sempre desconfiar dele. Talvez, ele tivesse mudado.

— Preciso que você venha me buscar na mansão Malfoy, perto das montanhas.

— Espero, o que? — ele exclamou — Não. Você não está ai. O que passou pela sua cabeça?

George parecia irritado. Um tanto contrariado. Ela o entendia, nesse quesito, pois eles sabiam o quanto Draco fora uma pessoa horrível, para os dois. Não só para eles, é claro.

— Eu precisei. Só tinha a ele a recorrer e...bom...ele mentiu para mim — Então, ela explicou detalhadamente como foi parar em sua casa. George escutava silenciosamente e parecia que havia desligado o telefone — George?

— Estou aqui — ele respondeu, prontamente, sério — Vou busca-la, agora. Você vai vir para a casa da minha mãe. Não vou deixa-la sozinha.

A consideração dele a fez se sentir ainda pior. Como pode sempre pensar mal dele? Pensar que ele era um pervertido e mal intencionado?

— Obrigada, George, de verdade.

— De nada. Já estou chegando aí.

Então, desligou. Hermione segurou o telefone, olhando a tela quebrada. Suspirou. Pela primeira vez, sentia-se segura.

— Você vai partir, então?

A voz dele a assustou. Ela levou a mão ao peito. Não tinha percebido que Draco estava ali, com a porta aberta. Nem ao menos tinha percebido ou escutado que a porta havia se aberto. Talvez, ele fosse muito silencioso. E o que era mais estranho, o fato de ele ter entrado sem bater.

— Eu...vou — ela respondeu, engolindo a seco.

Ele estava com uma camisa branca, entreaberta na gola. Calças escuras e um sapato social. A mera visão dele era arrebatadora. Contudo, Hermione tinha que se lembrar que Draco não era confiável. E não parecia ser algo normal. Ele a ter levado para sua casa, contando mentiras, a beijado, no meio da noite...tudo isso era estranho.

— Uma pena — ele disse, parecendo não sentir — Eu pensei que fosse ficar mais.

Ela engoliu a seco, sentindo o coração disparar de repente. Ele ainda estava parado na porta, sem fazer nenhum movimento. A forma como a encarava era um tanto perturbadora.

— É...- ela disse — Preciso da ajuda com a mala.

— Claro — ele respondeu, se movendo para perto dela e pegando a mala de rodinha. Ainda a fitava de forma intensa — Tem certeza mesmo que vai embora?

Ela respirou profundamente, antes de responder. Seu olhar a deixava desconfortável.

— Você mentiu para mim — acusou.

— Sobre o que, exatamente? — ele perguntou, sem se abalar pela acusão.

— Você sabe muito bem. Sobre a senhora Thompson.

— Ah, isso — ele deu de ombros — Você não viria para cá, se eu não tivesse dito isso.

— Claro. Como se eu fosse querer estar na sua casa. Eu não tive escolha! Você apenas me trouxe e mentiu. Por que?

— Você pediu minha ajuda e pensei que se ficasse aqui, ficara segura.

Seu olhar parecia sincero, contudo, ela não conseguia acreditar nele.

— Se tivesse me dito a verdade, eu me sentiria segura. Se não tivesse tentado me beijar ontem, daquela forma...eu não teria motivos para desconfiar de você.

— Eu sinto muito — ele disse, passando a mão pelos cabelos — Eu não queria machuca-la.

— Mas, machucou. E mentiu. Agora, eu me ajude. Preciso ir embora.

— Você não precisa ir, sabe disso — ele tentou argumentar.

— Não, chega. Eu simplesmente quero sair dessa cidade, ficar longe de você. Você é estranho...suas atitudes não fazem o menor sentido.

— Tudo bem.

Ele parecia derrotado, ao dizer isso e ficar calado. Mas, ela não queria pensar no seu olhar triste. Ou no quanto ele parecia atencioso, ao ajuda-la a descer as escadas, enquanto com o outra mão, ele carregava sua mala. Pararam no hall de entrada e o silêncio se tornou constrangedor.

— Obrigada, vou ficar aqui aguardando minha carona — ela interrompeu o silêncio.

Ele soltou a mala no chão, deixando próximo a ela.

— Posso leva-la aonde precisar. É só pedir — ele se ofereceu.

— Não precisa. George vai me buscar.

A testa dele crispou. Parecia que um lampejo de preocupação passou por seus olhos.

— Eu posso leva-la. Cancele com ele.

— Por que? Eu não preciso. Tenho um amigo que na cidade e deveria ter recorrido a ele, não a você — retrucou, irritada.

— Granger, você deveria me escutar. Fique longe dele — Draco falou, em um tom de advertência — Ele não é o que parece.

— Ele diria a mesma coisa sobre você, afinal, você me beijou a força ontem — rebatou.

Draco riu, sem humor.

— Eu a beijei, mas você retribuiu. Se você não quisesse, eu nunca teria continuado. Mas, não é sobre mim isso. É sobre sua segurança. Esse rapaz não é confiável.

— Eu acho que sabemos que não é e é você. Você mentiu.

Ele negou com a cabeça.

— Faça como quiser. Eu desisto de ajuda-la.

Draco se afastou dela, então, indo para a sala. Hermione suspirou, sentindo o peito opresso. Os dois pareciam um casal, brigando por pontos de vista. E isso era tão estranho. Ficou ali, quieta, então, aguardando. Não queria pensar nele. Não iria pensar no seu olhar preocupado.

George ligou dez minutos depois, avisando que estava do lado de fora do portão. Hermione facilmente conseguiu sair, com a ajuda do homem que parecia ser o mordomo da casa. Mas, em nenhum momento, ela viu Draco. E isso era bom. Ela não queria vê-lo mais. Muito menos, sua ajuda com o carro. Tinha uma advogada e poderia contratar um detetive para isso. Não precisava dele. Contudo, enquanto embarcava no carro com George, sentiu que estava cometendo um grande erro.