Hermione fitou o manuscrito, pensando seriamente em queimá-lo. A lareira estava apagada, mas poderia acendê-la e alimentar o fogo com aquelas páginas. Deveria entregar para seu editor o livro, contudo, sentia que estava se aproveitando da história trágica de Fred, para poder se promover. E sabia, no fundo, que isso era verdade. Apesar de ainda sofrer pela perda dele, queria usar aquela história para continuar a ser uma escritora famosa.

Seu telefone tocou, sobre a escrivaninha. Pelo DDI, ela sabia exatamente quem estava tentando falar com ela. Alguém que ela queria que desaparecesse. Olhou mais uma vez para o manuscrito, depois para o celular, que insistia em vibrar sobre a mesa. Suspirou profusamente, pegando o aparelho e atendeu a ligação, sem dizer nada.

— Sei que está aí – A voz dele continha o mesmo tom convencido. O mesmo tom que parecia tê-la envolvido de forma irreversível – Posso escutar sua respiração.

— O que você quer, Malfoy? – Ela respondeu, vencida pelo tom presunçoso dele. Não conseguia se manter calada, quando ele parecia tão confiante de si, sem se importar que ela o tinha deixado em Mountain Black, sem ao menos dizer a deus. Ele deveria estar rastejando talvez. Implorando por sua atenção, mas ela sentia o quanto ele parecia altivo.

— Nada demais – ele respondeu. Sem tom sardônico não passou despercebido – Apenas queria saber como está. Como tem passado. Mas, acho que não preciso.

— Não precisa? – Ela indagou, estalando a língua sobre o céu da boca. Era assim que extravasava sua raiva. E naquele momento, ele havia conseguido perturbá-la – Então, por que ligou?

— Bom, seu silêncio pode ser um tanto desconcertante.

Hermione não sabia que resposta dar e permaneceu em silêncio. Talvez, fosse melhor desconcertá-lo, até que desiste de importuná-la. Lembrar dele era recordar de George e sua loucura. E que a morte de Fred fora algo hediondo e terrível. Sentiu a garganta apertar. As lágrimas brotaram de seus olhos de forma involuntária. Pensou em Molly, em Gina. As duas teriam que lidar com aquela situação, sozinhas. Enquanto ela estava ali, do outro lado do Atlântico, se esconde de seus fantasmas. Sim, estava agindo de forma egoísta ao se afastar, contudo, não tinha forças para ajudar a família Weasley e ter de encarar toda aquela confusão.

— Parece que vai permanecer assim, como um túmulo fechado – Draco disse, com um tom de pesar, ou falso pesar. Ela não saberia dizer – Se não dirá nada – continuou ele, com um tom determinado – Eu falarei. E quero dizer que não desiste de você. Muito menos penso em desistir de conquistá-la.

Ouvir sua sinceridade era algo que a deixava profundamente confusa e abalada. Sentiu-se ruborizar. Por que ele continuava a insistir? Por que simplesmente não desistia? Estar perto dele era lembrar de Fred e da morte que sofreu. Que poderia ter sido evitada. Isso tudo era culpa dele, mesmo que fosse de forma indireta. Mesmo que ele não tenha feito nada para machucar Fred.

— Vou entender seu silêncio com assentimento quanto ao que irei fazer.

— O que? Espere, o que você irá fazer? – indagou ela, sentindo o coração disparar com suas palavras. Pareciam uma sentença. Ele moveria a peça, em seu jogo de tabuleiro e daria o xeque-mate. Era bem típico dele não querer ser vencido, mas vencer. E queria vencer suas resistências. E isso ela não iria permitir.

— Você verá – ele respondeu, de forma seca.

Então, desligou, sem nem ao menos dar sinal disso. Ela tirou o telefone do ouvido, olhando a tela do celular, que não estava mais rachada. Estava inteira e lisa, tão maculada. Suspirou. Como ele poderia tirar sua paz, estando há milhas de distância?

Levantou-se, olhando de um lado a outro de seu loft. Podia ver da parede de vidro London Eye. Se movia de forma lenta, entretendo seus ocupantes, que deveriam estar dentro dos compartimentos da roda gigante. Observou o céu cinzento. A garoa não dava trégua naquela semana. Um clima realmente insuportável, que debilitava sua mente, já perturbada. Suspirou mais uma vez, espalmando as mãos pelo rosto. Pensou ter visto Fred mais uma vez, sentado perto da parede de vidro, mas ele não estava ali. Nunca estaria. Precisava tomar seus remédios. Foi até a cozinha, pegando-os dentro da gaveta. Pegou a água da torneira, com a mão em concha e depois, a ingeriu, junto com o remédio antipsicótico. O psiquiatra havia dito que em breve ela não o veria mais. Que era apenas estresse pós-traumático. Tudo ficaria bem. Ele prometera. Infelizmente, conseguia ainda ver Fred, a fitando com um olhar julgado, de seu lugar privilegiado da janela.

**

Uma semana se passou de silêncio absoluto. Hermione havia feito o erro supremo de publicar o livro sobre o que acontecera em Mountain Black. Desde então, não tinha paz. Sentia-se observada. Fred não aparecia mais em seus sonhos ou quando estava acordada, mas tinha a sensação de que ele estava ali com ela, ainda. Julgando-a. A culpa era corrosiva. Algo lhe dizia que deveria ter voltado a Mountain Black e amparar Molly e Gina. Mas, não fizera nada. Simplesmente permaneceu fechada em seu casulo. Nem ao menos atendia o telefone. Não sabia quantas ligações perdera de seu agente. Manteve a porta fechada, mesmo que a campainha tocasse. Ficou em seu sofá, evitando comer, beber e apenas dormia. Claro que não poderia evitar a fome que vinha de forma crua, que se espalhava na boca do estomago. Alguma coisa ela comia. Mas, não muito. A sua casa estava infestada de trevas e sua mente também. Ela simplesmente perdera a luta contra o que sentia. Perdera-se para sempre.

Batidas incessantes interrompiam o que era um sono sem sonhos, apenas escuridão. Em seu sono, ela conseguia sentir a presença de mais alguém ali, como se a observasse. Então, alguém se sentou ao seu lado, acariciando seus cabelos. Sentiu as lágrimas sufocarem. Não conseguia chorar, nem abrir os olhos. Como diziam, a tristeza era de um tom azul e era assim que ela se sentia. Azul.

— Fred – sussurrou.

Se pudesse ser sincera, ela o amava. Sempre o amaria. Contudo, nunca em toda sua vida ele retribuirá aqueles sentimentos. Ela, tão controladora, tentou de tudo para pegá-lo, para controlar seus passos, sua vida. Ele, no entanto, permanecia longe, distante. Ele nunca pertencera a ela. E nunca pertenceu a ninguém. Finalmente, a morte o havia levado, como se zombasse dela. Como se zombasse da sua mortalidade. Da sua impotência.

Mais batidas. Eram incessantes. Abriu os olhos e não havia ninguém ali. E de repente, escutou o estrondo da porta sendo arrombada. Ela se levantou, de forma letárgica. Quantos remédios havia ingerido? Viu, com a visão embaçada, Draco adentrar, junto com alguém que não conhecia. Ele falava algo a ela. Parecia nervoso. Então, de repente, seus sentidos a deixaram. Estava mergulhando em pura letargia, sem poder se mover, ou falar, apenas ouvir vozes distantes. Alguém parecia tão preocupado. Alguém a carregava. Então, sentia que seu corpo era depositado em uma cama e seu braço ligado a algo. Então, escuridão mais uma vez. De todos os sentidos.

**

Abriu os olhos, sentindo pequenas pontadas na cabeça. Seu estomago ardia. A garganta também. A claridade do ambiente a cegou por instantes, até que reconheceu o lugar onde estava. Não era seu apartamento. Estava em um quarto de hospital. Podia sentir o odor sanitizante do local. Alguém estava ao seu lado. Podia sentir. Virou a cabeça, para sentir a dor explodir em seus olhos. Então, quando a dor passou, reconheceu Draco. Ele estava com as pernas cruzadas. Usava roupa social. Calça de linho cinza. Camisa branca, arregaçada até o cotovelo. Os olhos fechados. Apoiava sua cabeça na poltrona reclinável. Estivera ali por quanto tempo? Sentiu a vergonha inundá-la. Sentiu o peso do que fizera. De como se importara pouco com sua própria vida. A vida que não desejava mais.

Pensou em acordá-lo. Dizer que não precisava dele. Não precisava de ninguém. Então, ele abriu os olhos, parecendo não reconhecer o local em que estava. Bocejou e a fitou. Seus olhos estavam sem qualquer vestígio de ironia ou provocação. Pareciam límpidos.

— Você acordou – ele apontou o óbvio. Se ajeitou na poltrona, passando as mãos pelos cabelos loiros, ajeitando os fios finos.

— Hum – ela resmungou – O que faz aqui?

— O que acha? – ele rebateu, com um sorriso ferino – Eu pensei que você fosse mais esperta.

— O que? – exclamou ela, indignada – Sou muito esperta. Não me ofenda.

As bochechas queimavam. Ele estava apenas provocando-a. Claro que estava.

— Eu diria que talvez, você tenha perdido um pouco a noção de realidade. Mas, é desculpável. Seu psiquiatra disse que você estava em um estado alarmante.

— E você, o que tem relação com isso? – esbravejou ela, encolerizada – Não pedi sua ajuda e não quero que se intrometa em minha vida.

Ele a fitou com desdém, cruzando os braços. Parecia, na verdade, furioso. E isso a deixou um tanto assustada. Por que ele estava tão irritado? Por que a encarava com tanta raiva?

— Eu não vou deixá-la morrer, se é isso que quer – ele se levantou se aproximando do seu leito. Ela se encolheu toda, sentindo-se amedrontada – Não passei horas em avião para vê-la morrer.

— Eu não pedi isso! – ela gritou – Eu não pedi que viesse!

Ele negou com a cabeça, mordendo os lábios de forma nervosa.

— Eu sei que não – ele sussurrou – Mas, eu não consigo simplesmente me afastar.

Ela engoliu a seco, percebendo então que chorava. As lágrimas lavavam seu rosto. Passou os dorsos das mãos com impaciência pelas bochechas. Não gostava de estar tão vulnerável. E não gostava da forma como ele a fitava. Era como se quisesse fazer parte de sua vida. Como se quisesse, na verdade, tomá-la para si.

— Vá embora – pediu, sem energia.

— Não – ele negou com a cabeça, de forma enfática – Nada me demovera. Eu ficarei aqui, até que se recupere.

— E depois? – indagou ela, curiosa.

Se ele estava disposto a ser tratado tão mal por ela, o que ele faria a seguir?

— Não sei – ele deu de ombros, suavizando sua expressão. A encarou de forma misterioso – Eu tenho algumas ideias em mente.

Evitou seu olhar, olhando para a janela. Teve a sensação de que algo se dissipava no ambiente. Algo muito ruim que parecia deixá-la. E era estranho. Mesmo que Fred tivesse partido, finalmente sentia que algo mudava em seu ser. Talvez a insistência de Draco fosse um alimento para seu coração quebrado, para sua alma frágil. Talvez, fosse isso que precisasse. Mas, ainda não sabia de fato, o que poderia vir disso tudo. Apenas queria um fim para sua dor.

Quando ele deixou o quarto, pela noite, depois de conversar com seus médicos, deixando a sozinha com seus pensamentos, ela pode finalmente pregar os olhos cansados. Sentiu uma brisa leve tocar seu rosto, então. Abriu os olhos, vendo mais vez Fred. Ele sorria para ela. Parecia finalmente perdoá-la.

— Eu sinto muito – ela disse, em tom fraco.

Ele negou com a cabeça. Parecia querer lhe dizer algo. Alguma coisa ele diria, mas então, sua figura desvaneceu, como se nunca estivesse ali. Ela fechou os olhos, sentindo o peito opresso, mas sabia que no fundo, tudo havia terminado. Que finalmente, quem sabe, poderia seguir seu caminho.

**

A última vez que virá Fred nunca sairia de sua mente. Com anseio esperava para vê-lo mais uma vez, ou ter seu deslumbre. Contudo, em todos os anos que viveu, nunca mais o viu. E pensou consigo mesma que poderia ser apenas um sonho. No entanto, o que acontecera com ele se tornara uma ferida que nunca se fecharia. Mas, ao menos sabia que todos aqueles segredos sujos e obscuros vieram à tona. E no fim, não falhara com ele. Molly havia a agradecido por ter descoberto toda a verdade. Afinal, conseguira ao menos tratar de Gina, que estava internada em uma instituição psiquiátrica. Infelizmente, ela havia sido vítima de George, que mostrara um filho que ela nunca imaginou que fosse ser. A dor que sentira não havia como ser superada. Hermione sabia disso.

A única lembrança que levaria, no final, era que Fred a amou à sua maneira. Molly havia descoberto outro caderno dele, que escondia de todos. Hermione recebeu o diário em uma caixa de papelão, depois de retirar na portaria de seu prédio. Claro, nunca voltou a Mountain Black, mas Molly as vezes ligava para ela. As duas conversavam por horas, como se pudessem assim curar suas dores.

Levou o caderno para o apartamento, de forma ávida. Quando conseguiu retirar do papelão, abriu o caderno, para ler o que ele havia escrito. Algumas coisas eram versos soltos. Outras, eram letras de música. As quais, com certeza ele escrevia por diversão. E o que mais chamou sua atenção foram as palavras:

“Talvez, você tenha razão em algumas coisas. Eu estou perdendo minha vida aqui e simplesmente deveria deixar ir embora certas coisas. Certas pessoas. Você nunca soube que eu te amei. Eu apenas não queria ficar preso. Nunca quis”

Aquelas palavras escritas de forma tão clara, sem uma datação, ou endereçada a alguém não lhe deu a certeza de que eram para ela. Mas, sentiu que poderiam ser. Isso bastou para acalmar seus ânimos. E aquele fora o primeiro dia que passou a não ver mais Fred. Talvez, fosse o efeito dos remédios que controlavam seu humor e evitavam delírios e psicoses. Mas, sentia que ele não estava mais lá. E não voltaria mais.

E não voltou.

Notas finais
Finalmente eu terminei essa história. Era para ter sido curtinha, mas acabou crescendo a ideia de forma incontrolável. Como eu queria uma história de Halloween, preferi que fosse mais sombria e sem um final que aquece o coração. É mais como a vida real. A vida real é um tanto amarga, se for ver. E tem coisas que precisamos aceitar, mesmo não desejando. Mas, como já me disseram, a felicidade é um estado de espírito, não as coisas que possuímos ou das pessoas estão ao nosso lado. E Hermione percebeu isso em sua vida. Bom, ao menos, até aqui. O que vier depois, fica para imaginação de vocês.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.